Work Text:
Jax adorava ser a pessoa que dizia "Eu bem que avisei". Depois daquele show todo, ele precisava voltar ao normal. Precisava respirar e esquecer aquilo tudo, fingir que nada aconteceu. Mas os outros estavam tão… pesados. Se ficasse sozinho no quarto, começava a surtar. Se fosse dar uma volta, a cobrança das memórias o consumia. Lugares conhecidos e rostos riscados para toda parte. Se ficasse na companhia de qualquer um, enxergava o espelho de seu próprio desespero. Não, ele não queria nada daquilo.
Bem, nada o deixava mais contente que fazer Ragatha gritar seja de raiva, de susto, do que fosse. Tirá-la do próprio eixo o fazia reecontrar o seu. Ele jogaria uma mentira, uma semente de dúvida. Uma piada batida, simples, já garantida de todo santo dia.
— Ô Ragatha — chamou, forçando um sorriso — Minha flor, você não viu nenhum presentinho que eu deixei no seu quarto hoje de manhã? Achei que pelo tamanho e pelo número de pernas você teria visto.
E se debruçou sobre as costas do sofá da área comum, onde eles pareciam se distrair lendo porcarias e revistas provavelmente escritas por Caim ou retiradas da internet. Uma perda de tempo, mas não que tempo fosse um problema para alguém ali.
Ninguém riu. Ninguém mal ouviu. Mas Pomni reagiu. Não da forma como ele esperava. Ela, desinteressada e quase estressada, apenas revirou os olhos, virando mais uma página da revista com mais figuras que palavras. Jax tentou disfarçar o quanto aquilo o incomodou. Não que alguém estivesse prestando atenção. Procurar a raiz daquele incomodo não era prioridade naquele momento. Ele já tinha perdido demais. Arriscar perder tudo de uma vez era inconcebível, então até ele sabia que tinha que ir devagar. Não podia ficar sozinho de novo. Terminar de trincar o que já estava rachado. Ele estava acostumado a perder, mas aos poucos.
— Ah, que isso, foi engraçadinho, vocês podiam pelo menos tentar sorrir um pouco mais. Toda essa depressão me dá tédio — ele disse, tentando exagerar todas as feições de forma teatral.
— Sim, claro. É tudo o que a gente precisa agora, Jax — Pomni retrucou com ironia. Ragatha fingia nem prestar atenção, mas pelo jeito ansioso com que mordia os próprios lábios, Jax duvidou — Nossa, como é engraçado ameaçar a Ragatha com uma centopeia!
— Você tá pegando o jeito! — Jax deu continuidade à ironia — Viu, não é tão difícil assim rir um pouco. Eu acho que esse é um ótimo momento para rir.
Ele só não estava preparado para o olhar de desgosto com que Pomni o recebeu. Só o que se passava na mente dela era "Como ele consegue brincar em um momento como esse?". Jax não seguia lógica nenhuma, não tinha empatia, consideração, sequer parecia sentir alguma coisa. Um ótimo momento para rir… Ela não tinha pego a ironia. Pelo menos não do jeito que ele pressupôs que ela pegasse. E a rachadura começava a surgir.
— Ah, para — ele tentou se defender de novo — Você tá sendo infantil com essa reação toda.
— Acho que o infantil é quem faz piada o tempo inteiro, né? — Jax ainda responderia com qualquer asneira que fosse, mas Pomni levantou rápida e o cortou antes mesmo que ele abrisse a boca: — Eu vou dar uma volta.
— Que engraçado, eu precisava sair agorinha também. Que sincronia.
Seu sorriso era diabólico, mas Pomni o ignorou, apenas seguiu por entre os objetos e estruturas aleatórios do circo. Ela só queria andar, ver um punhado de coisas diferentes, ainda que nada naquele circo soasse assim tão diferente. Tudo parecia meio que o mesmo, ainda que Caim tentasse inovar. Um canibalismo digital. Mesmo as coisas novas eram baseadas em coisas anteriores. Tudo sempre parecia o mesmo porque tudo era sempre aleatório e diferente.
Não demorou muito até que ela percebesse que Jax a seguia, um pouco afastado para atrás. Ela quis ignorar, mas não conseguia não olhar para trás para checar se ele ainda estava lá. Toda vez que ela o fazia, ele disfarçava, olhando para qualquer outro lugar, se mantendo imóvel no mesmo ponto até que ela retornasse a sua caminhada.
— Olha — ele disse em algum momento em que a alcançou, se pondo ao seu lado — Aparentemente estamos indo para o mesmo lugar.
— Jura? — ela revirou os olhos e tentou apressar o passo. Não adiantou muito. Por mais que Jax não tivesse pressa, as suas pernas eram significativamente mais espaçadas que as de Pomni. Ela teria que correr se realmente quisesse despistá-lo. Talvez ele só não valesse o fôlego.
— Caramba, eu posso jurar que você está me seguindo! — ele pôs a mão na frente da boca como se isso contribuísse para seu showzinho idiota.
De certa forma, era bom vê-la incomodada daquela forma. Assim, ela se distraía, pensava em outra coisa que não fosse o fiasco da tentativa de fuga. Contanto que o foco estivesse nele, contanto que ela não pensasse demais. Valia a pena o olhar de total reprovação que fosse lhe reservar.
O que Jax não esperava é que Pomni fosse suspirar e virar para trás, girando os calcanhares como uma menina, sorrindo. Ele tentou não ficar incomodado com aquela abrupta mudança de humores.
— Você sabe o que Jax está fazendo neste exato momento? — ela apontou para ele, forçando a voz em um grave de locutor que ela mal conseguia alcançar.
— Você tá doida?
— Ele está parado na minha frente com cara de bocó! O maior bundão que esse mundo já viu!
Então ela só voltou a andar para onde estava indo previamente. Aquilo deu um susto nele, o deixando mais curioso e com menos vontade de deixá-la sozinha. Se ela realmente estivesse ficando maluca, ele queria estar por perto.
Eles andaram por uns três minutos até Jax perceber que ela estava bem ao seu lado, andando de um jeito meio estranho, meio torto e… ela estava imitando o jeito dele de andar?
— Garota, você tá maluquinha mesmo, né?
— O que, eu? — ela não era nada sutil com a ironia, pondo a mão no peito como se estivesse ofendida. Levá-la a sério era ainda mais difícil quando ela tinha a metade do tamanho de gente — Bem, você sabia que os meus olhos são coloridos?
Por algum motivo, ele realmente olhou nos olhos dela, constatando o que ele já sabia desde o primeiro dia em que aquela palhacinha chegou.
— Está vendo? — ela continuou — Você sabia que eu enxergo tudo em tons de vermelho e azul?
— Agora eu duvudei.
— Não, não. É verdade, você agora, por exemplo, é o meio-termo. Outro exemplo, tá vendo aquela coisa verde lá no alto? — ela apontou para uma estrutura cônica por cima de enormes blocos de montar.
— Sim?
— Pois eu não estou, o que só prova o meu ponto!
— Cara, você tá piradinha mesmo.
— Por você, talvez eu esteja? — ela disse, forçando uma voz rouca e manhosa quase convincente.
— Oi? — o choque quase o fez querer rir de nervoso. Do que aquela idiota estava falando agora?
— Ué, logo você, minha vida, minha privada entupida. Você seria daquelas privadas tão limpinhas que daria pra fazer e comer macarrão instantâneo dentro.
— Cara, que nojo!
— Você prefere sentar no bolo ou…?
— Ah não, para, eu não vou cair nessa de novo.
— De novo? — ela pareceu chocada — Então a resposta você tem!
— Pode parar com essa babaquice — Jax desviou os olhos lentamente, como que os revirava, inclinando a cabeça para longe dela.
— O rei dos babacas aqui é você — ela cutucou a barriga dele com o dedo, e então desenfreou uma série de cutucadas irritantes em diversos locais acima da cintura — Majestade, quer que eu traga o bolo ou …?
— Tá, chega — ele riu fraquinho — Eu vou ter que te levar pra fazer um exame toxicológico, você deve estar entupida de molho idiota.
Isso a pegou de surpresa. Ela queria ser irritante, não fazê-lo rir. Ainda que tivesse sido curto e baixinho, foi a primeira vez em muito tempo que ela o fazia rir. Talvez fosse a primeira vez de todas. Ela sentiu o rosto começar a aquecer, mas então se consertou.
— Viu? Nem é tão difícil assim — ela constatou.
— O que?
— Ser a engraçada.
Imediatamente ele fingiu ofensa, como quem dizia "Como ousa?" com o rosto. Ela, então, respirou fundo e da forma mais blazê que conseguiu, provocou um pouco mais:
— Já você… — ela se aproximou dele sem qualquer deliberação, agarrou as alças do macacão cor-de-salmão e as puxou apenas para incliná-lo um pouco para baixo, o forçando a olhar em seus olhos — vai ter que se esforçar bem mais se quiser me fazer rir de verdade.
Aquilo tinha virado quase que uma aposta pessoal.
De certa forma, o que mais o havia desconsertado, foi aquela tentatitva grotesca e nojenta de flerte. A coisa óbvia era continuar fazendo o mesmo e deixá-la sem graça, o que a deixaria mais propensa ao riso mesmo da piada mais fraca. Então ele segurou nas mãos dela, que ainda estavam o puxando para ela e sorriu sem muita dificuldade, o mais flertante que conseguiu.
De reflexo, ela tentou soltar e se afastar, mas então ele a segurou firme no lugar, se aproximando um pouco ainda mais, quase se pondo de joelhos para estar na altura dela, ainda que, mesmo assim, ele estivesse mais alto por centímetros.
— Contanto que eu te faça sorrir de verdade, eu já conto como vitória. Não é justo você me chamar de vida depois de tentar se afastar da minha, sabia? A gente pode consertar isso.
Jax não sabia como aquilo soou nos ouvidos de Pomni. Era uma brincadeira idiota, sim. Os dois sabiam disso. Mas a forma quase séria e quase gentil com que ele segurava suas mãos, olhava em seus olhos e falava aquilo tudo como se fosse uma promessa… algo no peito de Pomni bateu errado, como se o coração tivesse apertado, pulado um batimento sem querer. Machucou, mas ela queria mais. Então ela ia aproveitar enquanto durasse.
— Você promete? — ela levou uma das mãos dele ao rosto, a apoiando contra a sua bochecha. Com a outra, estendeu apenas o dedo mindinho, como se pedindo para ele oficializar a promessa.
Jax não entendeu o que ela queria com aquilo. Ela tinha acreditado? Ela estava brincando, talvez? O que ele sabia é que tinha que responder. E entrelaçou o dedo no dela e beijou-lhe a testa.
— Prometo.
Eles estavam perdidos no fio da incerteza. Até que ponto aquilo era brincadeira e até que ponto era real? Parecia que uma promessa realmente tinha sido feita ela, sendo aquela ou alguma outra implícita. Machucou e eles queriam mais. Mas, até aquele ponto, isso bastava.
