Work Text:
Joui tentava afinar o seu baixo, tentava, dado que a gritaria do estúdio impedia ele de fazer qualquer coisa.
O vocalista e o baterista brigavam pela décima vez naquela tarde; a voz do Dante ressoava por todo o ambiente, junto com a de Kaiser interrompendo o mesmo em um tom mais elevado. Podia ver de canto de olho o Arthur querendo intervir, mas se afastando.
Agora, começava a se questionar se havia valido mesmo a pena entrar nessa bagunça só por causa do Arthur.
—Cara, olha o tamanho desse estúdio. Dá pra você largar a merda do cigarro e focar?— o loiro disse, parecendo que ia explodir de tão vermelho que ficara.
—Po gente, não precisa brigar. Vamos nos acalmar, beleza?— Arthur até tentou mediar a situação, porém, nem parece que algum dos envolvidos ouviu o que ele disse.
—Mano, toda vez isso. Cês sabem que eu não consigo ficar sem fumar, se tanto incomoda vocês, me tira da banda, porra!— pegou o cigarro que tinha nas mãos e o apagou contra a própria pele, se afastando de Dante o suficiente para não soca-lo ali mesmo, murmurando xingamentos.
De qualquer forma, não podia ir muito longe, pois os três decidiram, por unanimidade, morar juntos depois de ter começado a banda.
"Péssima escolha" pensava Kaiser, coçando o machucado recém feito. Se soubesse que todo dia teria que ouvir reclamações por seus trejeitos, não teria se dado ao trabalho de pagar o aluguel daquela casa minúscula.
—Gente, que tal a gente dar uma pausa? Continuar assim não vai dar certo.— o Jouki por fim de pronunciou, percebendo o clima tenso. Largou o baixo no suporte, se aproximando mais dos três.
—Ah, lá vem esse se meter.— resmungou o mais velho, sentando no sofá do estúdio. —Cê nem é da banda, cara. Não se mete.—
Joui franziu a testa, com os braços cruzados, mas não respondeu nada.
"Não é como se fosse novidade", pensava. Estavam a meses na mesma dinâmica, já que desde que ele entrou na banda como substituto, Kaiser decidiu que o odiava.
Depois de tantos xingamentos que ouvia sempre, nem ligava mais. Agora só deixava ele falar o que bem quisesse, porque pelo menos assim ele ficava de bom humor.
—Não fala com ele assim, Kai. — o Arthur o repreendeu, soltando um suspiro demorado enquanto sentava ao seu lado. —Bora tomar uma? Tô exausto, mano— bateu no ombro do mais velho, em um gesto carinhoso.
—Finalmente uma ideia boa, caralho.— disse o cabeludo, levantando de uma vez só do sofá.—Vou lá pegar as bebidas. Ó esquisitão, vem me ajudar.— apontou pro mais novo com desdém, saindo do estúdio logo enseguida.
Dessa vez, ninguém falou nada, e Joui apenas saiu da sala para atender o pedido do mesmo.
—Ah não, cara, o estilo de vida de vocês é só beber e fumar? Você já é insuportável naturalmente, Kaiser, você não precisa beber pra isso! — Dante gritou desde o estúdio, para depois começar a reclamar com Arthur pelo comportamento do outro.
Na cozinha, César começava a puxar qualquer bebida que visse na sua frente, sem nem se importar se era uma bebida boa ou não.
"Se me fizer esquecer até o meu nome, dá pro gasto" dizia para si mesmo.
Ao notar como o baixista o olhava, Kaiser riu. Para ele era engraçado como Joui aceitava suas exigências igual um cachorrinho, parecia completamente masoquista ao continuar ouvindo o cabeludo sem reclamar, levando em conta tudo que já falou pro mesmo.
—Vai fazer algo que preste e leva essas bebidas lá pra mesa, vai.— o Jouki o encarou, sua expressão mostrava desgosto, o que aumentava a satisfação do outro.
Talvez ele simplesmente fosse sínico.
Independente disso, o castanho fez o que lhe foi pedido, como sempre fazia.
Quando Dante e Arthur finalmente saíram do estúdio é que tudo foi por água abaixo.
Em poucos minutos, Arthur e Kaiser já estavam abraçados, cantando aos berros uma música aleatória de sofrência, Dante ria com a cena, bebendo lentamente seu vinho. E Joui, tomava coca-cola em seu próprio copo, pois não curtia nem um pouco álcool.
—Eles sempre foram assim?— perguntou o mais novo encarando ambos, que agora dançavam uma música clássica como se estivessem em 1800.
—Bem, o Kaiser não. Ele só ficou insuportável assim porque o ex dele terminou com ele e saiu da banda. — o Dante conta, e Jouki pode ver seu sorriso crescer ainda mais ao perceber que o cabeludo ouviu.
—Dante, seu filho da puta...— sua voz era arrastada, mas tentava ser seria. No fundo, dava pra ouvir o Arthur rindo histericamente.
—Hah... Eu lembro até hoje! Ele só saiu da banda porque disse que o César gostava daquele anime lá e decidiu terminar com ele! — o Arthur começou a rir mais ainda, deixando o Kaiser mais envergonhado do que já estava.
—Não foi por isso, tá bom? Vocês não sabem de nada mesmo. — ele suspirou, se sentando no chão pra descer um gole de whisky sem dó. —Aquele arrombado, quem ele acha que é pra falar mal do meu anime favorito...?— murmurou, deitando a cabeça na mesa.
Depois de um tempo, Dante decidiu arrastar Arthur para o quarto que compartilhavam, para assim evitar uma catástrofe de vômito, como da última vez.
César sequer se despediu durante a saída do amigo, apenas ficou deitado na mesa, sem mexer um músculo.
Sem o casalzinho por perto, a tensão entre ambos ficava palpável, o silêncio que se estendia fazia o corpo dos dois se arrepiar por inteiro.
Naquele lugar, sendo apenas eles, nada mais era previsível. Tudo se tornava caótico, e ambos tinham plena noção disso.
Mesmo assim, Joui colocou a mão no longo cabelo de César, acariciando-o devagar. O mais velho finalmente levantou o rosto, sendo agraciado com Jouki o encarando de volta. Preso em seus lábios, havia um canudo vermelho num copo do homem aranha, e na mesa, algumas coca-colas abertas.
—Puff... Cê é um viadinho mesmo, hein.— sussurrou, encarando os lábios do outro.
As carícias do mais alto pararam totalmente ao ouvir suas palavras, tomando mais um gole de coca antes de falar.
—Ugh, cê não aprende nunca né?— perguntou, seu olhar mostrava curiosidade, mas também diversão. Aproveitando o momento, depositou um tapa fraco em sua cabeça —Você precisa mesmo fazer isso toda vez?— a pergunta pairou no ar, mas Kaiser não parecia preocupado em respondê-la.
O mesmo desceu mais um gole de whisky, rindo divertindo pela careta de desgosto que Joui fazia.
Como sempre, a camisa do Kaiser logo desapareceu, se espalhando com a bagunça do local. Joui ficou em silêncio, apenas admirando a cena que se criava na sua frente.
—Não sei... Do que você tá falando...— disse risonho, se aproximando do mais alto. —Mas me diz gatinho, e se eu te mostrar o que minhas mãos sabem fazer?—
[...]
César Cohen acordou no hospital, com o braço misteriosamente quebrado e uma ressaca avassaladora.
Mas aquilo era o de menos, comparado ao que esperava por ele:
Agora teria que ouvir os xingamentos de Dante e um sermão de duas horas do Arthur por precisar ser substituído de última hora antes do show.
Suspirou, pensando em como Joui iria zoar ele pra sempre por isso...
Será que ainda dava tempo de largar a banda?
