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Isso não se chama amor

Summary:

Talvez eles dois se destruíssem, mas, se fosse para morrer de qualquer forma, preso eternamente naquele circo, que ele morresse pelas mãos de Pomni. Mas não que isso se chamasse amor.

Notes:

Esse texto foi pra um desafio de escrita pessoal com uma amiga. Eu postei no Spirit também, o user é o mesmo aqui e lá. Boa leitura.

Work Text:

A noite havia caído cedo demais no circo. A tenda parecia maior, cercada pela escuridão, e mais vazia. Ninguém circulava pelos corredores, sequer faziam barulhos. Não havia um atestado de alma viva naquele lugar.

Pomni sabia que Zooble e Gangle estavam em algum dos quartos, Ragatha tinha dito que precisava dormir depois de tanto estresse, Kinger estava no forte de travesseiros, instável, e Jax provavelmente estava no quarto. Havia certo conforto em saber onde cada um estava, mas o silêncio era brutal. Sentia que alguma coisa errada estava à espreita, que algo podia perturbá-la a qualquer momento e não saber quando nem como a deixava ansiosa.

Seu quarto aprecia menor, os cantos, mais escuros e profundos que o normal. A sua mente estava em parafuso, com certeza era tudo fruto de uma imaginação frustrada pelos acontecimentos do dia, mas não sabia como fazer parar. Ela sabia que os corredores estavam escuros também, sair talvez fosse pior. Estava tão tarde, todos estariam dormindo, ninguém ficaria acordado até tão tarde… exceto Jax. Não só os hábitos noturnos dele eram questionáveis como ele não dormia para esquecer os problemas como a Ragatha fazia. Por um momento, teve esperança de que ele também estivesse em um redemoinho de insônia, ainda que se sentisse mal por desejar esse mal a ele.

— Certo, Pomni, você consegue — ela disse, com a mão já na maçaneta — A gente não está em um jogo de terror, não tem nada no corredor… é só ir até a porta e bater. Só atravessar o corredor e bater.

Ela respirou fundo, prendeu a respiração e abriu a porta. Assim que saiu, sentiu o arrepio de ver o ambiente mal iluminado. Aquelas paredes nunca pareceram tão longas e altas. Seu fôlego parecia faltar, mas isso talvez se devesse ao fato de ainda prender a respiração. Bateu rápido na porta. Nada. Ela se forçava a não olhar para os lados, se concentrando na porta de Jax. Se sentiu idiota, como quando criança, apagando a luz e correndo para o quarto e não ser pega pelos demônios do escuro. Bateu mais uma vez.

Os pulmões não aguentaram e ela respirou fundo algumas vezes, tentando não se sufocar. Tentou manter a calma, apertando uma mão na outra para se distrair e ainda não olhar para os cantos do corredor. Dois segundos de agonia depois, Jax abriu a porta, forçado a olhar para baixo com uma expressão de incômodo estampando o rosto. Assim que a notou, ele olhou para dentro do quarto rapidamente e fechou um pouco a porta, o suficiente para que apenas ele fosse visível.

— Que foi? Sabe que horas são por acaso? — ela respirou bem pela primeira vez desde saiu do próprio quarto, mas tentou não sorrir.

— Não existem horas aqui, né.

— Você entendeu… tá de noite faz muito tempo — ele revirou os olhos — O que você quer?

— Eu… posso entrar?

Ele riu.

— Não? — ele abriu apenas um pouco mais a fresta pela qual falava com Pomni, apenas para ter certeza de quão doida ela estaria para pedir uma coisa daquelas. Porém ela parecia séria e nada bem.

— Eu só queria conversar.

— Olha, não tem nada que eu queira fazer menos do que conversar. Vai dormir que tu faz melhor.

E fechou a porta sem deixar espaço para uma resposta. Pomni encarou a madeira entalhada com o rosto de Jax, um pouco mais segura depois de ter ouvido a voz de alguém depois de tanto tempo. Ele estava acordado e só de saber isso, por algum motivo, ela sorriu e suspirou mais leve. Mas os cantos do corredor ainda a incomodavam. O escuro do seu próprio quarto não era convidativo. Ela não queria ficar, mas também não queria voltar. Imediatamente ela quis que o sol nascesse, mas também não era assim que as coisas funcionavam por ali. Não podia contar com a lógica astronômica quando a Lua tinha uma queda por Caim e o Sol queimava pessoas por diversão.

Ela olhou para os próprios pés, ainda com medo de olhar para os lados, e se virou. Derrotada, seguiria para o quarto sozinha se não tivesse ouvido a porta abrir atrás dela. Virou depressa, confusa por ver Jax novamente.

— Entra — ele mandou.

— Oi?

— Entra antes que eu mude de ideia.

E Pomni obedeceu. Mal ele deu espaço, ela cruzou a porta. O quarto estava escuro, mas era possível discernir o suficiente para entender que Jax jamais permitiria que ela falasse para qualquer outro ente vivo ou não sobre o que viu. Seria uma chance perfeita para caçoar dele, mas não estava no clima e nem em vantagem para fazer isso.

— Certo, tem regras aqui — ele disse, fechando a porta e seguindo para perto da cama — Não pode fazer bagunça, não mexe nas minhas coisas, não deixa seu cheiro de piolhenta em nenhum canto do quarto, não me incomoda para nada, não…

— Entendi, vou ficar quieta.

— E também não me interrompe — ele empurrou de leve a cabeça dela — Agora deita aí e dorme.

A cama era espaçosa. Não exatamente de casal, parecia mais uma cama de viúva, mas espaçosa suficiente para os dois.

— Obrigada — ela seguiu os seus passos e deitou encolhida na cama. Jax fechou os olhos, virado para ela. Ela, virada para cima, encarava o teto, tentando se sentir segura o suficiente para fechar os olhos.

E não por cuidado nem carinho, Jax às vezes abria os olhos, checando se ela já havia dormido. Talvez assim ele pudesse chutá-la da cama bem quando adormecesse ou sei lá. Rir da dor dela. Apenas isso. E ele a encarava com os olhos quase fechados, sonolentos, sentindo as próprias pupilas dilatando, provavelmente pelo escuro, tentando não prestar atenção em como os olhos dela pareciam fundos, em como o peito subia e abaixava devagar, se demorando a respirar, e em como os lábios dela pareciam tremer de vez em quando. Ela claramente não conseguia dormir.

Decidiu ficar acordado mais um pouco, só para o caso de ela dormir e ele poder chutá-la. Minutos arrastaram-se como lesmas na parede e ela não esboçava um sinal de que ia dormir. 

— Tá, chega — ele se ergueu na cama, sentando de mal jeito — A sua depressão tá me deixando entediado.

Pomni ergueu o corpo também, confusa com o movimento repentino.

— Você tá acordado?

— Graças a você. E se você não vai me deixar dormir, pelo menos faz alguma coisa divertida.

— Tipo o quê? — ela abraçou os joelhos. Por algum motivo, ela ficou confortável. Ele parecia normal, quebrando o silêncio do tédio com propostas idiotas.

— Sei lá. O que você faz quando não tem nada pra fazer?

— Quando eu era menor, eu costumava brincar de adedanha pra quebrar o gelo, sabe?

Ele segurou expressivamente um riso falso com a mão.

— E tu já foi menor que isso? — ele a olhou da cabeça aos pés, a fazendo empurrá-lo com a intensidade de quem ri de bobeira — Tá. Escolhe uma letra.

— Não, a gente pode fazer diferente. Segue a ordem do alfabeto. Eu digo uma palavra com A, depois você uma com B e assim vai até chegar a Z. Pode ser?

— Criando joguinho novo? — ele sorriu — Eu gosto! Eu começo então… Arrombado!

Pomni revirou os olhos e tentou pensar na próxima palavra.

— Babaca — e riu baixinho.

— Caralho!

— Desejo.

— Escolha — ele hesitou. Mas então ela continuou:

— Família…

— Tá, já me entediei.

Ele cruzou os braços e se afastou um pouco mais na cama, estando já na borda do estrado.

— Jax, se você quiser conversar…

Ele não respondeu. Virou o rosto, enrugado de frustração. Por que tudo sempre voltava para esse drama? Esses assuntos. Por que as pessoas não podiam só ser normais ao redor dele, programadas e previsíveis?

— A gente não é amigo — ele frisou.

— Você… — ela o ignorou — Sentiu minha falta pelo menos alguma vez desde aquele dia?

— Não — não tinha um dia em que ele não tentasse esquecer a briga. Mais que a briga, o abraço. O calor confortável dela irradiando nele, como ondas originadas de uma gota em água parada.

— Certo — ela desviou o olhar para a porta do quarto, então agarrou o lençol com a mão mais distante de Jax e, enfim, deitou-se novamente na cama — Bom, obrigada por me deixar ficar mesmo me detestando tanto, então.

O silêncio permeou entre os dois como um miasma. Os olhos de Jax, sem querer, foram parar na cômoda encostada na parede. Ele suspirou, levantou e foi até ela. Pomni tentou não checar, se mantendo encolhida no canto. Mas quando ele voltou a se aproximar e chutou de leve o pé da cama algumas vezes, ela olhou para cima. Ele escondia algo atrás das costas com uma das mãos, o que a fez sentar-se novamente, curiosa.

— O que foi?

Ele sentou à sua frente, cruzando as pernas em cima da cama mais uma vez e, com o rosto virado o máximo possível para longe de Pomni, estendeu o que parecia ser uma flor.

— O que é isso?

— Pega essa merda logo.

Ela pegou a rosa nas mãos, solitária e vermelha. Não exalava muito cheiro, mas era modelada de uma forma tão simples e graciosa que, sem querer, ela sorriu.

— Foi ideia da Ragatha — ele explicou — Não conta isso pra ela.

— Ela disse pra você colher flores? — Pomni levantou uma sobrancelha.

— Pra eu te dar um presente — ele corrigiu e se arrependeu imediatamente, virando o rosto quente e avermelhado para ela no susto.

Pomni sorriu e estava prestes a rir antes de ele derrubá-la na cama, a amassando e jogando o travesseiro como se estivesse lutando. Ela riu e tentou proteger a pequena rosa dos ataques propositalmente fracos de Jax. Ele parou quando ela já estava vermelha do esforço e parou e apoiou as costas na cabeceira, um pouco menos ofegante que ela.

— Obrigada, Jax — ela disse, ainda agarrada à rosa.

— Eu só arranquei do jardim de uma npc um dia… não conta pro Caim.

— Não — ela sorriu, calma, fechando os olhos — Por se importar.

Ele franziu o cenho, abandonando o sorriso. Estava pronto para rebater que nunca se importou, mas seria em vão. Ela tinha dormido. Só bastou um momento de conforto.

— Idiota — ele murmurou, passando a mão no seu cabelo — Você ainda vai ser a minha ruína. Ou eu ainda vou ser a sua.

O perigo contornava todas as projeções de futuro daquela relação. Mas valia a pena. Estar com ela valia a pena. Vê-la sorrir, escutá-la rir. Ser o conforto que ela precisa para dormir. Talvez eles dois se destruíssem, mas, se fosse para morrer de qualquer forma, preso eternamente naquele circo, que ele morresse pelas mãos de Pomni. Mas não que isso se chamasse amor.