Chapter Text
001| Fera Mortal.
Meus pés descalços tocavam com hesitação e cautela a terra morta e acinzentada que se estendia à minha frente. O cheiro de tranquilidade e cinzas impregnava o ar, provocando-me ânsia e uma repulsa profunda pelos seres que causaram tal atrocidade ao meu lar — o lugar vibrante e cheio de bioluminescência que existia antes dessa guerra estúpida contra o Povo do Céu.
As árvores caídas, a mata calcinada, as vidas silenciadas... Cada suspiro perdido, cada batida de coração que cessou doía em mim fisicamente.
Não sou ingênuo; a natureza é violenta e a sobrevivência exige morte. Mas há honra nisso. O que tiramos, nós devolvemos; agradecemos à presa e respeitamos o ciclo de Eywa .
Os Sawtute , porém, são uma praga sem cura. Eles desconhecem o equilíbrio. Sua língua é uma destruição, e seu deus é uma ganância.
Os Sawtute — o Povo do Céu — só sabiam fazer isso: destruir. Eram guerras intermináveis, mentiras desprezíveis e mortes incontáveis; sejam elas humanas, ambientais ou dos Na'vis.
Meus pais me contavam histórias sobre os demônios que surgiram das estrelas com falsas promessas de paz, com mentiras enganosas e os corpos falsos, os Avatares.
Suas máquinas barulhentas matavam nossa flora, exploravam nossa fauna e deixavam apenas cinzas e morte para trás, em busca de sua ganância sem fim.
E então veio a guerra, fria e violenta.
À frente deles estava Jake Sully, o escolhido de Eywa para trazer a vitória para nós. Ou melhor, a eles . Ao grande clã, e não aos excluídos como minha família e eu.
Eu era um mestiço. Aos olhos de muitos, uma aberração, uma contradição viva que a natureza nunca deveria ter permitida. Mas Eywa ... Ela pensava diferente.
Talvez minha existência tenha sido a forma da Grande Mãe dizer aos meus pais que abençoava seu amor incondicional, uma união que desafiava fronteiras.
Minha mãe, minha amada Sa'nok , era uma Omaticaya orgulhosa. Ela carregava a agilidade da floresta nos ossos, vinda de um clã pequeno, estrategicamente isolado, guardiã de tradições fortes e pensamentos antigos que não aceitavam o novo facilmente.
Por isso o escândalo foi tão grande quando ela conheceu meu pai. Meu Sempul . Um Metkayina de peito largo e braços fortes como as marés, que veio das partes litorais de Pandora. Um verdadeiro Na'vi da água, com a pele num tom diferente e a cauda feita para nadar, não para escalar.
Ela sempre me disse, com um brilho nos olhos, que foi como se o tsaheylu tivesse acontecido no instante em que se viram, sem nem precisarem tocar as tranças. As almas se consideraram antes dos corpos.
Mas meu pai era um exilado. Um homem expulso de seu povo, marcado pela vergonha, apenas por defensor de um Tulkun — seu irmão de espírito — contra as acusações injustas e covardes de seu próprio clã.
De um jeito provável, guiado pelas correntes do destino, ele parou aqui, na densidade da nossa floresta. Foi acolhido num ato de pura posse por minha mãe, depois de ter sido encontrado sangrando, ferido por uma bomba no meio da guerra caótica que consumia Pandora.
O resto é tragicamente previsível: foram abandonados, cortados de suas raízes quando descoberto o romance proibido. E quando meu nascimento veio à tona — uma criança com traços da floresta e do mar —, o isolamento foi total.
Pouco tempo depois, uma bomba dos Sawtute caiu na nossa vila isolada. Eu particularmente gosto de pensar que foi o karma aquecido, punindo aqueles que nos julgamos, embora a dor da perda ainda queimasse. Foi assim que viramos “selvagens”, Na'vis sem tribo.
Apenas nossa pequena família de três, lutando contra o mundo, até só sobrar eu.
Eu, a solidão, e a caça que persigo agora para o jantar.
O Yerik à minha frente se move com uma destreza irritante, suas seis patas mal tocando o chão coberto de cinzas. Aquilo estava me deixando frustrado; meus músculos ardiam pelo esforço contínuo e o suor frio escorria pelas minhas costas.
Eu já tinha me afastado muito, cruzado os limites da minha área de segurança que tracei mentalmente para evitar o risco de encontrar patrulhas ou outros hostis Na'vi.
Parei, controlando a respiração para que ela entrasse em sincronia com o pulso da floresta.
Fechei os olhos.
O arco em meus braços estava retesado, a madeira rangendo levemente sob a tensão, a flecha pronta para voar. Minha caça estava perto. Eu senti o calor dela. Sentia Eywa me avisando pela mudança sutil no vento, me guiando pelo som de um galho estalando a metros de distância.
A terra sob meus pés poderia estar morta, queimada e sem vida naquele trecho esquecido, mas Ela... a Grande Mãe... Ela estava em tudo. Na cinza e na semente. Na vida e na morte.
Sempre.
Minhas orelhas tremeram, captando um ruído súbito à minha direita. Não era minha caça — eu sabia disso. Podia sentir o animal imóvel, tenso, me procurando na direção oposta. Abri os olhos e girei o corpo, fluido e silencioso, em direção ao som.
Foram passos pesados, descuidados. Crianças? Não, as vozes denunciavam adolescentes. Corriam e riam, brincando como se a guerra não existisse.
Abaixei o arco lentamente e comecei a recuar para as sombras da floresta densa — para longe deles. Eu não me encaixava ali.
Eles não me queriam em seu clã. Eu era uma aberração, metade Omaticaya, metade Metkayina. Eu causava repulsa e sabia disso. Ouvi os sussurros minha infância inteira, enquanto vagávamos de tribo em tribo com minha família em busca de proteção, de um lar.
Até restarmos apenas nós. Nós e a floresta.
E então, restou apenas o silêncio.
Desistir da minha presa não era algo que me dava orgulho, mas era o preço da minha sobrevivência. Eu estava perigosamente perto do perímetro da Fortaleza do Toruk Makto — uma imprudência que eu nunca havia cometido antes.
A emoção da caçada, misturada à fome de dias sem carne fresca, deve ter me deixado eufórico a ponto de nublar meus instintos e me fazer esquecer meus próprios limites.
Coloquei o arco em minhas costas transpassado pelo peito junto com a alcova atrás.
Num impulso visceral, lancei meu corpo ao ar e fechei os dedos em torno de um cipó grosso que pendia perto do chão. A fibra vegetal era áspera contra minhas palmas, mas serviu de alavanca perfeita. Usei a força do embalo para escalar o tronco da grande árvore à minha frente, minhas unhas cravando na casca rugosa como garras de um Thanator fugindo da chuva.
Assim que ganhei a altura do dossel, o mundo mudou. Deixei para trás a terra cinzenta e entrei no reino verde.
Comecei a correr.
Não era apenas movimento; era uma dança de sobrevivência bruta.
Eu saltava de galho em galho, calculando a distância e a resistência da madeira em frações de segundo. Minha cauda — embora tivesse o formato longo e ágil de um nativo da floresta, era visivelmente mais grossa e pesada, uma herança densa do sangue do meu pai.
Ela chicoteava o ar atrás de mim com força, servindo como um contrapeso poderoso que me permitia fazer curvas bruscas e estabilizar saltos longos que um Omaticaya comum, com sua cauda mais leve, talvez não conseguisse controlar.
Eu me lançava no vazio, agarrando-me a lianas e usando a gravidade para balançar entre as copas, navegando pelas "rotas fantasmas". Eram caminhos altos demais para os patrulheiros preguiçosos e estreitos demais para os Ikran passarem. Eram as minhas trilhas.
Ali, nas sombras das folhas gigantes, eu sabia que era invisível. Eu sabia que não cruzaria com ninguém.
Isso era claro na minha cabeça. Ou pelo menos eu achava que era.
De repente, um vulto azul surgiu do nada, vindo de um galho superior. Senti um peso bater contra meu lado esquerdo com força total, expulsando todo o ar dos meus pulmões num susto gelado. Algum skxawng tinha calculado mal o pulo e aterrissado direto em mim.
Perdi o equilíbrio na hora. Nós dois caímos, nos embolando e rolando desajeitados pelo tronco grosso. O musgo úmido e escorregadio passava rápido pelo meu rosto, misturado com a casca áspera da árvore que arranhava minha pele enquanto o mundo girava numa confusão de membros e xingamentos abafados.
O mundo parou com um baque surdo e doloroso.
Nossa queda foi interrompida brutalmente por uma bifurcação de galhos largos, alguns metros abaixo. O ar saiu dos meus pulmões num chiado agudo e senti o gosto metálico de sangue na boca onde mordi a língua. O peso do corpo estranho ainda estava sobre mim, membros se debatendo para encontrar apoio.
Rosnei, um som gutural que veio do fundo do peito, e empurrei o invasor para longe com violência.
— Saia de cima de mim, skxawng! — gritei, minha mão indo instintivamente para a faca de obsidiana presa na minha cintura.
O garoto rolou para o lado, tossindo e limpando o musgo do rosto. Ele se levantou rápido, ficando numa posição defensiva, mas desajeitada.
— Calma aí, cara! Eu não vi você... — ele começou, mas a voz travou quando seus olhos amarelos encontraram os meus.
Eu o encarei, analisando a ameaça em frações de segundo. Ele era da minha idade, talvez um pouco mais novo. Vestia tecidos trançados de boa qualidade, nada parecido com meus trapos de couro e pele. Mas o que fez meu estômago revirar não foi a roupa.
Foi a mão dele.
Enquanto ele se apoiava no tronco para não cair, eu contei. Um, dois, três, quatro... cinco dedos.
Um demônio. Um mestiço de sangue impuro do Povo do Céu.
Aquele não era um guerreiro qualquer. As tranças no cabelo, o porte arrogante mesmo na derrota e a marca inconfundível dos "Sonhadores" em sua genética. Eu sabia exatamente quem estava na minha frente.
Era o filho do Toruk Makto. Agora qual deles, eu não saberia. Nunca procurei identificá-los.
Ele parecia chocado, seus olhos correndo pela minha aparência — minha pele mais esverdeada, minha cauda pesada chicoteando o ar em irritação e as cicatrizes de quem vive na mata sem teto.
— Você... — ele murmurou, franzindo a testa, a atitude de "filho do chefe" voltando aos poucos. — O que você faz tão perto do perímetro? Você não é um Omaticaya.
Soltei uma risada seca, sem humor nenhum, e apertei o cabo da minha faca.
— E você não é um Na'vi — cuspi as palavras, aproveitando o insulto. — Pelo menos não com essas mãos de demônio.
Ele avançou raivoso, tal qual um Palulukan após avistar sua presa.
— Escute aqui, sua... — Ele travou no meio da frase, os olhos amarelos me percorrendo de cima a baixo com desdém, analisando minha mistura caótica de traços. Um sorriso de escárnio curvou seus lábios. — ...Sua aberração estranha. Eu sou tão Na’vi quanto você. Ou até mais.
Mostrei minhas presas em sua direção, uma ameaça clara. Minhas orelhas captaram um som e se agitaram pelos barulhos de passos se aproximando em nossa direção e minha cauda se moveu de maneira ansiosa. O cabo da faca em minha mão se tornou mais consciente e pesado.
— Lo’ak — Uma voz de cima das copas chamou. — Você está bem irmão?
— Spider, eu to legal mano. — Ele gritou de volta, seu olhos fixos em mim. — Já to indo.
— Certo, anda logo. Kiri tá com pressa.
Sua postura defensiva suavizou após a breve fala do ser de cima, seus olhos hostis se tornaram curiosos após me observar de cima a baixo de novo.
— Você não é daqui é? — Ele perguntou inclinando a cabeça. — Teria te reconhecido na hora, você é bem….único.
— Não é da sua conta vrrtep — sussurrei entre dentes.
Seus olhos se cerraram com raiva de novo.
— Não me chame assim skxawng — Ele mostrou as presas. — Nasci um Na’vi e vou morrer como um.
Soltei uma risada baixa, carregada de escárnio, e comecei a andar em círculos ao redor dele, meus passos leves no tronco enquanto meus olhos mapeavam cada detalhe de sua postura defensiva.
Ele era alto, sim. Talvez tivesse alguns centímetros de vantagem sobre mim, provavelmente culpa daquele sangue de vrrtep que corria em suas veias e esticava seus ossos mais do que o natural.
Notei também sua musculatura; ele era mais torneado do que eu esperava, com ombros largos e braços definidos. Era o corpo de alguém que passava o dia treinando combate em um pátio seguro, bem alimentado e descansado. Uma força construída, polida.
Mas aquilo não me impressionava.
Não havia cicatrizes de verdade. Não havia a tensão bruta de quem dorme com um olho aberto e caça para não morrer de fome. Ele era forte, eu não negaria, mas era uma força doméstica.
Nada aterrorizante.
Comparado às bestas que eu enfrentava na escuridão da floresta todos os dias, aquele garoto com pose de guerreiro não passava de um filhote tentando rosnar como um adulto.
Nada que eu não pudesse quebrar.
— Um Na’vi não precisa se afirmar Na’vi para ser um. — Ri com escárnio.
— Seu.. — sua voz saiu raivosa, ele deu um passo em minha direção.
— Lo’ak. — Uma voz diferente chamou dessa vez, impaciente.
Me arrepiei pelo simples som da voz, baixa e meio rouca. Havia um tom de comando na voz, algo primitivo que reverberou diretamente no meu centro.
Não era apenas o timbre, mas a autoridade inquestionável que carregava, fazendo com que todos os meus instintos, aqueles que eu nem sabia que possuía, se pusessem em alerta máximo.
Era um som grave, quase um ronronar perigoso, que parecia emergir de algum lugar profundo e ancestral.
A sensação foi imediata, como se uma corrente elétrica sutil, porém poderosa, tivesse percorrido toda a minha espinha, da nuca à base da coluna.
Naquele momento, não havia espaço para questionamentos ou hesitações; apenas a compulsão visceral de obedecer, uma resposta que nascia de um lugar pré-histórico dentro de mim.
Aquele simples som, carregado de uma força bruta e primal, despertou uma reação que eu nunca havia experimentado antes, algo que ia além da atração, era puro instinto.
— Neteyam. — O nome saiu da boca de Lo’ak de maneira facil. — Venha aqui ver algo.
Neteyam. Neteyam. Neteyam.
O som daquele nome ricocheteou dentro do meu crânio, repetindo-se em um loop febril. Não foi apenas uma palavra; foi físico.
Foi como sentir uma agulha de osso perfurando o couro grosso, puxando uma linha invisível através da minha carne viva, costurando algo ali que eu não pedi para ser costurado. Algo permanente. Irreversível.
Foi como uma faca de obsidiana encontrando o coração no meio de uma batida forte e vermelha. Um golpe limpo que não serviu para matar, mas para marcar. Uma cicatriz gravada a fogo que ficaria ali para sempre.
E então, a fala de Lo’ak se fez presente na minha mente, me tirando do torpor: “ Venha aqui ver algo”
Meu coração disparou de ansiedade dessa vez. Ele me veria. Veria a aberração que sou. E eu nem sabia porque me deixava tão angustiado com o fato de ele me ver, quando eu nunca me importei com isso quando se tratava de outros.
Quando vi de soslaio um vulto azul passando pelas copas no alto, fiz uma loucura: abri meus braços e me joguei na mata selvagem abaixo de mim sem ver, apenas confiando em meu instinto, esperando a queda brusca.
Me agarrei num cipó e balancei até me esconder na sombra de uma árvore-mãe, grande e grossa, que me permitiria a visão deles lá de cima sem ser visto.
Lo’ak estava na beirada do tronco, me procurando com olhos de águia, enquanto o outro Na’vi estava ao seu lado. Não consegui observar sua forma ao todo de imediato, mas o porte maior e esguio denunciava que ele era o mais velho dali.
Eles começaram a falar e logo a discutir, enquanto o mais velho dava as costas e subia nos troncos novamente.
Prendi o ar nos pulmões até meu peito arder. Eu era uma sombra entre as raízes, imóvel como uma pedra, enquanto lá em cima a luz do sol batia neles como se fossem divindades.
— Tinha um Na’vi aqui comigo, te juro, mano! — A voz de Lo’ak ecoou, frustrada. — Ele era diferente…. Meio esverdeado.
— Não tem nada aqui, Lo’ak. Só macacos e vento. O pai disse para não nos afastarmos do perímetro — respondeu o mais velho. A voz dele era firme, controlada. Voz de quem nunca teve que roubar comida ou dormir na chuva.
Foi quando ele parou e se virou, olhando para baixo, direto para a escuridão onde eu estava.
Pela primeira vez, vi seu rosto com clareza. As tranças eram perfeitas, a pintura de guerra Omaticaya amarela brilhava em seu peito, e a postura... ele tinha a postura de um príncipe.
Neteyam. O filho de ouro, eu escutava os rumores aqui e alí, informação era sobrevivência.
Ele estreitou os olhos âmbar, varrendo a folhagem. Por um segundo aterrorizante, senti um arrepio na base da minha cauda, uma sensação elétrica, como se ele pudesse sentir meu cheiro ou ouvir as batidas frenéticas do meu coração.
Eywa , ele era lindo.E perigoso.
Eu aperto os dedos na cascata da árvore, cravando as unhas. Vá embora, implorei mentalmente. Não olhe para a aberração.
— Vamos — tentativa Neteyam, por fim, quebrando o contato visual que nem sabia que tinha feito. — Antes que a mãe inicie nossas orelhas.
Assim que eles sumiram entre as folhas, soltei o ar num silvo trêmulo. Minhas pernas fraquejaram.
Eu tinha sobrevivido aos Thanators e aos Viperwolves , mas aquele olhar... aquele quase olhar me desmontou.
