Actions

Work Header

O bilhete

Summary:

Onde Joui, enquanto separava algumas roupas antigas para doação, encontrou um pequeno bilhete de um velho amor.

Ou, onde mesmo após tantos anos, o mesmo nunca conseguiria esquecer seu único e verdadeiro amor.

Work Text:

Era uma tarde tranquila, em uma terça-feira qualquer, o som da música em seu celular se misturava com o som dos pássaros que ainda estavam a cantar. O ambiente era agradável para Joui, mas sua situação nunca poderia ser igual. Sentado no chão da lavanderia, o mais velho encarava as roupas na sua frente com curiosidade e receio, tentando encontrar coragem para mexer naquelas roupas. 

Afinal, não via essas peças há anos, todas ficaram empacotadas no quarto de visitas desde que se mudou para lá, pois nunca mais as queria encontrar.

Porém, quando seus filhos vieram visitar, acabaram por achar aquela mala. Insistiram e insistiram muito para que abrisse, olhasse e reflexinasse sobre o conteúdo da mesma.

Como havia dito sua filha mais velha:

"Se você quer tanto seguir em frente, papa, deveria se desapegar do passado. Não é, Olivier?" 

Seu filho parecia igual a ele, receoso, mas não demorou para que desse apoio a irmã.

O Jouki sabia que a atitude de ambos com isso ia além de "o ajudar a superar", mas preferiu aceitar antes que a Amelie insistisse mais.

Agora, via prenda por prenda, pensando no que seria melhor doar e o que deveria ficar. 

Pegou uma camisa antiga, que provavelmente não cabia mais nele, a colocou pra lavar. Se lembrava brevemente de quem o havia presenteado com aquela camisa, a estampa de um quadrinho que nem conhecia gritava o nome de outro alguém. Um nome que preferia esquecer.

Repetiu o processo com as seguintes prendas, pegando uma camisa com estampa de flores, que não gostaria de ficar. O próximo era um casaco simples, que tinha certeza que não era seu. Embaixo dele, uma calça com uma estampa feita a mão, aquela calça que usava praticamente os cinco dias da semana quando jovem. 

Dessa vez, pegou a peça com delicadeza, olhando os detalhes com um olhar melancólico no rosto. Algumas memórias vieram à sua mente, mas ele não podia lembrar, naquele momento ele precisava esquecer. 

Porém, ele não tinha essa escolha, e queira ele ou não, aquele momento sempre teria um espaço dentro do seu coração.

 

"Desde que chegou naquela cidade, apenas para aproveitar as férias, foi recebido de braços abertos pela vizinhança.

Principalmente, os Cohen e os Cervero, que a partir do momento que se tornaram vizinhos, foi basicamente adotado por ambas familias.

Aos poucos, foi se adaptando ao local com a ajuda de quem mais tarde seriam seus melhores amigos:

César Cohen e Arthur Cervero.

Em alguns meses de convivência, os três se tornaram inseparáveis, não havia distância que os separassem por mais de cinco minutos.

Os professores começaram a reclamar da sua bagunça com os pais dos mesmos, que simplesmente brincaram por eles serem os 'Chi' o 'Cle' e o 'Te', piada claramente começada por Christopher.

Mas óbvio que não foi apenas isso, pois no momento que o Sr. Jouki descobriu que seu filho estava sendo repreendido por falta de atenção, decidiu mudá-lo de turma no mesmo dia.

Os três garotos se sentiram arrasados com a situação, porém convencer o pai do japonês era quase idêntico a tentar convencer uma parede.

Vendo o desânimo de Joui pela mudança de turma, César planejou fazer algo especial para o garoto. 

O plano era ir a casa dos Jouki, pegar uma calça do Joui quando este estivesse distraído, e por fim decorar a calça para depois devolvê-la. 

Assim o fez, e antes de trocarem o japonês de turma, entregou a calça personalizada com florzinhas para o mais novo, que quase chorou de emoção ao vê-la.

—Eles podem tentar nos separar, mas nunca vão conseguir. Vai ser sempre nós três, beleza?—"

 

"Não, não era para sempre." Pensou, tocando a textura da calça em suas mãos.

O gosto amargo da memória desceu pela sua garganta, o peito apertou com força com uma saudade indescritível.

Joui sabia que devia deixar isso para trás, como todo mundo já havia feito. Ele não poderia se prender ao passado para sempre, nem fingir que tudo aquilo não tinha chegado ao fim.

Com isso em mente, decidiu que iria doar aquela prenda também, não tinha porque guardar algo assim. 

Por precaução, começou a mexer nos bolsos da calça, tirando dali vários papéis antigos e uma nota de dois reais, todos amassados e prestes a despedaçar. Deu um sorriso, agradecendo o Jouki do passado por esquecer daquele dinheiro, porém se xingando mentalmente por esquecer aquilo por tanto tempo. Mas, antes que pudesse finalmente colocar a roupa para lavar, viu um pequeno bilhete que se destacava no outro bolso pela sua cor diferente.

O tirou dali com cuidado, parecia mais antigo e danificado que os outros achados, com o mesmo cuidado ia o desdobrando para saber do que se tratava.

Aos poucos, reconheceu a letra, e mais do que isso, a o papel em si. Naquele pequeno bilhete roxo, decorado com várias flores desenhadas, alguém escrevera:

“Feliz aniversário (pra nós dois)

Obrigado por fazer meus dias tão especiais 

Te amo e volta logo 

Já tô com saudades 

Minha flor.”

Encarou o papel, sentindo algo dentro de si despedaçando ali mesmo. Parecia um detalhe idiota, mas era um jeito idiota de amar que ele conhecia tão bem.

Era o jeito que Kaiser o amava.

 

"Ambos jovens caminhavam juntos, no meio da madrugada, falando de qualquer coisa boba que viesse à mente.

Aquele romance leve da adolescência pairava no ar, os olhares entre os dois eram doce demais, o jeito que seus corpos se atraem sem nem perceber era enjoativo para os olhos alheios.

Mas naquele momento, eram apenas eles, e ninguém poderia estragar isso.

—Talvez você esqueceu...— murmurou o Cohen desviando o olhar. —Mas hoje é nosso aniversário de namoro, então...— coçava sua bochecha pelo nervosismo, sem encarar o mais alto.

Claro que Joui não havia esquecido, apesar de ser péssimo com datas, mas não havia tocado no assunto já que esqueceu o presente na sua casa.

—Como eu poderia esquecer algo assim, meu bem?— perguntou ligeiramente ofendido com a insinuação, segurando os ombros do mais velho e o virando para que ficassem cara a cara.

—Não, tipo, esse não é o ponto, tá legal? E não me chama assim...— ele deu um soco de leve em seu peito, claramente envergonhado pelo apelido. —Eu fiz algo pra você, fecha os olhos. — 

Joui o encarou por uns segundos, mas assentiu e fechou os olhos como este havia pedido.

Enquanto se segurava nos ombros do Cohen, sentiu as mãos do mesmo passar por sua cintura, e depois passando para seu bolso direito. 

—... César, o que você tá' fazendo? — questionou nervoso, ainda sem abrir os olhos. 

—Ah... Calma! Não é nada do que você tá pensando. — disse se afastando um pouco, fazendo o Jouki quase perder o equilíbrio. —Moleque idiota... Pode abrir os olhos.— suspirou, sentindo suas bochechas queimando.

No momento que o mais novo abriu os olhos, se deslumbrou com a visão. Nas mãos do seu amado havia um vaso com tulipas vermelhas, com um pequeno bilhete pendurado. 

—Então... As tulipas vermelhas significam 'declaração de amor', 'amor verdadeiro', essas coisas... — disse enquanto estendia o vaso na direção do japonês. —Você deve ser péssimo em cuidar de flores, mas eu deixei algumas instruções pra você seguir. Talvez assim dure uma semana ou duas...—

César foi interrompido pelo choro de Joui, que quase se desidratou de chorar pelo gesto do outro.

Passaram o resto do encontro sentados no meio fio, enquanto o Cohen tentava acalmar o outro.

—Você nunca vai parar de ser um bebê chorão, não é?—"

 

Ele não chorou quando César pediu o divórcio, nem chorou enquanto fazia as malas, muito menos quando deixou aquela casa e suas tulipas para trás.

Para Joui, aquele dia foi apenas um pesadelo ruim. Um onde ele mal conseguia distinguir quem era ele mesmo. 

Havia se perdido completamente quando teve que deixar o seu amor para trás, e passou anos tentando reprimir aquela tristeza que o banhava sempre que lembrava do passado.

Porque no fundo, ele não podia reclamar. Ele estragou tudo sozinho, não havia volta.

Sentiu as lágrimas descer suas bochechas, caindo direto no papel que estava prestes a se desfazer na sua mão.

A sua mente tornou-se praticamente inabitável, como se um vulcão de pensamentos estivesse explodindo dentro de si.

A culpa pesava em seu corpo, o arrependimento era como uma facada em seu estômago. O rosto machucado do seu amor lhe pedindo uma explicação pelo seu comportamento ainda aparecia em sua mente, as palavras de Kaiser eram como diversas agulhas perfurando sua alma:

"Você se tornou o que eu mais odiava, Joui. Eu mal consigo reconhecer você. Agora você é aquilo que você jurou pra mim que nunca seria. Um marido e um pai ausente. O que eu fiz para que você se afastasse assim? Nem parece que me ama mais."

Sua filha mal olhava para ele, aquele amor que havia construído se desmoronando. 

Ela, diferente de todos ali, sempre foi capaz de falar com firmeza do que acontecia naquela casa. Nunca teve medo de expor o que pensava do seu pai Jouki.

"Você já foi um pai melhor" 

Seu filho, mesmo que tentasse agir indiferente, nunca discordou da irmã quando a mesma reclamava da situação.

No momento em que assinou os papéis, Joui Jouki sentiu que perdeu tudo. Seus filhos decidiram morar com Cohen, mesmo que visitassem o japonês todo final de semana. Ele saiu daquela casa, levando apenas algumas roupas consigo, e todo o resto ficou por lá.

Depois de tudo isso, ele aprendeu com seus erros do passado, podendo reconstruir aos poucos tudo aquilo que arruinou antes.

Tudo, menos seu relacionamento com Cohen.

Apesar de tantos anos terem se passado, Joui nunca conseguiu seguir em frente com outras relações românticas.

Até ia em bares com seus amigos, conhecia novas pessoas, mas nunca foi capaz de sentir o mesmo que sentia por César. Joui havia mudado, e o que mais queria era que Kaiser visse isso, que eles conseguissem restaurar o amor tão puro que uma vez tiveram.

E ele poderia mostrar, se Joui ainda tivesse qualquer chance, ia se apegar a mesma com todas as suas forças.

Saiu da lavanderia às pressas, procurando seu celular por todo canto até o encontrar na cozinha. Pensou em mandar uma mensagem, mas sabia que se o mais velho demorasse pra responder desistiria daquilo imediatamente. Selecionou o número e apertou em "ligar" antes mesmo que pudesse racionalizar o que tava fazendo.

Talvez toda essa história de revisitar o passado tivesse deixado ele louco mesmo.

A cada 'pim...' que ouvia sentia que enlouquecia um pouco mais, mas entendia a demora do outro. Não é todo dia que você recebe uma ligação do seu ex depois de anos sem contato. Mas por fim, ele atendeu. E Joui sentiu que sua pressão havia caído de repente.

...— houve um silêncio do outro lado da linha, provavelmente o choque de receber uma ligação dessas do nada —Joui? — o nomeado sentiu seu corpo derreter por completo ao escutar seu nome saindo da boca do outro.

É, ele com certeza era louco.

Oi, César. — disse finalmente, sentindo sua alma sair do seu corpo enquanto falava. —Eu... Como você tá?

... Eu tô' bem, e você? Aconteceu alguma coisa? — a voz de César parecia tensa, mas também tinha um pouco daquele tom doce que o Jouki conhecia tão bem. 

Eu tô' bem, e não, tá' tudo bem por aqui. — ele sentiu uma lágrima descer pela sua bochecha, sua voz saindo mais chorosa do que gostaria. —Sabe César, eu... Eu gostaria de te pedir desculpas. Pelo passado, pelo que eu fiz.— suspirou profundamente, tentando se acalmar —Eu sei que isso não é um jeito bom, mas eu também não queria invadir seu espaço para isso...— murmurou, limpando as lágrimas que caiam pelas suas bochechas.

Ambos ficaram em silêncio por um instante, não porque Kaiser não tivesse nada para falar, mas sim porque não ele por onde começar.

Pelo nervosismo, o único que conseguiu fazer foi soltar uma risada, doce e nervosa.

"Como nos velhos tempos"

Seu idiota, realmente precisava de três anos para você se desculpar?— questionou o cabeludo, mas como uma brincadeira do que como uma repressão séria.

As lágrimas de Joui agora caiam sem controle nenhum, se tornando mais escandalosas que antes.

Me perdoa, César. — dizia, tentando manter o mínimo de postura ali. —Me desculpa.

Você nunca mudou mesmo, não é?— 

 

[...]

 

Todos estavam reunidos na casa dos Cervero, para um grande churrasco em família.

Ao seu lado estava o amor de sua vida, César Cohen, grelhando a carne junto com ele.

De longe, via seus filhos. A Amelie, que estava na piscina junto com sua namorada, Helena. E o Olivier, que estava mais afastado conversando com Milo, que era supostamente seu melhor amigo.

Na área dos aperitivos, Miguel e Bárbara pegavam alguns doces antes de voltar para sua mesa.

Arthur e Dante conversavam com algumas pessoas que haviam recém chegado à vizinhança, e que convidaram para integrá-los ao local.

Balu e Ivete se sentavam na "mesa dos sábios", nomeada assim pelos adolescentes do local.

Sua mãe e seu pai, Liz e Thiago, estavam discutindo por alguma coisa bastante fútil perto das bebidas, enquanto Erin e Beatrice bebiam e riam da conversa de ambos

Vendo tudo aquilo, Joui não podia evitar sorrir. Pois ele finalmente tinha um lugar que podia chamar de lar, e nada nem ninguém iria o afastar de sua família de novo.

 

“Ainda existe e vai durar o amor 

muitas e muitas lavagens depois 

Feliz aniversário, pra nós dois 

Te amo e volta logo 

Minha flor.”