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Enquanto Hawkings respira.

Summary:

Hawkins ainda tenta se reconstruir depois da queda.
Entre silêncios longos e verdades contidas, Mike Wheeler e Will Byers aprendem a se reconhecer um no outro, com medo, cuidado e uma honestidade que não pode mais ser evitada.
Enquanto a cidade respira, eles aprendem a fazer o mesmo.

Notes:

Enquanto Hawkins Respira fala sobre silêncio, sobre coisas não ditas e sobre o peso de existir nos anos 80 sendo quem você é.

Essa é minha primeira fanfic, então perdoem os erros e os tropeços pelo caminho. Espero que vocês gostem. Estarei lendo todos os comentários.

Chapter 1: O que ficou.

Chapter Text

O medo não era novo.

O que assustava Will era saber que Vecna o conhecia tão bem.

Ele sentia o coração bater rápido demais, como se estivesse tentando fugir do próprio peito. As mãos tremiam, mesmo apoiadas no tecido do sofá. O ar parecia pesado, difícil de atravessar os pulmões. Ele já tinha enfrentado monstros, outras dimensões, mas nada disso se comparava àquele instante.

Porque aquilo… aquilo era dele.

Vecna usara seus medos contra ele. Seus segredos. Aquilo que ele sempre enterrou fundo demais para que ninguém visse. E Will sabia: se quisessem derrotá-lo, ele não podia continuar tendo medo disso. Não podia continuar fingindo que não existia.

— Mãe… — a voz saiu fraca, quebrada antes mesmo de completar a frase.

Joyce levantou o olhar imediatamente. O jeito como Will estava sentado, curvado sobre si mesmo, fez o estômago dela revirar. Ela largou o que estava fazendo e se aproximou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse fazê-lo desaparecer.

— O que foi, meu amor? — perguntou, já assustada. — Você tá passando mal? Tá sentindo aquela coisa de novo?

Will negou com a cabeça, mas o gesto foi pequeno, inseguro. Ele respirou fundo uma vez. Duas. Nenhuma delas ajudou.

— Eu… eu preciso te contar uma coisa. — Ele esfregou as mãos nos joelhos, os dedos inquietos. — E eu tô com muito medo.

O rosto de Joyce empalideceu.

— Medo do quê, Will? — a voz dela saiu mais alta do que pretendia. — É o Vecna? Ele voltou a falar com você?

Will fechou os olhos por um segundo. O nome ainda ecoava como um aviso constante.

— Não… quer dizer, sim. Mas não é só isso.

Antes que ele pudesse continuar, a porta se abriu.

— Ei! — a voz de Mike veio da sala, apressada. — A gente tem que ir agora, o caminhão já vai sair..

Ele parou ao perceber o clima. O silêncio. Joyce com os olhos marejados. Will respirando como se estivesse prestes a quebrar.

Will estava de pé, respirando errado, os olhos brilhando de lágrimas que ele claramente tentava segurar. As mãos tremiam. O corpo inteiro parecia tenso demais para aquele espaço pequeno.
Mike sentiu o estômago afundar.

Não era só preocupação. Era algo mais fundo, mais instintivo. Um medo seco de que Will estivesse prestes a se quebrar ali, na frente de todo mundo. E, junto disso, veio uma vontade quase física de atravessar a sala e protegê-lo de qualquer coisa, até dele mesmo.

— Will… — ele chamou, sem perceber que tinha dado um passo à frente.

Will levantou o olhar por um segundo, e foi o suficiente. Mike viu o desespero ali. A ansiedade crua. O tipo de medo que não vinha de monstros ou do Upside Down, mas de dizer algo que não dava mais pra desdizer.

Alguns segundos depois, Jonathan apareceu atrás de Mike, como se tivesse vindo chamar os outros também.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, já atento, o olhar indo direto para o irmão.
Will respirou fundo, como se estivesse se obrigando a não recuar, levantando rápido até demais, quase derrubando o próprio equilíbrio.

— Na verdade… — a voz saiu fraca, mas decidida. — Que bom que vocês chegaram.

Jonathan não disse nada, mas entrou na sala. Um pouco mais devagar. Um pouco mais perto. Como quem já sabia que ia precisar estar ali.

Mike ficou onde estava, ainda sentindo aquele impulso estranho no peito. Aquela necessidade de ficar. De não sair dali por nada.

Will se sentou de novo, devagar, como se o corpo estivesse pesado demais para obedecer. O coração ainda batia rápido, mas agora havia uma decisão ali. Ele não ia parar.

— Eu sempre tentei ser… normal — começou. — Igual aos outros garotos.

A voz saiu baixa, mas constante.

— Eu gostava das mesmas coisas. De jogar, de andar de bicicleta, de ir ao cinema, de rir com vocês. Eu nunca menti sobre isso. Nunca fingi gostar dessas coisas. Eu realmente gostava.

Joyce deu um passo à frente, atenta a cada palavra, como se tivesse medo de perder alguma.

— Mas mesmo quando eu tava rindo… — Will continuou — tinha alguma coisa errada. Não errada no sentido de ruim. Só… diferente. Como se todo mundo tivesse recebido um manual que eu nunca tive.

Ele respirou fundo, os dedos se apertando um no outro.

— Eu olhava pros outros garotos e pensava: eu sou igual. Mas ao mesmo tempo eu sabia que não era. Que tinha algo em mim que não encaixava do jeito que deveria. E quanto mais eu tentava ignorar isso, mais errado eu me sentia.

Jonathan se aproximou um pouco mais, ficando ao lado do sofá, fechando os olhos por um segundo. Ele conhecia aquele tom. Aquela hesitação. Conhecia o irmão melhor do que qualquer um ali.

Mike permanecia em pé, como se não soubesse onde colocar o corpo, os braços, os olhos. Ele só observava.

— Mas não passou.

Houve um silêncio pesado.

Will levantou o rosto devagar, como se estivesse se obrigando a encarar aquilo até o fim.

— Eu não gosto de garotas.

Joyce reagiu no mesmo instante. Ela se aproximou e envolveu Will num abraço forte, puxando-o contra o peito, uma mão firme nas costas, a outra segurando seu braço, como se estivesse dizendo eu tô aqui, você não tá sozinho.

— Não, meu amor — ela disse, com a voz embargada, mas segura. — Você nunca esteve errado. Nunca. Nada em você é errado.

Will fechou os olhos, deixando as lágrimas caírem agora, sem tentar impedir.

Jonathan respirou fundo e falou, baixo, quase como se fosse só para o irmão ouvir:

— Eu já sabia.

Will abriu os olhos, surpreso.

Jonathan deu um meio sorriso triste, cheio de carinho.

— Não porque você disse. Mas porque eu te conheço. — e se juntou ao abraço.

Joyce apertou o abraço por um segundo a mais, como se quisesse proteger o filho de todos os anos em que ele acreditou que precisava se esconder.

E, alguns passos atrás, Mike observava tudo em silêncio.

O nó no peito dele apertava cada vez mais.

Porque ver o Will assim, vulnerável, tremendo, finalmente dizendo algo que parecia ter pesado a vida inteira, despertava nele um medo estranho. Um medo de perder. E uma vontade quase desesperada de proteger, de ficar, de não ir embora.

E ele ainda não sabia por quê.

O abraço de Joyce foi se afrouxando devagar. Will enxugou o rosto com as costas da mão, respirando fundo, tentando se recompor. Quando abriu os olhos de novo, o olhar dele atravessou a sala quase sem querer.

Parou em Mike.

Mike ainda estava em pé, exatamente onde tinha ficado desde que entrou. Ele não desviou o olhar. Não conseguiu.

— Eu… — Will começou, a voz mais baixa agora. — Eu precisava que você estivesse aqui.

O silêncio ficou mais denso.

— Não porque você seja mais importante que o resto deles — ele se apressou em dizer. — Mas porque você foi o primeiro. Meu primeiro amigo de verdade. Antes de tudo.

Mike sentiu algo apertar no peito.

Will engoliu em seco, mantendo os olhos nele, como se fosse impossível olhar para qualquer outro lugar.

— Você sempre esteve comigo. Desde o começo. — Um sorriso pequeno, quase triste, apareceu. — Então não faria sentido fazer isso sem você.

Mike sentiu o mundo se estreitar ao redor deles.

Ele tentou responder alguma coisa. Qualquer coisa. Mas as palavras não vieram. O que veio foi uma onda quente de proteção, de carinho, de medo de perder algo que ele nem sabia quando tinha se tornado tão essencial.

Ele deu alguns passos à frente antes mesmo de perceber.

Quando se deu conta, já estava abraçando Will.

Não foi um abraço contido. Foi forte, inteiro, como se ele estivesse tentando passar tudo o que não conseguia dizer com palavras. Will correspondeu quase imediatamente, se agarrando à camiseta de Mike por um segundo a mais do que o necessário.

— Você não tá sozinho — Mike disse, finalmente, a voz baixa, próxima demais do ouvido dele. — Nunca esteve. Eu tô aqui. Sempre.

Will respirou fundo contra o ombro dele, e por um instante, tudo pareceu menos pesado.

Mas enquanto segurava o melhor amigo daquele jeito, Mike sentiu algo estranho se mover dentro dele.

Não era só alívio.

Não era só amizade.

Era uma sensação nova, inquieta, que ele não tinha tempo, nem espaço, para entender agora.
Porque ainda havia uma batalha pela frente.

Ainda havia Vecna.

Ainda havia o mundo em risco.

E algumas coisas, mesmo quando finalmente despertavam, precisavam esperar.

 

Três semanas depois, Hawkins ainda parecia um lugar que tinha acordado de um pesadelo sem lembrar direito do sonho.

Mike pensava nisso enquanto observava a rua pela janela do quarto. As rachaduras tinham sido isoladas. Tampões improvisados, caminhões do governo indo e vindo, homens fardados demais para uma cidade pequena demais. Oficialmente, nada do que aconteceu tinha nome certo.

A desculpa era simples. Um desastre geológico. Um colapso do solo causado por falhas antigas, somadas a um incêndio químico mal explicado. Os militares ajudaram na evacuação, no resgate, na contenção. Foi isso que disseram às pessoas. Foi isso que ficou.

Talvez fosse mais fácil assim.

Eles tinham tirado as crianças do Mundo Invertido aos poucos. Com pressa, com medo, com ordens gritadas por rádios que ninguém entendia direito. Mike lembrava do barulho dos helicópteros, da lama grudando nas botas, da sensação constante de que, se errasse um passo, tudo poderia desmoronar de novo.

Mas não desmoronou.

Jane sobreviveu.

Não saiu ilesa, ninguém saiu , mas estava viva. Mais silenciosa, mais cansada, porém ali. Mike não pensava muito nela ultimamente. Não como antes. O sentimento tinha mudado de forma, como coisas que pertencem ao passado e encontram um novo lugar para existir.

Cada um seguiu como pôde.

Dustin continuou em casa, reclamando do tédio, fazendo piadas demais para alguém que quase morreu. Robin e Steve mantiveram a rádio funcionando, agora como uma espécie de ponto de apoio improvisado. Informação, companhia, música antiga no meio do caos. Era a cara deles.

Max ficou com a mãe. A casa tinha sido danificada demais, então acabaram indo para a do Lucas. Não era perfeito, mas era seguro. Às vezes, Mike via Max sentada no sofá, encarando o nada, como se ainda estivesse presa em algum lugar que ninguém mais conseguia alcançar completamente.

Will não voltou para a antiga casa.

Ele ficou com Joyce, Hopper e a Eleven. Um recomeço disfarçado de necessidade. Mike entendia isso mais do que gostaria. Algumas casas guardavam memórias demais para serem habitáveis.

Quanto a ele, voltou para casa com a Nancy. Os pais ainda estavam se recuperando, mas já tinham alta. Hawkins inteira parecia um grande hospital a céu aberto. Pessoas tentando voltar a rotinas que já não encaixavam direito.

À noite, quando o silêncio ficava pesado demais, Mike pensava no Will.

Pensava no jeito como ele tinha falado. No olhar. No abraço. Na sensação estranha que aquilo tinha deixado para trás.

Nada tinha mudado oficialmente entre eles. Não havia conversas pendentes, promessas ou explicações. Só uma presença constante, mesmo à distância. Uma certeza silenciosa de que algo tinha sido dito e algo tinha sido sentido.

E talvez fosse isso que mais o inquietava.

Porque agora que o mundo não estava acabando, não havia mais desculpa para ignorar o que tinha despertado.

Mas algumas coisas precisavam de tempo.

A casa dos Wheeler ainda não tinha voltado ao normal.

Talvez nunca voltasse do mesmo jeito.

O cheiro de hospital ainda pairava no ar, misturado com comida simples demais e silêncio demais. Karen andava pela casa com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse desfazer aquele frágil equilíbrio. Ainda estava pálida, mais magra, os ombros tensos, alerta mesmo sentada.

Ted ocupava a mesma cadeira de sempre, de frente para a televisão ligada num volume baixo demais. A perna enfaixada estendida, o braço ainda roxo. Ele parecia menor ali, mais curvado, como alguém que tinha sobrevivido a algo que preferia não entender.

Holly brincava no tapete da sala, mas não estava realmente distraída. De vez em quando, olhava para os adultos, como se tivesse medo de que alguém sumisse de novo.

— Então… — Mike começou, parado perto da mesa. — Aquela coisa… o Demogorgon… não era um animal comum.

Karen ergueu o olhar imediatamente.

— Como assim?

Mike respirou fundo.

— Ele vinha de outro lugar. Um mundo que existe junto com o nosso. Meio… por cima. Por baixo. É difícil explicar.

— Um lugar escuro — Nancy completou, com cuidado. — Frio. Como se tudo estivesse… errado.

— Igual quando a luz acaba?

Mike assentiu.

— É. Igual isso.

Karen apertou os dedos ao redor da xícara.

— Foi lá que vocês acharam ela… — disse, a voz falhando. — A Holly.

— Foi — Mike respondeu. — Mas ela não ficou sozinha.

Não queria explixar sobre o abismo para ele, sabia que seria muita coisa para digerir.

Ted pigarreou, sem tirar os olhos da TV.

— E os soldados? — perguntou. — Porque isso não aparece numa cidade assim sem motivo.

— Eles já sabiam de alguma coisa — Mike disse. — Ajudaram a tirar as pessoas. A fechar as áreas. A inventar… uma versão.

— Inventar? — Karen repetiu, tensa.

— Pra cidade — Nancy disse. — Disseram que foi um desastre. Incêndio. Falha no solo.

Karen ficou em silêncio por alguns segundos. Depois pousou a xícara na mesa com cuidado demais, como se as mãos ainda não confiassem totalmente nela mesma. Quando falou, a voz saiu mais baixa.

— Eu fico pensando… — ela começou. — Em quantas vezes vocês saíram por aquela porta e eu achei que estavam só… vivendo. Sendo crianças.

Ela respirou fundo, os olhos marejados.

— E vocês estavam passando por tudo isso sozinhos. — Um sorriso triste apareceu. — Eu devia ter percebido. Devia ter feito mais.

Nancy se aproximou primeiro, quase por instinto.

— Mãe… — ela disse, firme, mas gentil. — Você não tinha como saber.

Mike assentiu, sentindo o nó apertar no peito.

— A gente tentou te proteger também — ele completou. — Não era pra você carregar isso.

Karen balançou a cabeça, mas não discutiu. Só ouviu.

— Você sempre esteve lá — Nancy continuou. — Mesmo quando não entendia tudo. Isso já era suficiente.

Mike olhou para a mãe.

— Você foi uma ótima mãe pra gente. Ainda é.

Karen levou a mão à boca, os ombros cedendo por um instante. Então estendeu os braços, puxando os dois para um abraço desajeitado, apertado, cheio daquele amor meio torto, mas real.

Ted pigarreou na poltrona, sem se virar totalmente.

— Bem… — disse, tentando soar casual. — Alguém tinha que manter a casa em pé.

Holly se levantou do tapete e se juntou ao abraço, envolvendo as pernas da mãe. Karen a apertou contra si imediatamente, como se ainda estivesse conferindo se estava ali de verdade.

 

Quando Holly já estava no quarto e Karen recolhia a louça com cuidado excessivo, como se qualquer movimento errado pudesse doer, Nancy observou a sala por mais alguns segundos antes de subir o corredor.

Ela empurrou a porta do quarto dele sem bater. O quarto ainda estava do mesmo jeito: pôsteres tortos, a cama arrumada só o suficiente pra parecer que alguém tentou. Mike estava sentado na beira da cama, os cotovelos apoiados nas pernas, encarando o chão.

— Você tá bem? — ela perguntou, encostando no batente.

Mike ergueu o olhar devagar.

— Tô — disse, depois de um segundo a mais do que o necessário. — Eu acho.

Nancy entrou e se sentou na cadeira da escrivaninha, girando levemente pra ficar de frente pra ele.

— Você tem ido lá na Joyce? — Mike perguntou, desviando o assunto. — Na casa… do Hopper-Byers. Tá vendo o Jonathan? O Will?

Nancy demorou um pouco antes de responder.

— Às vezes. Mas não muito. Tá tudo… em mudança ainda.

Mike assentiu, entendendo mais do que ela dizia.

— E você? — ela perguntou. — Tem visto o Will? a El?

Mike balançou a cabeça, devagar.

— Ainda não. Tá tudo meio… estranho — ele falou, escolhendo as palavras com cuidado. — Não ruim. Só diferente. Eu sinto que deveria estar aliviado, sabe? Feliz por todo mundo estar vivo. Mas parece que eu fiquei… pra trás.

Nancy não interrompeu.

— E ver todo mundo agora… — ele continuou, a voz mais baixa. — Conversando, rindo, seguindo em frente. Eu não sei se consigo fingir que tá tudo normal ainda.

Ela respirou fundo antes de perguntar:

— E você e a El? Tá tudo bem entre vocês?

Mike apertou os dedos um no outro.

— Eu acho que sim. — A pausa entregou o contrário. — Ou pelo menos… não é sobre ela. Não só.
Nancy inclinou a cabeça, compreendendo mais do que perguntando.

— Quer ajuda? — disse, simples. — Não pra resolver. Só… pra não ficar sozinho nisso.

Ele levantou os olhos pra ela, finalmente.

— Talvez — respondeu. — Eu só não sei ainda com o quê.

Nancy sorriu de leve, daquele jeito que não força resposta nenhuma.

— Quando souber, eu tô aqui.

Ela tocou o ombro dele de leve antes de sair, deixando o Mike ali, sentado, com aquela sensação incômoda de que algo dentro dele tinha mudado e que ignorar isso não ia fazer desaparecer.
Mike apagou a luz, mas o quarto continuou acordado.

Deitado de costas, encarando o teto, ele pensou na El. Pensou nela do jeito que sempre fazia: com cuidado. Com carinho. Com aquele respeito quase reverente que nunca tinha ido embora.
Ele a admirava. Sempre admirou. A força, a coragem, o jeito como ela insistia em existir mesmo quando o mundo parecia dizer o contrário. Mas, pela primeira vez, ele deixou a pergunta passar inteira pela cabeça, sem empurrar pra longe:

Isso foi amor… ou foi outra coisa?

Eles tinham começado cedo demais. Crianças demais. Tudo tinha sido intenso desde o início, medo, perigo, promessas grandes demais pra quem ainda estava aprendendo a nomear o que sentia. Ele percebeu, agora, como muitas vezes tinha segurado a El sem querer. Como o “nós” tinha, aos poucos, engolido o “ela”.

Ela mentiu. Ele não soube dizer “eu te amo”. Eles brigaram. Se machucaram tentando acertar.
E talvez o problema não fosse falta de sentimento.

Talvez fosse o tipo errado.

Mike fechou os olhos.

Ele sentia afeição. Admiração. Um carinho profundo, quase protetor. Mas amor… amor de verdade… talvez tivesse confundido isso. Talvez tivesse tentado caber numa história que não era mais deles.

E talvez amar a El agora significasse deixá-la seguir sozinha. Encontrar um caminho que não passasse por ele. Ser alguém além do que ela foi obrigada a ser desde criança.

O pensamento doeu. Mas não soou errado.

E então, como sempre acontecia quando ele tentava organizar uma coisa, outra se impôs.
Will.

O desconforto voltou, silencioso e insistente. Não era medo. Não era culpa. Era algo diferente, algo que se manifestava no estômago, no peito, nos silêncios longos demais.

Ele pensou no jeito como Will tinha olhado pra ele. No peso daquela confiança. No fato de que tudo aquilo só tinha sido possível porque ele estava ali.

E isso… isso mexeu com ele de um jeito que não sabia nomear.

Não era igual ao que sentia pela El. Não parecia seguro, nem conhecido. Era inquieto.

Desestabilizador. Um nó que não apertava, mas também não soltava.

Mike virou de lado, puxando o cobertor.

O que quer que fosse aquilo, ele ainda não estava pronto pra entender. Só sabia que estava lá. Crescendo no silêncio. Pedindo atenção.

E talvez fosse por isso que ele estivesse evitando todo mundo.

Talvez fosse por isso que nada parecesse no lugar certo ainda.

Com esse pensamento martelando baixo, persistente, Mike finalmente fechou os olhos, não em paz, mas exausto o suficiente pra deixar o capítulo daquele dia terminar ali.

Sem respostas.

Só com a certeza incômoda de que algo dentro dele tinha mudado, e não havia como voltar atrás.