Chapter Text
A luz fria e pálida do amanhecer filtrava-se pelas grandes janelas do escritório central, mas não trazia calor. O ambiente era impregnado pelo cheiro de incenso antigo e madeira encerada. Sanemi Shinazugawa estava parado no centro da sala, os braços cruzados sobre o peito cicatrizado, a respiração curta de quem preferia estar em qualquer lugar, menos ali.
À sua frente, Kagaya Ubuyashiki mantinha uma postura quase sobrenatural de paz.
— Por que eu? — A voz de Sanemi rasgou o silêncio como um golpe de espada. — Sempre tenho que ser eu a carregar o peso morto dos outros tenho ninhos de demônios para limpar, Mestre.
Kagaya inclinou levemente a cabeça. O movimento fez as sombras nas estantes de relíquias dançarem.
— Todos os outros Hashiras estão em missões críticas, Sanemi. O mundo não para, mas o tempo parece ter estagnado na Mansão da Água e faz semanas que Tomioka não responde aos corvos. Apenas você e ele restaram na sede.
O nome "Giyuu" atingiu Sanemi como um soco no estômago. Ele apertou os punhos, as unhas cravando na palma da mão.
— Cabe a você verificar se ele está bem — continuou Kagaya, a voz firme apesar da fragilidade física. — Um Hashira em desequilíbrio é um risco para si mesmo e para a Corporação.
Sanemi engoliu em seco, sentindo o gosto amargo da obrigação. Havia algo no tom do Mestre que não permitia recusa uma mistura de comando e uma compaixão que irritava o Alfa ele deu as costas, o hakama farfalhando agressivamente.
— Se ele estiver apenas de preguiça, eu mesmo o arrasto pelos cabelos de volta ao treino.
Sanemi caminhava pelos corredores da Corporação, mas seus olhos não viam os vitrais coloridos ou os aprendizes que se encolhiam à sua passagem. O vento frio que assoviava entre as colunas trazia memórias que ele lutava diariamente para manter trancadas.
Kanae.
Toda vez que o assunto envolvia a dinâmica de Alfas e Ômegas, a ferida aberta em sua alma latejava. Ela tinha sido sua Ômega a delicadeza que equilibrava sua fúria. A morte dela não foi apenas a perda de uma companheira de armas, foi a quebra de um vínculo que deixou o lobo interno de Sanemi permanentemente em guarda, rosnando para o mundo. Ver Giyuu um Ômega que sempre tentou esconder sua natureza atrás de uma máscara de indiferença era como olhar para um espelho quebrado do que ele não pôde proteger.
"Por que ele insiste em ser tão isolado?", Sanemi pensava, a irritação crescendo enquanto atravessava a cidade. "Se ele está em crise, se o instinto dele está falhando... por que não pediu ajuda?"
A apreensão começou a sufocar a raiva. Ele temia o que encontraria, temia que o silêncio de Giyuu fosse o mesmo silêncio que precedeu a morte de Kanae.
Ao chegar aos arredores da Mansão da Água, o entardecer já tingia o céu de um roxo profundo e melancólico. A propriedade era cercada por um lago cujas águas eram tão paradas que pareciam mercúrio líquido, refletindo a lua nascente de forma prateada e fria.
O jardim era um labirinto de sombras longas. As árvores altas se curvavam sob o vento, sussurrando segredos que Sanemi não queria ouvir. O portão de madeira antiga rangeu de forma lúgubre quando ele o empurrou, o som ecoando pela propriedade deserta. Não havia servos, não havia barulho de treinamento. Apenas o som da água batendo suavemente nas pedras.
Sanemi parou subitamente. Ele dilatou as narinas, seus sentidos de Alfa entrando em alerta máximo.
O ar estava pesado. Havia o cheiro metálico da água e o aroma doce das glicínias, mas, por trás de tudo, havia uma nota sutil e inebriante. Era um perfume de chuva fresca misturado com algo salgado, como lágrimas, e uma doçura abafada que indicava apenas uma coisa um Ômega sob estresse extremo, ou pior, um ciclo de cio que estava sendo reprimido à força.
O coração de Sanemi martelou contra as costelas a irritação desapareceu, dando lugar a um instinto de proteção ancestral que ele tentou desesperadamente ignorar.
— Tomioka! — ele gritou, mas sua voz pareceu ser engolida pela névoa do lago.
Ele caminhou em direção à varanda principal, a mão repousando no punho da Nichirin. A atmosfera era de um mistério sufocante. Ele sentia que, ao abrir aquela porta, não encontraria o Hashira da Água que conhecia, mas alguém quebrado. E, pela primeira vez em anos, o Alfa em Sanemi não queria lutar, queria apenas encontrar a origem daquele cheiro desesperado e garantir que o silêncio finalmente parasse de gritar.
Esta é uma virada intensa e dramática para a história. O contraste entre o instinto animal do Alfa e a rejeição consciente do Sanemi cria uma angústia profunda.
Sanemi não esperou por uma resposta. Ele arrombou a porta de correr da câmara principal com um estrondo. O cheiro que antes era sutil agora o atingiu como uma parede de calor e desejo. O quarto estava fracamente iluminado por uma única lanterna de papel no canto.
No centro do tatame, Giyuu Tomioka estava de costas. Ele não usava o haori, nem o uniforme de caçador. Estava apenas com a calça do uniforme, a pele nua das costas brilhando sob uma camada espessa de suor que escorria por sua espinha. Os cabelos negros estavam colados ao pescoço, e seus ombros subiam e desciam em uma respiração curta e ruidosa.
Sanemi parou, o ar preso na garganta. Ele engoliu seco, sentindo sua boca subitamente amarga e seca. A visão daquele Ômega, tão vulnerável e exalando um aroma de chuva e desespero, fez o lobo dentro de Sanemi uivar.
— Tomioka... — a voz de Sanemi saiu como um rosnado baixo, quase um lamento.
Giyuu inclinou a cabeça, os olhos azuis nublados pelo cio, perdidos em um delírio de febre. Ele não via Sanemi como o Hashira do Vento ele via apenas um Alfa. O que aconteceu a seguir foi um borrão de instinto puro. Sanemi, movido por uma necessidade primitiva que ele jurou nunca mais sentir, entregou-se ao caos.
A luz cinzenta da manhã seguinte entrou pelas frestas da porta que Sanemi nunca fechara. Ele acordou com o corpo nu e a mente latejando ao seu lado, Giyuu ainda dormia um sono pesado e exausto, envolto nos lençóis bagunçados.
Sanemi sentou-se bruscamente, o coração disparado contra as costelas. A confusão inicial foi rapidamente substituída por um horror frio. Seus olhos caíram sobre o pescoço de Giyuu. Ali, na junção do ombro, a pele clara estava marcada. Não era apenas uma cicatriz de mordida; eram linhas finas e arroxeadas que pareciam lufadas de vento eternizadas na carne. Uma marca de ligação.
O pânico tomou conta de Sanemi. Ele recuou, arrastando-se para longe do corpo de Giyuu como se tivesse sido queimado.
"O que foi que eu fiz?", ele pensou, a mente gritando. "Eu o marquei. Eu me liguei a ele."
A imagem de Kanae surgiu em sua mente, o rosto dela coberto de sangue. A culpa o esmagou, ele não podia ter aquilo. Não podia ter esse elo em um ato de desespero e covardia emocional, Sanemi recolheu suas roupas do chão, vestindo-se com as mãos trêmulas. Ele olhou uma última vez para Giyuu — a prova viva de sua fraqueza — e saiu da mansão antes que o sol terminasse de subir, deixando para trás apenas o cheiro de uma tempestade que passou.
Horas depois, o silêncio da mansão foi quebrado por um gemido de dor. Giyuu abriu os olhos devagar, sentindo cada músculo do seu corpo protestar. Sua cabeça girava e o quarto parecia estranhamente vazio, apesar do aroma pesado que ainda pairava no ar.
Ele tentou se levantar, mas uma pontada aguda no pescoço o fez levar a mão ao local instintivamente.
— Ah... — ele sibilou, sentindo a área inchada e quente.
Cambaleando até um espelho de mão próximo, Giyuu afastou o cabelo. O choque o paralisou. As marcas de vento em sua pele eram inconfundíveis. Elas pulsavam com uma energia que não era sua.
— O que aconteceu? — ele sussurrou para o quarto vazio sua voz estava rouca, a memória do cio era um buraco negro de sensações térmicas e toques que ele não conseguia identificar.
Ele se lembrava de uma presença. Lembrava-se de um calor que o salvou do frio da agonia, mas o rosto... o rosto estava perdido na névoa da febre ele estava marcado por um Alfa que não estava lá. Ele estava ligado a alguém que o tinha abandonado antes mesmo do primeiro despertar.
Giyuu sentiu uma lágrima solitária escorrer. A dor física era suportável, mas o vazio deixado por aquele Alfa anônimo que ele nem imaginava ser o homem que mais o odiava na Corporação era uma ferida que ele não sabia como curar.
