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Aquilo Que Permanece

Summary:

Sanji cozinha.
Arai observa.

E, entre gestos pequenos e silêncios longos, eles escolhem ficar.

Chapter 1: Por quê

Chapter Text

Entrar no navio dos piratas do Chapéu de Palha é como… qual é o nome daquele sentimento que deixa uma pessoa atônita? Certo, seria como estar chocada. O cheiro do mar era forte, irritando meu nariz. Franzo a testa.

O navio parece ter movimento próprio, como se respirasse com as pessoas nele. Usopp contava uma história sobre um dragão… dragões existem mesmo? Talvez eu pergunte mais tarde. Luffy corria pelo convés, pulando como se cada passo fosse um desafio, e alguém gritava atrás dele — provavelmente um aviso que ele ignorou.

Caos, mas organizado. Seria isso uma festa? Talvez. Quase dou um pulo quando Sanji aparece na minha frente, os olhos em forma de corações. Abaixo o olhar para os biscoitos. Não é fome que sinto, mas… atenção? Cuidado? Volto a encarar Sanji, tentando entender.

— Arai-swan, fiz para você deliciosos biscoitos de manteiga. Por favor, pegue — aproxima de mim o prato. O cheiro era diferente.

Doce.

— Desculpe, Sanji. Eu não preciso comer.

Não é raiva, nem desapontamento. Ele não precisa entender, mas ainda assim tenta me alcançar. Talvez isso seja… humano. Ele contrai o rosto, talvez fingindo decepção, mas o sorriso que volta é genuíno. Quase como se dissesse: “Tudo bem, vou me ajustar a você.”

— Se não estiver com fome, posso deixar aqui ao seu lado. Para comer depois!

— Meu sistema digestivo está desativado. Comer não é possível, Sanji.

Um rastro de preocupação passa por ele. Mas tenta disfarçar com um sorriso quase… mecânico.

— Mas isso é porque nunca experimentou nenhum prato meu, senhorita Arai. Uma moça bonita precisa comer. — Fingido. Ele está fingindo algo nesse tom.

— Receio não ser possível. Não sei se meu corpo pode digerir, seria perigoso tentar. Mas se quiser…

Sanji me interrompe sacudindo a cabeça, parecendo arrependido de ter insistido.

— Desculpe, senhorita Arai. Por favor, não tente nada perigoso.

Assinto com a cabeça. Ele recua, voltando-se para as outras mulheres e oferecendo os biscoitos — com aquele sorriso estranho. Chegava quase aos olhos. Como o corpo dele conseguia? Estranho. Ele é um robô?

Me aproximo de Robin, que está sentada lendo e comendo alguns dos biscoitos que Sanji lhe deu. Sento ao seu lado, encarando-a. Ela percebe minha presença, afasta o livro e me olha com um rosto gentil. Muito gentil.

— Por que pessoas fingem sorrisos?

— Por que você se incomoda com esses sorrisos?

É injusto rebater uma pergunta com outra. Assim como é injusto sorrir sem querer sorrir.

Franzo a testa.

— Porque gosto da verdade.

— Se a pessoa sorri para você, sorria de volta.

— Mas se eu não quiser?

— Pense como seria triste sorrir para alguém e a pessoa não sorrir de volta.

Se eu tivesse sorrido de volta para ele, ele não teria ficado preocupado? Difícil. É difícil entender os sentimentos das outras pessoas. Nada disso estava nos livros que li. O que as pessoas esperam que eu faça?

Robin toca meu braço, gentil, com uma expressão calma.

— Não pense muito sobre o porquê. Só faça o que quer, Arai.

Isso era ser humano?

O ser humano é um conjunto de sistemas.
Juntos, trazem percepções, sentimentos, ações.
Cada um com sua particularidade.
Como um código gerado e melhorado a cada momento.
Até um animal, com treinamento, aprende.
Ser humano é a capacidade de aprender e compreender.

Robin chama minha atenção novamente, tocando minha mão e apontando para Chopper, que está sentado lendo um livro de medicina. Parece concentrado. Aprendendo.

— Acho que Chopper pode te responder um pouco, querida.

Assinto com a cabeça. Me aproximo de Chopper, sentando ao lado dele no banco. Observo o livro que ele lê. Algo sobre o sistema nervoso central. Ele sabe que estou olhando, mas não fala nada.

— Um sentimento é uma sinapse entre os neurônios. Então por que conseguimos fingir um sentimento que não estamos sentindo?

Ele para por um momento a leitura e me encara.

Chopper é fofo.
Como diriam: macio e fofo.

— O que está sentindo agora?

— Eu diria curiosidade e confusão.

Talvez até mesmo um pouco de raiva. Por que nada estava em um livro?

— Se eu te falasse que estou triste por você estar confusa, você iria sorrir para mim? Para me confortar.

— Sim, mas você saberia que é algo que estou fingindo.

— Mesmo assim me confortaria.

Como se fosse simples assim.

— Por que fazemos essas coisas por outras pessoas? Por que não fazemos as coisas por nós mesmos?

— Porque você se importa. Se importa comigo.

Deveria sorrir agora?

Sorrio para Chopper.

— Me conte um pouco do seu livro, então, Doutor Chopper.