Chapter Text
Após longos minutos pedalando pela floresta de Hawkins, Mike finalmente chega à residência dos Byers Hopper. Como de costume, ele deixa sua bicicleta encostada na lateral da casa. Por ser um lugar afastado do resto da cidade, não há perigo de roubo.
Mike ajeita a camisa e se aproxima para tocar a campainha. Não demora para que Joyce abra a porta com um sorriso, em seguida puxando o garoto para um abraço apertado. É engraçado para Mike perceber como ele é muito mais alto do que ela agora.
- Mike querido, obrigado por vir! - Disse Joyce ao se desvincular do abraço, dando espaço para o garoto entrar. - É muito importante ter você aqui conosco hoje... - Ela aperta o ombro dele, ainda sorrindo. Só então Mike percebe o olhar cansado em seu rosto. Ele nem consegue imaginar como ela está se sentindo...
- Fico feliz de estar aqui. - Responde Mike, devolvendo o sorriso de Joyce. - Ah, eu trouxe refrigerante! - Diz ele, erguendo a sacola que carrega nas mãos. É uma Fanta Laranja, o sabor favorito de Will. Ou pelo menos era quando eles tinham dez anos de idade...
- Oh, não precisava! - Responde Joyce, um tanto sem jeito. Ela fecha a porta atrás de si e pega a sacola. - Vou colocar na geladeira. Fique à vontade!
Sem rodeio, Joyce caminha até a cozinha para terminar o jantar, deixando Mike sozinho na sala de estar. É estranho... Ele passou praticamente a infância inteira nessa casa. Ele se lembra de ir para lá depois da escola, onde passava a tarde e às vezes até a noite se divertindo com Will. Eles costumavam brincar no quintal e, de vez em quando, nos outros cômodos da casa. Exceto no quarto de Jonathan, ninguém entrava lá.
Agora, porém, ele se sente um desconhecido ali dentro, devido ao tempo que ficou sem visitar. O fato dos móveis estarem fora de lugar só aumenta essa sensação de estranheza. Joyce sempre foi do tipo que muda tudo de lugar o tempo todo. Ele se lembra de Will reclamando disso, pois era ele quem tinha que ficar carregando a mobília para lá e para cá. Enquanto isso, ela só ficava apontando com o dedo onde ele deveria deixar as coisas.
Mike caminha de forma desajeitada pela pequena sala, se aproximando do criado mudo que fica abaixo da TV, onde se encontram alguns retratos da família Byers Hopper. A formatura de Jonathan, o casamento de Joyce e Hopper, Jane segurando sua certidão de adoção com um sorriso no rosto, um dos aniversários de Will e por ai vai. Mike se permite passar os dedos por entre as fotografias, analisando-as; até que se depara com sua própria versão criança em uma delas. Como sempre, ele está acompanhado de Will, ambos estão brincando no castelo Byers. Mike se lembra bem daquele dia, Jonathan havia os ajudado a improvisar fantasias, uma de cavaleiro para ele e outra de feiticeiro para Will. Eles passaram a tarde inteira fingindo que estavam em uma missão de D&D. Apesar de ser uma lembrança alegre, Mike sente seu coração apertado, pois sabe que o castelo Byers não existe mais...
De repente, ouve-se o barulho de uma porta se abrindo. Ao olhar, Mike se depara com Jane saindo do banheiro com uma toalha enrolada nos cabelos. Suas roupas são largas, provavelmente emprestadas.
Graças a Deus ele não terá que ficar sozinho com seus próprios pensamentos, pois já estava começando a entrar em uma zona de perigo.
- Mike, você veio mesmo! - Diz a garota, se aproximando para abraça-lo. Apesar de terem terminado o namoro há um tempo, ambos continuam sendo amigos e se dando muito bem.
- Claro que eu vim. - Responde Mike sorrindo, segurando a toalha para que não caia da cabeça de Jane. - Como você está?
- Ah, estou indo... - Responde ela, já não tão animada. Ela retira a toalha e começa a secar o cabelo com a mesma. - O papai e a Joyce ainda estão meio... Perdidos com tudo o que aconteceu. Às vezes, eles acabam discutindo... E eu só tento ignorar tudo...
- Eu imagino...
Um silêncio se instaura entre os dois. Mike coça a nuca em busca de palavras, mas a verdade é que ele não faz ideia do que dizer. Isso faz com que ele se sinta um inútil. Ele deveria saber como consolar Jane. Afinal, ele já fez isso inúmeras vezes. Ela sempre procurava pelo conforto de Mike quando tinha algum problema e, por incrível que pareça, ele sempre sabia como agir. Agora, porém, nada parece certo.
Por sorte, não demora para Jane recuperar um pouco de sua animação. Ela coloca a toalha nos ombros, já com o cabelo meio seco, e volta a falar:
- Mas eu estou feliz que você veio. Sei que você e o Will não estavam se falando quando tudo aconteceu...
Jane provavelmente não sabe, mas acabou de tocar em um tópico sensível para Mike, algo que ele tem evitado pensar. Ele sabe que em algum momento vai ter que lidar com o que aconteceu, ainda mais se quiser se reaproximar de Will, mas honestamente, ele ainda não se sente pronto para isso. Só de pensar em retomar esse assunto ele já sente vontade de se contorcer por inteiro. Ele ainda não consegue entender como tratou Will tão mal e, principalmente, como nunca se desculpou por isso... Ele só espera que ambos possam começar de novo, sem qualquer ressentimento.
- Por falar nisso, onde está o Will? - Pergunta Mike, tentando desviar o foco da conversa. Na verdade, desde que chegou à residência dos Byers Hopper, ele tem se feito essa pergunta. Normalmente, Will faz companhia para Joyce na preparação do jantar ou fica assistindo programas de TV aleatórios com Jane na sala.
- Ah, ele deve estar no quarto. Agora, ele só quer saber de ficar trancado lá. - Responde Jane com um suspiro, revirando os olhos. Sem rodeio, ela caminha até o quarto de Will e tenta abrir a porta, porém sem sucesso. - Will! O que a Joyce disse sobre portas trancadas?! - Ela fecha o punho e bate com força. Mike tinha esquecido o quanto Jane pode ser direta.
Pode-se ouvir um longo suspiro dentro do quarto e, alguns segundos depois, o som de passos arrastados. Will então abre uma pequena fresta da porta, tendo uma expressão cansada e um tanto irritada em seu rosto, algo muito raro de se ver. Mike não pode evitar de reparar no quanto o cabelo dele cresceu, a franja praticamente tampando seus olhos.
- O que foi?
- Como o que foi? O Mike está aqui, Will! - Ela aponta para o garoto, que sorri e acena sem graça. Só então Will parece notar a presença dele, arregalando os olhos. Sem pensar direito, ele puxa Jane para dentro do quarto e fecha a porta na cara de Mike.
Uau. Nada sútil.
- Por que você não me avisou que o Mike viria? - Ele escuta Will perguntar, sua voz levemente abafada. Em seguida, o barulho do roupeiro se abrindo. Ele provavelmente está procurando outra roupa para vestir, mesmo sabendo que Mike não se importa em vê-lo de pijama. Afinal, não é como se eles já não tivessem feito inúmeras festas de pijama juntos.
- Mas você sabia que ele viria, a Joyce avisou!
- Mas ele nunca vem! Como eu iria saber que dessa vez ele viria?
Ok, isso doeu um pouco, mas Mike não pode culpa-lo por ter esse pensamento. Afinal, é verdade. Depois que ele e Jane se separaram, Mike parou de frequentar a casa dos Byers Hopper. Ou talvez até antes... Apesar disso, ele nunca perdeu o contato com ela. Uma pena que não possa dizer o mesmo sobre Will.
Mike decide dar privacidade aos irmãos, que continuam a discutir no quarto de Will. Quando o outro garoto se sentir pronto, irá conversar com ele. Dói em Mike saber que talvez isso demore um pouco, mas ele não pode forçar nada, ainda mais sabendo que é sua culpa ambos estarem assim.
Sem pensar muito, ele vai até a cozinha, onde encontra Joyce mexendo em uma panela no fogão.
- Quer ajuda, tia Joyce?
- Oh, que susto, querido! - Diz ela, dando um pulo para trás e colocando uma mão no peito, enquanto a outra segura uma colher de pau. Por um momento, Mike se sente culpado por tê-la assustado, mas logo cai na risada. - Então, você acha engraçado assustar os mais velhos? - Joyce brinca, batendo de leve com a colher na cabeça dele. - Pode colocar a mesa, já estou terminando por aqui!
- Certo. As coisas ainda ficam nos mesmos lugares? - Pergunta Mike, só por segurança, o qual Joyce acena positivamente com a cabeça. Então, ele se aproxima do armário para pegar os pratos. - O Hopper vem para cá hoje?
- Não, ele está de plantão na delegacia. Hoje, será só nós!
Após Mike terminar de ajeitar tudo, Joyce chega para colocar uma panela com macarronada na mesa. O cheiro bom faz o estômago do garoto roncar. Só Deus sabe o quanto ele estava com saudades da comida dela. Não que sua mãe não cozinhe bem, mas parece que Joyce tem o dom da culinária.
- Crianças, venham jantar! - A mulher grita, se sentando à mesa. Mike faz o mesmo.
Não demora para que Jane e Will se juntem a eles, parecendo mais calmos agora. A garota se senta ao lado de Joyce, já puxando assunto com a mesma. Apesar de ter um lugar vago ao lado de Mike, Will decide sentar na outra ponta da mesa. Novamente, Mike decide fingir que isso não o machucou.
- Oi. - Will finalmente lhe dirige a palavra, seu tom de voz baixo. Ele lança um sorriso um tanto forçado para Mike, mas ainda gentil.
- Oi. - Mike responde da mesma forma.
O jantar segue com Jane e Joyce conversando sobre coisas do dia a dia, como trabalho e escola. De vez em quando, Mike faz um comentário aqui ou ali. Já Will, permanece em silêncio. Mike observa que ele mais brinca com a comida do que de fato come. Will nunca foi o tipo de cara que come muito. Na verdade, isso é mais a cara de Lucas. Porém, é estranho vê-lo comer tão pouco. Pensando nisso, Mike percebe que Will está mais magro. Ele não sabe dizer se o garoto só está sem fome ou se é por conta dos remédios que ele está tomando.
- Ei Mike. - Chama Jane subitamente, tirando o garoto de seus devaneios. - Onde você disse que está trabalhando mesmo?
- Ah, no Sams.
- A lancheria que fica perto do ponto de ônibus? - Questiona Joyce, parecendo interessada.
- Isso, no Sams Burger. Mas vou ficar lá só durante as férias.
- Será que eles estão precisando de mais gente? - Pergunta Jane. Mike estranha a pergunta, pois lembra dela ter comentado semana passada que havia conseguido um serviço temporário junto de Max. Será possível que essas duas conseguiram ficar desempregadas em tão pouco tempo?
- Olha, posso dar uma olhada... Mas por quê?
- O Will está procurando um trabalho também.
De repente, todos se viram para encarar o garoto citado, que se encolhe na cadeira. Ele nunca gostou de ser o centro das atenções.
Mike está um pouco surpreso, pois não esperava que Will fosse querer arranjar um emprego tão cedo... Mas talvez isso o ajude a se distrair um pouco. Mike não pode negar que para ele funcionou. Por mais que seu trabalho seja cansativo, é muito melhor do que ficar em casa escutando sua mãe e seu pai discutirem.
- Certo. Posso deixar seu currículo lá, Will.
- Err, não sei se é uma boa ideia! - Interrompe Joyce, não dando tempo para Will responder. Agora, ela não para de remexer seu guardanapo, claramente começando a ficar nervosa. Ela nunca foi boa em esconder suas emoções, assim como o restante dos Byers.
- Mas o dr. Owens disse que isso poderia fazer bem para ele... Sair um pouco, ver outras pessoas... - Rebate Jane, seu tom é gentil e um tanto cauteloso, como se tomasse cuidado com a escolha de palavras. É provável que elas já tenham tido essa conversa antes...
- Eu sei, querida, mas não acho que ele esteja pronto! - Joyce aumenta o tom de voz, parecendo querer encerrar esse assunto o quanto antes.
- Por que não? - Insiste Jane.
- Olha, provavelmente é um lugar muito estressante, não é Mike? - O que o garoto mais temia acontece: ele é puxado para essa discussão.
- Err... Sim, um pouco. - Ele responde sem jeito e tenta voltar sua atenção ao prato, remexendo macarrão com o garfo.
- É claro que é! E o Will não precisa de mais estresse ago-
De repente, uma batida na mesa interrompe Joyce. Surpreendente, esse barulho vem de onde Will está sentado. O garoto está com ambos os punhos fechados sobre a mesa, uma expressão de aborrecimento em seu rosto. Mike nunca o viu assim antes...
- Por que você sempre tenta falar por mim? - Pergunta Will. Seu tom de voz não é alto ou agressivo, porém está visivelmente carregado de magoa. Ele morde o lábio e mantém o olhar fixo na mesa, parecendo um pouco envergonhado. É como se ele não tivesse coragem de encarar Joyce ou os demais.
- Meu amor, eu só quero o seu bem-
Novamente, sua fala é cortada por Will.
- Não importa! Eu não sou mais criança, você não pode me tratar assim! - Responde ele, batendo as mãos na mesa ao se levantar. Apesar da raiva, lágrimas parecem estar começando a surgir em seus olhos.
Will caminha em passos rápidos e pesados até seu quarto. Não demora para que Jane o siga. Por instinto, Mike faz o mesmo, apesar de demorar um pouco mais, pois ficou observando a expressão apreensiva de Joyce.
Essa atitude de Will foi estranha, para dizer o mínimo. Ele costumava ser a criatura mais pacífica que Mike já conheceu, ainda mais quando se trata de sua família. Ele nunca havia visto o garoto desrespeitar Joyce.
- Você não pode tratar ela desse jeito! - Ele ouve Jane dizer.
Mike percebe que a porta do quarto de Will está entreaberta, então resolve ficar do lado de fora apenas observando. Ele acredita que, se tentasse entrar, Will pensaria que Mike está invadindo seu espaço pessoal, o que não seria nada bom no cenário atual. Além disso, se ele já se sentiu um intruso no restante da casa, quem dirá aqui...
Ele observa Will esfregando as mãos no rosto vermelho em uma tentativa de conter as lágrimas. Jane agarra fortemente seus ombros enquanto fala com ele.
- Mas ela age como... Como se eu fosse de vidro! - Will finalmente encara Jane. Mike percebe que a forma que ele fala com ela é diferente. É como se aquela raiva e magoa toda fossem direcionadas somente a Joyce, seja lá por qual motivo.
- É claro que sim, ela se preocupa com você! - Jane balança Will, como se isso fosse fazer com que ele entendesse melhor o que ela quer dizer.
- Mas ela não precisa, eu já sou praticamente adulto! - Responde ele na mesma intensidade.
- Mas você tentou se matar, Will!
Sem perceber, Jane acaba de tocar no elefante da sala, o assunto que todos prometeram silenciosamente não falar sobre. Também é o motivo de Mike ter ido visitar a casa dos Byers Hopper hoje.
Por um instante, os irmãos congelam e simplesmente encaram um ao outro, sem saber como prosseguir. É provável que eles ainda não tenham tocado nesse assunto de forma tão direta. Afinal, faz pouco tempo, menos de um mês.
- M-me desculpa, eu não quis falar isso. - Diz Jane, afrouxando o aperto nos ombros de Will, que apenas continua a encará-la.
De repente, a garota parece sentir a presença de Mike do outro lado da porta os observando. Ela se vira para ele e seu olhar faz com que Mike se sinta envergonhado por estar bisbilhotando. É como se ela dissesse "você não deveria ter ouvido isso, era para ser algo pessoal". Ela deixa isso ainda mais claro quando se aproxima e fecha a porta. Will nem se mexe, parece que sequer percebeu que Mike estava ali.
Por alguns segundos, o garoto mais alto só fica parado ali, encarando a porta e sem saber o que fazer ou como reagir. Ele se sente um pouco mal por ter dado uma de fofoqueiro, mas se sente ainda pior por não conseguir ouvir mais nada. Agora, a conversa soa abafada por trás da porta.
Então, ele se lembra que Joyce ainda está na cozinha e corre para verifica-la. Infelizmente, já é tarde demais, a mulher se encontra em prantos enquanto guarda o jantar.
- Tia Joyce, não é culpa sua... - Mike se aproxima, oferecendo-lhe um abraço, porém a ela nega com a cabeça e continua a recolher os pratos, suas mãos tremendo.
- É culpa minha sim, Mike. Eu sou a mãe dele! Eu deveria saber o que fazer, mas eu... Eu não sei! - Ela desaba, largando os pratos e envolvendo ambas as mãos no rosto. É inútil, mas ela tenta esconder seu estado e abafar seus grunhidos.
Apesar de ela ter negado seu abraço da primeira vez, Mike não pensa duas vezes antes de envolver a pequena mulher em seus braços. Talvez ele esteja apertando ela um pouco forte demais, mas isso não parece incomodar Joyce, que retribui o gesto e enterra o rosto no peito do garoto.
- Eu só quero ajudar ele, mas não sei como! Parece que tudo o que eu faço está errado! - Ela diz entre soluços. O sofrimento dela faz com que Mike sinta vontade de chorar também, mas ele se segura. Talvez seja seu instinto de líder falando, mas ele sente que não pode chorar, não agora. Ele precisa se manter firme e consolar Joyce.
- Eu sei que você está fazendo tudo o que pode, tia Joyce... E é isso o que importa... - Diz Mike, apoiando uma das mãos de forma reconfortante no ombro da mulher. Ele espera que suas palavras cheguem até ela. - Tenho certeza que as coisas vão melhorar, mas você precisa continuar sendo forte...
Mais um tempo se passa até que Joyce pare de chorar e se desvencilhe do abraço de Mike. Em silêncio, ambos voltam a limpar a cozinha. Joyce lava a louça e Mike guarda a comida que sobrou na geladeira. É estranho, é como se isso fosse natural para eles novamente.
Após terminarem, Mike anuncia que vai ir embora. Não tem porque ficar mais tempo, Jane e Will ainda estão trancados no quarto...
Joyce se oferece para acompanhá-lo até o quintal, diz que irá aproveitar para fumar. Até onde Mike se lembra, ela havia largado o vício há anos. Sua teoria se confirma quando ela pede para que ele não conte a Hopper sobre isso.
Mike decide fazer companhia para a mulher enquanto ela fuma.
- Quer um? - Oferece ela, estendendo a carteira de cigarro na direção dele.
Há alguns anos atrás, ela pegou Mike fumando atrás da escola durante uma reunião de pais e professores. Ela ficou furiosa, pois vê o garoto como seu próprio filho. De alguma forma, ele conseguiu convencer ela a não contar para Karen, jurando que jamais colocaria um cigarro sequer em sua boca.
Agora, ela parece não se importar mais com isso, talvez por conta da situação estressante que acabou de passar ou pelo fato de que em alguns meses ele irá completar dezoito anos. Independente do que seja, isso favorece o lado de Mike, pois ele nunca parou de fumar.
- Eu aceito. Valeu, tia Joyce. - Ele acende o cigarro com o esqueiro que carrega no bolso e dá uma longa tragada. Ele precisa se segurar para não tossir. Diferente dos cigarros mentolados que ele fuma, Joyce faz uso de cigarros comuns, que consequentemente tem um gosto mais forte.
- Eu queria saber porque ele fez aquilo. - Diz Joyce subitamente, após um longo minuto de silêncio. Ela não parece estar mais tão nervosa como antes. Na verdade, sua expressão é pensativa, apesar de ainda haver um pouco de magoa e culpa.
- Também queria saber... - Responde Mike, dando mais uma tragada. Ele deixa a fumaça presa na garganta por um longo instante antes de soltar. - Mas como eu disse, não é culpa sua.
A mulher solta uma risada fraca e balança a cabeça, como se não acreditasse em suas palavras.
A verdade é que Mike entende Joyce, pois também sente culpa. Culpa por não estar lá quando Will mais precisou. Culpa por não fazer ideia do que seu amigo estava passando. E principalmente, culpa por ter tratado ele tão mal no passado. Por ter ignorado ele. Gritado com ele. Tudo isso porque Mike estava com problemas consigo mesmo. E por alguma razão, ele decidiu atacar a pessoa que mais gostava. A pessoa que mais cuidava e se importava com ele. Parecia mais fácil lidar com isso assim. Parecia o certo a se fazer...
Porra, como eu sou idiota...
- Eu sei que a Jane está certa... - Joyce diz, tirando Mike de seus pensamentos. - É só que... Eu me preocupo, sabe? Me preocupo que seja demais para ele, que ele não consiga lidar...
Joyce sempre foi uma mãe um pouco protetora demais, principalmente com Will. Afinal, Jonathan sabia se defender sozinho. Sempre que alguém mexia com ele, Jonathan revidava, ia para cima sem medo. O mesmo vale para Jane. Will, entretanto, nunca foi assim. Ele aceitava o bullying calado, preferia não revidar. Isso lhe custou alguns olhos roxos durante a infância. Por esse e outros motivos Joyce estava constantemente em alerta quando se tratava de Will. Ela temia que seu bebê não fosse capaz de lidar com o mundo real, pois sabe o quanto esse lugar pode ser cruel para pessoas como ele...
Mike se lembra de Will reclamando sobre isso em alguns momentos. Ele ficava dividido, pois entendia o lado de ambos. Joyce é a mãe dele, é claro que ela se preocuparia! Porém, tudo que é demais se torna ruim, como sua própria mãe costuma dizer.
Essa proteção extrema sufocava Will e fazia com que ele se sentisse de fato incapaz. No entanto, Mike sempre acreditou em seu amigo. Ele pode até ser mais sensível do que a maioria das pessoas, mas isso não significa nada! Mike sabe que ele pode alcançar coisas grandes, basta as pessoas saberem enxergar isso. O mesmo vale para o próprio Will, que muitas vezes não acredita em si mesmo e chega até a se auto sabotar.
De qualquer forma, parece que a tentativa de suicídio fez com que a preocupação e proteção de Joyce aumentasse drasticamente, o que é compreensível.
- Olha... Você deveria tentar conversar sobre isso com ele. Perguntar se ele realmente quer arrumar um emprego agora. Apesar de ser um ambiente estressante, pode ajudar. - Diz Mike enquanto encara Joyce, que já está acendendo mais um cigarro. - Me ajudou quando eu estava mal.
- Entendo. - Joyce não devolve o olhar de Mike. Na verdade, ela está encarando um canto aleatório do quintal, parecendo ter um turbilhão de pensamentos passando por sua mente. - Quer dizer, eu quero isso também, sabe? Ultimamente ele só tem ficado no quarto. Mal fala comigo ou com a Jane... Seria bom se ele saísse um pouco, tivesse uma rotina. Mas... - Ela para, parecendo não saber como finalizar a frase.
- Você tem medo. - Mike completa.
- Isso. - Ela finalmente encara garoto de volta, esboçando um leve sorriso em seu rosto cansado. - Não sabemos ainda o que causou aquilo, mas tenho medo que qualquer estresse possa fazer ele tentar de novo...
- Eu sei. Mas talvez deva dar esse voto de confiança a ele. - Mike bate seu cigarro entre os dedos, fazendo com que as cinzas caiam no chão. Ele toma cuidado com as palavras, pois não quer soar intrometido ou arrogante. A verdade é que ele também está confuso sobre toda essa situação. É difícil dizer o que é certo ou errado.
Novamente, um silêncio se instaura entre os dois, ficando somente o som dos grilos. Não demora para que eles terminem de fumar. Joyce pede para que Mike lhe dê sua bitoca de cigarro ao invés de jogá-la no gramado, pois assim seria impossível de Hopper ou outro membro da família descobrir.
- Mais uma vez, obrigado por vir, querido. E desculpe por todo esse drama de família. - Diz Joyce enquanto abraça Mike uma última vez antes do garoto subir em sua bicicleta. - E obrigado por conversar comigo, eu estava precisando.
- Sem problemas, tia Joyce, eu fico feliz em ajudar.
- Você sabe que é sempre bem vindo nessa casa, não é?
- Sim, e pode deixar que eu irei aparecer mais vezes!
- Eu acho bom mesmo! - Responde ela bagunçando o cabelo de Mike.
Após isso, o garoto começa a pedalar de volta para sua casa. Apesar da situação estressante no jantar, Mike se sente leve. Ele realmente ficou feliz por ter conseguido ajudar Joyce, mesmo que tenha sido só um pouco. Ele nem consegue imaginar o quanto a mulher tem estado sobrecarregada nas últimas semanas. É bom saber que pelo menos ela tem o apoio de Hopper e Jane.
Por falar na garota, ele irá perguntar a ela mais tarde como foi sua conversa com Will. Mike espera que ela entenda que, naquele momento, ele estava apenas preocupado e que sua intenção não era ter bisbilhotado.
Ele também tentará cumprir a promessa que fez a Joyce. Ele fará o possível para ir mais vezes à casa dos Byers Hopper, embora sua primeira visita tenha sido um pouco caótica. Ele tem esperança de conseguir recuperar seu contato com Will e, principalmente, ajudar o garoto e sua família de alguma forma. Afinal, querendo ou não, eles são sua família também, pois estiveram presentes em boa parte de sua vida. Mike tem certeza de que não seria o mesmo homem sem ter conhecido os Byers Hopper. Sendo assim, ele não pode deixá-los na mão agora, independente de qualquer coisa que tenha acontecido no passado!
Subitamente, seu celular começa a vibrar no bolso da calça. Apesar de estar no meio da rua, Mike decide parar e verificar.
Pode ser uma mensagem de Jane ou Joyce.
Estranhamente, quem lhe chamou foi um número desconhecido, que apenas enviou:
"Oi".
Curioso, Mike responde:
"Oi?"
Digitando...
"Aqui é o Will. Desculpe pelo o que aconteceu".
Os olhos de Mike se arregalam tanto que ele jura que eles irão pular para fora. Faz meses, talvez um ano já, que eles não trocam mensagens. Tanto é que Mike nem tinha mais o número de Will salvo...
"Tudo bem, sem problemas".
Mike se sente nervoso. Ele quer dizer tantas coisas, mas não sabe como e nem se essa seria a hora certa. Ele morde o lábio, não querendo estragar tudo.
"Gostei de ir na sua casa hoje".
Meu Deus, eu me sinto ridículo.
Alguns segundos se passam e Will volta a digitar, mas depois para. Isso se repete algumas vezes. Mike teme que seja assaltado por estar mexendo no celular em uma rua deserta, mas o medo de perder Will mais uma vez é muito maior.
"Que bom".
Mike se decepciona um pouco com a resposta, pois estava esperando um pouco mais. Entretanto, ele sabe que não pode culpar Will por isso. O que ele precisa fazer agora é mostrar que tem interesse, que está ali para ele.
"Posso passar ai de novo amanhã?".
Dessa vez Will passa ainda mais tempo digitando. Mike quase desiste de esperar uma resposta. Ele olha para os lados apreensivo, checando se está sozinho ou se tem alguém escondido em algum arbusto.
"Claro. Vou dormir agora. Boa noite".
Ok, isso foi um pouco seco, mas Mike irá considerar uma vitória. É a primeira vez em muito tempo que ele e Will tem um diálogo de verdade! Se é que dá para chamar assim... De qualquer forma, já é o suficiente para fazer Mike soltar pulinhos de alegria e ir sorrindo o restante do caminho até em casa.
"Ok, até amanhã".
