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Leandro deixou o celular escorregar das mãos, caindo no colchão com um som abafado. Um suspiro pesado escapou de seus lábios enquanto ele se jogava de costas, fixando o olhar no teto. Mais uma conversa desconfortável com seu pai havia terminado — uma entre tantas. Como sempre, o homem parecia ter outras prioridades, mais importantes do que o próprio filho. Às vezes, Leandro se perguntava por que ainda insistia.
Por que continuava tentando melhorar uma relação que parecia fadada ao fracasso? Por que buscava algo que parecia impossível? Por que...?
Ele afastou os pensamentos antes que se afundassem ainda mais em sua mente. Recolheu novamente o celular e os fones de ouvido. Escolheu uma música qualquer e saiu de casa. Lamentar não mudaria nada, ele sabia disso. Pensar em seu pai de merda só o machucaria mais, e ele já estava cansado de sentir dor. Ajustou o capuz sobre a cabeça e começou a caminhar sem rumo, deixando as ruas escuras e frias acolherem seu silêncio.
Não queria pensar. Não queria pensar nos problemas, nas inseguranças, ou em seu pai. Por um instante, deixou que a música em seus ouvidos abafasse tudo — as dúvidas, os "por quês", o constante sentimento de insuficiência que parecia acompanhá-lo como uma sombra. Estava exausto de tentar. Exausto de sentir que nada era suficiente, que nenhum esforço bastava para seu pai.
A única coisa que desejava era um momento de paz, por menor que fosse.
Era patético, ele sabia. Passava os dias lidando com cadáveres como legista, mas bastava um simples problema familiar para desestabilizá-lo. Havia algo mais patético do que isso?
Leandro apertou os punhos dentro do bolso do casaco. O vento frio cortava sua pele, mas ele não se importava. Na verdade, o desconforto físico era quase um alívio, uma distração dos pensamentos que teimavam em retornar. "Talvez eu devesse simplesmente parar de tentar", pensou. A ideia já havia passado por sua cabeça outras vezes, mas nunca parecia concreta. Era como um eco distante, algo que ele nunca teve coragem de tornar real.
Ele então parou abruptamente, se vendo diante de uma porta. Seus passos sem rumo haviam o levado até lá. Ele não precisou observar a rua ou a fachada da casa por muito tempo para reconhecê-la: era a residência de seu namorado. Seus dentes apertaram os lábios inferiores, hesitando. Deveria bater? Estava tudo bem aparecer assim, a essa hora? Seria um incômodo? Ele realmente deveria despejar seus problemas em alguém? Não seria egoísmo? Talvez...
— Lê? — uma voz familiar cortou seus pensamentos, arrancando-o de seus pensamentos com um sobressalto. Leandro virou-se rapidamente na direção do som. Ali, a poucos passos de distância, estava Ricardo, seu namorado.
Ricardo tinha o rosto contorcido em uma expressão confusa. Seus lábios entreabertos puxavam o ar pesadamente, como se lutasse para recuperar o fôlego. Suor escorria por sua testa, e a blusa molhada colava em sua pele. Leandro deduziu que ele devia ter feito uma corrida noturna.
— O que você tá fazendo aqui, Lê? — Ricardo perguntou, aproximando-se com um sorriso leve, quase despreocupado.
Leandro engoliu em seco, desviando o olhar.
Em um dia comum, ele teria feito alguma piada sarcástica, mantendo a essência que sempre existira entre eles, mesmo antes do namoro. Em um dia comum, ele conseguiria esconder o que sentia e fingir que estava tudo bem. Mas aquele dia estava longe de ser comum. Seu pai fora ainda mais evasivo do que de costume, mais frio, mais distante. O dia dos pais estava se aproximando, e tudo o que Leandro queria era algo simples: passar aquele dia ao lado do pai. Apenas isso.
Ele sentiu os dedos trêmulos, apertando mais o punho dentro do bolso do casaco. Algo quente escorreu por seu rosto, enquanto ele ergueu os olhos. O sorriso de Ricardo desaparecera, substituído por um olhar de preocupação silenciosa.
Ricardo se aproximou mais, seus passos firmes e suaves ao mesmo tempo, como se soubesse exatamente o que Leandro precisava sem que ele precisasse dizer uma palavra. Parou ao seu lado e segurou seu rosto com delicadeza, os dedos percorrendo a pele com cuidado. Observou-o com paciência, os olhos atentos, enquanto limpava as lágrimas que escorriam por suas bochechas. Com um gesto quase imperceptível, passou o polegar sobre seus lábios e sussurrou:
— Lê, você tá se machucando assim. Solta, por favor?
A voz de Ricardo era baixa, cheia de ternura, e o aperto no peito de Leandro aumentou. Ricardo era bom demais para si... Ele obedeceu, liberando os lábios presos, e foi recompensado com um sorriso suave.
— Você sabe que pode falar comigo, né? — Ricardo continuou.
Leandro respirou fundo, ainda hesitando. O peso das palavras que ele guardava havia muito tempo parecia estar prestes a se derramar, mas ele não sabia por onde começar. Não queria ser um fardo. Não queria que Ricardo visse o lado frágil dele, aquele lado que ele sempre se esforçava tanto para esconder.
— Eu... — Leandro começou, a voz vacilante, mas parou, engolindo em seco. Os pensamentos se embolavam, como se fosse impossível formar uma frase coesa.
Ricardo, como sempre, esperava sem pressa. Com um gesto suave, ele usou a outra mão para segurar a de Leandro, deixando um leve beijo nas costas dela. Era o apoio silencioso de alguém que estava ali, pronto para segurar o peso da sua dor sem julgamentos.
— Não precisa explicar tudo agora se não quiser, Lê. — Ricardo disse, com um tom tranquilo. — Se quiser, podemos apenas entrar e ficar juntos na cama. Não tem pressa.
Leandro sentiu o nó em sua garganta apertar ainda mais. Ele olhou para Ricardo, seus olhos ardendo, e pela primeira vez naquela noite, ele se permitiu um momento de vulnerabilidade. Deixou que a dor, a frustração, a raiva e a tristeza se misturassem, tudo vindo à tona de uma vez só. Lágrimas rolavam com mais intensidade e seus lábios tremeram.
— Eu só queria que meu pai... — ele começou, a voz quebrando, mas não conseguiu continuar. A garganta estava fechada. Ele se sentia estúpido por ainda esperar algo de seu pai, como se fosse possível reparar anos de negligência em um único dia.
Ricardo ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos em Leandro, e então deu um passo à frente. Ele envolveu Leandro em um abraço, sem pressa, sem expectativas. Apenas oferecendo conforto. Em um dia comum, Leandro reclamaria de Ricardo o abraçando suado, mas ele precisava daquilo naquele momento. O calor do corpo de Ricardo foi um abrigo contra o turbilhão de pensamentos e sentimentos que Leandro não sabia mais como controlar.
Leandro se permitiu ficar ali, nos braços de Ricardo, por mais tempo do que gostaria de admitir. O tempo parecia desacelerar, e, por um breve momento, ele se esqueceu do que estava acontecendo dentro de si. Esqueceu do pai, da dor, das expectativas. Só havia o agora, o abraço, a sensação de que talvez, só talvez, ele não precisasse carregar o peso do mundo sozinho.
— Tá tudo bem, Lê. — Ricardo murmurou, a voz suave e reconfortante.
Leandro sentiu os olhos se encherem de lágrimas novamente, mas, dessa vez, ele não se importou. Ele se entregou ao momento, àquele pequeno alívio que só a presença de Ricardo pode oferecer.
— Eu... — Leandro não soube o que dizer. Talvez nem fosse necessário dizer nada. O simples fato de Ricardo estar com ele, parecia o suficiente.
Aos poucos, a respiração de Leandro foi se estabilizando, e ele sentiu seu corpo relaxar contra o de Ricardo.
— Vamos entrar? — Ricardo sugeriu em um sussurro, ainda segurando Leandro. Não era uma pergunta insistente, mas uma oferta gentil, como se soubesse que Leandro precisava de um espaço seguro, longe da escuridão da rua e do frio que parecia refletir sua confusão interna.
Leandro hesitou por um momento antes de assentir, um movimento quase imperceptível. Ricardo se afastou apenas o suficiente para abrir a porta, puxando Leandro para dentro com delicadeza. O interior da casa era acolhedor, com luzes suaves e um cheiro familiar. Era um contraste imediato com o peso e a frieza que Leandro sentira caminhando nas ruas.
Ricardo soltou um pequeno suspiro e apontou para o sofá.
— Senta aí. Vou pegar um chá pra gente. — ele sorriu antes de desaparecer pela cozinha.
Leandro sentou-se lentamente, olhando ao redor. A casa de Ricardo sempre o fazia sentir-se estranhamente em paz, como se estivesse em um refúgio onde o caos do mundo não pudesse alcançá-lo. Ele passou as mãos pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos, mas desistiu. Não fazia sentido lutar contra algo tão turbulento.
Pouco tempo depois, Ricardo voltou com duas canecas de chá fumegante. Ele se sentou ao lado de Leandro, entregando-lhe uma das canecas antes de puxar um cobertor que estava no encosto do sofá e jogá-lo sobre os dois.
— Melhor? — ele perguntou, a expressão cheia de ternura.
Leandro assentiu novamente, soprando o chá antes de dar um gole. O calor percorreu seu corpo, afastando um pouco do frio que parecia ter se alojado em seu peito.
— Eu me sinto tão idiota. — Leandro murmurou finalmente, quebrando o silêncio.
Ricardo franziu o cenho, mas permaneceu em silêncio, permitindo que Leandro continuasse.
— Eu fico me importando tanto com alguém que claramente não se importa comigo. Ele... ele não liga, sabe? E mesmo assim, eu continuo tentando, como se algum dia ele fosse... sei lá, mudar. — a voz de Leandro tremeu, e ele desviou o olhar. — Acho que eu só queria que ele me visse. Que me enxergasse de verdade.
Ricardo pousou a caneca com cuidado na mesa de centro, inclinando-se em direção a Leandro. Com delicadeza, tocou sua mão, apertando-a levemente, enquanto a outra subia até o rosto dele, acariciando suas bochechas com ternura.
— Lê, você não é idiota por querer amor. Não é idiota por esperar que ele fosse... diferente. Você não pode controlar o que ele faz ou sente, mas isso não significa que o que você sente é inválido. — Ricardo fez uma pausa, os olhos fixos nos de Leandro. — Mas você não precisa fazer isso sozinho. Eu tô aqui, sempre vou estar. Pra você, do jeito que você precisar.
As palavras de Ricardo penetraram a barreira que Leandro havia erguido ao longo dos anos. Ele sentiu o nó na garganta afrouxar um pouco, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu que não estava carregando aquele peso sozinho.
— Obrigado. — Leandro disse, a voz quase inaudível, mas cheia de gratidão.
Ricardo sorriu, passando um braço ao redor de Leandro e puxando-o para mais perto. Eles ficaram ali em silêncio, o calor do chá e do cobertor os envolvendo. Era um momento simples, mas cheio de significado. Leandro percebeu que ele tinha alguém que estava disposto a preencher a ausência de seu pai com carinho e paciência. E isso, pelo menos por enquanto, era o suficiente.
