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Sangue.
Sangue escorria por toda a palma da mão de uma mão pálida, que parecia concentrada em degustar a carne de um pequeno animal. Antes de o matar, não se lembra de mais do que o necessário. Alê não sabia como, mas poderia esquecer do que quisesse a todo momento e guardar em um caixão sagrado até que, algum dia, queira saber o que tem lá. Afinal, foi uma das coisas que lhe foram abençoadas ao nascimento. Elu não tinha ideia de como...
— Alê, a gente tem que sair daqui logo meo, Apressa a fomee! — A voz aguda atrás de si apenas o apressava mais do que Alê já estava, sem dar espaço para mais nenhum pensamento. Considerando que estavam em uma floresta exposta no meio da madrugada, o barulho era muito mais do que escandaloso.
Alê revirou os olhos, e o pouco que conseguia discernir com seu tato era que o líquido carmesim já havia sido completamente drenado. Elu não lembrava ao certo o porquê de estar tão sedenta, mas a fome que o seguia estava começando a se tonar insuportável - apesar delu costumar aguentar dias sem comer.
— Você espera que a gente vá pra onde? — Em meio aos escândalos de Cindy, Alê a interrompeu ao se levantar. Costumava falar sussurrando, e isso sempre obrigava Cindy a se manter quieta para poder ouvir as raras palavra que saiam dos lábios de Alê.
Cindy se mantém em silêncio por alguns segundos, tentando processar o que Alê havia acabado de falar. Antes que a loira possa abrir a boca, pingos caem. Primeiro, caem sobre o cabelo liso escorrido de Alê. Depois, nos seus próprios cabelos bagunçados. Claro... Sem um lar, sem comida e com chuva. Cindy não poderia se arrepender mais em aceitar a proposta de Alê instantaneamente, apesar de saber que foi o melhor que podia ter feito naquela situação.
— Ai que saco, eu sabia que a gente tinha que ter deixado pra amanhã, você nunca me escuta! — Seus braços se cruzam, e mesmo sabendo que sua voz deveria soar irritada com as ações imprudentes de Alê, Cindy não soava mais do que frustrada. — A gente devia... Eu não sei, Alê! Você quem deu a ideia de fugir...
Ajeitando a postura e se levantando rapidamente da grama molhada, Alê limpa o sangue da boca e cospe na grama. Era podre. Era sujo. Mas era o que elu sabia comer, e o que foi obrigado a degustar cada pedaço para que não morresse. O gosto de sangue sempre fazia repudiar a si mesma, e elu não poderia sentir mais do que prazer sabendo disso. Era o que ainda fazia ela respirar, e nunca havia tido a chance de provar algo além de sangue e... Carne.
— Eu seei... — Prolongou mais do que deveria, suas mãos se levando instintivamente até as de Cindy para segurar seu pulso e a arrastar daquela floresta logo. Cindy não protesta, e segue logo atrás de Alê, que a puxava para saírem daquele local desagradável logo. Não tinham abrigo, apenas a certeza que fugir tinha sido melhor do que ficar naquele local imundo que Alê gostava de não nomear, mas Cindy insistia em chamar de "Castelo dos infernos". Em palavras mais fáceis, um lugar repugnante que viviam vampiros da mais porca espécie, onde Alê e Cindy nasceram em desfavor aqueles seres.
E apesar disso, ainda eram vampiros.
Apesar de odiarem, ainda se alimentavam de carne e sangue.
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Horas nunca haviam passado tão rápido assim, e foi exatamente o tempo que Alê levou pra chegar em um lugar isolado do resto da cidade. Ficaram ali. Descansaram ali. Afinal, era muito melhor do que onde estavam a um dia atrás, e apesar de lá terem uma cama e comida luxuosa, aqui compartilhavam amor. Amor platônico e puro, o contrário do nojo que eram obrigados a viver todo dia e só estavam livres quando ficavam a sós. Alê considerava Cindy uma irmã, muito mais que de 'sangue' — afinal, elu odiava aquele tipo de conexão — ou de DNA. Eram de alma, e desde o nascimento, sentiam que só estariam felizes na presença um do outro. O mundo era tedioso, e muito tedioso mesmo. Nunca haviam saído de lá até hoje, e mesmo hoje, continuavam com o tédio de costume.
— Eeeei, Lelê! Você acha que... A gente vai conseguir viver? — Balbuciou, e não era difícil perceber que estava insegura do que falava. — Tipo, normal de verdade... Humanos, vida, tendeu?
Alê estava sentade contra o chão frio, e em seus joelhos dobrados e próximos a face, havia um pequeno caderno. Elu anotava coisas que Cindy não entendia direito, rabiscando desenhos com uma caneta esferográfica quase sem tinta. Não parecia ter prestado muita atenção no que Cindy havia dito, mas apenas parecia.
Afinal, Alê escutou cada palavra que saia da boca de Cindy com atenção, e ligeiramente, rabiscou uma resposta no caderno para a garota que se sentou ao seu lado esperando uma resposta.
"Faculdade. A gente só precisa dos documentos."
Rapidamente, Cindy negou ao ler aquilo. Não tinham os documentos, e seria impossível criar um currículo se não sabiam o modelo de um.
— Lê, ninguém aqui sabe falsificar documento, cê acha mesmo que dá pra viver assim meo?
Alê abaixou suavemente as sobrancelhas, julgando mentalmente Cindy por recusar a parte mais fácil de seu plano. Seu rosto desceu na direção do caderno e voltou a escrever, com o olhar curioso de Cindy acima do seu.
"Você sabe que eu consigo"
— Mas e se não conseguir dessa vez? — Ela tartamudeia, com uma voz chorosa. Maldita seja a ideia que Alê teve de a arrastar junto para isso. — Tipo, a gente é vampiro e taals... Acha que é só se matricular?
Em resposta, Alê apenas revirou os olhos, escrevendo algo simples e rápido.
"Sim"
Dessa vez, foi Cindy quem revirou os olhos.
— Ai, tá bom meo... vou tomar um ar e tu resolve isso amanhã! — Sua voz resmungou, e seguiu murmurando coisas sem nexo.
Cindy não mentiu, e se levantou de imediato daquele chão sujo para ir pro lado de fora — Alê assumiu que ela estivesse com medo, mas nunca com raiva delu. Depois de 30 minutos o caderno foi largado no chão deplorável, e Alê tinha escrito em cada centímetro que conseguisse naquele pequeno bloco de notas. Alê havia criado o plano inteiro. Elu esculpiu cada página, cada ação e movimento que fariam depois disso, e tinha certeza que, de alguma forma, viveriam de forma comum. De um jeito ou de outro, carregaria sua irmã — de alma — para qualquer lugar que fosse.
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Alê conseguiu.
"Alguns dias se passaram, cerca de 3. Eu não contei, mas lembro quantas vezes o Sol se pôs e anotei todas. Eu e Cindy não conseguimos moradia, mas o chão daqui ainda é 'dormível' por mais alguns dias. Cindy não aguenta mais esse lugar, então se recusa a dormir no chão. Ela não dorme desde que a gente chegou. Apesar disso, não é um grande problema, eu sei que ela aguentaria uma semana inteira sem dormir, mas ainda sim me preocupo. Ela gosta de dormir, então desperdiçar todo o seu dia fazendo nada a deixa mais nervosa ainda.
Eu saí. Fui até a faculdade mais próxima depois de me limpar com a água da chuva e tirar o meu manto. Tenho quase certeza que me odiaram, mas não iriam negar a matrícula, principalmente por causa da minha idade. Disse que tinha 20, e de certa forma, acho que não menti. Também matriculei Cindy, perguntei se ela queria e ela aceitou, reclamando. Acho que tinha a opção de escolher um curso, mas como não entendi direito, pedi para que Cindy fosse e escolhesse ela mesma.
Acredito que ela gostaria de fazer moda."
— Alê, meooo! — A voz estridente de Cindy chama sem parar Alê, que parecia concentrade em escrever seu resumo diário. — Eu escolhi o curso pra gente, cê' nem vai acreditar.
Sem protesto, Alê fecha o caderno e o deixa de lado no chão junto com a caneta, que está com uma quantidade mísera de tinta. Elu se arruma de forma um pouco mais confortável no chão duro, esperando atentamente que a loira começasse a falar.
— Então, eu esqueci de te perguntar antes de sair né... Aí eu assumi que você iria querer fazer música. Não tinha um curso legal, sério! O resto era tudo de exatas, daí eu escolhi fazer música também.
Alê estreita o olhar na direção da loira, parecendo confuse. Elu tinha quase certeza que o curso de moda estava disponível a última vez que viu, e Cindy não teve a ideia de escolher esse? Sua mão rapidamente vagou em direção ao caderno, buscando a página que usava pra conversar com Cindy e começando a escrever com pressa. Talvez, se ela corresse agora, ainda daria tempo de mudar.
"E o curso de moda?"
Cindy pensou duas vezes antes de responder, parecendo muito mais intrigada do que deveria com o que leu.
— Ai meo, cê acredita que eu tentei, Lelê? Falaram que já tava sem vagas, mas que assim que abrisse vaga, iam me colocar lá. — Assim que termina de falar, exala um gritinho de felicidade, lembrando que finalmente iria poder usar uma cor chamativa na própria roupa.
Alê solta um ar suave pelo nariz junto com um sorriso de canto de boca, aliviade por ela não ter confundido o curso que realmente queria. Dessa vez sem pressa, elu escreve em um espaço menor da folha repleta de perguntas e frases tanto de Cindy quanto de Alê.
"Quando começa?"
— Amanhã. — Cindy deixa escapar ao ler a pergunta ainda sendo escrita, e imediatamente tapa a própria boca. Ela sabia que não tinham tempo nem mesmo pra achar alguma moradia ali, e caso Alê fosse com ela pedir uma moradia no campus da faculdade, iriam recusar só de olhar para o rosto de Alê. Por que era tão difícil as pessoas aceitarem que elu escolhia não falar? Era um saco ter que lidar com isso.
— Amanhã? — Alê sussurra, ignorando completamente o caderno em mãos. O dinheiro parecia um problema muito maior agora.
— Uhum... — Imediatamente, a loira abaixou o rosto pra evitar o olhar pesado de Alê sob o dela. Aqueles olhos que julgariam sua alma por completo, o azul que faltava brilhar na direção da loira.
— Você é carismática... Gostaram de você, não gostaram? — Alê leva a mão as costas da Cindy, acariciando gentilmente para reconfortar a mesma.
Cindy, de cabeça baixa, olha de canto para Alê. Ela esperava que a loira iria ficar frustrada consigo, mas esperar isso de Alê é o mesmo que esperar que um animal inofensivo a machuque.
— Ai, eu acho que sim?... — A garota balbuciou em um tom mais baixo do que o da própria Alê.
— Então você consegue lugar pra gente.
No mesmo dia, a tarde, Alê foi com Cindy até a universidade em que a garota havia escolhido os cursos de manhã. Abrigava inúmeros prédios, e sem dúvidas era a maior universidade do pequeno lugar em que viviam — vulgo BA. Faculdades, quadras de esportes e um auditório do outro lado do campus em que Cindy e Alê se encontravam.
— Meo, toda vez que eu entro aqui sinto que vou ter um ataque cardíaco... É muito grande!!
Alê concorda com a cabeça e segue com Cindy para onde haviam ido na primeira vez aqui, e definitivamente sente calafrios na espinha ao passar pela porta. Não tinha como ser tão difícil, afinal...
A entrada.
Um pequeno espaço com uma recepção agradável, antes de uma porta que provavelmente levava a grande faculdade de música daquele lugar, fechada. Dentro daquele cômodo, uma decoração simples com plantas e paredes de madeira além de uma grande mesa; e a atendente da unidade sentada na única cadeira confortável dali, já que as outras duas a frente dela eram duras e de plástico.
Sem muita opção, Cindy se senta na cadeira a frente da atendente, que aguarda que Alê também se sente ao lado da loira. Com uma leve carranca no rosto, a atendente tinha cabelos crespos em um moicano e uma pele retinta, olhos castanhos e uma típica roupa que se usaria no trabalho, apesar de muitos acessórios como spikes.
— Bom dia, no que posso ajudar as... Senhores? — Alê cerra o maxilar. Não era a mesma atendente que lhe atendeu da primeira vez, já que provavelmente cada uma tinha seu horário para revezar. Cindy, por outro lado, interrompeu antes que Alê pudesse abrir a boca.
— Bom dia! Eu e elu queriamos saber se tem dormitórios disponíveis, a gente cursa música. — Sua voz geralmente aguda e irritante se vira para um tom doce e suave, fazendo a atendente que já a conhecia ter sua atenção com facilidade.
— Claro, mas... Tipo, você e ele?... — A atendente questiona, sua mão clicando em algo rápido no mouse e o notebook a sua frente brilhando. Era óbvio que ela não iria deixar Cindy ficar no mesmo quarto que Alê. Sempre tinha que ser assim. No pior dos casos, Alê ficaria com outra pessoa mais do que insuportável ao perceber seu silêncio de nascença, e no melhor deles, ficaria sozinhe.
Cindy se mantém quieta, apesar de por baixo da mesa, Alê segurar firme sua mão. Estava nervosa. Nervosa de acabar em um quarto que não fosse dividido com Cindy e que, por acaso, seu colega o odiasse.
— A gente é amigos, não teria problema ficarmos juntos, né?... — Uma cara de coitada foi a única solução que Cindy achou no momento, e é claro, tinha problema sim.
— Infelizmente, não tenho como permitir no seu caso, principalmente por não ter muitas vagas disponíveis. Seu nome é Cindy...
— Lopes. — Cindy completou a atendente, lhe dando o sobrenome para que fosse procurado no registro. Não demorou mais que alguns segundos até que a atendente levasse uma mão a têmpora, um suspiro fraco e frustrado saindo de seu nariz.
— Tem poucas vagas, tem problema se cada um de vocês dividisse o dormitório com alguém?
— Não... — A garota respondeu, mas claramente havia um problema. Sua voz deixava isso aparente, mas a atendente não pode fazer muito a não ser entregar as chaves de cada quarto. Para Alê, deu a chave do quarto 413. Para Cindy, entregou a chave 211. Ótimo. Dois andares de distância, então é claro que seria fácil de encontrar Alê quando precisasse. Apesar de ter inúmeras reclamações, a garota não poderia reclamar, já que aquilo era melhor do que dormir no chão.
— Você vai gostar da sua colega de quarto. — É a última coisa que a atendente diz antes de Alê e Cindy se retirarem com um curto "obrigado" e irem em direção ao elevador. Estava se referindo a Cindy? A loira não prestou atenção, mas deduziu que fosse ela por ser proíbido que Alê dividisse o quarto com uma garota cis.
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Depois de subir o elevador com Cindy até seu quarto, Alê se despediu com um abraço apertado antes de seguir novamente até o elevador, apertando o botão do quarto andar. Aparentemente o prédio só tinha aqueles quatro andares, e o tamanho se estendia mais em largura do que altura. Ia de 100 ao 400 em andares, e na casa das dezenas, ia de um ao 20. Era facilmente um lugar onde se perderiam se Alê não sentisse o cheiro de Cindy de longe, fragrância essa de um perfume floral que ganhou de alguma vítima daquele local ridículo que já estivera. Cindy, pelo contrário do que Alê achava na época, ficou mais do que feliz com o presente e o usava para a maioria das ocasiões.
Aqui. Antes de entrar, Alê não deixou de sentir o cheiro de cinzas que exalava daquele quarto antes mesmo de abrir a porta. Ele não sabia como nunca havia sentido um cheiro tão ruim, mas aquilo era mais do que o suficiente pra lhe fazer ficar ainda mais atento com quem dividiria o quarto. Nas mãos, carregava a alça de uma pequena bolsa que havia trazido quando fugiu com Cindy — com uma muda de roupa, um tarot e acessórios — e achou que seria o suficiente até que arranjasse algum dinheiro pra comprar algo além disso. Conferiu três vezes se o número estava correto antes de finalmente levar a mão esquerda a porta, batendo também exatas três vezes.
Demora. Muito. Após cerca de 30 segundos ou até mesmo um minuto depois de bater na porta, Alê, que já estava começando a ficar inquieto, escuta o ranger da porta a sua frente. Esperava ver alguém simples, um quarto simples e organizado, mas o que vê é o contrário disso.
Uma figura ruiva com olhos esverdeados, repleta de sardas e com uma camiseta de banda jogada no corpo por cima de uma calça de pijama abria a porta, coçando um cabelo bagunçado. O quarto, por sua vez, é organizado, com uma cama em cada canto do cômodo e um corredor que leva a direita de Alê, além dos inúmeros posters de bandas e filmes — filmes esses de vampiros.
Alê não tem tempo de raciocinar mais nenhum pensamento quando o cheiro de fumaça piora pela porta agora estar aberta.
— Ooi?... Cê deve o colega de quarto que a Dani disse, né? Prazer, é Franco! — O ruivo estende a mão na direção de Alê, uma expressão amena se espalhando pelo rosto meio sonolento.
