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A neve caia copiosamente, deixando um manto branco e fofo pelos terrenos de Hogwarts. Estava uma noite fria de inverno e minúsculas estrelas pontilhavam o céu escuro. O castelo estava silencioso, os estudantes descansando em suas camas, depois de mais um dia de estudos e brincadeiras.
Severus era dos poucos que ainda estava acordado, aproveitando aqueles momentos sozinho para adiantar suas pesquisas. Fechou a porta da sala de Poções e a trancou com um feitiço. Era um dos privilégios de ser o melhor na arte de Poções, tinha passe livre para andar pelas masmorras até mais tarde.
Avançou pelos corredores sombrios, saindo das masmorras. Reparou como já estava tarde, a iluminação estava no mínimo, mas tinha fome. Tinha saltado, mais uma vez, o jantar. Madame Pomfrey já lhe tinha dado um sermão por se esquecer de comer com tanta frequência, mas ele ficava focado em seus estudos, que se esquecia.
A cozinha estava localizado diretamente sob o Salão Principal, descendo a escadaria que levava ao Porão da Lufa-Lufa.
No corredor do lado de fora, podia-se encontrar uma pintura com uma taça de frutas e uma das frutas era uma pêra.
Severus fez cócegas na pêra, que se contorceu, riu, e depois se transformou em uma maçaneta verde, revelando a porta.
Entrou e foi recebido alegremente pelos elfos domésticos, que lhe perguntaram:
— Que deseja hoje, Sr. Snape?
— Temos doces deliciosos. — Comentou um elfo, todo enrugado, lhe estendendo um prato com biscoitos de gengibre. Severus negou com a cabeça. Só queria jantar e relaxar antes de dormir.
— Só quero um pouco de comida. — Respondeu ele, se sentando em uma mesa, no meio da cozinha — Não jantei e tenho fome.
— Com certeza, senhor. — Respondeu o elfo enrugado, estalando os dedos e fazendo aparecer um prato com um pouco de peixe grelhado com ervilhas e arroz. Severus sentiu água na boca com o bom aspeto da comida.
Se sentou na mesa e comeu com entusiasmo. Estava esfomeado e o jantar estava uma delícia. Observou os elfos com seus afazeres. Sentia uma certa pena deles, recebendo ordens, muitos deles brutalizados por seus amos, não se podendo defender.
Depois de terminar de comer, os elfos lhe ofereceram um cheesecake, mas recusou. Seu estômago não estava habituado a doces. Agradeceu pela amabilidade e saiu da cozinha. Passeou pelos corredores em direção à Torre de Astronomia, a mais alta do castelo. Queria ver as estrelas.
Escapou, por pouco, de Peeves, que estava pintando obscenidades com tinta preta em uma parede. Em pouco tempo, chegou à Torre de Astronomia e respirou fundo, de alívio. Aquele Poltergeist amava encrencas.
Se sentou no chão, a capa o protegendo do frio. Olhou para o céu estrelado e se permitiu sorrir. Era naqueles momentos que deixava cair sua máscara de indiferença e frieza.
Depois do rompimento de sua amizade com Lily, maioritariamente por sua causa - desde suas discussões sobre os Comensais, até tê-la chamado de sangue ruim - que não confiava em mais ninguém. Alguém poderia usar suas emoções contra ele e fazê-lo sofrer. Seus colegas de casa eram os únicos que conversavam com ele, e era sempre para o convencerem de entrar no círculo dos Comensais. Mas ele não queria, mas não podia recusar. Sua única opção era adiar o mais que podia esse momento.
Relaxou durante algum tempo, aproveitando o silêncio da noite. Escutou um som abafado atrás de si e se virou, vendo a cabeleira preta e despenteada de James Potter surgindo em seu campo de visão.
Com o coração aos pulos, se ergueu de um salto e, com uma rapidez surpreendente, agarrou sua varinha e perguntou, rispidamente:
— Que você está fazendo aqui, Potter? — A expressão de James mostrava surpresa, não contava vê-lo ali. Pensava em ficar um pouco sozinho, para por suas ideias em ordem. Sua mente e coração estavam em conflito. E a razão de toda a confusão estava à sua frente.
Admirou a pele pálida, os cabelos negros emoldurando o rosto tenso. Não querendo assustar seu colega, levantou as mãos em forma de rendição, e comentou:
— Vim só dar um passeio. — Severus franziu o sobrolho — Não sabia que você estava aqui.
Ficaram em silêncio por uns instantes, seus corações batendo - sem saberem - em sintonia. James sentia suas mãos tremendo de nervosismo e escondeu-as dentro dos bolsos das calças. Severus arrumou seus cabelos e desviou o olhar, dizendo:
— Se quiser, pode ficar aqui. — Avançou em direção à porta — Eu posso ir embora.
Passou por James, mas sentiu seu braço sendo agarrado com delicadeza e a voz rouca de James falando em seu ouvido:
— Por favor, — os pelos por trás de sua nuca se eriçaram e seu coração falhou uma batida. Seu corpo estremeceu com o toque suave, mas firme — Não vá por minha causa.
Se olharam nos olhos e, por momentos, pareceu que o tempo parou. Os olhos cor de avelã brilhavam intensamente e Severus sentiu seu rosto enrubescer. Se não soubesse, pensaria que Potter estava apaixonado por ele.
James, sentindo que talvez tivesse ido longe demais, largou-o com relutância e pediu:
— Me desculpe. — Severus massageou, pensativamente, seu braço — Não queria machucá-lo.
— Você não me machucou. — Respondeu, tentando não revelar seu nervosismo com sua aproximação. Não gostava de admitir, mas suas emoções ficavam alteradas sempre que ficava perto de Potter. James pigarreou e falou:
— Você não precisa de ir. A torre de Astronomia é suficientemente grande para os dois. Se você não se importar, gostaria de sua companhia. — Severus franziu o sobrolho. Potter já não o importunava, não o encurralada pelos corredores nem tentava sabotar suas Poções.
Se bem que era Black que o fazia com mais frequência, mas não confiava nele o suficiente para ficarem os dois sozinhos —Juro que não farei nada com você. — Continuou James, vendo sua hesitação. Severus acenou, relutante e, sem largar a varinha, entrou na Torre. James o seguiu, removeu sua capa e a estendeu no chão, mesmo a seu lado.
Com um gesto, o convidou a se sentar a seu lado, mas Severus com um gesto e se aproximou do parapeito da janela.
Ficaram observando, em um confortável silêncio, o céu estrelado.
— Eu gostaria de pedir perdão a você por todo o mal que lhe causei. — A voz de James interrompeu o silêncio e Severus sentiu seu corpo se retesar, memórias ruins o invadindo — Sei que fui um idiota, mas tenho ciúmes.
Severus se virou para ele e reclamou:
— Ciúmes? De mim? Que absurdo, Potter.
— James hesitou, mas continuou:
— Tinha ciúmes de todos que estavam a seu lado. — Admitiu — Eu só queria que você me desse atenção.
O coração de Severus acelerou com suas palavras, não sabendo como reagir.
— Você só precisava de me ter dado sua amizade. — Revelou, cauteloso — Eu estava entrando em um mundo novo e diferente. Só precisava de apoio e de um ombro amigo. E você fez de tudo para que minha estadia no mundo bruxo fosse um inferno! — Acusou, com tristeza, e James baixou a cabeça, envergonhado. Tinha feito tudo errado e Severus não o perdoaria.
— Sei que fui um idiota. — Admitiu — Eu só queria que você me notasse.
Severus suspirou, pensou um pouco e comentou:
— Talvez a gente possa começar do zero.
— James olhou para ele, esperançoso — Não iremos apagar tudo o que foi feito no passado, mas podemos tentar nos dar melhor.
James sorriu, emocionado, estendeu a mão e se apresentou:
— Boa noite, sou James Potter, tenho dezessete anos e gostaria de fazer amizade com você. Aceita? — Severus deixou escapar um sorriso, tenho dezessete anos e aceito sua amizade. Ou algo mais. — Arriscou e os olhos cor de avelã brilharam com suas palavras.
Não sabiam o que iria acontecer no futuro, mas iriam tentar. Uma amizade, um companheirismo, não importava. O que importava é que não iriam desistir.
Continua...
