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18 meses depois...
Mike Wheeler apareceu no portão como tem feito quase todos os dias nos últimos meses: com os ombros caídos e o olhar perdido. Ele se sentou ao lado de Will, soltando um suspiro longo.
— Eu sinto tanta falta dela, Will — Mike murmurou, a voz rouca. — Eu sei que ela precisava ir... escapar desse pesadelo, vencer essa dor. Mas parece que ela levou minha alma com ela.
Will sentiu aquela velha pontada no peito. Não era mais o ciúme de anos atrás, era algo mais profundo: uma empatia dolorosa por ver a pessoa que ele mais amava presa em um ciclo de fantasmagoria.
— Mike, já faz um ano e meio — Will disse suavemente, guardando o pincel que limpava. — A El fez o que fez para salvá-la e a todos nós. Você não pode passar o resto da vida sentado no mesmo lugar onde tudo quebrou.
— E eu faço o quê? — Mike explodiu, embora sem raiva, apenas com exaustão. — Eu olho para cada canto desta cidade e tudo que eu vejo, tem ela. Eu não sei quem eu sou sem vocês, Will. E sem ela.
Will se virou para ele, buscando o contato visual que Mike evitava.
— Você precisa se perdoar por estar vivo e por ter o direito de ser feliz, Mike. Ela se foi para isso acontecer. Ela queria que você estivesse seguro e sem todo o pesadelo de antes. Você precisa vencer isso. Você vai vencer.
— É fácil falar — Mike rebateu, chutando uma pedra.
— Não, não é — Will interrompeu, a voz firme. — Eu estou indo embora, Mike. No próximo sábado. Consegui uma bolsa de estudos. Vou para Nova York estudar Filosofia. Eu estou tão feliz, Mike!
Mike congelou. Ele finalmente olhou para Will, os olhos arregalados.
— Nova York? Isso é... bem longe, Will. Isso é tão incrível. Por que Filosofia?
— Porque eu passei a vida inteira sendo controlado por forças que eu não entendia — Will sorriu tristemente. — Agora eu quero tentar entender o que significa ser humano. Eu preciso de asfalto, de luzes, de pessoas que não saibam que eu fui o "Garoto Zumbi".
O silêncio que se seguiu foi cortante. Mike parecia subitamente pequeno.
— Então... eu vou ficar aqui sozinho? Parece que todos estão seguindo suas vidas e indo embora, eu estou ficando louco?
Will sentiu o coração apertar. Ele se aproximou e envolveu Mike em um abraço apertado — o tipo de abraço que ele quis dar durante todo o tempo em que estiveram no deserto de Nevada. Mike enterrou o rosto no ombro de Will, segurando sua camisa com força.
— Você nunca vai estar sozinho, Mike. Você ainda tem tanto pela frente, só não quer fechar essa porta velha. Você precisa lembrar, lembrar sabe? mas não toda hora, só quando for o momento certo. Pense nisso, quando estiver pronto, não tenha medo.
— Eu.. eu estou com tanto medo, eu não sei... estou tão...
— Perdido? — Will olhou tristemente para Mike
— Sim.
— Isso é normal, eu disse que você vai vencer isso. Eu acredito, eu quero que você fale isso também. — Will se aproxima de Mike e toca em sua mão como quando eram crianças fantasiadas dos caçadores de fantasmas
— Eu vou vencer. Eu acredito! — Mike diz e uma lágrima escorreu do seu doce rosto
Três dias depois, Will estava colocando a última mala no porta-malas do carro de sua mãe. O sol da manhã estava começando a surgir quando ele ouviu passos apressados. Mike surgiu no final da rua, carregando uma mochila surrada e uma mala de mão que parecia ter sido feita em cinco minutos.
Will parou, surpreso. Mike estava ofegante, o cabelo bagunçado.
— Will! Espera! — Mike parou na frente dele, tentando recuperar o fôlego.
— Mike? O que você está fazendo?
— Eu passei a noite inteira pensando no que você disse. Sobre fechar a porta velha — Mike disse, os olhos brilhando com uma determinação que Will não via desde os doze anos. — Eu não posso ficar aqui. Se eu ficar, eu vou sufocar. Eu não sei se vou encontrar a felicidade em Nova York, e eu não sei se vou esquecer tudo o que aconteceu... mas eu sei que, se eu estiver com você, eu tenho uma chance de tentar.
Will sentiu um sorriso involuntário crescer em seu rosto.
— Você está falando sério? Mike, é uma cidade enorme, é barulhenta, é...
— É longe daqui — Mike o interrompeu, sorrindo de volta. — Me leva com você? Talvez a gente possa descobrir essa coisa de "ser humano" juntos.
Will não disse nada. Apenas abriu a porta traseira do carro, dando espaço para a mala de Mike.
— Entra logo — Will riu, sentindo um peso enorme sair de seus ombros. — Nova York não sabe o que espera por ela.
Enquanto o carro se afastava e a placa de "Bem-vindo a Hawkins" ficava para trás, Will olhou pelo retrovisor e depois para Mike ao seu lado. Pela primeira vez em anos, ele não sentiu o frio do Mundo Invertido na nuca. Ele sentiu apenas o calor do futuro.
