Chapter Text
Traços e mais traços, a persistência de se provar bom em algo, em qualquer coisa, papéis e arquivos não terminados, nada parecia suficiente. Muitos hobbies, nenhuma consistência.
No papel rabiscava contornos de rostos que jamais viu, muitas referências abertas na tela do seu computador, mas mesmo assim não parecia ser o suficiente, porque ele não era bom nisso? Porque via as artes dos outros e se comparava tanto? As outras artes eram muito melhores que as dele, porque ele não conseguia?
Era frustrante, irritante não conseguir reproduzir o que se mostrava na mente.
Mais um papel sendo amassado e arremessado na pilha que se formava no canto da lixeira.
Pomba pega seu celular e se joga na cama, frustrado, rola a tela nas redes sociais. Devia ser quase oito da noite, sua barriga roncava de fome, não tinha comido nada além de uns biscoitos que estava na mesa há alguns dias.
Relutantemente, se levantou e se arrastou para cozinha, talvez para fazer algo para comer ou só para esticar a coluna que doía.
— Não acredito que você ainda não comeu.
A voz surge do corredor, o que acaba assustando Pomba, que se vira tão rápido para direção.
— Corvo… Que susto. Eu… vim comer agora só..
— Dá pra ver, tá tão magro que se eu assoprar, você voa.
Pomba rola os olhos de brincadeira e solta uma risadinha, Corvo apenas suspira fundo.
— Tem comida pronta na geladeira, guardei pra você.
Ele abre a porta da geladeira, lá estava um prato já feito. Pomba põe para esquentar no microondas.
— Pombinha, tem um show esse fim de semana…
Corvo começa, se sentando na mesa e olhando pro irmão.
— Vamos comigo?
— Show de quê? Se for rock… Eu não sou muito fã…
— Dá uma chance, vai. — Corvo se inclina pra frente na mesa. — Sou amigo de um dos integrantes, a gente vai ficar de camarote.
— Eu não sei… — Pomba olha pro tempo no microondas. — Eu nem conheço essa banda, qual que é?
— Psikolera, depois você pesquisa, mas vai comigo, vai ser legal.
O microondas apita e Pomba pega seu prato quente.
— Você não vai desistir né? — Pomba suspira e se senta para jantar.
— Nunca, então a gente vai. É sábado à noite, tá bom? Têm… Dois dias para se preparar. — Corvo dá um beijinho na cabeça do irmão e pega sua garrafa de água na geladeira. — Boa noite, vê se dorme.
— Boa noite… Já vou dormir.
~
O dia começa cedo para Pomba, o alarme toca irritantemente às 6:40 da manhã, ele se força a levantar e lavar o rosto. Tinha conseguido um emprego numa cafeteria, no turno da manhã, não era muito longe, mas ele sempre preferia fazer caminhos diferentes.
Um copo quase raso de café com leite e um pão com ovo foi o café da manhã escolhido.
No caminho, seus fones tocavam melodias calmas, o que na maioria era instrumental. Pegou o gosto quando começou a estudar na faculdade, era o quê acalmava e alinhava os pensamentos.
Chegou adiantado como sempre, afinal odiava se atrasar. Já tinha alguns de seus colegas de turno limpando.
Pomba guardou sua mochila e foi ajudar a limpar. Ele era responsável por entregar os pedidos e às vezes ficar no balcão, o que não era problema nenhum para ele. De fundo, tocava bem baixinho música da rádio da cafeteria.
Seu turno era das 7:30 até as 4 da tarde, com uma pequena pausa pro almoço e lanche durante o período. Trabalhar lá não era complicado, normalmente era bem calmo e tranquilo e ele podia ficar sentado em alguns cantos, limpava uma mesa e outra ali.
~
No fim do turno Pomba comprava todos os dias pedaços de bolos e pães pros irmãos, o sol estava começando a descer. Com duas sacolinhas na mão ele mexia no celular e colocava o fone para ir embora para casa.
Pomba se vira muito rápido sem olhar e acaba esbarrando em alguém.
— Ai… Desculpa. — Pomba se desculpa rapidamente sem olhar pro rosto da pessoa e anda mais apressado, sem dar tempo da outra pessoa responder.
Ele ajeita o fone nos dois ouvidos e segue algum outro caminho para casa.
~
— Cheguei… — Pomba anuncia baixinho, como se fosse só pra se auto lembrar que estava ali.
Vindo da cozinha, dava para ouvir risadas e conversas meio embaralhadas. Pomba caminha e é recebido pelos irmãos. Ele deixa as sacolas com lanche na mesa.
— Tudo bem, Pomba? Como foi seu dia? O trabalho foi cansativo? — Coruja sempre perguntava, gostava de saber como o irmãozinho estava, era sempre o mais cuidadoso.
— Tudo bem… O mesmo de sempre, foi tranquilo o dia.
Coruja faz um carinho leve nos cachos de Pomba.
— Que bom, já comeu? Quer um chá? Eu sei que sim. — Ele dá uma risadinha e entrega o copo enrolado no paninho para não esfriar tão rápido. — Toma aqui é de lavanda.
— De lavanda? Porque? — Pomba segura a xícara com cuidado e cheira o aroma doce, Coruja provavelmente tinha colocado bastante açúcar.
— É pra relaxar, eu pesquisei na internet. — Coruja dá um sorriso orgulhoso de si mesmo. — E também é pra variar, você só toma camomila e cidreira.
— Eu gosto… Mas obrigado, eu vou descansar um pouco.
Pomba leva sua xícara ainda enrolada em um paninho e deixa sobre a mesa do seu quarto. Precisava de um banho rápido.
Água morna para relaxar os músculos, lavou bem o cabelo, já que não trabalharia amanhã, podia ficar até tarde fazendo o que quisesse. Se vestiu com um pijama largo e confortável. Ele liga o computador e dá uma bebericada no chá, muito doce, mas era bom o suficiente para ele.
Pomba abre o navegador e deixa aberto já o Spotify e o Twitter, se recusava a chamar de ‘xis’, ele começa a sua pesquisa sobre aquela banda que Corvo iria arrastar ele no dia seguinte para o show.
A pesquisa mostrava a conta oficial nas redes sociais deles, músicas e reportagens. Uma banda de rock ou era metal? Pomba não sabia dizer a diferença, eles usavam máscaras e as roupas pareciam camisas de força, saindo direto de um manicômio.
O design era interessante, Pomba passou um tempo analisando, talvez ele pudesse tirar isso como inspiração.
Ele toma outro gole do chá, não parecia tão doce agora, estava morno, mas isso não era um problema para ele. Pomba pega uma folha em branco e um lápis e começa a rabiscar bem de fraquinho. Não sabia quanto tempo se passou, se concentrou tanto que só percebeu quando foi beber o chá e tinha acabado, Pomba suspira e se levanta, se esbarrando em Corvo que estava como um espírito vendo ele desenhar.
— Caral… Caramba… Que susto. — Pomba choraminga um pouco, fazendo beicinho. — Vou ter um ataque do coração se você continuar fazendo isso.
Corvo ri dele. — Eu te chamei, mas cê tava tão focado.
— Ah… Eu não ouvi, o que era?
— Te chamei para jantar, né? São oito horas já.
Pomba olha rapidamente pro relógio no canto da tela do computador.
— Eu nem percebi.
— É, eu percebi. Você gostou dos Psikolera é? Tá desenhando tão bonitinho. — Corvo analisa o desenho, com um olhar orgulhoso do irmão.
— Eu gostei da estética, só isso… Achei diferente.
Corvo deixa o papel desenhado sobre a mesa de novo e puxa Pomba pela mão para a cozinha.
— Você vai gostar mais pessoalmente, eles são muito legais e a música é foda pra caralho.
— É… Não ouvi as músicas deles…
— Deveria, ouve depois, vai que você gosta por algum acaso.
Corvo serve o prato de Pomba, quente dessa vez e um pra ele mesmo.
— Hum? Você não tinha jantado?
Corvo nega com a cabeça. — Acho ruim você comer sempre sozinho. — Deu de ombros e se sentou com o irmão. Era uma janta simples, macarrão com abóbora e bife de hambúrguer.
Pomba dá um sorrisinho de contentamento.
— Vou tentar comer com todo mundo, não precisa me esperar. — Ele dá umas garfadas rasas, aproveitando o sabor da comida. — Eu fico um pouco distraído às vezes.
— Eu sei. — Corvo já estava quase terminando o prato. — Você podia, sei lá, publicar seus desenhos?
— Não sou tão bom assim… — Pomba suspira um pouco triste e conformado.
— Claro que é, Pomba, cê desenha pra caralho!
— Mas tem gente melhor…
— Foda-se, ninguém faz como você. — Corvo se recosta na cadeira, cruzando os braços. — Seu traço, seu desenho, sua arte é só sua, ninguém vai fazer igual.
Pomba levanta o olhar pro irmão.
— É só minha sugestão, faz assim, termina o desenho que tava fazendo da banda e posta do Twitter…
Ele abre a boca para protestar, mas Corvo fala antes.
— Se não der em nada, você apaga, simples assim. — Corvo se levanta e pega dois copos e enche de suco.
Pomba leva um tempo para terminar de comer, enquanto trocava palavras com seu irmão. E como era tarde, ele resolveu fazer uma garrafa de chá, misturou camomila e hibisco, gostava de experimentar os sabores que podia.
Da porta do quarto de Pomba, Corvo aparece uma última vez à noite.
— Amanhã é às sete da noite, tá bom? Então descansa… E posta seu desenho, vou compartilhar também pra mais pessoas verem. — Ele dá uma risada meio maléfica. — Boa noite, Pombinha.
— Tá… As sete… Boa noite, Corvo.
Postar o desenho, ele olha pro rabisco na folha em cima da mesa, a luz refletindo todas as imperfeições que ele imaginava ver. Pomba pega a borracha e levemente passa sobre o papel, deixando bem claro para desenhar mais firme e melhor por cima.
Ele bocejava quando finalmente terminou, não estava perfeito como queria, como imaginou, mas ele decidiu seguir o conselho do irmão. Suspirou e bateu uma foto de cima, ainda não acreditando na vergonha que podia passar.
Pomba abre o Twitter e começa a escrever.
“É só um rabisco da banda Psikolera… 📎 anexo”
É pública.
Pomba rapidamente fecha o Twitter para não ver se alguma ou nenhuma notificação vai chegar. Ele abre um vídeo qualquer no computador só para se distrair com a mente puxando para ele checar, não iria, estava com vergonha.
Ele desliga o computador, escova os dentes e se deita para dormir, ou pelo menos tenta pelas primeiras horas.
Pomba acorda um pouco mais tarde, era sábado afinal. Ele esfrega os olhos e pega o celular, esquecendo completamente do post da noite no dia anterior. A hora no celular marcava 8:16, ainda era cedo, seus olhos desceram um pouco, muitas notificações do Twitter. Ele se sentou muito rápido. Abriu o aplicativo do Twitter e tinha muitos likes e comentários.
Aquilo fez o coração dele bater mais rápido, mas não sabia o porquê, podia ser muitas coisas, ansiedade, felicidade, medo? Ele ligou rápido o computador e se sentou, abrindo o post, tinha mais de mil likes e comentários, muitos reposts. Pomba lia com antecipação cada comentário, esperando já algo negativo, o que para a surpresa dele, não havia, só pessoas elogiando e falando o quão bom ele era. Até ganhou mais alguns seguidores, que ele seguiu de volta sem prestar atenção.
Pomba pegou o celular e foi direto pro quarto de Corvo, bateu na porta de leve antes de entrar. O irmão estava na cama ainda mexendo no celular.
— Corvo! Bom dia… — Ele entra no quarto do irmão sem esperar que responda.
O quarto de Corvo tinha uma estética meio gótica, as paredes pintadas de preto e uns detalhes de roxo escuro, posters de banda de rock/metal, roupas espalhadas pelos cantos, acessórios com espinhos…
— Bom dia, Pombinha… — Corvo boceja ainda acordando.
— Então, ontem eu postei o desenho como você tinha falado… E muita gente viu… O que é meio estranho… Mas eles gostaram.
Pomba gira o celular para mostrar as mensagens pro irmão.
— Eu já sabia, eu falo pra você, tem que confiar mais em mim. — Corvo sorri orgulhoso vendo as mensagens.
Pomba suspira com um sorrisinho leve de canto.
— Eu confio… É só que… Eu não sei explicar direito…
Corvo puxa o irmão para deitar junto na cama, igual fazia quando eram pequenos.
— Escuta, você é foda pra caralho, quem diz o contrário é um otário, entendeu?
— Não é pra tanto…
— Claro que é, você é meu irmão, pra mim você vai ser sempre incrível.
Pomba sorri mais um pouco.
— Sabe o que vai ser mais incrível?
— O que?
— Nós dois no show mais tarde, tô animado pra ir, aliás, você ouviu as músicas?
O rosto de Pomba cora um pouco de vergonha.
— Eu esqueci… Vou ouvir agora, tá? É… Vou fazer o café da manhã antes.
Pomba se adianta, indo rapidamente para cozinha. Seus irmãos ainda dormiam, então ele começa a esquentar a água para coar o café. Ele põe a mesma medida sempre, meia xícara de açúcar para um litro de café, não fica tão amargo e nem tão doce.
Aos poucos os outros acordam, Corvo se sentava e mexia no celular enquanto Pomba cortava as fatias do pão que havia trago no dia anterior. Coruja aparece logo depois, dando um cafuné nos dois, Papagaio e Harpia acordam por último. Harpia se senta com um grunhido de velho, dando a desculpa que estava com dor, mas isso já fazia meses.
Os cinco tomam café da manhã juntos, mesmo sendo quase dez da manhã, não importava, era bom ter a família reunida.
~
— Bora Pomba, escolhe uma roupa mais rock, sabe? Metal! — Corvo se sentava na cama de Pomba enquanto tentava arrumar alguma roupa que coincidisse com o show, ele fazia sinal de rock com a mão.
— Eu não acho que eu tenha roupa “mais rock”, Corvo… Posso ir com… Essa bermuda preta e… Essa blusa?
— Não é o suficiente, peraí, vou pegar alguma coisa no meu quarto.
Corvo sai por uns minutos, até retornar com roupas que Pomba jamais pensaria em usar. A calça era completamente rasgada, daria para ver muito das suas pernas, talvez tudo, era mais fácil ir sem calça do que usar aquilo. A blusa era quase da mesma forma, tinha tantos panos e amarrações que Pomba se questionou o porque de Corvo ter aquelas roupas.
— Não tem nada… Inteiro? Ou mais normal?
— É um show de metal, esse é o mais normal.
Pomba se olha no espelho nada feliz com o resultado, ele troca a calça pela sua bermuda larga e preta, mas mantém a parte de cima, não podia chamar aqueles panos de blusa. Colocou um coturno e estava pronto. Corvo o olhava feliz.
— Agora sim, vamos?
— É… Vamos…
