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Era mais um fim de tarde quando Remi convidou Jasper para outra sessão de estudos. Já havia virado rotina para os dois garotos, afinal tudo sempre decorria do mesmo jeito: a caminhada silenciosa banhados pelo sol das duas da tarde, o cheiro agradável e floral do quintal de Remi que invadia a residência, o pequeno lanche entre os estudos para manter a energia em pé e os últimos minutos de conversa que tinham antes de Jasper partir para casa.
Ao mesmo tempo que as ações se repetiam com os dias, a tensão crescente entre os dois parecia aumentar. Era como uma corda fina e resistente que aparentava estar entre eles há um bom tempo. Uma mediante dos sentimentos que eles insistiam em guardar — ou reprimir, se formos tomar o lado de Jasper.
Um amor juvenil há muito tempo resguardado que não suportava mais ser escondido. Era hora de dar um passo à frente e colocar em risco tudo em nome do alívio.
— Ah, meus pais não vão estar em casa hoje. — Remi disse, quebrando pela primeira vez a quietude da ruazinha.
Jasper levantou a cabeça, um pouco surpreso pela conversa repentina.
— Sério? E… não tem problema eu ir mesmo assim? — Jasper mordeu o interior da bochecha, incapaz de processar se estava ou não sendo desrespeitoso.
— Quê? Claro que não! — O franjudo negou prontamente com um sorriso aberto. — Não tem problema, Jas. Não quando é você.
Os olhos de Jasper rapidamente pousaram em Remi, trêmulos como sempre, mas claramente afetados com puro espanto.
“Jas”
“Não quando é você.”
O peito do garoto fraquejou dentro da blusa de gola alta, o fazendo piscar mais do que o normal e vacilar ao falar.
— A-ah.. e-entendi… — Jasper engoliu seco e desviou o olhar, encontrando a residência de Remi a poucos minutos de distância.
Finalmente.
O claro nervosismo do albino não passou despercebido por Remi — nunca passava — e, do mesmo jeito que ele sorriu, ele decidiu ousar e passar o braço pelos ombros dele.
O corpo de Jasper reagiu antes da sua própria mente, flexionando-se até a ponta dos cabelos como um tronco de árvore. Ele encarou Remi com o rosto vermelho, não sabia mais se era pelo calor ou pela simples presença do outro, e analisou seu sorriso sereno. Era doce, adorável e fazia o peito de Jasper acelerar.
— Minha mãe disse que deixou algumas tangerinas para o lanche de hoje. Você gosta? — Remi tentou retornar à conversa, mas Jasper parecia mais preocupado com o portão da casa recém-alcançado. Então, ele entendeu que havia acabado o primeiro tempo. — Ah, chegamos…
— É. — Jasper prensou os lábios numa linha reta, evidenciando suas covinhas e sua apreensão.
Assim que Remi abriu o portão e ambos adentraram tanto o quintal como a casa, Jasper sentiu que hoje havia algo fora do comum no ar. A tensão de sempre aparentava estar mais apertada do que nunca, ao ponto de uma simples troca de olhares fazer oscilar.
Seu estômago revirou, não de fome, mas de ansiedade. Afinal, o que diabos aquele dia lhe aguardava?
— Vai indo para o quarto, Jas. Preciso usar o banheiro rapidinho — Remi avisou e saiu, entrando em seguida numa porta lateral no corredor.
Jasper suspirou e seguiu o caminho para o quarto familiar do franjudo que, aliás, estava especialmente diferente dos dias anteriores. A cama estava estritamente arrumada, com os lençóis dobrados por baixo do colchão e por ordem de cor, o chão brilhava assim como as mobílias de madeira e um aroma agradável inundava o lugar.
Que diabos aconteceu aqui?
— Está pronto? Hoje precisamos revisar os conteúdos de matemática. — Remi anunciou sua volta com a pergunta e uma mão nas costas de Jasper que, até o momento, estava parado na porta.
— Você mudou algo no quarto? — O albino perguntou de volta enquanto colocava a mochila perto da cama.
— Só dei uma ajeitadinha, por quê? Tem algo errado? — Remi estava de costas na frente da mesa, retirando seus materiais.
— N-não, não tem nada. Esquece… v-vamos só começar logo.
Assim, outra sessão de estudos começou. Esses encontros eram mais para se auxiliarem nas matérias do que para memorizarem. A dinâmica entre os dois era boa ao ponto de não precisarem se enrolar muito em cada exercício, afinal, quando um se atrapalhava, havia sempre o outro para lhe ajudar. Por isso, rapidamente passaram as primeiras horas de matéria com facilidade, chegando ao segundo tempo.
— Vou pegar as tangerinas, vai querer mais alguma coisa? — Remi perguntou enquanto se alongava após ficar sentado por tanto tempo.
— Não, está tudo bem.
A ida e volta com as frutas alaranjadas não demorou sequer um minuto. O que realmente pareceu congelar o tempo foi o momento em que se sentaram perto da mesinha de centro de Remi, onde seus joelhos se encostaram pela posição em que estavam sentados e o calor parecia emanar através dos seus corações.
— Deixa que descasco para você — Jasper se voluntariou sem esperar por uma resposta. A verdade era que queria se ocupar com alguma coisa que não fosse a respiração alta de Remi perto de si.
— Uau, que cavalheiro. — Remi brincou, rindo em seguida quando observou os dedos de Jasper vacilarem na fruta.
— T-toma, pega — O albino, com os olhos perdidos nas cascas laranjas, esticou a mão na direção do que imaginou ser o rosto de Remi. E, sendo ingênuo, ele esperava que o amigo pegasse a fruta com a mão e então a colocasse na boca.
Mas, claro que ele não fez isso. Claro que Remi se abaixou ligeiramente e pegou o gomo doce com os lábios que, estrategicamente, roçaram levemente nos dedos de Jasper.
Os óculos de Jasper quase caíram no chão pelo espanto, o calor rapidamente o consumiu e sua primeira reação, além de engolir seco, foi encarar Remi. Os olhos amendoados mastigavam a fruta com satisfação e alegria, como se estivesse se deleitando tanto pelo sabor como pelo rubor suave na pele branca.
— O-o.. O que e-está fazendo…? — Jasper perguntou entre seus suspiros nervosos.
Remi sorriu e largou a fruta na mesa para se aproximar de Jasper. Ao mesmo tempo que ele se esticava, o albino se deixava cair no carpete, sendo lentamente encurralado pelo corpo de Remi que engatinhava para cima de si.
— R-Remi… — ele murmurou, tentando acalmar a tempestade que rugia em seu coração acelerado.
O calor de Remi parecia sufocar Jasper. Esse nervosismo estava consumindo toda a mente do rapaz que mal conseguia focar na face bonita do franjudo acima. Jasper temia que Remi pudesse ouvir o sangue bombeando ansiosamente pelo seu corpo, que ele pudesse escutar as batidas desenfreadas do seu peito, que ele pudesse ler sua mente entrando em combustão.
Ele sequer tinha noção do que estava fazendo? Do quanto aquilo estava afetando Jasper?
— Você está nervoso?
— Q-q-que pergunta… i-idiota.. é e-essa?
— Você também sente? — Remi mordeu o lábio inferior ao perguntar. Apesar de Jasper não notar, ele estava tão nervoso quanto ele.
Se Remi pudesse descrever o medo e a ansiedade que estava sentindo naquele momento, Jasper não o encararia assim — de forma tão intensa e indecisa. Os olhos azuis escaneavam cada centímetro do rosto de Remi, o analisando, incapaz de reconhecer que o rubor nas suas bochechas era de paixão. Sua falta de palavras fazia Remi oscilar e quase se arrepender de arriscar tanto.
Havia esperado tanto tempo por um sinal, uma resposta, e simplesmente chegou ao seu limite. Sua caixinha de preocupações não aguentava mais lidar com todos os sentimentos ligados a Jasper — todo o amor, carinho e preocupação. Remi iria explodir se não tomasse coragem e fizesse algo.
Por isso, chegaram naquela situação, onde estavam encurralados pelo medo de perder tudo e acalorados pela chama intensa de um amor juvenil mal compreendido.
— Jasper, eu… eu queria esperar mais um pouco, mas.. e-e.. não consigo. — Remi engoliu seco e respirou fundo antes de continuar. Ele fez questão de manter o olhar de Jasper em si. — Eu gosto de você. Muito. Há muito tempo. Não sei exatamente quando ou como começou, eu.. eu só gosto muito de você.
Jasper analisou as palavras de Remi pelo que pareceram horas. Sua boca permanecia fechada e seus olhos surpresos. Remi não conseguia ler seus pensamentos nem se ele quisesse. Afinal, a única coisa que ele queria era uma resposta positiva.
Então, Jasper escovou a franja para trás da orelha de Remi e sorriu até suas covinhas tornarem a aparecer. Seus olhos exalavam doçura e conforto, e foi assim que Remi entendeu que podia voltar a respirar com tranquilidade.
— Eu também, Remi. Eu.. gosto tanto de você, porra. Sinto que vou explodir.
Então, sem sequer ouvir sua mente, Remi se abaixou até selar ambos os lábios. Foi rápido, estralado, mas sincero. Uma ação há tanto tempo resguardada que, finalmente, havia tido espaço para florescer.
Jasper arfou em surpresa, o ar entrando com tanta força que parecia queimar.
Remi… o beijou.
— De novo… faz, de novo — Jasper pediu sem pensar, demasiado embriagado no calor para ser racional.
Remi parecia estar na mesma situação, pois, em segundos, ele voltou a repetir a ação. Mas, dessa vez, deixou-se ficar por mais tempo, um ou dois minutos a mais.
Quando ameaçou se separar, Jasper abraçou seu pescoço, prendendo-o ali, perto de si e do seu corpo.
E, mesmo sem falar, Remi derreteu pela resposta no seu olhar caloroso, as orbes oscilantes dançando em corações implorando pelo seu carinho.
— Porra, Jas… eu…
Jasper o puxou para outro beijo desajeitado, onde Remi teve a oportunidade de sentir os lábios macios com mais precisão. A doçura da tangerina havia se impregnado na boca de Remi, instigando Jasper a buscar por mais do que esperava.
Os dedos do albino acariciavam o rosto de Remi sempre que voltavam a se separar, como se buscasse por firmeza naquele momento tão parecido com seus melhores sonhos. Era real, Remi ali, consigo, o abraçando com força e o beijando com ternura. A declaração, os olhares, o calor recheado de amor e a alegria acompanhada do pôr do sol.
Então, Jasper notou a diferença. A falta de tensão que os atrapalhava, a corda havia finalmente rebentado. Aquele empecilho que parecia nunca mudar havia florescido, tal como as flores de tangerina.
Apesar de ainda precisarem caminhar por esse caminho confuso que era a paixão, Jasper sentia que superar sua resistência já era um grande passo dado.
Afinal, a partir dali, tinha Remi ao seu lado para o abraçar, confortar e amar.
