Chapter Text
Abertura — Sala de Reação
A sala era ampla demais para ser confortável.
Poltronas dispostas em semicírculo, iluminação baixa e neutra, sem janelas — apenas uma grande tela à frente. O ar tinha aquele silêncio espesso que antecede algo importante, como se o próprio ambiente aguardasse permissão para existir.
— Então… — Kaminari foi o primeiro a quebrar o silêncio, ajeitando-se no assento. — A gente só… assiste?
— Parece que sim — respondeu Yaoyorozu, observando os detalhes da sala com atenção meticulosa. — Mas não é um registro comum.
Antes que alguém pudesse comentar, a tela acendeu sozinha.
Não havia imagem ainda. Apenas escuridão.
— Vocês irão observar um mundo alternativo.
A voz não vinha de lugar algum. Não era masculina nem feminina — era controlada, medida, quase impessoal.
— As escolhas feitas ali diferem das suas. As consequências também.
Aizawa estreitou os olhos, braços cruzados.
— E por que nós?
A tela piscou levemente, como se reagisse à pergunta.
— Porque vocês existem naquele mundo.
— E porque algumas verdades só são compreendidas quando vistas de fora.
Um breve silêncio se instalou.
Então, a imagem surgiu.
Universo Alternativo — O IMPÉRIO
O Império não anunciava o que realmente era.
À primeira vista, parecia um dos estabelecimentos mais refinados da cidade: fachada elegante, vidro escurecido, detalhes em dourado discreto. Do lado de dentro, lustres de cristal lançavam uma luz quente sobre móveis de madeira nobre, estofados impecáveis e mesas organizadas com precisão quase cerimonial.
Nada ali gritava ilegalidade.
Nada ali sugeria decadência.
E ainda assim, era ali que as piores decisões eram tomadas.
Ela caminhava entre as mesas como se o lugar lhe pertencesse.
Passos tranquilos. Postura relaxada. Cada movimento calculado para não chamar atenção — e, paradoxalmente, para nunca ser ignorada. O vestido escuro, de corte simples, contrastava com o luxo ao redor, mas não destoava. Pelo contrário: fazia parecer que todo aquele excesso existia apenas para emoldurá-la.
Enquanto avançava, sua mente trabalhava.
Rotinas. Padrões. Ausências.
O Império funcionava porque ninguém fazia perguntas demais. Heróis fora de serviço bebiam ali. Empresários riam alto demais. Políticos falavam baixo demais. Criminosos bem vestidos negociavam como se estivessem tratando de ações na bolsa.
Ela observava tudo.
Mesa três: informante nervoso — mãos suadas, olhar sempre na porta.
Mesa sete: membro menor da comissão — falso sorriso, bebida cara, culpa mal disfarçada.
Camarote superior: alguém importante demais para aparecer nos registros oficiais.
E, como sempre, sua mente traçava paralelos.
Aizawa Shouta. Eraserhead.
Não porque ele estivesse ali — não estava —, mas porque padrões eram universais. Heróis cansados tinham rotinas previsíveis. Dormiam pouco. Circulavam por áreas específicas. Prendiam os mesmos tipos de vilões, repetidas vezes.
Ela sabia quais ele havia capturado naquela semana.
Sabia quais ainda estavam soltos.
Sabia quais nomes não apareceriam nos relatórios oficiais.
Não porque espionava diretamente.
Mas porque informação deixava rastros — e ela sabia onde olhar.
O Império era apenas um dos nós da rede.
Ela parou junto ao balcão. O bartender não perguntou o que ela queria. Apenas serviu.
Tudo ali funcionava assim.
Sala de Reação
— Espera… — Uraraka se inclinou para frente. — Esse lugar parece… bonito demais.
— Esse é o problema — respondeu Todoroki, em tom baixo. — Lugares realmente perigosos quase nunca parecem perigosos.
Bakugou observava em silêncio, mandíbula travada.
— Essa mulher… — rosnou. — Ela anda como se soubesse de tudo.
Aizawa não respondeu de imediato. Seus olhos permaneciam fixos na tela.
Porque, mesmo sem explicação alguma, ele já reconhecia aquele tipo de olhar.
O olhar de quem observa o mundo não como ele é —
mas como ele funciona.
Universo Alternativo — O IMPÉRIO
O Império não era apenas um bar.
Era um acordo silencioso.
Ali dentro, identidades eram suspensas. Não oficialmente — nada tão ingênuo —, mas na prática. Heróis sem uniforme bebiam ao lado de vilões sem máscaras, e ambos fingiam não reconhecer os sinais um do outro. Aquilo não era paz. Era conveniência.
Uma trégua.
Não declarada. Não assinada.
Mas absolutamente respeitada.
Quebrar as regras implícitas do Império não significava apenas iniciar uma briga. Significava ser apagado do sistema que mantinha o submundo funcionando com algum grau de ordem.
Ela sabia disso. Todos ali sabiam.
Por isso, quando um homem mais jovem — ombros tensos, olhar inquieto demais para alguém naquele ambiente — deixou escapar uma palavra atravessada, o silêncio que se seguiu foi imediato.
Não houve gritos.
Não houve ameaça direta.
Apenas olhares.
Ela observou enquanto dois seguranças se aproximavam com passos tranquilos, quase educados. Nenhuma violência ali dentro. Nunca ali dentro. O homem foi conduzido para fora como um convidado inconveniente — não como um problema.
O erro real aconteceria depois.
Ela desviou o olhar no momento exato. Não precisava ver o desfecho para saber qual seria. O Império não punia em público. Ele lembrava.
Sua mente catalogou o ocorrido como mais um exemplo da regra fundamental:
o luxo servia para esconder a brutalidade — não para substituí-la.
No balcão, alguém se aproximou o suficiente para falar sem ser ouvido pelos outros.
— Ainda vale a trégua? — murmurou a voz, masculina, neutra.
Ela não virou o rosto.
— Sempre vale — respondeu com calma. — Até alguém esquecer por que ela existe.
Um gole lento. O copo pousou com suavidade excessiva sobre a madeira.
— E se alguém esquecer?
Dessa vez, ela sorriu — pequeno, educado, quase agradável.
— Então o Império lembra por todos.
Sala de Reação
— Isso é errado — Uraraka murmurou, desconfortável. — Eles estão… convivendo.
— Não — corrigiu Yaoyorozu. — Estão coexistindo. É diferente.
Iida ajustou os óculos, tenso.
— Uma trégua assim viola princípios básicos da justiça.
— Viola — Aizawa concordou, sem tirar os olhos da tela. — Mas também evita guerras abertas.
Bakugou rangeu os dentes.
— Então se alguém começa uma luta ali dentro…
— Não começa — interrompeu Todoroki. — Porque sabe o que acontece depois.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Na tela, a mulher continuava imóvel, integrada ao ambiente como se sempre tivesse pertencido àquele lugar — e, de certa forma, pertencesse.
Mas não como cliente.
Como regra.
Sala de Reação
Bakugou foi o primeiro a verbalizar o incômodo.
— Espera aí — ele rosnou, inclinando-se para frente. — Por que diabos alguém obedeceria essa mulher?
Ele apontou para a tela.
— Ela não parece forte o bastante pra impor nada na porrada.
O comentário ficou suspenso no ar.
Na tela, a cena havia mudado sutilmente.
Universo Alternativo — O IMPÉRIO
O poder dela não se manifestava em músculos.
Manifestava-se em ausências.
Enquanto o Império seguia seu fluxo elegante, vozes se sobrepunham — não diálogos diretos, mas fragmentos de conversas, imagens rápidas, cortes quase imperceptíveis.
Um acordo que não se concretiza.
Um aperto de mãos que nunca acontece.
Uma reunião cancelada sem explicação.
Um nome que deixa de circular.
Ela caminhava pelo salão, e pessoas que antes a procuravam desviavam o olhar — não por desprezo, mas por receio. Porque ser ignorado por ela era pior do que ser confrontado.
Informação negada era sentença.
Rotas seguras que não eram mais compartilhadas.
Datas de operações que “simplesmente não chegavam”.
Avisos que nunca eram feitos.
E, abaixo de tudo isso, havia algo ainda mais essencial.
Os hospitais subterrâneos.
Instalações escondidas, fora do alcance oficial, onde vilões e heróis feridos eram tratados sem perguntas. Onde nomes reais não eram registrados. Onde a diferença entre sobreviver e desaparecer era uma autorização silenciosa.
Ela não precisava proibir ninguém de entrar.
Bastava não autorizar.
Um paciente recusado ali dificilmente tinha outra chance.
Sala de Reação
O silêncio agora era outro.
— Ela controla… a logística — murmurou Yaoyorozu, o rosto pálido. — Não só informações. Estruturas inteiras.
— É por isso que ninguém a enfrenta diretamente — concluiu Todoroki. — Não há vitória possível.
Iida engoliu em seco.
— Isso é… poder sistêmico.
Bakugou cerrou os punhos.
— Então quem desafia ela…
A imagem na tela mostrou a mulher parar por um instante, observando o salão como quem revisa uma equação já resolvida.
Não havia ameaça.
Não havia aviso.
A punição nunca era anunciada.
Ela apenas acontecia.
Aizawa soltou o ar lentamente.
— Esse é o tipo de poder que não deixa marcas visíveis.
E, pela primeira vez desde o início da exibição, ele pareceu genuinamente desconfortável.
Universo Alternativo — O IMPÉRIO
A conversa parecia inofensiva.
Ela estava sentada agora, uma das poucas mesas ocupadas por apenas duas pessoas. O homem à sua frente falava baixo, educado demais para aquele ambiente. Trajava um terno escuro simples, nada que chamasse atenção — exatamente como alguém que precisava passar despercebido.
— O transporte foi atrasado — disse ele, girando o copo entre os dedos. — Problemas técnicos.
Ela ouviu sem interromper, expressão neutra.
— Técnicos costumam ser previsíveis — respondeu por fim. — Pessoas, não.
O homem assentiu.
— Ainda assim, achei que deveria avisar.
Ela inclinou levemente a cabeça, gesto mínimo, quase cordial.
— Avisos são úteis — disse. — Quando chegam a tempo.
Não havia acusação na frase. Ainda assim, o homem engoliu em seco.
Ela observou o salão por cima do ombro dele. Um casal ria próximo ao balcão. Um grupo de empresários brindava em voz alta. Nada fora do lugar.
— A trégua continua — acrescentou ela, como se comentasse sobre o clima. — Mas atrasos criam… ruído.
— Posso compensar — apressou-se ele. — Tenho outras rotas. Outros contatos.
Ela finalmente voltou o olhar para ele.
— Não precisa — disse com suavidade. — Eu já ajustei.
O homem congelou por um segundo.
— Ajustou…?
— Sim.
Ela ergueu o copo, observando o líquido refletir a luz do lustre.
— Algumas negociações vão mudar de mãos. Alguns nomes deixarão de ser mencionados. Nada pessoal.
O silêncio entre eles não durou mais que dois segundos. Ainda assim, foi suficiente.
— Entendo — murmurou ele. — Então… estamos quites?
Ela pensou por um instante.
— Estamos estáveis — corrigiu. — Quitação implica encerramento. E isso raramente é interessante.
O homem assentiu novamente, mais rápido desta vez. Levantou-se, ajustou o paletó e se afastou sem olhar para trás.
Ela permaneceu sentada.
Ao redor, o Império seguia intocado.
Luxuoso. Brilhante. Indiferente.
Sala de Reação
— Ela não levantou a voz nenhuma vez — observou Uraraka, ainda tensa.
— Não precisou — respondeu Todoroki.
Yaoyorozu franziu a testa.
— Aquilo foi uma punição, não foi?
— Não — Aizawa corrigiu. — Foi um ajuste de equilíbrio.
Bakugou soltou um riso curto, sem humor.
— Isso é pior.
A tela mostrou a mulher levantar-se com calma, deixando a mesa como se nada tivesse acontecido.
— O mais assustador — completou Aizawa — é que ninguém ali pareceu notar.
Universo Alternativo — O IMPÉRIO
O Império era belo de propósito.
Lustres de cristal derramavam luz dourada sobre mesas de mármore escuro. Tecidos caros, perfumes sutis, música baixa demais para distrair. Um lugar suntuoso o suficiente para esconder qualquer coisa — e eficiente o bastante para que ninguém questionasse o que realmente acontecia ali.
A trégua existia naquele espaço.
Não por idealismo.
Por necessidade.
Izumi percebia essas coisas enquanto caminhava. O ritmo dos passos, o tempo exato em que olhares se desviavam, a forma como conversas cessavam ao reconhecê-la. Tudo seguia um padrão. Sempre seguia.
A mudança no ambiente aconteceu de forma quase imperceptível.
Ela percebeu primeiro pelo reflexo no vidro escurecido do camarote lateral.
A figura que se aproximava não pertencia ao luxo do salão.
O traje era escuro, funcional, composto por camadas pensadas para ocultar silhueta e identidade. Nada ornamental. Nada supérfluo. A máscara cobria o rosto por completo, lisa demais para ser expressiva, exceto pelos olhos — atentos, avaliadores, intensos demais para alguém que deveria passar despercebida.
Ela não disse o nome em voz alta.
Não precisou.
A vilã era conhecida.
Demais.
Controlava os hospitais subterrâneos. Não como fachada, mas como estrutura real. Médicos, suprimentos, rotas de evacuação. Um sistema inteiro que funcionava à revelia da sociedade oficial.
E que agora estava em confronto indireto com algo muito maior.
Ela se aproximou sem chamar atenção. O Império permitia aquilo. Máscaras eram aceitáveis. Identidades, negociáveis.
Alguns reconheceram.
Sussurros contidos.
Posturas que se enrijeciam.
Pessoas fortes demais para parecerem confortáveis.
Dabi.
O nome existia mesmo sem ser pronunciado.
Izumi não se virou.
— Você não devia estar aqui — murmurou, mantendo o olhar no copo à sua frente.
— E você não devia continuar se expondo desse jeito — respondeu a outra, a voz baixa, filtrada pelo modulador do traje.
Taya.
Izumi suspirou, quase imperceptível.
— A trégua exige presença.
— A trégua exige prudência — corrigiu Taya. — E você está no limite.
Por um instante, algo cedeu.
Não no rosto de Izumi. Não em sua postura.
Mas na forma como seus dedos apertaram o copo com força excessiva.
— All for One ainda está incapacitado — disse Izumi. — Não vai agir agora.
— Não — Taya concordou. — Mas ele observa. Sempre observa.
Ela inclinou levemente a cabeça. Um gesto pequeno, íntimo demais para aquele lugar.
— Se algo te acontecer aqui, eu não posso intervir sem quebrar tudo.
Izumi finalmente a encarou.
— Eu sei.
— Então por que insiste?
O silêncio entre elas foi curto, denso, protegido pelo som elegante do Império.
— Porque alguém precisa manter o equilíbrio até a próxima guerra — respondeu Izumi. — E porque, se eu sair, ele ocupa o espaço.
A mão de Taya se fechou em punho por um instante. Controle absoluto, à força.
— Você não é descartável.
Izumi sorriu de leve.
— Nenhuma de nós é.
Taya se afastou sem pressa, dissolvendo-se entre sombras e reflexos antes que qualquer olhar curioso pudesse fixá-la por tempo suficiente.
Izumi permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então respirou fundo.
O controle retornou.
Sempre retornava.
O Império seguia intacto.
A trégua, preservada.
Mas sob a superfície impecável, as engrenagens já estavam em movimento — avançando, inevitavelmente, para uma guerra que nenhum deles conseguiria enfrentar sozinho.
A tela escureceu por um instante antes de retomar.
Quando voltou, o salão do Império se revelou por inteiro.
Não apenas um bar.
Um espaço vasto demais para ser casual. Lustres monumentais, varandas internas, camarotes suspensos, corredores laterais desaparecendo em sombras elegantes. Ouro, vidro, mármore — tudo calculado para impressionar e intimidar ao mesmo tempo.
— Caraca… — Kaminari deixou escapar. — Isso é maior do que eu pensei.
— Isso não é só luxo — disse Mina, os olhos arregalados. — É ostentação estratégica!
— Eles estão vendo tudo lá de cima… — cochichou Uraraka. — Todo mundo.
Mais murmúrios surgiram entre os alunos, surpresa genuína agora que o espaço se revelava por completo.
— Isso é um império de verdade… — sussurrou Iida, ajustando os óculos, visivelmente desconfortável.
Os vilões não comentaram.
Mas também não pareceram impressionados.
Quando a figura mascarada surgiu na tela, algo mudou imediatamente.
A reação não foi barulho.
Foi retração.
Conversas cessaram. Pessoas se afastaram. Até os mais confiantes pareceram medir distância.
Dabi original enrijeceu.
Não fisicamente — ele sabia se controlar —, mas algo nele reagiu antes da razão.
A postura.
A forma de ocupar espaço.
A ameaça sem esforço.
A máscara.
O nome Dabi não foi pronunciado.
Mas existia no ar.
Bakugou franziu o cenho.
— Tá… isso não é só fama — rosnou. — Olha como eles reagem.
A cena entre Izumi e a vilã mascarada se desenrolou.
A intimidade contida.
O tom baixo.
A palavra trégua.
Quando o nome Taya foi usado, não houve reação imediata entre os heróis.
Nenhum reconhecimento.
Nenhuma associação.
Apenas estranhamento.
— Esse nome não aparece nos arquivos — murmurou Yaoyorozu, atenta. — Pelo menos não nos oficiais.
Aizawa observava em silêncio, os olhos semicerrados.
Do lado dos vilões, Dabi permaneceu imóvel.
Taya.
Dabi.
Os nomes se sobrepunham de forma perigosa.
Ele não reagiu externamente. Não podia.
Mas o alerta já estava acionado.
Se esse mundo associa esses dois nomes…
Então o próximo passo é identidade.
Quando a vilã mascarada desapareceu da tela, dissolvendo-se entre sombras e reflexos, a tensão não se dissipou de imediato.
— Ela não parecia subordinada a ninguém — comentou Kirishima, com cautela.
— Não parecia — concordou Aizawa. — Porque não é.
Nezu permanecia imóvel, o olhar atento demais para ser casual.
Hospitais subterrâneos fora do controle oficial.
Uma trégua sustentada por forças paralelas.
E um sistema inteiro funcionando fora do alcance da sociedade.
No mundo deles, apenas uma figura mantinha algo assim.
O pensamento se completou sozinho.
Ele não disse o nome.
A Voz voltou a preencher o ambiente, suave, controlada.
— O que vocês viram não foi apenas um local.
Foi a superfície de um sistema inteiro.
E ainda assim… apenas a superfície.
A tela escureceu lentamente.
E, dessa vez, o silêncio que se seguiu foi pesado demais para ser quebrado com facilidade.
Universo Alternativo — O IMPÉRIO (setor interno)
O salão luxuoso ficou para trás rapidamente.
O Império possuía um segundo coração — invisível para quase todos.
A vastidão dourada dava lugar a corredores mais estreitos, onde o luxo não desaparecia, apenas mudava de função. Vidro fosco intercalado com aço escuro. Superfícies impecáveis demais para serem apenas decorativas. A iluminação era direcionada, fria, precisa — não para impressionar, mas para controlar o olhar, limitar distrações.
Ali, o bar deixava de ser bar.
Salas numeradas surgiam sem qualquer lógica aparente. Portas que não exibiam nomes, apenas números e códigos. Algumas jamais se abriam. Outras só respondiam a confirmações silenciosas — pequenos gestos trocados entre funcionários que nunca explicavam nada.
Era um lugar feito para quem não fazia perguntas.
E para quem sabia exatamente onde pisava.
— Sala 16. Informação. H126.
O jovem garçom murmurou as palavras quase sem mover os lábios.
Izumi permanecia apoiada no balcão, cotovelo relaxado, postura casual demais para alguém que comandava todo aquele sistema. A máscara de raposa ocultava qualquer reação imediata, mas o nome ecoou em sua mente com clareza suficiente.
Eraserhead.
Fazia algum tempo que o herói do submundo não aparecia em busca de informações.
— Hm… — murmurou para si mesma, erguendo-se com tranquilidade calculada. — Interessante.
Enquanto caminhava, a mente entrou automaticamente no ritmo que sempre entrava quando um cliente recorrente reaparecia.
Nomus.
Movimentações recentes.
Aquele miserável finalmente começando a mexer peças maiores — mas não parecia algo que Shouta buscaria agora. Ainda não.
Hospitais subterrâneos novos estavam sendo abertos.
Rotas ajustadas.
Cadeias logísticas redesenhadas.
Localizações eram vendáveis.
Muito vendáveis.
Mas talvez fosse um caso.
Isso seria… inesperado.
Ela não tinha notícia de nenhuma investigação ativa além das rondas noturnas habituais. Nenhuma obsessão nova. Nenhuma linha puxada com força suficiente para justificar aquele encontro.
Segunda-feira: Anter — um idiota.
Terça: Bavta e Bacan. Dois irmãos ladrões de banco, ficha extensa, nada fora do padrão. Não trabalhavam para ninguém. Se trabalhassem, ela saberia.
Quarta… Pavlov.
Outro estúpido. Quem escolhe o nome de um doce como codinome?
Quinta… Frederique.
A careta surgiu por baixo da máscara, breve, contida.
Pedófilo de merda.
Ela desacelerou por um segundo antes de dobrar à direita, avaliando possibilidades.
Talvez fosse isso.
Informações sobre vítimas passadas.
Ela não tinha a lista completa — aquele período em que Eraserhead ficara encoberto pelos malditos Shie Hassaikai deixara lacunas inconvenientes —, mas nada que não pudesse ser resolvido com rapidez. Era uma opção plausível. E rentável.
Izumi seguiu em frente.
Dobrou mais uma vez, afastando-se do corredor principal.
O labirinto.
Suas salas confidenciais eram belas em sua crueldade. Planejadas para confundir sem parecer hostis. Para afirmar, sem uma única palavra, onde o controle realmente residia.
Ninguém atravessava aquele espaço sozinho.
Não sem um guia.
Não sem permissão.
Ela tratava seus clientes com respeito — sempre.
Mas fazia questão de que entendessem uma coisa:
Aquilo era uma concessão.
Não um direito.
E enquanto Izumi caminhava com naturalidade absoluta, passos silenciosos ecoando no concreto polido, um herói do submundo, em outro ponto daquele mesmo mundo, começava a se perguntar — não pela primeira vez —
como alguém havia alcançado um monopólio daquele nível.
Sala de Reação
O silêncio que se seguiu não foi imediato.
Ele veio em camadas.
Primeiro, a surpresa contida — aquela pausa curta, quase imperceptível, quando todos perceberam que o vídeo não estava mais mostrando o bar.
— Espera… — murmurou Ashido, inclinando-se para frente. — Isso ainda é o Império?
A tela mostrava corredores estreitos, vidro fosco, aço escuro. Nada de música. Nada de brilho chamativo. Apenas luz fria e precisão.
— É… — respondeu Kirishima, mais baixo. — Mas parece outro lugar.
— Não parece — corrigiu Iida, ajustando os óculos. — É outro lugar.
As salas numeradas surgiam sem lógica aparente. Portas que não tinham identificação. Funcionários que se comunicavam com gestos mínimos, quase invisíveis.
— Isso é… — Uraraka engoliu em seco. — Isso é planejado demais.
— Labirinto — murmurou Todoroki, o olhar fixo na tela.
A palavra pareceu pesar no ar.
Bakugou estalou a língua, irritado.
— Tch. — cruzou os braços. — Isso não é pra esconder coisa. É pra deixar claro quem manda.
A câmera acompanhava Izumi caminhando com naturalidade absoluta, sem hesitação, como se aquele emaranhado de corredores fosse extensão do próprio corpo.
— Ela não olha pra placas — observou Yaoyorozu, tensa. — Nem hesita.
— Porque não precisa — disse Aizawa, em voz baixa.
Alguns alunos se viraram para ele quase ao mesmo tempo.
O Eraserhead da sala de reação estava imóvel, expressão fechada, mas os olhos acompanhavam cada detalhe com atenção profissional demais.
— Esse tipo de estrutura — continuou — não é feita só pra segurança. É psicológica.
Nezu, sentado mais atrás, uniu as patas sob o queixo.
Interessante, pensou.
No mundo deles, quem detinha algo parecido com aquilo…
não precisava se mostrar.
A tela mostrou Izumi dobrando mais uma vez, afastando-se do corredor principal.
O labirinto.
— Ninguém entra aí sozinho — murmurou Hawks, sério agora. — E ninguém sai sem permissão.
— Então quando heróis vão atrás dela… — começou Kaminari, mas parou no meio da frase.
— Eles já aceitaram as regras — completou Yaoyorozu.
Um arrepio coletivo percorreu a sala quando a narração do vídeo deixou claro:
Aquilo era uma concessão. Não um direito.
— Ela trata heróis como clientes — disse Tsuyu, calma demais. — Não como autoridades.
— O que significa — Nezu falou, finalmente em voz alta — que o poder dela não é reativo.
Alguns engoliram em seco.
— É estrutural.
O vídeo continuava, Izumi caminhando com passos silenciosos, o ambiente funcionando ao redor dela como um organismo vivo.
— Isso não é improvisado — murmurou Todoroki. — É… antigo.
— Não — corrigiu Bakugou. — É eficiente.
O silêncio voltou a se instalar.
Mas agora não era só surpresa.
Era compreensão.
E talvez, pela primeira vez desde que o vídeo começara,
ninguém ali tinha certeza se estava observando uma vilã…
ou um sistema inteiro personificado.
Universo Alternativo — SALA 16
A porta se abriu com um clique suave.
Eraserhead já estava lá.
Sentado de maneira relaxada demais para alguém que claramente não estava relaxado. O corpo largado de propósito, como quem mede o espaço antes de confiar nele. O olhar cansado, atento, acompanhou cada movimento da figura mascarada que entrava.
A Raposa fechou a porta atrás de si.
— Você chegou cedo — comentou ele, sem surpresa real.
Sala de Reação
— É ele… — murmurou Kaminari.
— A gente sabia que seria — respondeu Kirishima, ainda assim tenso. — Mas ver é diferente.
— Essa é a primeira vez que aparece alguém que a gente realmente conhece — disse Yaoyorozu, em voz baixa. — Não só de nome.
Os olhos da turma estavam grudados na tela.
O Eraserhead daquele mundo não era exatamente o deles — mas era próximo o suficiente para causar desconforto.
— Ele parece… mais cansado — comentou Uraraka.
— Ou mais acostumado — corrigiu Todoroki, sério.
Aizawa, sentado entre os heróis profissionais, não disse nada. Mas seu olhar endureceu ao encarar a própria versão alternativa.
Nezu observava em silêncio.
Interessante, pensou.
A primeira peça familiar do tabuleiro.
Universo Alternativo — SALA 16
— Você também — respondeu a Raposa, a voz filtrada pela máscara, leve demais para o peso do encontro.
Ela não se sentou de imediato. Caminhou alguns passos, deixando que ele a observasse, e só então ocupou a poltrona à frente.
— Três capturas recentes — disse ela, direta. — Uma delas não constou nos registros públicos pelo tempo adequado.
Eraserhead não reagiu.
— Isso não é informação fácil de conseguir — disse ele, após alguns segundos.
— Não é — ela concordou. — Mas é necessária.
Ela se inclinou levemente para frente.
— O vilão que ficou fora do sistema por dezessete horas foi tratado. Não em hospital oficial. Não por médicos licenciados.
Sala de Reação
— Espera… — Ashido franziu o cenho. — Isso significa que—
— Hospitais subterrâneos — completou Iida, rígido. — Fora da jurisdição oficial.
— Ele sabe disso — murmurou Hawks. — E ainda assim veio.
— Isso muda tudo — disse Yaoyorozu. — Ele confia nela.
Ou não tem outra opção.
A ideia pareceu atravessar vários deles ao mesmo tempo.
Universo Alternativo — SALA 16
— E isso é um problema para você? — perguntou Eraserhead.
— Não — respondeu a Raposa. — É um problema para quem controla a narrativa.
O silêncio se instalou, pesado.
— Você está andando numa linha perigosa — disse ele. — Se alguém perceber—
— Já percebeu — ela o interrompeu, com suavidade quase provocativa. — Só ainda não decidiu agir.
Ela inclinou a cabeça.
— Estou aqui porque, quando decidirem, vão começar por você.
Ele a encarou por alguns segundos.
— Então você está me avisando?
— Não — corrigiu ela. — Estou ajustando expectativas.
E então ele disse o nome.
— Preciso de informações sobre Taya Todoroki.
Sala de Reação
O efeito foi imediato.
— Todoroki…? — sussurrou Kaminari.
Vários olhares se moveram quase ao mesmo tempo.
Instintivamente.
Para Dabi.
Shouto Todoroki sentiu o estômago se revirar.
— Não faz sentido… — murmurou. — Taya Todoroki está morta.
A frase saiu automática. Defensiva.
— Legalmente — disse Iida, hesitante.
— O nome… — Yaoyorozu engoliu em seco. — O nome que ela usou antes…
Taya.
Dabi permaneceu imóvel.
O rosto impassível. As mãos relaxadas demais sobre os joelhos.
Mas por dentro, algo se partiu.
Taya.
Todoroki.
Os nomes se sobrepunham de forma perigosa.
Ele não reagiu externamente. Não podia.
Mas o alerta já estava acionado.
Se esse mundo conecta esses dois nomes…
então o próximo passo não é suspeita.
É identidade.
Shouto olhava para ele agora.
Não acusando.
Ainda.
Mas confuso.
E isso era pior.
Universo Alternativo — SALA 16
A Raposa ficou imóvel por meio segundo.
Quando voltou a falar, o tom era calmo — demais.
Sala de Reação
O impacto foi imediato.
— Ela… parou — murmurou Uraraka, franzindo o cenho. — Vocês viram isso?
— Meio segundo — disse Iida rapidamente. — Mas foi o suficiente.
Bakugou estalou a língua.
— Tch. Pegou no nervo.
— Ela estava no controle o tempo todo — comentou Yaoyorozu. — Até aquele nome.
Aizawa, na sala, manteve os olhos na tela, expressão indecifrável.
— Isso não é medo — disse, baixo. — É… contenção.
Nezu uniu as patas sob o queixo, pensativo.
Curioso, pensou.
Um nome quase apagado… e ainda assim protegido.
UNIVERSO ALTERNATIVO - SALA 16
— Taya Todoroki — repetiu. — Legalmente, ela morreu aos doze anos. Queimada pela própria individualidade.
Ela deu de ombros, gesto leve.
— Nada que algumas reportagens antigas não confirmem.
— Você sabe que isso não responde minha pergunta — disse Eraserhead.
— Responde o suficiente — retrucou ela. — Para a maioria das pessoas.
— Não para mim.
Ela recostou-se na poltrona.
— Você me procurou por informação, herói — disse, agora evasiva. — Não por fantasmas.
— Então ela está viva.
Silêncio.
— Existe uma relação entre vocês — ele pressionou.
A Raposa inclinou a cabeça, quase divertida. Quase ameaçadora.
— Existe uma linha — respondeu. — E você acabou de cruzá-la.
Sala de Reação
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Ela não negou… — murmurou Uraraka.
— Nem confirmou — respondeu Aizawa. — O que, nesse contexto, diz bastante.
Nezu fechou os olhos por um instante.
Se o nome foi apagado…
alguém fez isso de propósito.
Shouto ainda encarava Dabi.
— Meu irmão… — começou, mas a frase morreu antes de nascer.
Dabi não o olhou de volta.
Ainda não.
Porque, naquele momento,
o perigo não era ser reconhecido.
Era ser lembrado.
Universo Alternativo — SALA 16
A Raposa permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Não era hesitação.
Era cálculo.
A máscara branca não se moveu, mas o peso do olhar por trás dela se intensificou — como se, pela primeira vez desde o início da conversa, o foco não estivesse mais na informação pedida, mas em quem a estava pedindo.
— Antes de responder — disse ela, por fim, a voz baixa, suave demais —, talvez eu devesse entender uma coisa.
Descruzou os braços com lentidão estudada.
— Por que você quer essa informação, senhor herói?
Eraserhead não respondeu de imediato.
O silêncio entre eles não era vazio; era um espaço de medição. A Raposa não pressionou. Sabia que ele falaria — porque já havia ido longe demais para recuar.
— Porque você não pergunta sobre mortos sem motivo — respondeu ele, enfim. — E você não se dá ao trabalho de medir palavras quando o assunto não importa.
Ela inclinou levemente a cabeça, gesto mínimo.
— Interessante critério.
— Eu sei que existe uma ligação — continuou ele, a voz firme, direta. — Não necessariamente criminosa. Mas real.
Uma pausa curta.
— Uma ligação com alguém sob minha responsabilidade.
Por trás da máscara, algo se reorganizou.
Aluno.
Entre dezenas de possibilidades, apenas um nome fazia sentido imediato demais para ser confortável.
Shouto Todoroki.
A associação foi automática — e perigosamente rápida.
Como ele teve acesso a isso?
Quem deixou esse fio solto?
Externamente, nada mudou.
— Você está assumindo bastante coisa — respondeu a Raposa, com leve ironia. — Mortos, ligações, responsabilidades…
— Estou assumindo que você sabe — interrompeu Eraserhead. — E que, se está escolhendo o que dizer, é porque existe algo a ser contido.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Quando ela voltou a falar, o tom era controlado com precisão cirúrgica.
— Digamos que… — começou — certas informações sobrevivem melhor quando não são tratadas como verdades oficiais.
Ele a encarou, atento.
— Então você confirma que ela existe.
A Raposa sustentou o olhar por um instante a mais do que o necessário.
— Confirmo que não é apenas um nome em relatórios antigos — respondeu. — E que você não estaria aqui se isso fosse irrelevante.
Uma pausa.
— Mas também confirmo outra coisa.
Ela recostou-se no sofá, retomando a postura confortável.
— Independentemente do que você acredita saber, essa pessoa não representa risco imediato a nenhum dos seus alunos.
Não houve ênfase.
Não houve defesa.
A afirmação foi feita como quem delimita território.
O silêncio que se seguiu não foi de alívio.
Foi de ajuste.
Eraserhead não desviou o olhar. Não aceitou a afirmação como suficiente — apenas a registrou.
— “Risco imediato” — repetiu, com cuidado. — Essa escolha de palavras costuma esconder margens.
A Raposa sorriu por baixo da máscara. Não um sorriso de diversão, mas de reconhecimento.
— Margens são necessárias — respondeu. — Especialmente quando lidamos com pessoas que não cabem em categorias simples.
Ele deu um passo à frente.
— Pessoas não costumam ser o problema. — disse. — Segredos, sim.
Ela não respondeu de imediato. Os dedos bateram uma única vez no braço do sofá, um gesto quase distraído, mas calculado demais para ser casual.
— Você está tentando definir se isso é um assunto pessoal… — disse ela, por fim — ou institucional.
— Estou tentando definir — corrigiu Eraserhead — se isso é algo que pode atingir alguém sob minha responsabilidade direta.
O olhar por trás da máscara se estreitou.
— Então você já sabe mais do que deveria.
A frase não veio como acusação.
Veio como constatação.
— Sei o suficiente para não ignorar — respondeu ele. — E para saber que você não costuma proteger informações sem motivo.
Ela inclinou a cabeça, avaliando.
— Protejo equilíbrios — corrigiu. — Informações são só ferramentas.
Uma pausa breve.
— E alguns equilíbrios… — acrescentou — se quebram com nomes ditos cedo demais.
O ar ficou mais pesado.
— Diga-me uma coisa, Raposa. — disse Eraserhead. — Se eu disser esse nome… você vai me corrigir?
O silêncio que veio depois foi a resposta mais clara até então.
Ela não se moveu.
Não interrompeu.
Não ironizou.
A confirmação estava ali.
— Então vou dizer — continuou ele, a voz firme. — Taya Todoroki não está morta. E você sabe disso.
A Raposa sustentou o olhar por alguns segundos longos demais.
— Digamos que… — disse por fim — a morte dela foi extremamente funcional para muita gente.
— Inclusive para você?
— Inclusive para o mundo — respondeu ela, sem hesitar.
Ele respirou fundo.
— E agora esse mundo esbarra em um detalhe que não fecha.
Ela permaneceu em silêncio.
— Um aluno meu. — disse ele. — Que carrega um sobrenome que não deveria existir se tudo o que foi registrado fosse verdade.
Pela primeira vez desde o início da conversa, a Raposa se moveu de forma menos controlada.
Não muito.
Mas o suficiente.
— Shouto Himura — disse Eraserhead.
O nome caiu como uma lâmina precisa.
A Raposa não reagiu de imediato.
Mas por dentro, o cálculo se refez inteiro.
Então é isso…
Ele não apenas suspeita.
Ele conectou.
Como?
Quando?
Externamente, ela expirou lentamente e recostou-se novamente no sofá.
— Ele é seu aluno — disse. — E isso, por si só, já explica sua preocupação.
— Explica mais do que isso. — respondeu ele. — Explica por que você está escolhendo cada palavra.
Ela sustentou o silêncio por alguns segundos antes de falar novamente.
— Muito bem. — disse, enfim. — Vamos alinhar limites.
Endireitou-se levemente.
— Sim, ela está viva.
— Sim, conhece Shouto Himura.
— E não, não representa ameaça a ele… nem agora, nem no futuro próximo.
Cada frase foi colocada como um marco.
— Mas qualquer informação além disso — continuou — exige tempo. E compensação adequada.
— Quanto tempo? — perguntou Eraserhead.
— Três dias. — respondeu ela, sem hesitar. — Menos que isso compromete a precisão. E eu não trabalho com imprecisão.
Ele assentiu, uma única vez.
— Três dias.
Ela inclinou a cabeça.
— Excelente.
Levantou-se com calma, caminhando até a porta.
— Então agora, senhor herói — disse, destrancando-a — vou permitir que se retire antes que outras engrenagens do Império se interessem pela sua presença.
A porta se abriu.
Eraserhead passou por ela sem dizer mais nada.
A porta se fechou.
O silêncio permaneceu.
Sala de Reação
Ninguém falou imediatamente.
O nome ainda pairava no ar.
— …Himura?
A voz de Shouto saiu baixa, quase inaudível.
Ele estava rígido, os olhos fixos na tela apagada, como se esperasse que ela voltasse a falar — que negasse, que corrigisse.
Mas não houve correção.
Nunca havia.
— Isso não faz sentido… — murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. — Meu nome…
Ele levou a mão ao próprio peito, sentindo a respiração irregular.
Se naquele mundo…
Se lá eu não sou Todoroki…
A conclusão veio dolorosamente clara.
Ela viveu.
E escolheu.
Do outro lado da sala, Dabi não se mexia.
Não piscava.
Não respirava direito.
— Himura… — repetiu, rouco, como se testasse o som.
As mãos se fecharam lentamente.
Ela teve tempo.
Teve escolha.
E escolheu apagar o sobrenome Todoroki.
As chamas azuis ao redor dele oscilaram, instáveis, reagindo antes mesmo que ele pudesse organizar o pensamento.
— Então é isso… — murmurou, com um riso curto, quebrado. — Ela saiu.
Shouto se levantou de repente. A cadeira arrastou no chão, chamando atenção de todos.
— Não. — disse, a voz tensa, deliberada. — Ela não “saiu”.
Virou-se, o olhar duro, mas confuso.
— Ela sobreviveu.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Porque, naquele instante, tanto Shouto quanto Dabi entendiam a mesma coisa — ainda que por caminhos opostos:
Três dias não eram apenas um prazo.
Eram o intervalo entre o que foi enterrado
e o que estava prestes a voltar à superfície.
