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Eu estava terminando de tragar meu cigarro, quando a vi me observando no canto do circo. Ela era silenciosa, quase invisível para muitos – mas meus olhos nunca deixariam de notá-lo ali.
Meu coração pareceu errar uma batida, mas tentei não demonstrar que me assustei. Pelo contrário, a convidei para chegar mais perto de mim. Apenas um gesto foi suficiente; ela não era comunicativa e apreciava o silêncio. Eu, por outro lado, poderia conversar por horas sem enjoar do som da minha própria voz. Mas naquele momento, com aquela visão, senti que as palavras tinham sumido completamente da minha boca.
Elu se aproximou com passos lentos e calmos, enquanto as batidas em meu peito ficavam mais e mais rápidas. A esse ponto, eu não conseguia mais distinguir o que era amor e o que era medo. Mas eu sabia que sentia os dois, com muita intensidade, ao mesmo tempo, e, de alguma forma, essas sensações se misturavam em mim.
Seus grandes olhos azuis pareciam enxergar minha alma, me fazendo perguntas para as quais eu ainda não tinha resposta. Sua mão se aproximava da minha, parando a apenas poucos centímetros de distância, como quem pede por permissão sem nem mesmo perceber que está fazendo isso.
Eu entrelacei seus dedos nos meus, nossas mãos finalmente juntas, como sempre deveriam ter estado. Suas bochechas ganharam um leve tom avermelhado, e eu senti todo o meu corpo superaquecer por ser privilegiado o suficiente para apreciar tal cena divina. Isso nunca mais sairia de minha mente.
Fiquei perdido na minha cabeça, divagando enquanto minhas mãos começavam a suar e todo o cigarro era consumido pelo fogo, até eventualmente se apagar. Restava só a bituca em minha mão, e, quando percebi, a joguei no chão, levemente frustrado por ter me distraído.
Após isso, voltei meu olhar para Alê, que, mesmo sem utilizar palavras, tinha um semblante que dizia “O que foi?”
– Ah, eu… eu tô bem. – Era uma meia verdade. – Eu só queria que você ficasse perto de mim um pouco, por isso te chamei.
Ela assentiu, compreensiva, e se sentou no chão, bem próxima a mim. Eu limpei o suor de minhas mãos em minha própria roupa antes de me sentar ao seu lado. Eu tentava disfarçar o tremor em minhas mãos.
Ai, Alê, como eu queria não ter medo de sentir. Não ter medo de você. Não ter medo de sentir o que sinto por você, de sentir esse misto de emoções por você. Eu queria, ao menos uma vez, não sentir todo esse terror o tempo todo.
Eu escondi minhas mãos nas mangas da minha roupa, na esperança de que ela não notasse. Mas é Alê, e elu sempre nota tudo sobre todo mundo. Era em vão.
Ele tocou gentilmente em meu ombro, seu olhar carregado de preocupação. Céus, por que alguém assim precisava ser assim?
– Não se preocupa, tá? Não é nada de mais. – Minhas palavras eram vagas e sem sentido, era nítido que ela estava preocupada comigo.
Elu fez que não com a cabeça, tinha noção de que eu estava mentindo e não sairia de perto de mim até conseguir fazer com que eu me abrisse de verdade. Argh, ele me lia tão facilmente. Ele sabia que eu estava com medo. Ele sabia que eu morria de medo.
Elu colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha e sussurrou em meu ouvido:
– Me conta o que te aflige. Me diz o que te machuca.
O pavor sobressaía qualquer pensamento lógico que eu poderia ter, e me peguei tremendo outra vez, o meu rosto enrubescendo. Contar para ela sobre o horror irracional que eu sentia por ela definitivamente não era uma opção.
Eu engoli em seco minhas poucas palavras e meus sentimentos. Eu torcia para que ela deixasse tudo isso para lá e me esquecesse, ao mesmo tempo que o pensamento de que isso poderia realmente acontecer me deixava amedrontado outra vez.
– Franco… – Elu sussurrou meu nome, fazendo meus pelos se arrepiarem. Elu abriu a boca e a fechou logo em seguida, como se fosse dizer algo mas acabou desistindo da ideia. – Eu não quero te forçar a me contar seus segredos. Eu me preocupo com você, e gostaria de te entender, mas só me fale o que está acontecendo se você realmente quiser.
Ela se levantou de súbito e deu alguns passos se afastando de mim. Eu não sabia para onde ela estava indo, mas eu sabia que desejava sua companhia.
– Alê… – Eu chamei baixo, não acreditando que ela realmente fosse ouvir, mas ela parou ainda de costas para mim. Ela estava me ouvindo, então eu prossegui. – Fica.
Ele se virou de frente para mim, mas não se moveu nada além disso. Uma teimosia irritante que só alguém aterrorizante como ele poderia ter. Eu me levantei e andei na direção dele, meus poucos passos quase falhando pelos tremores incessantes do meu corpo.
– Eu tenho medo. – Eu disse quando julguei que já estávamos perto o suficiente, e a loira me encarou, confusa. – De você. E, mesmo sendo estranho, eu acho que isso é uma das melhores coisas que eu já senti por alguém.
– Então você não quer se afastar de mim? – Elu parecia intrigade, sem saber ao certo se entendia meus sentimentos, mas parecia tentar ao máximo me compreender.
– Saber que você pensou isso me deixa apavorado, sério. – Eu segurei seu rosto enquanto me colocava na ponta dos pés e juntava meus lábios com os delu. Ele tinha um leve sabor mentolado, que se misturava com o gosto de fumaça de cigarro que meu interior parecia se recusar a abandonar.
Nossas bocas se moviam em uma harmonia perfeita, nossas línguas dançavam e se misturavam, como se já tivéssemos feito isso várias outras vezes antes. Suas mãos se depositaram sobre minha cintura com gentileza e desejo, o toque se mostrando cada vez mais presente a cada segundo. Após algum tempo, interrompemos o beijo em busca de ar, e, com a respiração ainda ofegante, elu juntou nossas testas.
Como se fosse um anjo, suas asas agora envolviam meu pescoço e me tocavam da maneira mais gentil que eu já imaginei ser possível. É difícil de acreditar que meu corpo e mente já tão machucados aceitaram os toques de suas mãos quentes tão facilmente. Eu me senti acolhido por Alê, eu me senti cuidado como nunca em minha vida tinha me sentido antes.
– Você ainda tem medo, Franco?
– Pra cacete! – Eu disse, quase gritando inconscientemente, e liberando uma risada fraca que parecia ter estado presa em meu peito. – Eu te amo… Eu tenho muito medo disso, mas eu te amo.
Ela esboça um sorriso sem mostrar os dentes enquanto desprende algo da parte de trás de sua roupa: sua máscara, que estava presa por um mosquetão. Mesmo com o objeto apenas nas mãos delu, um calafrio percorreu minha espinha e um calor regional se espalhou pelas faixas do meu macacão.
Não importava quantos anos se passassem, a ideia de Alê utilizando sua máscara ainda era sinistra demais para que eu pudesse simplesmente não surtar de pânico. No fundo, eu era apenas um cara medroso, e elu tinha plena consciência disso. Meus pensamentos só foram dispersados com o baixo som de gotejar.
Ao olhar para tal, percebo como a luz do sol o alcança diretamente, tingindo-o com uma cor como a dos fios loiros de Alê, e me sinto horrorizado comigo mesmo por achar isso bonito. Romântico, até. Ela bufa em uma quase risada ao perceber a situação em que me encontro, e deposita um beijo singelo em minha testa suada, me deixando boquiaberto.
Eu queria que o pavor não me travasse, não me impedisse de conseguir dizer a ele o quanto eu acho que ele é tão sublime mesmo quando ele me deixa completamente horrorizado.
Eu queria tê-la só para mim, porque todas as partes dela são incríveis, inclusive as que mais me assustam. Mas dizer que eu não estou com medo disso seria uma mentira do caralho.
Elu agarra meu queixo e o aproxima de seu rosto, depositando um rápido beijo em minha boca, me arrancando uma careta surpresa e, ao mesmo tempo, alegre. Elu parecia ter um talento especial para saber como pescar meu sorriso e como me derreter por inteiro.
Eu me sentia tão sortudo, como se não houvesse felicidade maior do que compartilhar esses momentos com Alê – e, sinceramente, não havia nada melhor. Era como se eu estivesse nas nuvens, amarrado à estrela mais brilhante do céu porque essa tinha piedade o suficiente do meu ser para que escolhesse respirar ao meu lado.
Eu poderia esperar uma eternidade simplesmente para segurar na mão dela de novo, porque eu sei que valeria a pena. Ela era meu lar, minha harmonia, o que me mantinha são, ao mesmo tempo que me mantinha desequilibrado. Era a paixão mais assustadora que eu já ousei sentir, e toda essa mistura intensa me fazia sentir vivo.
O futuro era amedrontador, mas talvez, só talvez, pela primeira vez eu poderia viver sem ficar aterrorizado o tempo todo.
