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William e Michael estavam quietos. Era estranho.
Os dois amigos estavam andando em passos lentos, receosos, pelo caminho que o Mundo Invertido construiu, e que os levavam para uma das últimas esperanças do grupo de salvar a cidade do interior que viviam. Aquele clima úmido e fúnebre era uma novidade para Wheeler, que tentava de todo jeito esconder o pavor e incômodo pelas suspiradas lentas, enquanto já era praticamente do cotidiano de Byers ter pesadelos com cada centímetro daquele lugar, mas não deixa de se manter acuado.
Os dois adolescentes estão indo em direção à igreja de Hawkins, que de acordo com a teoria de Dustin, é um dos doze locais que são chave para descobrir e acabar com toda a história do mundo que os assombrava há anos. Eles estavam a um passo de derrotar Vecna, e se o grande plano de Henderson funcionar, sairão vitoriosos.
O grupo decidiu se dividir em duplas, cada dupla visitaria dois pontos que seriam os selecionados por Henry para se tornarem o relógio do novo mundo. Se conseguissem de alguma forma achar algum sinal do Número Um, o destruiriam, sem pensar duas vezes. No fim, o relógio se quebraria, as horas seriam perdidas, e o plano de Vecna seria falho.
Eles estavam confiantes. Tinham que ser.
Mike e Will foram uma das duplas selecionadas, e foi o próprio Wheeler que se ofereceu para ir com o mesmo. Byers não gosta muito da ideia de ficar sozinho com o amigo, no qual ele tem uma pequena, enorme paixão. É algo bom ter o outro por perto de si. Mas escasso. Will se sente angustiado por almejar um pouco mais.
Ele não dirá, mas se sentiria mais protegido com a mão de Mike entrelaçada na sua. Com seus braços envolvendo seu corpo, e dizendo que suas visões vão acabar. Que tudo vai acabar, e que tudo vai acabar bem.
Mas não é o que pode ter, e aquela situação em que Will se encontrava era como um despertador, barulhento, que toca desesperado em sua mente, e ele não pode desligar, que o faz acordar de seu sonho, de algo que não vai ter. Ele para sempre vai ser acordado pela triste realidade.
— Você acha que esse plano vai dar certo? — finalmente, Mike quebra o silêncio entre os dois, continuando a caminhar em direção a capela, que a qualquer momento apareceria no campo de visão — Eu confio muito no Dustin, é claro, mas tudo parece tão...
— Conspiratório?
Mike torce os lábios.
— Eu não consigo — Will continua — eu tive visões enquanto estava conectado na Mente Colméia, e tudo, simplesmente, fez sentido, as doze crianças, os arrepios que eu sentia, e sinto, a cada centímetro que eu me aproximo de um dos pontos que tecnicamente forma o relógio, o lugar arrepiante que enxerguei quando encontrei a Holly. É tudo tão maluco, mas faz tanto sentido dentro de mim. E quando ouvi Dustin transcrever tudo que eu simplesmente entendo, e não consigo explicar, é só -
Will se interrompe, e para.
— Will, tá tudo bem?
O menor, suspira fundo, e coloca a mão por trás do pescoço, sentindo aquele arrepio que não se acostumou, e ainda odeia.
— Está, só estamos chegando mais perto. Vamos.
William aperta seu passo, deixando Mike um pouco para trás, mas não o suficiente para se sentir longe dele. O que é uma distância minúscula.
— Esse lugar é horrível — novamente, Mike inicia um assunto, dando uma risada sem graça, não escondendo mais o desconforto em estar ali.
— Realmente.
— O silêncio, a penumbra, é tudo tão... Vazio e morto. Me dá arrepios. É como se eu sentisse esse lugar dentro de mim.
— Ainda me dá arrepios também — Will ri sem graça — E ele está dentro de mim.
Mike para por um momento, e arregala os olhos virando o rosto imediatamente, e apoiando a sua mão no ombro de Will, que suspira. Deus, me perdoe, pensa.
— Me desculpa! Meu Deus Will... Me perdoe, não quis ser banal ou falar essa besteira, eu-
— Mike, está tudo bem, ok? — Will da um pequeno sorriso, triste — Eu não posso viver mais escondendo essa parte de mim, infelizmente.
— Não, pera — ele se vira totalmente, olhando para o amigo — Will, meu Deus, você não tem noção do quanto é forte.
Will se arrisca a dar uma risada. Não consegue acreditar nisso.
— Não ria, eu estou falando muito, realmente muito sério — Mike diz, colocando a outra mão, apoiada no outro ombro de Will — Will... Eu estou aqui a pouco mais de meia hora e eu já quero correr atrás da minha mãe. Eu não consigo acreditar, e aceitar, que você, teve que passar por esse inferno por uma semana, sete dias, inteiros, quando nem treze anos tinha — o cacheado demonstra conforto pelas suas orbes preocupadas — Você perdeu sua infância nesse lugar, meu deus... A vida foi tão injusta com você.
Will falha miseravelmente em evitar demonstrar o efeito que as palavras de Mike estão fazendo consigo, seus olhos marejados o entregam.
— Por isso, nós, juntos, vamos acabar com a raça desse cabeção — Will ri desajeitado, até sendo um fofo, ele consegue ser bobo — e você vai ter uma vida que seja tão boa quanto a pessoa que você é. Você vai ser vingado.
Byers não consegue proferir nenhuma palavra, mas insiste, fazendo com que abra e feche a boca diversas vezes sem que saia um único som. E então, só se joga em direção ao outro, de forma dolorida. Ele necessitava abraçar Mike, e sentir todo aquele quentinho do conforto que aquele espaço o traz. Ele tinha saudades. Mike era tão bom.
— Você me fez chorar, seu idiota! — diz com a voz quebrada, dando uma risadinha.
Ele queria gritar, dizer o quanto amava aquele homem. Não importa se Henry o ouvisse, ele só queria declarar aquelas palavras preciosas ao outro. Ele, por um momento, até se esqueceu do incômodo que sentia por estar perto da igreja. Nada mais importava.
Os meninos escutam um badalar. O grande sino da igreja, que agora está mais próxima, os chama, os convida a entrar. É claro que ele estava ali, os observando.
E quando a mão de Will iria se levantar para secar as lágrimas, uma mais carinhosa veio e tocou em sua pele. Era um toque gentil, enxugando qualquer tristeza que saía de Will. Os olhos do mesmo apenas seguiam curiosos, mas querendo mostrar o quão gratos são por aquele toque, então se manifestaram, deixando as orbes verdes, num tamanho enorme.
Aquele toque foi tão inocente, tão doce, tão convidativo, assim como o som que saía da capela. Will se sentia um pecador, mas fechava os olhos, e o cometia mesmo assim. Porque aquele toque era como o paraíso.
— Eu vou estar aqui, ok? Para qualquer coisa que acontecer. Mesmo se você por acaso ficar louco, se perder, a gente fica louco juntos — os dois sorriem, ainda não soltando o olhar — Lembra?
É claro que Will se lembrava.
Ele se lembrava e se agarrava a tudo isso como uma criança se segurava no seu último bichinho de pelúcia. Aquela era sua única faísca. A que o incrimina que estava preso no tempo.
E então, eles se afastaram, para o incômodo de Will, e foram em direção a igreja, e em mais poucos passos, a cruz na porta de madeira já os recebia. Era medonho.
Quanto mais se aproximavam, Will piorava em questão dos arrepios, que agora se comparavam a uma premonição, e somavam com uma dor de cabeça, que a cada passo em direção a entrada, piorava, doía mais. Era um sinal. Will sentia que era algo implorando para que os dois dêem meia volta e fugissem daquele lugar.
Mas eles tinham um mundo para salvar.
— Você realmente está bem?
Escuta a voz de Mike perto de si, e apenas assente com a cabeça. Não iria ser covarde e pedir para que fossem embora, ele tinha que fazer isso. Iria vencer.
— Ok, vamos acabar com isso então.
Mike dá um passo à frente e abre a porta, e deixando o seu "escudo" — uma lata de lixo com pregos largos — em sua frente, defendendo Will por tabela. Quando a porta se abre por inteiro, por um milésimo, tudo acaba. A dor, o arrepio, a tontura, o medo, o constrangimento, a raiva. Tudo. Tudo que ele sentia era leveza, era algo que ele sonhava sentir quando era mais novo. Ele se sentia vivo.
E tudo volta novamente, como um soco. E pior. Três vezes pior. Will praticamente se jogou para dentro da entrada.
O pé direito de Mike e o esquerdo de Will se apresentam a igreja, que naquele cenário, estava mais para uma armadilha do diabo. O escuro, da noite eterna, misturado com as vinhas, veias do Mundo Invertido, tornava o local maléfico. Assustador.
Ao entrarem, Will não conseguia mais esconder a dor de cabeça que sentia, e a tontura que o empurrava de um lado para o outro, cambaleou até o primeiro banco e tentou se apoiar ali, ouvindo apenas uma voz alta, e preocupada, indo em sua direção.
— WILL!
Ele chega a insistir, dar mais um passo, para se sentar, o que é um ato em vão, porque ao tentar, vai perdendo os sentidos aos poucos e a única coisa que enxerga além do breu, que inflama seus olhos, são íris castanhas e cachos.
E então, o baque no chão.
A visão de Will é distorcida, e a primeira coisa, embaçada que vê, são vinhas. E um teto branco, com vidros coloridos, desenhando imagens santas, que são devoradas pelo mal do mundo invertido.
Will pisca umas três vezes antes de raciocinar que acordou da queda que teve. E se lembra da situação em que se encontrava. Tenta se levantar, mas escuta uma voz.
— Calma, vai devagar.
Mike. Will gira lentamente o rosto e vê o melhor amigo do seu lado, sentado no chão, a alguns metros de distância, observando, com uma expressão neutra.
Will suspira.
— O que... O que houve? — pergunta, totalmente confuso.
— Você desmaiou. Ficou uns cinco minutos desacordado, eu fiquei preocupado!
Will ainda sentia uma dor de cabeça, mas agora acredita que seja pela batida da sua cabeça no chão duro da capela. Ah, a capela.
Will começa a se levantar, com a mão na nuca, e respira fundo.
— Foi tão estranho, quando a gente colocou o pé dentro dessa igreja, tudo aquilo que eu estava sentindo veio com força, muita força — apoiou o braço no banco à sua frente, para se levantar por completo — e agora, sumiu. Só estou com dor de cabeça pela batida mesmo.
— Você tem certeza que está bem? — Mike arqueia a sobrancelha, e se levanta do chão também, pegando sua mochila e o escudo. Mike não faz tanto contato visual, mas Will quer acreditar em sua feição preocupada.
— Sim, agora eu tenho — ri, sem graça — bem até demais para ser sincero.
— Ok então — sorri — vamos procurar por aqui primeiro, qualquer sinal de Henry, crianças, relógio, a gente avisa o outro. Certo? — Will assente — A gente se encontra depois.... — pensa, olhando ao redor — ali — aponta para a cabine do confessionário da capela.
Will gostaria de sentar e pensar mais no que acabou de acontecer, mas sabe que não há tempo para isso. Deve ser apenas um sinal de que está próximo de algo. Ele pega sua mochila, liga sua lanterna e vai logo atrás de Mike.
Os amigos não conversam durante o tempo, cada um vai a um canto da igreja, vasculhando qualquer pista para o plano do grupo, e nada. Nem um sinal que possa os ajudar a vencer. Mike não encontra nada na sala das aulas religiosas para crianças, e Will não encontra nada nas salas reservadas ao padre. Os dois começam a se frustrar, e isso fica claro quando Will e Mike se encontram no ponto combinado de mãos vazias e uma feição desesperada.
— Nada?! — Mike pergunta, e Will nega — Mas não é possível! — diz, se sentando no chão, passando as mãos pelo rosto e cabelo, agora desajeitado — A gente revirou esse lugar!
— As vezes aqui não é o ponto principal, não necessariamente agora tem alguma pista, talvez se alguém em outro lugar agir, mude alguma coisa — Will estava pensando em qualquer coisa que vier em sua mente, chega a ser confuso.
— Não me parece isso, seria muito, muito azar — Wheeler bufa.
— Quer dar mais uma olhada? A gente pode -
— Não, eu quero pensar agora.
Will realmente não gosta de Mike frustrado. É chato. Mas ele não pode julgar, é claro, está também. É uma situação totalmente frustrante. Ele se sentia ao lado do outro, com um espaço limite entre eles.
Os dois permanecem num silêncio, agora desconfortável, desesperador. O mundo está acabando, um monstro quase demoníaco está vencendo uma batalha de anos, e os dois estão sentados num chão sujo de uma igreja, sem pista nenhuma para evitar isso.
— Você sabia... — Will começa, olhando ao redor — que eu nunca confessei?
Mike, que vasculhava sua mochila, para e gira sua cabeça, olhando para Will, e dá um sorriso, quase malicioso. Will se sentiu intimidado, se arrependendo por puxar assunto, desta forma. Deveria ter esperado Mike iniciar a conversa.
— Como assim?
— Sim — disse, dando uma risada sem graça, se acuando um pouco — você sabe, minha família nunca foi religiosa. Depois de tudo, a gente até que veio por um tempo nessa igreja mesmo, mas ninguém acabou se acostumando.
Mike escutava atentamente.
— Minha mãe sempre achou os padres uma farsa, e bom - revirou os olhos — ela não está totalmente errada.
— Uma... Farsa? — Mike pergunta, curioso.
— Ah, homens pecadores, dos mais podres, que se escondem atrás de uma figura divina para serem idolatrados. Mentem, julgam, manipulam todos que estão nesse lugar — gira o dedo, lembrando do cenário que se encontram — para uma realidade totalmente maligna que acham que é a certa.
— Mas todos já pecaram.
Will respira fundo, acha essa conversa um diálogo que já está durando mais que o suficiente.
— Sim, já cometemos erros, temos segredos — desvia o olhar do outro ao ver que ele fica mais curioso, quase entusiasmado, é desconfortável — mas... Não é a mesma coisa. Deixa para lá, Mike. Vamos apenas focar na missão e... -
— Então você tem segredos também, William?
Escuta isso vindo de Mike, e vira o rosto em direção ao outro, que tem um sorriso bobo, mas incômodo no rosto. É estranho pensar que a minutos atrás o mesmo folheava o mapa de Hawkins com uma feição quase perdida, não aparenta estar mais tão preocupado com o fim do mundo.
— Todo mundo tem, né? — Ri, e cada risada que vai soltando na cena, parece mais muda. Mais desconfortável.
— E tipo, você não me contou?
— Você não precisa saber de tudo — revira os olhos. Chega, Will não quer ficar ali — Você com certeza tem segredos também que nunca me contou.
— Não, na verdade — se gabou — você já sabe de tudo. Ao contrário de certas pessoas, eu não escondo nada do meu melhor amigo.
Ao mesmo tempo que Mike brinca na fala, cantarolando, Will se acua mais ainda no seu próprio metro quadrado em que está sentado. Will tem segredos e Mike definitivamente não pode saber deles.
Mike não pode saber que segredos são algo delicado para Will. Segredos são erros para Will. Pecados. E que envolvem Mike. Pecados que envolvem Will e Mike. E que se Mike soubesse, o segredo não seria mais segredo, e Will e Mike não seriam mais Will e Mike.
— Vamos aproveitar então, Will Byers! — Mike se levanta e abre a porta da pequena cabine do confessionário da igreja — Tudo tem sua primeira vez!
— Mike, pelo amor de Deus, a gente tem coisa mais importante para fazer do que discutir por bobeira!
— Nem você acredita nisso, William — Mike entra em um dos lados da cabine, a do padre, e Will só consegue o ver pelos vazamentos na estrutura. Mike já não brinca, sua feição é séria, e seus olhos, quase vermelhos, observavam Will de um pouco longe — Vamos todos morrer! A qualquer momento! Porque já não dar o foda-se e dizer tudo que temos vontade? Tudo que está entalado na garganta? Vamos pecar então!
“Vamos pecar então”. Essa situação toda está assombrando Will. Ele não quer, mas se levanta do chão. Ele não quer, mas olha para Mike, que o olha de volta, com o olhar ansioso. Ele não quer, mas abre a porta do confessionário e entra. Ele não quer, mas a fecha.
Ele definitivamente não queria estar naquela situação, mas agora está à deriva, refém, totalmente apavorado.
— Eu… Eu acho essa situação totalmente boba e só estou aqui porque você é meu melhor amigo, queria deixar isso claro.
Mike, que está sentado na cadeira de padre, aumenta o seu sorriso, e Will se pergunta, acuado, se a figura em sua frente ainda é parecida com Wheeler.
— Eu tenho a sensação de que todo esse mistério é porque esse segredo tem a ver comigo.
Will arregala os olhos. Ele não consegue mais esconder o medo. Ele quer chorar novamente, e dessa vez não é de felicidade.
— O quê?! — ele tenta rir desajeitado novamente, mas um soluço escapa — Claro que não, Mike! Por quê eu... Eu nem sei o que falar! — desconversou, ou ao menos tentou.
— Eu também não sei, mas agora tenho que tentar adivinhar.
— Não, não é assim que funciona o confessionário!
— Você nunca foi, lembra? Então não sabe como funciona — riu, alto demais para Will aguentar.
— Mike, você está me assustando... — vira o rosto, tentando secar a lágrima que cai em seu rosto, mas algo o faz voltar a olhar para frente. Olhar para Mike — Por favor...
— Você que está me assustando, esses tempos — Wheeler se levanta da cadeira, e se arqueou contra a madeira que divide os lados da cabine — Você têm me assustado, William.
Por quê? Will não consegue entender, ou apenas não quer acreditar. Talvez ele saiba o motivo.
— Fale, o que você quer tanto de mim?
Will está chorando. Ver a pessoa que ele mais ama, o confrontando, o colocando contra a parede e praticamente o implorando para confessar seus sentimentos e estar disposto a o deixar, é algo que definitivamente Will não esperava hoje. William sente que mais um pouco de pressão pode implodir, e para ser sincero, ele prefere, sumir, desaparecer, explodir, do que estar passando essa deprimente situação.
A cabine, que já é apertada, parece diminuir mais ainda, coisa que deixa Will mais apavorado. Ele não consegue dizer mais nenhuma palavra, só soluçar fortemente enquanto olha para o chão.
— O que você quer tanto dele, William?
O chão, que antes era de madeira, que parecia confortável demais para Will observar em vez da feição de Mike, em um instante, desaparece, porém ainda está ali. É tudo preto.
E Will reconhece essa voz. A maldita voz.
Ao levantar o rosto, lentamente, a pessoa, ou melhor, a figura, atrás da rede do confessionário, não é mais Mike, e sim Vecna, na sua pior forma. A cabine está no limbo negro de sempre, e parece diminuir a cada milésimo, a cada respirada rápida que Will dá. Will grita. Não aceita que isso possa acontecer com ele, não novamente. Ele se levanta da cadeira e tenta ir à porta, mas a mesma, antes destrancada, agora, não dá resposta alguma.
— Não, não, não, não! — ele esmurrou a porta, descobrindo uma força que não sabe dizer de onde que veio, e nada, o que faz ficar mais apavorado, e mais lágrimas saírem de seus olhos — ME TIRA DAQUI, SEU DESGRAÇADO!
— Você já passou tanto tempo preso — Henry sorria, daquela forma grotesca de sempre — Dentro de si mesmo, porque teme o seu destino?
— O QUE VOCÊ QUER DE MIM? — Após falhar tentando abrir a porta, se vira novamente ao monstro, o confrontando pela tela — O QUE MAIS VOCÊ QUER DE MIM?
— Eu quero destruir você, William, parte por parte, até você desaparecer.
E então, Will cai no limbo. De repente, não existe mais confessionário, Mike, Vecna, nada. Apenas o nada. E Will se deixa levar pelo vazio. Uma vez. E fecha os olhos.
Ao abrir, já está em outro cenário. Will só via grama. Estava úmida, e verde. O céu estava feliz e azul. Tudo parecia bem. Menos o mesmo. Estava sentado de forma desajeitada, com as roupas coloridas, totalmente sem vida pela sujeira, e os olhos brilhantes, mas não de forma feliz.
E de repente, sentiu um soco no rosto. Tão dolorido quanto o seu coração estava no momento. Suas bochechas, já sujas pela terra molhada, queimavam, ardiam, repudiavam o toque brusco e agressivo.
— Seu viado de merda!
Outra voz familiar, raivosa e grossa, e essa não só assombrava Will pelos momentos no Mundo Invertido, tal como o perseguia desde que caiu na maldição de ganhar suas genéticas ao nascer.
Loonie, cambaleando de um lado a outro, com uma risada malvada, e derrotada de alguma forma, arregaçava as mangas da blusa e se aproximava de Will. Que não era mais o mesmo Will. Byers se forçou a utilizar seus olhos marejados e observou suas mãos, agora menores. Mais delicadas, infantis.
— Olhe para si mesmo, veja o fracasso que você é.
Aquilo não era qualquer cena diabólica moldada por Henry para o assombrar. Era ele mesmo, o pequeno, ingênuo e fraco Will Byers, que passou por tudo isso e aparentemente está fadado a recordar novamente. Vecna estava rebobinando fitas arquivadas de sua vida, o torturando com cada fraqueza, tudo aquilo era sua kryptonita, seus medos, suas falhas.
— Papai...
— Não me chama de pai, garoto! — ríspido, Loonie riu, sua face jorrava desgosto — Não tenho coragem de dizer que uma aberração patética e fraca como você veio de mim.
O pequeno Will, e o Will que o envolvia naquele segundo, apenas se torturavam mais ainda com o silêncio, se confortando com apenas os murmúrios que suas gargantas soltavam. O ar, novamente, já não estava normal, e fazia o menino soluçar e suspirar mais que o normal. Seu peito subia e descia num curto período de tempo, procurando resposta do oxigênio.
— Apenas desista, William, você sabe que perdeu. Tudo. Como sempre, se permita sofrer — Will escuta a voz de Henry invadindo sua mente novamente, por meio de Loonie.
— Não.... Não! Você... Não vai conseguir...
— Não adianta fugir do que sempre esteve fadado a você. Você vai sofrer, e eu vou me alimentar com cada lágrima sua. Não se permita respirar, quando você já perdeu mais uma batalha.
Antes mesmo que possa responder a monstruosidade a sua frente, uma melodia totalmente inesperada e alegre invadiu seus sentidos. Era acompanhada com uma voz familiar, divertida, uma música que Will já estava acostumado a ouvir. Seus ouvidos relaxam, assim como sua mente.
“Should I Stay or Should I Go?”
Will não sabe responder como, onde e quando a música se fez presente nas suas melhores memórias pela primeira vez, mas sabe que essa música foi muito importante para que ele tenha sobrevivido no Mundo Invertido. A música em questão era sua música favorita, a que o menino escutava quando menor com seu irmão, Jonathan. Aquela música o trazia o quentinho do afeto, o fazia entender que estava tudo bem curtir a vida um pouco.
“WILL! WILL, CONSEGUE ME OUVIR?” William escuta um eco no fundo de sua mente, como se alguém estivesse no fundo daquele cenário, um impostor no seu pesadelo, o chamando para acordar. Era Mike.
Ouvir a voz de Mike em tom preocupado chamando por seu nome, na vida real, é como um anestésico no meio de tanta dor. Prestou em se acalmar e engoliu as lágrimas que estavam para cair. É um lembrete de que talvez, aquele Michael, que sempre esteve ao lado de Will, esteja ali agora também, o esperando.
Will então, fecha os olhos, se concentrando na melodia e na letra, tentando ignorar totalmente Henry, em sua pior forma, a poucos centímetros de si. E tudo ficou preto novamente, não se via mais nada. Só ouvia.
E quando Will abriu os olhos novamente, não estava mais no campo aberto, não existia mais Loonie, nem socos. A música o tirou dali, realmente... Mas havia algo errado. O ambiente era monótono e morto, assim como o que os dois estavam anteriormente, mas não haviam santos, não haviam bancos ou vidros coloridos. Ele estava no Mundo Invertido, porém, também não estava de volta na igreja.
Will se desespera novamente, olhando ao seu redor em busca de qualquer informação sobre o local em que se encontrava. Era um ambiente pequeno, fechado, que logo foi reconhecido por Byers. Um pequeno cubículo, com parede de toco de madeira, e fechado com o mesmo material. A porta era um pedaço de pano, estava mais para um lençol velho com uma estampa que Joyce não gostava mais. Em volta, brinquedos relacionados a D&D e sua classe, feiticeiro. Era ali onde Will se encorajava nos seus piores dias quando foi sequestrado, mas foi ali também que perdeu essa coragem.
Will estava no Castelo Byers.
Aquela pequena construção que Jonathan lhe deu de presente representava sua infância, e o fim precoce dela. Byers passou diversos momentos marcantes de sua vida naquele espaço, mas a cada tempo que passava entendia o quanto estava perdendo a magia daquele lugar. Até que destruiu cada pedaço de parede, cada item importante para seu eu mais novo, cada detalhe que prometeu levar embora consigo quando crescesse. E simplesmente ficou ali, até o fim.
Will não conseguia entender o porquê não pôde ter uma infância normal como todas as crianças de Hawkins, ou pelo menos a maioria delas. Gostaria de jogar mais RPG com seus amigos, sair com sua família para parques ou no cinema, entre diversas atividades que foram privadas de si. Não era a mesma coisa. Passou uma boa parte de sua vida com cicatrizes de um monstro que tomou conta de si e o pouco de vida que tinha vivido. Estava em todo o lugar dentro de si. Não era mais Will. Era apenas um pequeno pedaço de carne sem alma alguma. E agora um adolescente sem futuro.
Will se acua novamente, se sentando no chão da cabana, olhando fixamente para pano que marcava a saída, e se abraçando, procurando falhamente algum conforto no meio do caos que sua mente estava. Ele não aguentava mais, a música, que antes era sua saída, sua luz no fim do túnel, parecia se distorcer a cada momento, trazendo terror para sua cabeça, o apavorando mais ainda. As lágrimas que hesitou soltar, voltaram a cair, pela última vez.
— Agora você entende, William? — Henry não está ali dentro, mas sua voz o assombra, e Will abaixa sua cabeça, entre suas pernas, negando para si mesmo — Não adianta tentar fugir, você sempre volta para o início. Quando eu te quebrei.
— Por favor...
— Medo me fortalece, me fez vencer antes e hoje não vai ser diferente, garoto — a voz de Vecna era quase calma, talvez feliz, sabendo que estava vencendo — Seus amigos também, cada um vai cair, porque no fundo, eles temem algo e eu sei disso. Eu sei cada medo ou fraqueza de vocês. Eles vão ficar aqui, e vão morrer aqui. Assim como você vai, não é? — um vento saí da porta da cabana, fazendo o lençol se levantar, podendo ter um vislumbre da igreja, onde consegue ver seu corpo levitando, em frente da cruz do salão, com os braços abertos, presos por vinhas grossas entre a madeira da cruz e seus pulsos, assim como seus pés. Havia um fone de ouvido em si, e o cabo se conectava a um walkman no bolso de sua jaqueta.
— Ele não te ama, e só está ali por você ser útil no momento, agora que está com meus poderes, mas… — Henry dá uma risada — assim que, se voltar, ele logo vai te deixar de escanteio. Esperando, esperando, esperando, esperando... — repete a palavra mais algumas vezes - esperando, até você entender que ele nunca vai retribuir NADA - grita - nada, que você sente. E nunca ninguém vai, porque você é assim, certo? Um pecador, que mesmo tendo passado por todas essas provas, ainda sente que merece algum tipo de afeto.
O lençol sobrevoa um pouco mais com o vento e mostra um, nem tão pequeno, Michael Wheeler, de olhos arregalados e feição preocupada olhando para um William desacordado e de olhos brancos. O menino, que alcançava apenas os pés do outro, chacoalhava os mesmos em busca de qualquer resposta.
— E todos têm o mesmo pensamento sobre você, e você sabe disso, até esquecerem do seu aniversário, a data que você mais deveria se orgulhar... Então, por que voltar? E voltar para seu loop de fracassos novamente? Por isso, você quer ficar aqui, não é?
William está com sua cabeça doendo, seus olhos estão tão marejados que ardem, e sangram, por tanto chorar. Will não quer concordar, e sua mente, com seu resquício, sua faísca de esperança, o fazem permanecer em silêncio, mas seu coração, pobre coração, já afetado por todas as lembranças e, que talvez sejam até ilusões, o prendem sentado no chão, o impossibilitando de se mexer.
— Fique aqui e perca seus medos também, William, os deixe morrer, junto consigo mesmo. Os deixe queimar.
Ao dizer isso, Will consegue enxergar uma faísca, vindo de fora, da igreja, uma pequena chama se ascendendo na madeira da construção. É uma faísca tímida, que lentamente vai surgindo e dominando cada milímetro da madeira. Pensa se aquela chama é literal, ou apenas mais uma ilusão que sua cabeça construiu em colaboração com Henry, mas parecia real, muito real.
Will pensa em se assustar, mas com sua mente em chamas também, até fica tranquilo com a ideia do fogo o preenchendo literalmente.
— Não, não, não, NÃO! PORQUÊ NÃO FUNCIONA? ERA PARA A MÚSICA FUNCIONAR!
Escuta Mike novamente, e agora o podendo ver, desesperadamente, tentando desprender as vinhas de seus pés, enquanto enxerga o fogo.
— Mike... — Will soluça o nome, fraco.
— O que eu faço... — Mike corre de um lado para o outro, passando as mãos pelo cabelo, olhando o fogo se alastrando — O QUE EU FAÇO? WILL!
Will apenas observava, chorando, e se abraçando.
— Eu.. Eu não sei se você me escuta, mas — para em frente a Byers — Eu não vou sair daqui. Eu prometo. Eu só saio se você tiver junto comigo.
Uma pequena faísca aparece de dentro do castelo Byers, onde o Will acordado, se encontra. Agora Will tem certeza que isso é real, o calor encontra seu corpo. Henry plantou aquilo, queria o ver derreter.
— Eu não sei o que você tá passando aí dentro, deve ser horrível, mas eu tenho a sensação que tenho que dizer novamente o quanto você é forte, pra caramba. Will... — Will vê uma lágrima escorrendo pelos olhos de Mike — Você é literalmente a pessoa que eu mais tenho orgulho nesse mundo, você sobreviveu ao inferno tantas e tantas vezes e simplesmente seguiu, eu queria ter a coragem sua às vezes... - riu, desajeitado - Eu apenas sou um nerd fracassado, com cara de sapo, que tem o dom de acabar com tudo que está por perto. Tudo que eu gosto, eu tenho a oportunidade e acabo destruindo. Nem me expressar ao certo eu consigo, meus amigos provavelmente não são mais tão meus amigos porque eu simplesmente os afasto. Minha família não tem a relação que eu gostaria porque eu nunca tive uma interação que eu gostaria de melhorar. Eu pelo menos... - para de falar, e balança a cabeça - eu pelo menos não estraguei ainda a minha relação com o meu melhor amigo me declarando e dizendo o quanto eu sou apaixonado por ele... Bom, agora eu fiz.
Will, que encarava fixamente o fogo, mudou o foco para o menino que chorava mais forte agora. O quê?
— Me desculpa Will, por todas a vezes que eu te machuquei, chateei, ou algo assim - Mike perde as forças das pernas e se joga no chão, ficando ajoelhado em frente a Will desacordado e levitando - Eu estava com tanto medo de te fazer enxergar sem querer o quanto eu sou incrivelmente apaixonado por você desde sempre, que eu mesmo, de qualquer jeito já afastei nós dois. E eu me culpo tanto por isso, mas tanto. Eu só queria te fazer enxergar o quão bom você é, até mesmo pra mim. O quão forte é, e o quão amado você é.
— Você sabe que ele está mentindo, não é? — Henry aparece, com uma voz mais animalesca que o normal — Não seja tolo.
Will, pela primeira vez, ignora a voz de Henry, e segue ouvindo o monólogo de Michael.
— Você é tão bom, com todos à sua volta, seu sorriso pode clarear até o pior dia da pessoa mais triste do mundo — respira fundo, se recompondo — eu sei que pode parecer mentira, mas a minha realmente começou quando eu te encontrei naquele balanço, naquele parquinho. Você foi meu primeiro amigo, primeiro melhor amigo, e a única pessoa que mais importa pra mim. Se eu pudesse ao menos te alcançar agora eu te abraçaria tão forte porque eu estou apavorado com a possibilidade de te perder.
— William. — Vecna o chama.
Will está perplexo, impossibilitado de expressar qualquer reação, além das lágrimas que já soltava, Mike gosta de Will também? O menino simplesmente não pode acreditar. Todos esses anos, tudo o que passara... Soava realmente como uma mentira, uma outra ilusão, mas que infelizmente Will queria acreditar.
— Ele está mentindo, eu consigo sentir sua voz falhando.
— E mesmo que você volte apenas para me xingar ou me empurrar e chamar de idiota, eu não vou tirar meus pés daqui - abriu os braços - Se você queimar, eu queimo junto.
Talvez Will esteja ficando maluco, sonhando com tudo isso, mas apesar de tudo, a fala de Mike fez surgir algo em seu peito que fazia tempo que não sentia. Esperança. Esperança genuína. Talvez Mike sim se importe com ele, e talvez tudo negativo que frequenta sua mente todos os dias seja realmente apenas sua cabeça o auto sabotando.
Will se levanta, e com isso, observa que o fogo, que alastra tanto a igreja, quanto seu pequeno castelo, de repente, se intensifica e queima numa velocidade bem mais rápida. Talvez Will possa se dar mais uma chance de ser amado. Talvez Henry possa sim ser destruído e Byers possa se permitir ser amado. Como era.
— William, você não pode fazer isso.
— Por quê?
— Você vai sucumbir ao monótono novamente, e vai chorar pelo resto da sua vida fracassada, e vai perder seus amigos, sua família, todos.
— Will... — Will escuta a voz de Mike novamente, soluçando — Volta, por favor...
— Você que vai — seca as lágrimas, e responde Henry com a voz rouca — foi uma boa tacada, você me conhece, realmente, mas diferente de você, eu não vou perder, eu não vou sucumbir, e na verdade — dá uma risada fraca — eu vou estar, junto com todo mundo que se importa comigo, vendo você sendo destruído, parte por parte.
E então, Will dá passos até o lençol da entrada do pequeno castelo, e avança para a saída, e assim que ultrapassa a marca, quase sendo pego pelo fogo, ele fecha os olhos.
Acordando na igreja, onde está crucificado. Seus olhos não estão mais brancos, e as vinhas parecem mais fracas que o normal, mas o fogo vai agressivamente em sua direção, quase faminto por carne.
— WILL! — Mike grita, muito mais alto, e vai em direção ao mesmo.
Will adquire uma força que ele não faz ideia de onde veio, e consegue soltar suas mãos e pés das vinhas que o prendiam, e o fazem cair de forma perigosa no chão. Ele chega a sentir o calor em sua pele, mas não o abraça. Não mais.
Will cai no chão de forma dura, e geme de dor. Seus olhos, pescoço, pernas, braços, costas, tudo dói, de forma grotesca, mas o mesmo logo é acolhido pelo mais alto, que o segura rapidamente, analisando cada parte de seu corpo.
— Will! Meu deus — duas mãos preocupadas seguram seu rosto — Seus olhos... Estão sangrando. Meu Deus, você está vivo. Eu fiquei tão, mas tão preocupado.
— Eu sei, eu vi — Will se rende e estende uma mão em direção ao rosto de Mike, e faz um carinho — Muito obrigado.
O som de uma madeira em cima dos dois estalando os pega desprevenidos e os deixam alarmados.
— Vem Will, vamos embora — Mike estende seu braço e Will os usa de apoio, e apressadamente, eles vão em direção a saída. Will manca um pouco, e ainda sente suas dores, mas tendo Mike o protegendo com seus braços e suas palavras de conforto já fazem um efeito analgésico incrível.
Assim que os mesmos passam pelo portão e se afastam um pouco da construção, diminuem a velocidade do passo e se deixam respirar após tanta turbulência em tão pouco tempo. Se viram e se atrevem a olhar a capela. A igreja de madeira já está se decompondo e sumindo, enquanto o fogo ainda se alimenta de tudo que aquele lugar já teve de história. Chega a ser até poético como os minutos que se passaram ali dentro foram se recordar do cenário em que se encontravam. Wil e Mike se olham, e suspiram.
— Eu acho que sei como acabar com o Vecna — Will comentou.
Mike sorri, de orelha a orelha.
— Como?
— Eu percebi que ele me diminuía a qualquer momento, me deixava pra baixo dizendo que me deixava fraco, me destruir, era algo que o fazia ficar forte — pensava, ainda com o olhar fixo em Mike — Mas quando... Eu te ouvi, eu entendi e tive esperança, sobre tudo, e isso o deixou preocupado, ele...
— Se sentiu impotente. Não tinha mais como te diminuir.
— Exato, ele não podia me prender ali, mas podia me fazer querer ficar ali. Então é isso. É a gente ser mais forte que ele. E fazer ele destruir o próprio mundo aos poucos, como a gente fez agora com a igreja.
Will conta ainda concentrado, e novamente, sente uma pressão sobre si, mas dessa vez, é o corpo de Mike envolvendo o seu. Os braços do mais alto o cobrem, fazendo Will sorrir, genuinamente.
— Você é incrível, Byers, você é incrível.
— E você está me apertando — ri, gostaria de ficar mais abraçado com Mike mas realmente estava muito dolorido para tanto aperto — vamos, precisamos falar com todos e...
— Espera Will — Mike o interrompe, com uma feição um pouco sem graça — Eu sei que não é o momento apropriado, o mundo tá acabando, e a gente quase morreu, mas... Você ouviu tudo, tudo mesmo?
Will não pode negar, achou fofo o modo em que Mike o olhava, com suas pupilas brilhantes, do jeito que o mesmo amava e sempre amou, o olhando curioso.
— Sim, eu ouvi tudo. Palavra por palavra.
— E...?
— Você é tão bobo, Michael Wheeler - Byers se aproxima, passando do limite entre o espaço pessoal entre ele e o homem que o observava - E eu te amo tanto por isso. Eu senti cada palavra, cada frase, e você foi me motivando, me dando uma esperança que eu não tinha e provavelmente nunca tive. Você me salvou.
— Will — ele dá uma pequena risada, segurando o rosto de Will e permitindo ao polegar alisar a sua bochecha, retirando o sangue que saiu de sua bochecha - Você não sabe quanto tempo eu me torturei para não falar o quanto eu te amo também. Eu te amo tanto, mas tanto, Byers.
Os dois se olhavam fixamente, e a única coisa que podia ser ouvida além dos batimentos cardíacos de ambos os corações batendo rapidamente e intensamente, era o barulho agora incômodo, das chamas que finalizaram a catástrofe da capela. O que fez ambos hesitar.
— Quer sair desse inferno? — Will perguntou, descendo o olhar para os lábios do outro.
— O inferno pode esperar.
Assim que Mike termina a frase, acaba com o espaço entre seus rostos e lábios, indo com certa pressa de encontro com Will. Era um toque necessitado por ambos, a muito tempo, mas calmo, leve, uma pressão que trouxe o alívio que tanto Will quanto Mike precisavam naquele momento. Will, de forma desajeitada — porque não irá contar ao outro ainda que seu primeiro beijo está sendo no exato momento, com a pessoa dos seus sonhos — se atreve a mexer os lábios, vagamente, se entregando ao desejo que continha. Mike, retribui, movimentando sua boca também, fazendo com que os dois comecem uma boa melodia no meio do caos que se situam.
Will não resiste e solta um sorriso entre o beijo, se sentindo mais realizado que nunca. Tinha gosto de menta, provavelmente pelo chiclete que Mike havia comido antes de entrar no Mundo Invertido. Já Mike, tenta fundir mais ainda o espaço entre ele e Will, colocando uma de suas mãos em sua cintura e o trazendo para mais perto.
Talvez Will e Mike tenham ficado ali por um tempo, aproveitando o gosto e a presença alheia, enquanto a capela desaparece por completo, mas eles acabam perdendo a noção do tempo, e se entregam aos seus pecados assim como a cruz se entrega ao fogo.
E eles estão bem com isso agora.
