Work Text:
Era um dia comum da semana, um pouco antes do fim dela, e os Imperfeitos se planejavam para como passariam seus dois dias de descanso quando receberam um trabalho.
Era um pedido formal enviado pelo correio, escrito em letra de forma e com um selo incomum. O envelope da carta era amarelado com um perfume doce e leve de lavanda nele e o laço azulado que o prendia parecia da seda mais sedosa que se podia comprar.
Aquela situação chamou bastante a atenção do líder da guilda, hoje mais carente que o normal.
- Continua fazendo cafuné em mim enquanto eu leio, Mijy, por favor. - Mister
A garota apenas obedece com o rosto sério e ele abre o envelope. A carta é tão bonita e delicada que parece ser muito mais antiga do que realmente é. Mister dedilhou o papel e leu em voz alta, na sua cabeça imaginando uma garota linda entoando suas palavras:
"Querido Mister Sans, gostaria de convocar você e seus adoráveis companheiros para um chá em minha casa. Siga as instruções descritas nesta carta ao pé da letra (que não é um pé real, obviamente) e conseguirão se unir a mim sem problemas. Desejo a vocês uma boa viagem! Assinado, Alice"
- Conhece alguma Alice, novato? - Nerfix
- Não que eu saiba. - Mister
- Tem que aumentar a lista de contatinhos novato. - Nerfix
- Eu pretendo hoje. Bora lá conhecer a Alice. - Mister
- Ela não falou se tá com problemas.. - Joyce
- A nota sobre o pé da página me diz que é alguém excêntrico. - Hypno
- Nossa, três parágrafos de instruções.. - Mister
-
A reta final para chegar ao território da tal Alice era muito mais tranquila que o restante do caminho. Os Imperfeitos alcançaram uma espécie de corredor verde no qual uma árvore os esperava no fim, ou melhor, um toco.
Havia um buraco no centro dele que abrigava a mais profunda escuridão. Mister olhou pra isso e ergueu uma sobrancelha.
- Na carta ela disse mesmo "pule"? - Nerfix
- Uhum. - Mister
- Ouuu eu estou atrasado, muito atrasado!! - ???
- Quem disse isso? - Joyce
Um coelho tão branco quanto a neve surge no campo de visão deles trajando vestes clássicas de um conde e parecendo bastante desesperado. Na pata direita, segurava um relógio grande de bolso dourado com os algarismos romanos muito bem desenhados e com lindos detalhes em tinta prateada. Parecia uma relíquia e muito importante para ele.
- Que bonitinho! - Joyce
- Atrasado, muito atrasado! - Coelho
- Eu já vi isso.. - Mister
O coelho saltita rápido e vai até o toco de árvore para pular lá dentro. Ainda um pouco receoso, o grupo se aproxima dele e olha pro seu interior. Nada podia ser visto pra quem espiava de cima.
- Vai novato. - Nerfix
- Ta né, pelo menos se eu morrer, tem tu e o Hypno pra cuidar de tudo. - Mister
- Ô menino medroso, vai logo! - Nerfix
Mister pula e tudo escurece ao seu redor. Até que um monte de luz cegue os seus olhos temporariamente.
Havia milhares de furos no interior do toco com diversas passagens por onde entrava luz de todas as cores, havia potes com vagalumes dentro, outros com seres minúsculos que não podia-se identificar mas que emitiam brilho, bolas luminosas, lâmpadas, lampiões, luzes de Natal, fogueiras baixas e todas as formas possíveis de se iluminar um ambiente.
Mister pôde sentir o calor aumentar de maneira absurda e conseguia ouvir seus amigos caindo atrás dele. Ele tenta usar suas fitas para desacelerar a queda, prensando-as dos dois lados do túnel vertical, porém elas não seguram muito tempo e ele volta a cair.
As paredes eram feitas de terra maciça e bem forte que não dava espaço para se segurar; também tinham um aspecto áspero que incomodava as mãos. A descida durou longos vinte minutos até desacelerar e parar.
- O que foi isso? - Mister
Ele pergunta em um tom de surpresa e confusão genuínas.
- Nenhuma lógica conseguiria explicar. Parece um mundo diferente.- Hypno
- Um bem doido, gostei. - Nerfix
- Eu também, esse tempinho dá pra fazer várias coisas né Calebinho? - Cian
- A-ah dá sim.. - Caleb
- Vamo gente, acho que é por aqui. - Mister
Seguindo o que a carta lhe tinha apresentado, Mister guiou seus colegas pelo caminho que se seguia a sua frente. Era um corredor prolongado e escuro que não tinha som nenhum além do vento. Assim que o passaram, chegaram a um portão de ferro com corações nele e ele se abre.
A luz invade o ambiente para apresentar um local completamente diferente de tudo o que eles já haviam visto.
Um gigantesco jardim se estendia à frente deles com um caminho ladrilhado de azul e amarelo, com pedras irregulares que se encaixavam perfeitamente.
As plantas tinham formatos variados e eram multicoloridas, algumas inclusive de tons que nem existiam fora dali, como "cinza-elefante" e "azul-nublado-escuro". Todas as flores possuíam seu aroma único e características próprias, como uma amarela enorme que cheirava a limão siciliano.
- Que lugar estranho..mas é bem bonito! - Cian
- A Alice tem um jardim muito daora. - Mister
Conforme caminhavam, eles notaram que o coelho saltitava na direção da estrada e decidiram ver para onde ele iria. O animalzinho pulava e pulava, sacudindo a roupa violentamente enquanto tentava pousar e continuar pulando em um desespero preocupante.
O coelho chega até um curto riacho de águas cristalinas e molha as patinhas na água antes de prosseguir. Quando os amigos se aproximaram, perceberam uma frase escrita na areia cinzenta próxima à água:
"Que a água leve todo o Mal"
- Tapete engraçado. - Nerfix
- Vamos obedecer né. - Mister
Todos eles tiram os sapatos e molham os pés antes de prosseguirem. Um Sol radiante queimava o topo de suas cabeças, assim como as costas e ombros, com uma intensidade nunca antes sentida. Era incomum caber tudo aquilo debaixo da terra.
Mais à frente, eles avistaram o coelho olhando uma bifurcação. O caminho tomava duas direções, uma para a esquerda e uma para a direita, ambas sinalizadas com placas. O coelho escolhe a esquerda e saltita depressa.
Peter lê o que as placas diziam à medida em que se aproximam delas: "Eu sou você" para a direita e "Você não sou eu" para a esquerda.
- Que informativo.. - Hypno
- O que deveria significar? - Anon
- Não sei, acho que tem muita planta suspeita no jardim da Alice pra ela tá fazendo essas placas estranhas.. - Mister
- E bota estranha nisso. - Joyce
- Vamos seguir o coelho, ele pode estar indo atrás da Alice. - Cian
- É verdade, queria conversar com aquele carinha mas ele não para quieto. - Mister
Optaram por seguir o animal esbaforido e seguiram viagem.
-
Uma hora de caminhada havia se passado e os pés de todos começavam a doer. Joyce reclamou de fome e eles pensaram em como fariam pra se alimentar. Uma voz baixa e arrastada chamou sua atenção.
- Vocês querem o que? - ???
- Quem tá aí? Pela voz é uma bela de uma gosto- Nerfix
- Para sua sorte, eu sou mesmo. - ???
De trás das folhagens sai uma enorme aranha arroxeada com o torso preto e as patas finas. Ela tinha lábios carnudos e olhos esverdeados muito vibrantes que fitavam os forasteiros com luxúria.
- Eita. Aranha. - Mister
- Gosta de aranhas, rapaz? - Aranha
- Adoro, principalmente com uma voz assim.. - Mister
- Ei dona Aranha, onde a gente arruma comida por favor? A gente tá cansado e com fome..e perdidos.. - Joyce
- Oh eu tenho o que vocês precisam comigo. Aqui. - Aranha
Ela puxa da copa das árvores uma linha na qual estavam presos um frasquinho contendo um líquido azul escuro e um pãozinho branco esfarelado de açúcar. Ela entrega os itens a Joyce.
- Todos devem comer um pedacinho do pão e tomar um gole do suco. Sem mais nem menos. - Aranha
Ela passa uma pata no queixo do Extus de roxo, que cora.
- Fecha a boca novato. - Nerfix
- Cala a boca pomba - Mister
Todos eles fazem como a aranha solicitou e se alimentam da refeição oferecida. Ela sorri largamente e começa a costurar.
- Não tô sentindo nada de diferente. Cês tão? - Nerfix
- Não, nada..Cian? A-aah! - Caleb
Cian fuzilava a aranha com os olhos. As duas tinham observado o tímido Caleb e agora travavam uma batalha de olhares fatais.
- Nada. - Cian
- Obrigada dona Aranha! - Joyce
- Não há de que, criança. Vocês são os convidados da Alice? - Aranha
- Sim, sabe se falta muito pra chegar lá? - Mister
- Oh não, apenas continuem por aqui e vocês passarão o campO floridO. A Alice mora no castelO. - Aranha
- Pra que a ênfase no O? - Hypno
- Todos os lugares daqui terminam com uma letra maiúscula. Achei que isso fosse normal para todas as pessoas, não? Huhuhum. - Aranha
Ela ri e se afasta, deixando os aventureiros bem confusos.
-
O castelo era, caso fosse necessária uma classificação, exótico. E isso em TODOS os sentidos da palavra.
Havia janelas nas telhas, formas geométricas inusitadas formando paredes, janelas no chão, portas nas paredes, vasos de flores pendurados em posições estranhas e tinta de cores diferentes pintando paredes aleatórias. As portas se abriram e revelaram um interior relativamente normal (para os padrões daquele mundo), com mobília e estética que lembravam bastante as casas tradicionais de alguns séculos atrás.
O mais esquisito disso tudo era que o castelo se unia em uma torre mais alta, como se o arquiteto tivesse perdido totalmente a noção de como completar o projeto e só unisse três torres em uma.
Os Imperfeitos caminharam em cima de um tapete vermelho muito bonito até uma escada e deram de cara com um jardim dentro da construção. Havia uma linda mesa exterior circular com cadeiras brancas adoráveis e um guarda sol claro. Em meio à tudo isso, uma garota se sentava com as pernas abertas de uma forma bem despojada.
- Olá amigos! Que bom que conseguiram chegar, o chá estava quase esquentando! Sentem-se, por favor - ???
- Alice? - Mister
- Sim sim! Sou eu! - Alice
- Que lugar é esse? - Nerfix
- O País das Maravilhas..ou uma versão dele. É uma história bastante famosa, conhecem? - Alice
- Eu ouvia dos meus pais! Você é mesmo a Alice!? - Joyce
- Claro que sim! Existem muitas versões por aí da mesma história e muitas Alice's, como eu! Porém, em cada um desses universos, ocorre uma mudança na história. Neste, eu derrotei a rainha de copas e me tornei a dona deste lugar! - Alice
- Isso é interessante..então existem contos de fada habitando o multiverso? - Hypno
- Exatamente. Assim como devem haver versões de vocês também. - Alice
- Tch eu sou a melhor, certeza. - Nerfix
- Coelhoo! Onde está você!? - Alice
Ele aparece em um salto curto e olho assustado pra mesa. O coelho invade a mesa e derrama chá, quebra pratos e xícaras e se esquiva do açucareiro para não enfiar a pata nele e cair.
Alice ri alto.
- Coelho! Você está sujando tudo! - Alice
- P-Perdão pelo atraso..fui o último a chegar?! - Coelho
- Claro que foi, você nunca consegue remanejar seu tempo mesmo com um relógio 24h no bolso. Depois EU quem sou o maluco! - ???
Um homem aparece debaixo da mesa e encara os Imperfeitos sorridente, assim que ele sai, pôde-se reparar diversos detalhes a respeito de sua vestimenta extravagante: ele usava cartola, uma peça alta e vermelho vinho com um laço branco no meio que parecia frouxo; um terno todo rasgado e arranhado que tinha as cores preto e vermelho sangue espalhadas por ele; sapatos largos marrons e luvas brancas limpíssimas.
As meias eram afrouxadas e laranja vibrante, com listras verde-limão as quais não combinavam com nenhum dos itens da composição e, por último mas não menos importante, o homem usava lentes de contato amarelas com um brilho muito semelhante à purpurina azul em torno das íris.
Ele se senta em uma das cadeiras e mais delas surgem para todos.
- Gostei do estilo dele. - Mister
- Chapeleiro Maluco, à sua disposição, senhor! - Chapeleiro
- Ei! Eu estou aqui também! - ???
- E eu.. - ???
- Apresentem-se como bons meninos! - Alice
A primeira voz era bem aguda e irritante, lembrava um sopro de flauta e vinha de um sapo marrom com o dobro do tamanho de um sapo normal. O animal tinha grandes rugas e bolhas amareladas cor de pus pelas costas, olhos grandes e vermelhos e patas rugosas esverdeadas de uma cor parecida com oliva.
Uma gota de saliva escura ficava pendurada ao lado da boca dele mesmo ela estando fechada e ele sorriu para o grupo, muito caloroso.
A segunda voz veio de uma boneca que parecia viva e acenava energicamente para os Imperfeitos. Ela tinha cabelo longo loiro bem claro, olhos azuis safira, membros curtos e usava um vestidinho branco com um grande coração vermelho no centro. A boneca era feita de porcelana e tinha círculos rosa choque nas bochechas que pareciam se intensificar quando ela se envergonhava com alguma coisa.
- Eu sou Molic! - Molic
O sapo bradou, cordialmente.
- Eu sou Ágatha! Prazer!! - Ágatha
A boneca fez uma estrelinha e arrancou algumas risadinhas dos visitantes. Com todos acomodados e devidamente apresentados, puseram-se a tomar chá frio com cubos de açúcar em número ímpar e conversar a tarde toda.
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