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O circo era um lugar entediante por si próprio. As aventuras com morte, sangue e explosão até ajudavam a se distrair. Alguma coisa divertida pelo menos. Mas era tão raro e cada vez mais parecia que a vida ali dentro era uma repetição de padrões. Mesmas aventuras com rostos diferentes. Mesmas simulações de emoções banais.
E tudo andava emotivo demais por ali nos últimos dias. Todos cansados, se arrastando pelos cantos, murmurando sozinhos de um lado para o outro, praguejando aquela existência, repudiando a maldição. Eu tinha para mim que a culpa era de Pomni. E aparentemente ela também. Andava pra cima e pra baixo aos suspiros, em uma autocomiseração insuportável, irritadiça com as aventuras, agressiva com os NPCs (essa parte era engraçada na verdade), fazendo muxox de tudo o que podia.
Não que eu me importasse. Ela só estava chata demais, então nada mais justo do que gastar o meu tempo deixando ela menos chata.
Aquele dia tinha sido um pouco intenso, talvez. Ela fico presa por uma corda do lado de fora de um submarino na aventura subaquática, afinal. Digo, foi engraçado, mas assim que chegamos de volta ao circo, ela tremia de frio e exaustão de uma forma que me incomodou mais do que se ela chegasse chorando de raiva. E depois disso, passou o dia sozinha no sofá, avulsa do mundo, entregando respostas curtas e programadas a quem viesse perguntar, balançando os pés, que mal tocavam o chão.
Foi quando eu cansei e me sentei ao lado dela. Um pouco perto demais, sabendo que ia incomodá-la. Mesmo assim, ela não saiu do lugar.
— Caramba, você tá com uma cara péssima — eu comecei, exagerando no tom de voz sacana e as expressões, como se vê-la daquele jeito realmente fosse engraçado — Já pensou em passar um hidratante nessa carinha feia?
Ela olhou para mim com rosto de desgosto apenas para voltar a olhar para a frente.
— Olha aqui uma coisa — segurei o rosto dela com a mão e a fiz prestar atenção em mim.
Fiz um truque simples. Peguei dois palitos de dente de dentro do bolso, então os segurei com as pontas dos dedos, batendo um contra o outro.
— Duvida eu passar um palito para trás do outro sem quebrar nenhum deles?
Ela ergueu a sobrancelha e eu soube que já tinha a sua atenção. Esfreguei o palito um no outro, fingindo que aquilo aplicava alguma magia no truque, então aproximei um do outro rápido o suficiente para que ela não visse um dos palitos soltar da ponta de um dos dedos e eu passasse um por trás do outro.
— Tcharam!
Ela soltou ar pelo nariz. Foi uma boa reação a julgar pelo estado em que ela estava. Finalizei jogando os dois palitos em cima dela, fazendo ela voltar a ficar séria e eu tive que rir.
— Mas vai, tá fazendo o quê? — me inclinei com a minha cabeça para cima dela, que era tão baixinha que a gente nem se encostou.
Ela revirou os olhos e cruzou os braços, se jogando um pouco mais para trás nos sofá, se afundando um pouco.
— Nossa, como você é chaaata — prolonguei a vogal — Se entregando ao tédio dessa forma eu vou até acreditar que você não tem senso de humor.
Segurei em cada ponta do seu chapéu brinquei com ele, o esticando e bagunçando.
— Cara, o que você quer? — ela perguntou irritada, como se brigasse comigo.
— Ish, você tá tensa mesmo — eu ri — Eu acho que eu sei do que você precisa, mas aí você vai ter que me seguir.
Eu tinha certeza de que meu sorriso não era nada convidativo, mas, mesmo assim, ela suspirou e levantou. Fomos os dois, então, desbravando corredores que eu tinha certeza de que ela nunca antes tinha visto. Vê-la tentar memorizar o caminho de volta foi divertido, tinha certo receio nos seus olhos.
— A gente tá quase chegando.
— Aham — ela forçou um sorrisinho.
Quando chegamos, abri a porta para uma espécie de sala de cinema. Ela era pequena, um cineminha particular, com apenas 6 pares de poltrona, 3 de cada lado da sala. Uma micro sala de projeção se mantinha fechada e, lá na frente, uma tela de uns quatro metros de comprimento estava pendurada na parede negra.
— Mas o que… desde quando a gente tem um cinema? Por que ninguém me trouxe aqui antes?
Me joguei em uma das poltronas, tentando relaxar e sentir o cheiro de sala fechada, mofo e manteiga envelhecida.
— Ninguém vem aqui há tempos. Não tem muito o que assistir e depois de anos com os mesmos seis filmes. Uma hora enjoa. E, quando você enjoa, esquece.
Percebi o quanto comecei a soar sério quando a vi pensa tiva demais, então só continuei:
— Mas, enfim, vai ali na sala de projeção e escolhe um filme. É só enfiar a fita no repordutor.
— Mentira! — ela riu ao abrir a porta de vidro — São fitas cassete mesmo. Tem filme recente em fita cassete aqui, Jax!
— Caramba, uma entusiasta da tecnologia ultrapassada, que lindo de ver.
— Ai, cala a boca.
Ela estava sorrindo.
E quem deixou de sorrir fui eu quando me mostrou a caixa de Uma Cilada Para Roger Rabbit.
— Ah não, não, escolhe outra coisa.
— Ah, vai, eu adorava isso aqui quando era mais nova — ela voltou para a saleta de projeção com o ânimo de uma menininha e gritou de lá de dentro: — Faz muito tempo que eu não assisto.
— Podia ficar mais um tempo sem assistir!
— Jax… — ela reclamou, pondo só a cabeça para fora da porta de vidro, me fazendo revirar os olhos, suspirar, murmurar e…
— Tá, coloca.
— Yes! — ela bateu uma única palma e pôs a fita no aparelho.
Quando eu era mais novo achava aquele filme uma palhaçada. A única coisa que o salvava era Jessica… e olhe lá. Continuei achando isso para o resto da minha vida, mas vê-la dar risinhos droixos por causa daquela palhaçada… enfim. Não parei de reclamar o filme inteiro, apontando defeitos e constatando que Caim deveria fazer uma NPC igual a Jessica, afinal eu era um coelho querendo ou não. Bem, isso me rendeu um soco fraco no braço e mais uma risada. Infelizmente descobri que adorava fazê-la rir.
— Sabe, eu sinto falta de ir ao cinema. Mesmo antes de vir parar aqui, fazia tempo que eu não entrava em um — ela olhou para a poltrona vazia ao lado dela, respirando fundo — Sabe, eu mataria por pipoca com manteiga agora.
Eu ri.
— Bem, que pena que não vai precisar matar ninguém — e apontei para uma pipoqueira meio ofuscada em um recuou na parede.
— Não! — ela levantou em um salto e foi direto mexer na máquina.— Espera aí, vai acabar fazendo besteira…
— Não enche — ela tentou me impedir de me aproximar com a própria mão e isso me fez rir só de ter que olhar para baixo para conseguir enxergá-la.
— A máquina é antiga, a Ragatha estragou ela da última vez.
— Sei… sabe, tenho suspeitas de que não foi culpa da Ragatha — em um click, ela ligou a máquina — Ha!
— Garota, me dá isso aqui — eu tentei pegar o dosador de milho das mãos dela, mas Pom o protegeu, o agarrando contra o próprio corpo — Ah, para, você não tá sendo muito madura agora.
— Quem tá enchendo o saco é você… Ei! — ela gritou quando eu a ergui do chão em uma espécie de abraço.
Ela estava de costas para mim, então as pernas ficaram livres para longe de alguma possível lesão que ela quisesse me causar. Apesar de ela tentar se soltar, ela ainda ria, protegendo aquele medidor para eu não pegar da mão dela.
— Tá, tá, se acalma — eu a coloquei no chão, menos ofegante que ela, com certeza.
Me agachei do seu lado, porém, e continuei com os braços ao redor do seu pescoço.
— Vai, quero ver se você sabe quanto de pipoca colocar aí.
— Eu sei fazer pipoca.
— Tá, faz aí.
Ela não sabia fazer pipoca. Não em uma máquina. Pôs pouco sal e eu tive que apertar a bochecha dela té que pusesse mais. Pôs muita manteiga e eu ainda tive que ouvir que era melhor assim. E ainda pôs milho demais, mesmo eu ainda tentando pegar o negócio da mão dela. Ligeira, era se esquivou dos meus braços e colocou o tanto de milho que conseguiu. A verdade é que eu deixei ela se livrar de mim, ela não tinha uma chance se eu quisesse tirar aquilo da mão dela de verdade.
Ficamos uns segundos esperando a pipoca saltar lá dentro. O filme ainda rodava lá na frente, fazendo pelo menos a gente ter o que escutar enquanto nada estourava… até que não parou mais de estourar. A máquina não parou de jorrar pipoca. Enchemos saquinho atrás de saquinho e ainda tinha pipoca caída no chão. Ela enchia um e me entregava, e assim fomos produzindo saquinhos como uma fábrica taylorista. Foram uns quinze saquinhos daquele até a máquina parar.
— Feliz?
Ela revirou os olhos, mas sorria ofegante, o que validava a minha pergunta. Não dava para saber se ela queria me matar ou se estava entretida. De qualquer forma, ela estava radiante de suor e cansaço. Pegou um saquinho e foi se sentar outra vez. Eu peguei dois e a segui. Devemos ter perdido meia hora só nisso.
— Sabe que era só desligar a máquina quando tivesse terminado a quantidade certa, né? — eu perguntei casualmente, como se não fosse nada e olhar que ela me dirigiu foi impagável.
— Jax! — eu adorei ouvi-la me chamar com aquela raiva toda — Por que você não falou isso antes? Tem quinze pacotes de pipoca cheios ali atrás!
— Ué, você não queria minha ajuda — ergui os ombros e sorri de canto de boca.
Então ela jogou pipoca de um dos meus saquinhos em mim, o que me deu a oportunidade perfeita para me inclinar para trás, completamente mole na poltrona, me fingindo de morto. Ela riu de novo.
— Cara, você tem problema.
E, olhando nos olhos dela, eu soube que realmente tinha um problema.
O resto do filme foi… chato. E talvez eu ousasse dizer que ela sentiu o mesmo pelo jeito que seus olhos piscavam cada vez mais lentos e pesados. Ela ter passado pelo estresse de ser arrastada por quilômetros na profundidade do oceano era apenas um detalhe e depois ter guerreado comigo prla pipoca eram apenas detalhes, claro, o filme que era entediante.
Quase senti sono também. Ela parecia mais confortável, encolhida na própria poltrona, um pouco pendida para o outro lado. Quando percebi o quão serena ela estava, tive que evitar um sorriso e chacoalhar aquilo da minha mente. Coisa idiota. Nada daquilo era por ela.
Quando o filme finalmente terminou, me espreguicei com um pouco de escândalo proposital, a fazendo olhar para mim. Ela sorria por sorrir, exalando algo que me fez acreditar que, se eu encostasse nela naquele exato momento, sua pele estaria inteira morna.
— Foi uma porcaria? — ela perguntou.— Com certeza, uma das piores — eu brinquei.
Segundos de silêncio macio depois, ela continuou:
— Quer fazer mais vezes depois?
Revirei os olhos, mas a olhei nos olhos. Não importava o filme que ela escolhesse, eu o odiaria, todos eram detestáveis e todos eu já havia assistido várias vezes.
— É, seria bom.
