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Onde O Gelo Cede

Summary:

Caim estava se sobrepassando com as aventuras esportivas, uma pior que a outra. E Jax odiava perder por pura força do azar e do acaso, principalmente quando Zooble se sentia no direito de tirar sarro do seu fracasso. Mas então ele cansa da zombaria e decide dar um ultimato: uma aposta. A próxima aventura esportiva ele vencia, isso era uma promessa. Mas então calhou de Jax ser emparelhado com a pior criatura viva nos esportes. Ele teria que ensinar Pomni e ainda vencer de alguma forma.

Notes:

Oi! Eu vi esse desafio no fandom proposto por Escrevedori e decidi participar. É minha primeira vez participando de uma week, mas foi bem divertido escrever, principalmente essa história, que, com certeza, é a maior delas. O tema do dia 1 é: sports (esportes).

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Ragatha era uma insuportável, mas Zooble era pior. Metide a indiferente, sempre arranjava um jeito de tomar partido demais quando o assunto era me encher o saco. Eu já não tava muito contente com a presença dessa criatura em geral, mas começou a piorar quando Caim passou a criar um monte de "aventuras" competitivas com o pressuposto de relacionamentos saudáveis nos jogos e esportes, bla bla bla. E eu era bom em qualquer coisa, mas toda vez algo do além surgia para me fazer perder ou para fazer qualquer outro vencer.

Sinceramente, eu não teria ficado muito incomodado em perder em aventuras idiotas, mas toda vez Zooble ria da minha desgraça. Risos baixos, educados, disfarçados, mas sempre ria. Quando uma bola me atingia, soltava um "Bem feito". Quando meu pé ficava preso em algum obstáculo,  me olhava com a malícia de quem vencia sem nem mesmo chegar ao pódio no final. Era pessoal. E não que isso me afetasse, eu não ligava para elu nem para ninguém, mas a função de tirar sarro dos outros era minha e apenas minha. Então eu tinha que resolver isso, mas fui burro o suficiente para ir tirar satisfação com a cabeça ainda quente.

— Ô Zooble, chega aqui — eu chamei.

— Que foi? — não havia maldade na sua voz e isso me irritou mais ainda.

— Qual que é o teu problema comigo, hein?

— Você quer em ordem alfabética ou cronológica? — espichou os olhos e cruzou os braços.

— Você tá se achando com muita graça, né? É o seguinte: você vai perder essa gracinha toda. Na próxima aventura competitiva do Caim, eu vou vencer e eu vou rir de você, tá entendendo?

— Nossa — revirou os olhos, se afastando um passo de mim e continuando com a voz carregada de ironia — Que medo. Mas eu duvido muito. Nas últimas… foram quatro? Bem, em nenhuma você chegou nem perto.

— Você quer apostar?

Zooble ergueu uma sobrancelha naquele rostinho de plástico e eu sabia que a isca havia sido mordida.

— O que eu ganho?

— Bem, se eu perder, eu fico uma semana inteira sem incomodar ninguém. Nem a Gangle.

A surpresa no seu rosto foi palpável com as últimas palavras. Estava muito fácil.

— E se vencer…?

— Você para de tirar sarro de mim e deixa de ficar de gracinha.

— Ótimo, por mim fechado. Até lá, qualquer queda sua é um riso meu — fechou os olhos com tranquilidade e saiu  afora pela tenda do circo.

A próxima aventura de Caim não foi competitiva. Nem a seguinte nem a última. E eu já estava ficando incomodado. Tantas aventuras esportivas e do nada ele abandona o trilho? Mas então chegou o dia em que ele apresentou uma nova aventura:

— A Competição Artística Congelante! — ele disse com aquela voz de bocó que ele tem, arrancando reações diversas.

Era simples. Patinação no gelo. Não devia ser muito diferente de patinação normal, talvez só um pouco mais frufru. Se fosse parecido, aquilo seria fácil demais. Eu sabia andar de patins da época em que trabalhei em shopping, não era nada complicado. O sorriso que eu abri para Zooble daria medo até em mim mesmo. Eu estava pingando confiança. Isso até Caim terminar:

— A Competição Artística será em grupo! Vocês formarão duplas e farão lindas apresentações com acompanhamento musical e tudo. Diferente das outras competições, desta vez eu quero um espetáculo de cada dupla, então eu vou deixar vocês usarem o ringue de patinação por três dias antes do dia de competição. Boa sorte, abelhinhas, que a melhor dupla vença!

Eu imediatamente quis morrer e isso só piorou quando fomos engolidos por um portal até o que parecia ser um ringue de patinação vagabundo de shopping, enfeitado ao redor para parecer algum feriado de inverno qualquer, cheio de luzes e decorações azuis e brancas. Fomos cuspidos fora ainda do gelo, onde pinguins enormes, NPCs, ajeitavam patins e colants em armários de metal.

— Espera, a gente escolhe as duplas? — a voz agudinha de Gangle atravessou o silêncio confuso em que todos estávamos.

Um pinguim se aproximou e a entregou o que aprecia um collant branco e dourado, cheio de babadinhos e lacinhos. Imediatamente, entregou um parecido para Zooble, mas sem babados, apenas um tecido de malha amarelo e branco, cheio de porpurina. Os times já estavam montados e eu quis morrer ainda mais. Por mais que eu odiasse a boneca de palha, eu teria ido imediatamente nela. Ela gostava de esporte e tinha alguma chance de termos alguma vitória juntos, mas assim que eu a vi comparar o azul do collant dela com o do Kinger, eu tive que me afastar, frustrado. Só faltava uma zé ruela e tinha que ser a criatura com menos coordenação motora que existia… eu estava morto.

Respirei fundo e a procurei com os olhos. Pomni estava admirando o próprio collant negro e branco, com uma saia e cheio de brilho. Quando o pinguim de desenho animado se aproximou de mim, não podiam restar mais dúvidas quanto a minha dupla. O collant negro e comprido removeu qualquer esperança do meu coração. Eu me recusei a olhar na direção de Zooble, eu não podia sofrer essa humilhação. Tinha uma aposta rodando ali entre nós e eu ia vencer nem que tivesse que ensinar a miudinha a patinar.

— Tá, Pom Pom, a gente vai ter que se virar — me agaixei próximo dela, que parecia incomodada com alguma coisa.

— Jax, eu não sei… a gente não pode só, sei lá, desistir? Isso já parece humilhação demais.

Eu queria pode concordar com ela, mas eu conseguia sentir as intenções nojentas de Zooble do outro lado daquele salão.

— Não não, senhorita. Você precisa se divertir um pouco mais, anda, vai ser legal.

Eu a segurei pela mão e a guiei até onde os pinguins distribuíam os patins, ignorando o olhar estranho que ela direcionava para as nossas mãos. De alguma forma ela pareceu mais incomodada com o contato que com a ideia de vestir aquela coisa ridícula que ela tava segurando. Pegamos os patins e fomos cada um para um trocador. Foi rápido para mim, mas esperá-la do lado de fora me soou como uma eternidade. Depois de quinze séculos, ela saiu, pequena, ridícula, com o collant negro contornando o corpo esbranquiçado, a sainha caindo delicada pelos quadris, as mangas afofando os ombros, a… enfim. Virei o rosto antes que encará-la ficasse esquisito e respirei fundo.

— Jax, você me ajuda? — virei de volta, erguendo uma sobrancelha de dúvida.

Ela estendeu uma gargantilha de veludo negro, enfeitado por um pingente de pedra, também negra. Acho que fiquei tempo demais em silêncio porque só percebi que a estava encarando quando ela continuou falando:

— A fechadura é muito pequena, eu não tô conseguindo prender.

Então peguei o acessório das mãos dela, me pondo de joelhos apenas para conseguir altura suficiente de alcançar seu pescoço. Ela puxou seu cabelo todo para o lado para facilitar o encaixe e foi só então que percebi que ela não usava o chapéu de boba da corte. Seu cabelo estava todo a mostra, solto na altura abaixo do queixo, com as madeixas levemente curvadas para fora.

Que inferno, quem se importa? De qualquer forma, fomos até os banquinhos de frente para o ringue, onde eu calcei os patins. Ela demorou um pouco mais que eu, mas pelo menos isso ela sabia fazer. Minha fé nela já era praticamente nula, mas ainda havia alguma chance de eu fazer tudo e deixá-la só de enfeite na apresentação. Eu entrei primeiro, sentindo o gelo, me acostumando com os patins. De fato, não era tão diferente assim de patinar no concreto. Eu dei um passo, depois outro, deslizei um pouco e voltei para a entrada, estendendo a mão para Pomni poder entrar.

Ela encarou minha mão como se suspeitasse de algo, mas então a aceitou e eu a puxei para o gelo. Ela estava certa em suspeitar de mim e, por isso, não a repreendi quando gritou de susto e me xingou. Foi engraçado ver o vermelho das bochechas tomando o rosto inteiro de raiva.

— Jax!

— Você tá de pé, olha — ela olhou para si mesma e revirou os olhos — Parabéns, agora não cai.

Eu a soltei e ela imediatamente procurou se agarrar no ar, onde eu antes estava. Ela ficou de pé. Torta, mas ficou. Ela pôs um pé na frente do outro, andando devagar na minha direção, sem coragem de deslizar.

— Põe os pés na diagonal e vem deslizando. Impulsiona com um pé só — eu adverti e ela tentou. Ela não deslizou quase nada, mas eu cheguei um pouco mais perto para parecer que sim — Viu? Não é tão difícil.

Ela olhou para o alto, para mim, ainda confusa.

— Desde quando você sabe patinar?

— Ah, eu tenho meus dons — sorri travesso.

— Claro — ela riu baixinho.

Eu me pus de frente para ela e segurei suas mãos. De novo aquele olhar de desgosto, mas eu a puxei de levinho para frente.

— Vem andando, eu te seguro.

Ela deslizou um pouco mais. Depois de um tempo, ela parecia achar divertido. Eu fingia que ia soltá-la e, com o medo, ela quase caiu várias vezes, mas eu a segurei em todas elas, rindo de quão boba ela era. Em pouco mais de uma hora ela já conseguia ficar ereta nos patins e deslizar sem tropeçar nas próprias pernas, o que era um avanço, mas não o suficiente. Do outro lado do ringue, Zooble e Gangle eram muito mais ágeis. Não eram magistrais em nada, mas conseguiam pelo menos performar alguma coisa em sincronia. Pomni mal havia aprendido a ficar de pé sem cair de cabeça no gelo.

— Jax? — ela tentou seguir meu olhar até Zooble, mas eu me pus na sua frente — Aconteceu alguma coisa?

— Não — franzi o cenho, mas logo balancei a cabeça e sorri — Anda, vem me seguindo.

O meu alívio foi ter cruzado com Ragatha e Kinger. Como eu tinha imaginado, a boneca realmente era boa naquilo. Não excepcional, mas boa. Só que Kinger mais deslizava ereto como um cubo de gelo que qualquer outra coisa e os dois não pareciam focados em vencer nada. Se divertiam rindo como se nada daquilo passasse de um jogo… para eles não passava. E mais uma vez a voz de Pomni me trouxe de volta ao centro.

— O que foi, hein? Você parece muito distraído hoje. Tá estranho até pra você.

— Ha ha — ri irônico — Eu tô normal, você que tá me dando tédio.

Dois segundos depois, os pinguins expulsaram a gente do ringue e começaram a fazer a manutenção. As luzes se apagaram e fomos guiados para outro lugar. Depois de corredores, havia uma sala comunal e uns quartinhos. Aquilo realmente seria um acampamento de inverno, né? Havia até um pinguim passando com chocolate quente e biscoitos assados equilibrados em uma bandeija comicamente pequena.

— Ai, que lindo! — Gangle pegou um biscoito.

— Olha, tem salas para cada dupla — Ragatha apontou — deve ser onde a gente vai decidir a música da apresentação, né?

— Parabéns, Ragatha, decifrou sozinha? — eu revirei os olhos.

— Deixa ela, Jax — Pomni tentou dar bronca, mas eu já não estava mais escutando, peguei um chocolate quente e fui direro para a sala com a porta negra. Claramente cada porta tinha a cor de sua respectiva dupla. Pomni se despediu dos outros, trocou palavras fúteis de motivação e me seguiu, com um chocolate e um biscoito em mãos.

A sala era cheia de puffs, cadeiras de escritório, uma mesa e uns instrumentos, como se alguém fosse tocar algum deles. A única coisa útil naquela sala era um aparelho de CD e algumas músicas gravadas.

— Bem — ela disse, tateando caixinhas de CD aleatórias — Qual a música que a gente vai escolher?

— Escolhe você — eu disse, soando desinteressado. Eu já estava ficando cansado e arrependido da aposta.

— Ué, você estava todo animado ainda há pouco — ela nem se virou para me olhar, prestando mais atenção aos discos. Tentei rir em resposta.

— Pode escolher qualquer coisa, eu consigo fazer a gente vencer com qualquer porcaria que você escolher.

Tentei me distrair com a xícara branca entre os meus dedos. Era um calor bom, levemente nostálgico demais. Mas tentei beber um gole. Depois outro. Só saí da minha meditação de cacau quando Pomni deu uma risada no outro lado da sala.

— Eu conheço essa aqui. Ficou famosa um pouco antes de… bem, de eu vir parar aqui. Acho que ela é interessante.

Ela me mostrou uma coleção de Matt Maltese, apontando para faixa chamada As the World Caves In.

— Nunca ouvi essa merda. Você tá inventando música.

— Cala a boca, escuta aí.

E pôs num aparelho, me entregando um par de fones. Eu tive dificuldade de encaixá-los nas minhas orelhas, mas quando comecei a escutar a música, entendi por que ela a havia escolhido. Pelo menos visão artística ela tinha.

— Pode me dizer por que quer tanto vencer isso? Você nunca foi tão… competitivo. Só se importa em fazer baderna.

Não respondi. Fechei os olhos e me concentrei na música, tentando visualizar algo simples. No dia seguinte a gente teria de treinar bem mais, com certeza. Quando abri os olhos, ela ainda estava me olhando, mas completamente desconcentrada. Quando percebeu que nossos olhos se cruzavam, ela desviou o rosto e tentou não sorrir. Idiota.

•••

Não havia dormitórios nem camas. Apenas sofás e colchonetes espalhados pela sala comum. Eu arrastei um colchonete para a sala preta, evitando aquele climinha de confraternização que as meninas inventaram do nada. Parecia uma festa do pijama. Até Kinger pareceu confortável ali, deitado em um amontoado de travesseiros. Pomni ainda tentou me convencer a ficar por ali, mas nem aqueles olhos enormes e coloridos me fariam participar daquela porcaria. Me fechei na sala e dormi até o dia seguinte.

Havia café e mais biscoitos pelo cheiro. Fazia muito tempo que eu não bebia café, mas era impossível esquecer a sensação. O primeiro gole levou todos os outros até o último antes mesmo de eu aceitar um biscoito.

— Bom dia — Pomni se aproximou. Os outros ainda estavam acordando. Era estranho ser o primeiro a acordar.

Pomni pegou comida e logo os outros vieram atrás. Assim que ela terminou de comer, dei uma batidinha leve na sua cabeça e apontei para fora. Corredores depois, estávamos de volta no ringue. Lugarzinho horroroso. Como eu estava com pressa, amarrei os patins e a ajudei amarrando o esquerdo enquanto ela ainda amarrava o direito. Ela ainda tentou reclamar, mas ignorei aquela vozinha irritante e fui direto para o ringue.

Daquela vez, a deixei um pouco sozinha e fui patinar um pouco de verdade. Correr, apenas sentir os patins arranhando o gelo. Era estranho ter a primeira experiência com patinação no gelo ali, numa simulação do circo. Mas acho que eu gostaria de sentir aquilo caso… enfim. Pelo menos o dia ainda estava no início e a gente podia patinar um pouco mais.

Mal me aproximei e já tive que lidar com aquele rostinho redondo me encarando estranho. Pomni parecia surpresa por algum motivo.

— Você gosta mesmo disso, né?

— De te deixar sozinha no meio do gelo pra te deixar cair e rir muito? — sorri — Adoro.

— De patinar, idiota. Você parecia concentrado, foi bem bonito de ver.

Franzi o cenho e tive que me concentrar muito quando senti o rosto começar a esquentar.

— Eu nem fiz nada demais — desconversei — Enfim… Você parece saber ficar de pé.

— Bem, é que me ensinaram bem ontem.

O que ela tava fazendo?

— Pois então comecemos algo novo.

Passamos um bom tempo no ringue. Tentei ensiná-la a patinar de costas, usar uma perna só, manter o equilíbrio enquanto ensaiava algum movimento mais dançado. Ela sabia dançar. Era péssima em praticamente tudo, mas usava o corpo com graça quando precisava. Eu fazia um movimento e ela tentava acompanhar. Dentro de algumas horas a gente já tinha alguma sincronia. Quando ela começava a cantar baixinho a música que escolheu, eu sabia que ela estava tentando encaixá-la em uma coreografia. Pela primeira vez eu senti que tê-la como dupla foi a escolha certa. Quando ela se apoiou nos próprios joelhos, percebi que estava cansada, então fizemos uma pausa. Ainda faltavam algumas horas para ensaiar.

— Sabe, eu tô começando a gostar disso — ela comentou.

— É, eu percebi — respondi sem querer e me arrependi quando ela sorriu. O rosto dela pareceu esquentar, então tentou disfarçar chegando uma xícara de chocolate quente mais para perto do rosto. Em contrapatrida, senti minhas pupilas retraírem, então tive que desviar os olhos também. Para garantir, ainda dei tapinhas no meu rosto e fiquei encarando os outros, que ainda patinavam.

Ragatha estava rindo enquanto Kinger a levava nas costas como se não fosse nada. Digo, ele não conseguia sair do lugar, mas, se conseguisse, eu teria medo daquela dupla. Rags estava com o cabelo todo preso em um rabo de cavalo em um laço da cor do vestido enquanto Kinger parecia irritantemente mais elegante que eu. Eu suspirei e Pomni deu uma batidinha no meu braço.

— Relaxa. Você tá levando isso muito a sério. Come um biscoito.

— É — me forcei a sorrir — Não é como se a gente fosse perder também. Bora.

A puxei de volta para o ringue, segurando firme nos dois braços enquanto ela, confusa, tentava se manter equilibrada e rígida, se agarrando a mim como se fosse sua única esperança de não cair. E eu não a deixaria cair. Minha honra dependia de não deixá-la cair. Me afastei dela apenas o suficiente para tentar fazê-la girar, como em uma dança, o que ela pareceu entender. Rindo, ela girou e eu a girei mais uma vez e outra, a fazendo perder totalmente o equilíbrio. Mas ela não parou de rir. Ela sabia que eu ia segurar e eu segurei, uma mão na dela e outra, na cintura. No meio daquele gelo falso todo ela parecia emanar calor, sem parar de rir pelo susto que foi o giro e a quase queda. Eu não evitei de sorrir.

— Isso foi ótimo — ela disse, recuperando o fôlego — Faz de novo.

E a gente fez várias vezes até ela não cair mais. Todas as vezes eu a segurei, mesmo quando ela já ficava de pé sozinha, e isso a dava ainda mais conforto. Era estranho sentir isso. Saber que eu a dava conforto, que ela ria daquele jeito por minha causa, que ela confiava de eu não a deixar cair. Bastou um dia patinando com ela, já nem ligava mais quando eu segurava em suas mãos ou chegava perto demais. Parecia natural. E eu odiei cada segundo disso. Tantas vezes quis deixá-la cair, tantas vezes quis nos afastar. Mas ou era ser gentil com ela ali ou seria ser gentil com todo o resto por uma semana. A diferença na balança não podia ser mais óbvia.

Mas toda vez que ela cantava… em todo "it's you that I lie with" eu queria morrer. Meu peito doía e uma vez ou outra senti que não seria mais capaz de segurá-la. Eu queria que ela calasse a boca. Queria que ela não estivesse tão linda naquela roupa. Que ela fosse embora antes de eu estragar tudo mais uma vez. E ela ria tanto a cada giro. Eu dei graças a deus quando a noite caiu e as luzes apagaram no ringue. As mãos dela estavam nas minhas e eu senti o calor mesmo depois de ela soltar. Os pinguins nos expulsaram mais uma vez. E os corredores pareceram infinitos até a sala comunal.

Eu só percebi o quão avulso eu estava quando ela me ofereceu água aquecida e eu aceitei. Segurei a xícara entre os dedos como se segurasse um pecado. Mas bebi a água. Ela estava certa. Eu estava levando aquilo a sério demais. Era só um treino. Tudo se resumia a vencer e humilhar Zooble uma vez mais.

Naquela noite nós não fomos para a sala da porta negra. Ficamos na comum, ainda que sozinhos. Os outros foram para suas salas de dupla. Pomni parecia entretida com globos de neve com figuras de pinguim, chacoalhando vários diferentes.

— Olha esse, o pinguim descolou lá dentro e mexe junto com a neve — ela sentou ao meu lado, em um puff.

Eu ri baixinho, era realmente idiota. Mas de novo eu me perdi olhando para ela, que agitava aquela desgraça como se ficasse cada vez mais engraçado. Ela era tão idiota. Tão tão idiota. Então minha mão tocou na dela e eu fingi imediato interesse no globo, o tomando dela devagar, só para sentir a mão dela na minha. E não conseguia diferir o que eu odiava mais naquela situação: querer tocá-la de novo ou ela enrubrecer. Aquela merda parecia toda muito íntima.

Foi a primeira vez na minha vida em que eu agradeci em silêncio por Zooble aparecer na minha frente. Gangle saiu da sala amarela logo atrás e já veio sequestrando Pomni de mim para lancharem algo docinho e eu senti que foi melhor assim. Longe de mim com toda aquela tensão.

— Sabe, tô achando isso tudo interessante.

— Ah é? — tentei soar debochado — Não sabia que você gostava de patinar.

— Nem eu sabia que você gostava — revirei os olhos — Eu tenho passado um bom tempo com a Gangle e com os outros também. Essa, na verdade, é uma das melhores aventuras que o Caim já propôs. É leve e divertida.

— Leve — eu repeti com rancor sem perceber. Mas Zooble percebeu. Olhou para mim e para Pomni antes de continuar:

— É estranho como você perde esse seu sorrisinho debochado quando tá com ela.

Eu franzi o cenho e senti meus olhos encolherem no rosto.

— Tá insinuando o quê?

— O jeito como você olha pra ela. É diferente. Jax, não tem nada de errado em se afeiçoar com…

— E do que você sabe? — eu levantei, já me sentindo alterar o tom de voz, mas sem controle nenhum — Acha que eu me importo com ela? Com qualquer outro? Como você é idiota. Eu já disse pra ela uma vez e digo pra você também, eu não tenho amigos. Eu só tô aturando estar com ela por causa da aposta idiota que a gente fez. Senão, na primeira oportunidade, eu deixaria ela cair!

Eu só fui perceber que Zooble não olhava mais para mim quando terminei de reclamar. Seguindo seus olhos, virei para trás e me deparei com Pomni, olhando para nós como quem se sentia traída. E eu me arrependi por não ter deixado isso para depois. De ter caído nas artimanhas de Zooble e ter entregue a vitória nas suas mãos daquele jeito. Eu não me importava se Pomni me odiava ou não. O único problema era que, afetada daquele jeito que a umidade dos seus olhos denunciava estar, ela era um desequilíbrio.

Pomni pareceu processar aquelas informações por um tempo, ficando calma em alguns segundos, e um tanto menos confusa. Ela respirou fundo e então olhou nos meus olhos. O que antes era um desespero sem chão pela traição, agora era uma fúria contida que eu tinha que admitir que era assustadora.

— Eu entendo. Você podia só ter sido sincero ao invés de me fazer sentir…

Ela travou. A raiva se tornou decepção e ela parecia prestes a chorar. Mas não chorou. Sequer continuou o pensamento.

— Escroto do caralho — ela murmurou antes de se trancar na sala negra sozinha.

O rosto de Zooble estampava culpa, mas não por mim, por Pomni.

Quando Ragatha soube o que houve tive ainda que ignorar mais um olhar raivoso. Ela tentou várias vezes chamar pela idiotinha do collant preto, mas eu sabia que ela estava com um fone de ouvido no volume máximo escutando músicas questionáveis. Ela nem devia estar escutando as tentativas de Ragatha ser o ombro sobre o qual ela pudesse chorar. Não podia. Pomni não a enxergava dessa forma. E o pior, para Ragatha, era saber quem, de fato, era o ombro no qual ela queria chorar. 

A noite passou lenta demais. Mesmo depois de todos dormirem, eu ainda me peguei acordado demais, pensando demais. E isso nunca era bom sinal. Um dia seguinte nunca havia demorado tanto para nascer quanto aquele.

•••

O ringue pareceu maior e mais vazio naquele dia. Para a minha surpresa, eu não fui o primeiro a acordar. Eu sequer comi antes de sair pelos corredores, não faria diferença de qualquer forma. Quando cheguei, Kinger e Gangle patinavam juntos, brincando antes de qualquer treino. Pomni já estava no ringue, de patins e tudo, só deslizando de um lado par o outro, fazendo curvas aleatórias, andando em círculos. Ela parecia gostar. Em tão pouco tempo ela tinha aprendido bastante coisa. Não que fosse complicado, não era, mas ela não era o tipo de pessoa que gostava de esporte. Aquilo mal podia ser chamado de esporte. Eles estavam só… sentindo o gelo.

Quando entrei no ringue, Pomni já estava se aproximando, devagar como quem queria me fazer esperar. Me aproximei na mesma velocidade. Quando ela chegou a menos de um metro de mim, foi impossível ignorar o quão acaba ela estava. Os olhos pareciam carregar resquícios de inchaço, como se ela tivesse passado a noite em claro, chorando na maior parte do tempo. Eu tentei muito ignorar isso, mas ela percebeu no meu rosto alguma coisa que denunciou qualquer ressentimento. Abaixou os olhos, piscou devagar, depois voltou a olhar para mim. 

— Você é um professor até que bom — ela disse baixinho. Se no rosto era claro, na voz era óbvio que ela tinha chorado, rouca e baixa.

— E você é uma aluna… decente.

Ela não riu, tampouco eu o fiz. Seguiu na minha frente, para o canto mais afastado daquele ovoide de gelo sob nossos pés. A gente só patinou por um tempo, tentando encontrar alguma sincronia.

De vez em quando eu sentia algum olhar em nós. Confusos. Eu também estava confuso. Por que ela continuava aqui, comigo? Para ela, vencer não significava nada. Estar ao meu lado deveria significar menos ainda. Mas ali estava ela, séria, concentrada nos próprios movimentos e nos meus. Ela parecia ainda mais frígida e delicada que todo aquele gelo falso. A atmosfera ao nosso redor era tão tensa que eu fui incapaz de fazer graça com qualquer coisa. Já nem sabia mais o que eu queria.

Uma vez ela deixou a perna muito tensa e rígida, eu a corrigi com a maior indiferença que eu pude. Ela só olhou nos meus olhos e corrigiu a postura. Me movimentar com ela acabou sendo cada vez mais natural. Aquilo me pareceu uma dança, um dueto de amargura onde duas almas incompatíveis encontraram uma forma de se expressar. Segurar em sua cintura enquanto ela se sentia confiante o suficiente de arquear as costas inteiras para trás, como se quisesse tocar o chão com as mãos, me pareceu um teste. Como se ela quisesse provar que eu não a deixaria cair mesmo depois de dizer tudo aquilo ontem. E não deixei. Ou pelo menos tentei não deixar, porque em algum ponto do gelo havia uma fissura, na qual ela prendeu o patins e se desequilibrou. Ela estava prestes a cair e me puxaria com ela. Se eu caísse por cima, ela com certeza se machucaria, mas eu não tive tempo de pensar nisso. Não tive tempo de pensar em nada. Quando eu percebi que ela travou, imediatamente segurei a cabeça dela com o braços e me joguei de costas no gelo com ela envolvida o máximo possível por mim.

Nós dois deslizamos cerca de três metros até eu bater sem tanta força na parede.

— Você tá bem? — ela me perguntou, se desprendendo de mim, me fazendo perceber com quanta força eu a segurei.

— Eu que te pergunto — respondi ainda atordoado do susto. Nenhum de nós se machucou e nem teria se machucado, seria uma queda ridícula e, ainda assim, eu fui idiota o suficiente para tentar proteger aquele projeto de gente.

Ela respirou fundo, ainda agachada na minha frente. Seus olhos eram indecifráveis. Eu não sabia se ela estava aliviada, surpresa, assustada ou feliz. Quando percebi o movimento dos outros lá na distância para checar se estávamos bem, Pomni já tinha se levantado e me estendeu a mão para ajudar. Era uma idiota, com o meu tamnaho e força, se eu aceitasse, ela caía de novo. Então só me esgueirei pela parede e me apoiei para levantar eu mesmo. Mas isso deve ter batido errado nela pelo jeito que respirou fundo e me deus as costas, se aproximando dos outros para dar explicações.

Depois daquele show todo, ela me pediu uma pausa com o olhar. Eu a segui, mas não saí do ringue, apenas me apoiei na mureta, observando ela tirar o patins no banco mais próximo. Nenhuma marca denunciou machucado em sua pele, mas ela massageou o próprio tornozelo, provavelmente do pé que prendeu no chão.

— Cabeçuda. Tem que prestar mais atenção.

Ela não riu. Não esboçou qualquer reação.

— Olha, eu entendi que você não me quer por perto — ah, era sobre isso? — Sabe, eu não vou te dar a vitória. Acho que a gente já pode desistir. Você pode pôr a culpa em mim se quiser, assim a aposta não conta, né?

— A… aposta? — eu não queria trilhar aquele assunto, então tentei mudar o foco: — Do que você tá falando, Pom Pom, não seja boba. Você tá ótima, é só prestar atenção por onde…

— Jax, chega. Para de fingir que nada aconteceu. Eu não sou burra. Nem sou criança. Para de brincar com os meus sentimentos. Se o que você quer é vencer, eu até estaria disposta a tentar só porque foi divertido patinar com você — ela parecia falar mais para ela que para mim — Mas se, pra você, não vale a pena, então que se dane, não é? Se você não se diverte comigo… o que você tá tentando fazer? Vencer não é, porque você sabe que a gente não consegue. A gente acabou de provar que, se eu caio, você cai junto.

Ela se levantou mais cansada que irritada e estava pronta para ir embora. Ela ia partir, sozinha, me deixando para trás, mas, por algum defeito do meu cérebro de desenho animado, eu a impedi, saltando pela mureta do ringue, ainda de patins, segurando no seu ombro. Ela virou para trás, confusa e talvez incomodada, mas eu não me afastei por algum delírio de coragem.

— Eu… você é idiota, né? — eu era ótimo com as palavras — Eu vi como você fica quando tá patinando e eu nunca achei que ia te ver tão serena e confiante do meu lado. Eu não quero vencer sem você.

Seus olhos cresceram em um espanto genuíno que eu provavelmente também não conseguia esconder.

— Digo — eu tentei consertar, nervoso — Não dá pra vencer sem você, então…

Eu não conseguia não rir de nervoso, minhas mãos estavam suadas, eu estava morrendo de calor por dentro e por fora. Tudo só piorou quando ela me abraçou.

— O que você…?

Ela me interrompeu dando um chute na minha canela, me fazendo dar um grito que definitivamente não soou agudo. Ela suspirou em uma espécie de alívio e me estendeu a mão. Depois da massagem que eu fiz na região do chute, eu me ergui e aceitei. O sorriso dela era lindo.

•••

Não sei dizer se o que me acordou foi a luz de um sol falso e sem sentido direto nos meus olhos ou o braço de Pomni ter me acertado bem acima do estômago. A gente tinha ido dormir na sala negra, em colchonetes que arrastamos até lá. Era mais pela privacidade entre competidores que qualquer coisa, todas as duplas fizeram o mesmo. Acontece que ela quis pôr o colchonete dela bem ao lado do meu. Pomni se mexe absurdamente quando dorme, pelo jeito que ela estava torta e com a perna e o braço sobre mim. E além de tudo ela babava.

Eu a empurrei devagar para longe de mim, o suficiente para não ser estranho, e só então eu a acordei com uns tapinhas na cabeça. Ela reclamou, mas estava mole demais para me impedir.

Na sala comum, apenas Zooble e Kinger já estavam acordados, comendo. Só a minha presença já foi o suficiente para o peso tomar conta do espaço na mesa, então eu estava pronto para sair sem comer nada de novo, mas Pomni me puxou pelo pulso, fingindo estar contente com alguma coisa, o que fez Zooble ficar com ainda mais confusão no rosto. A coisa mais sábia que Zooble fez em toda a sua vida foi não dizer nada e apenas aceitar. Pomni pegou o que parecia ser misto quente de algum lugar no quinto dos infernos e chocolate quente. Aparentemente só tinha chocolate, café e água pra beber naquele lugar.

Eu aceitei e comi com ela, também em silêncio. E eu nunca fiquei tão aliviado de ver Gangle na minha vida como quando ela saiu do quarto com um bom dia irritante e radiante, desfazendo o peso da mesa.

Não houve treino naquele dia.

Assim que saímos pelos corredores que davam no ringue e nos armários, o que vimos foi completamente diferente. Havia, sim, um ringue. Ele era um pouco maior, desembocando bem no fim do nosso corredor, centralizado. Ao redor, uma arquibancada cheia de NPCs pareciam aguardar a nossa chegada.

— Isso tá certo? — Gangle esfregava as fitinhas das mãos — A gente nem disse quais músicas nós escolhemos e já vai começar?

Como se apenas estivesse esperando esta pergunta, Caim brotou por trás de todos nós, rindo como se a dúvida fosse idiota.

— Está tudo certo, minha queridinha — aquela voz de locutor me irritava — Vocês deixaram bem claro qual música queriam nas salas privadas e a bolha selecionou todas para vocês!

— Se queriam mudar de opinião, agora não dá mais! — Bolha, flutuando lá no alto, respondeu, girando em torno de si mesma.

Nós ainda tivemos tempo de nos ajeitar. Vestir os patins e alongar um pouco. Eu ainda catei um dos pinguins, que ainda estavam por ali, pedindo por um elástico. Assim que ele voltou, eu sentei ao lado de Pomni.

— Posso fazer uma coisa? — perguntei, passando a mão de leve em uma madeixa do cabelo dela.

Um aceno contido foi sua resposta, então separei uma parte de seu cabelo para prendê-lo. Eu não era exatamente bom com penteados, mas um coque não era nada absurdo de fazer. Parecia mais fresco e dinâmico que só deixar aquele cabelo todo bater no rosto e grudar no pescoço. Ela estava tão linda entre as minhas mãos que eu quis explodir e morrer ali mesmo, que inferno. E ela pareceu perceber porque riu e bateu no meu braço como quem pedia para eu deixar de ser estranho. Eu tive que aproveitar para tirar sarro e me apoiar com o braço, me inclinando na direção dela como um galanteador idiota de filme de antigo. Ela me bateu ainda mais, o que, para mim, era uma vitória.

A primeira dupla foi Kinger e Ragatha. A música deles era alguma clássica de ballet. Algo a ver com Quebra-Nozes ou algo assim, bem besta e básica, como eles sempre eram. Por algum motivo, não acenderam luz nenhuma durante a apresentação, sendo difícil enxergar o que eles faziam, mas com reflexo suficiente para depreender. Eles mais se divertiram fazendo coisas simples que qualquer tentativa de serem bons. Mas os brilhos no vestido claro de Ragatha refletia como estrelinhas no escuro, ou como vagalumes que o Kinger parecia seguir enquanto ela girava com a graça de uma bailarina. Talvez ela fosse mesmo feita para essas coisas. E ela jamais saberia disso vindo de mim porque no primeiro segundo desde que eles acabaram eu gritei um "Fez no escuro só pra ninguém ver a vergonha que foi isso!". Todos ficaram em silêncio antes de uma salva de aplausos da plateia se manifestar.

Pomni revirou os olhos e eu sorri. Uma bancada de juri composta por quatro NPCs e por Caim deram notas entre 5 e 6, com exceção de Caim, que deu 9. As luzes se acenderam, Bolha veio buscar Gangle e Zooble, que estavam sentados um pouco atrás da gente. O que a primeira dupla foi básica, a segunda foi extra. Eu nem precisava pensar demais pra saber qual das duas tinha escolhido uma música tradicional japonesa.

Por algum motivo, foi Gangle também quem segurou toda a atenção na pista. Claro, o corpo dela talvez fosse o mais maleável para isso, mas o jeito como ela apoiava com uma das pernas no chão o suficiente para pegar impulso e, depois, de joelhos, rodopiava várias e várias vezes em uma velocidade absurda enquanto Gangle a cercava como um abutre. Outras vezes, eles se davam as mãos e giravam juntos, meio tortos, mas em sincronia suficiente para não cair e manter o ritmo. Claro, várias vezes elas se perderam no ringue ou perderam o compasso da música. Mas ninguém ali era profissional. Alguns 8 e 9, incluindo o 9 de Caim, se ergueram em plaquinhas.

Estava claro quem tinha vencido, porém. Eu olhei para Pomni e ela, de olhos arregalados, olhou para mim.

— É… a gente ainda quer fazer isso? — ela riu fraquinho, uma pergunta retórica. Ainda assim, eu segurei na sua mão. Isso foi o suficiente.

Eu ignorei Bolha assim que aquela aberração se aproximou e só acompanhei Pomni até a entrada. A gente se posicionou ao centro, sentindo uma ansiedade ridícula para uma aventura idiota de Caim. Nada daquilo era real, a maior parte da plateia sequer existia. Ainda assim, todos os olhos estavam em mim. Todos os olhos que importavam. Pomni não parava de me olhar. Então eu respirei fundo e reverenciei o vazio, a obrigando a fazer o mesmo.

A gente podia não ter talento nenhum, mas sincronia aprendemos a ter. Quando As the World Caves In soou nos meus ouvidos, eu me movi como se fosse programado para isso. O que a gente não sabia saltar ou girar, a gente soube dançar. De um lado até o outro do ringue éramos apenas eu e Pomni. Eu mal prestava atenção na música, apenas respondia ao que ela fazia. Se ela queria girar, eu a segurava, permitindo que ela se jogasse o quanto quisesse. Se queria expressar os movimentos através dos braços, eu a espelhava. Apenas guiava para não batermos em alguma parede como várias vezes quase fizemos.  Os olhos dela sempre buscavam os meus, como se pedissem desculpa ou como se pedissem para confiar nela.

O nosso uso do espaço era péssimo, mas quando ela voltava a se aproximar de mim, segurava nas minhas mãos e praticamente me abraçava naquela pista, eu já havia aceitado que íamos perder. Não tinha chance nenhuma. Quantas vezes Pomni quase não caiu. Quantas vezes eu não tive que chutar a parede para nos redirecionar para o centro. Aquilo provavelmente era ridículo de assistir. O que importava era continuar ali até a música acabar. Os três minutos mais longos da minha vida. Toda tomada de decisão era um segundo e um ponto a menos. Sempre que nos afastávamos, eu sentia meu corpo formigar, ansiando para segurá-la mais uma vez, para ouvir sua respiração no meu ouvido mais uma vez.

No meio da música, talvez um pouco mais para o final, eu senti um movimento diferente vindo dela. Seus olhos estavam em chamas, ela parecia se sentir invencível. E eu soube que ela queria tentar aquilo de novo. Quando ela tentou jogar as costas para trás, eu soube que ali havia uma decisão. Eu podia impedi-la e manter o nível simples da dificuldade ou podia errar com ela ali. Decidi errar. Porque o meu fôlego sumiu quando Pomni arrastou as pontas dos dedos sobre o gelo, totalmente inclinada para trás, e eu, por cima dela. Quando ouvi as lâminas raspando secas no gelo, já era tarde demais. Quem quase tropeçou fui eu, tendo que apoiar a mão no chão, perdendo a velocidade e o movimento. Mas ela foi dona de tudo quando abriu os olhos e eles refletiram os meus próprios olhos. Eu teria caído por ela se ela pedisse, teria a segurado pelo tempo que fosse só para vê-la tão segura, tão delicada e tão imponente.

Com o último As the World Caves In, paramos, frente a frente, com as mãos dadas em uma pose de quem dançava algo de salão. Ela ofegava tanto quanto eu, sorrindo como se não tivéssemos perdido. Eu nem prestei atenção nos 6 e 7 que recebemos, nem no 9 de Caim. Eu sabia que tínhamos perdido. Meus únicos impedimentos de frustração ali eram: 1) Eu fui melhor que a Ragatha; e 2) Assim que nos reverenciamos, Pomni me abraçou. Não evitei de erguê-la no ar com o abraço e rodá-la, aproveitando o deslize do gelo, como se ela fosse uma princesa.

Em um estalar de dedos de Caim, uma enorme televisão mostrou o resumo das pontuações, liberando todas as duplas para invadirem o ringue. Não houve ansiedade nenhuma, nada de novo aconteceu. Os peitos meu e dela não pararam de subir e descer. O segundo lugar me atravessou como uma dor que eu já esperava. E que talvez nem tivesse doído tanto assim

— Eu faria de novo, acredita? — ela perguntou ao meu lado, num volume que só eu pude ouvir.

Não respondi, apenas segurei na sua cabeça, deixando um carinho no encontro da nuca com o pescoço.

Então Caim estourou a rolha de uma garrafa de "champanhe não alcoólico" e distribuiu medalhas para cada um. Diabolicamente, prata combinava com o meu figurino e com o dela. Ouro, para quem vestia amarelo. Bronze para quem vestia azul. Parecia até mesmo premeditado. Mas isso não impediu de Zooble se colocar na minha frente, freiando com estilo os patins, e me erguer a mão.

— Vocês foram bem. Eu espero que a aposta ainda esteja de pé.

Olhei direto nos olhos delu, então para Pomni, que aguardava minha reação com certa expectativa, e voltei a atenção para Zooble. Eu suspirei e reclamei com um grunhido do fundo da minha garganta, jogando a cabeça para trás como quem foi injustamente derrotado.

— Tá — me estendi nesse "tá", esfregando o rosto com as mãos — Eu não chuto, bato, mordo, xingo, assusto, aperto, ou mato ninguém por uma semana, assim tá bom?

— Já é um milagre, sinceramente — Zooble espichou os olhos como se tentasse transmitir cumplicidade e eu só revirei os olhos.

— Espera, o Jax vai se comportar que nem gente? — Ragatha surgiu da puta que pariu pra encher o saco — Por uma semana inteira?

Enquanto os idiotas comemoravam a pior semana que se estenderia na minha vida, Eu me afastei uns passos. Pomni me acompanhou.

— Eu achei por um segundo que você ia me culpar e voltar atrás — o sorriso dela denunciava a vitória que estava sentindo. Eu continuei a brincadeira.

— Eu falei que não queria vencer sem você, não disse nada sobre perder com você. Isso eu farias várias vezes — e apertei o seu nariz.

— Ai, sai dessa! — ela reclamou, mas não se afastou — Mas obrigada.

— Por…?

Ela abriu a boca, mas desistiu de falar, então sorriu e desviou:

— Nada. Você foi péssimo na maior parte do tempo.

— Eu? — fingi raiva — Você literalmente dependeu de mim pra não cair o tempo inteiro!

— E você tava lá, não tava?

Eu odiava essa garota. Ela gostava de me pôr contra a parede. Revirei os olhos antes de sentir suas mãos nos meus pulsos. Com a força que me agarrou, também me puxou para baixo, me dando um susto.

— Você me segurou, não segurou? — ela continuou, perigosamente perto do meu rosto — Foi assim tão ruim?

A maldita sabia exatamente o que estava fazendo, então segui na mesma linha.

— Até que podia ter sido pior — eu me aproximei, mantendo a distância de pouco mais de um dedo — Mas você não chegou nem perto de me agradar.

Ela eliminou qualquer distância entre meus lábios e os dela, me puxando até com certa violência em um selo bruto, que mais foi um amassão de rostos.

— Que que é isso, o que foi que eu perdi? — eu ouvi e ativamente ignorei a voz de Ragatha.

Ao invés de responder com um dedo do meio, o que eu infelizmente não poderia fazer por uma semana, eu segurei no rosto de Pomni, a obrigando a suavizar o beijo. Quando ela se afastou, eu quase ri da falta de ar dela. Mas nem assim ela perdeu a compostura.

— Te agradei agora por acaso?

Eu sorri.

— É, se você fizer isso mais vezes vai acabar me agradando alguma hora.

E eu devo admitir… aquela só não foi a pior semana da minha vida porque Pomni beijava bem.

Notes:

Me baseei muito nesses vídeos para descrever as cenas de patinação:

https://vt.tiktok.com/ZS5FUYj1m/
https://vt.tiktok.com/ZS5j54Nt4/
https://vt.tiktok.com/ZS5j5Wpxn/
https://vt.tiktok.com/ZS5j5mCqx/
https://youtu.be/23EfsN7vEOA?si=3eOT4ttH9qmtyprX

Espero que tenham gostado.