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EDIÇÃO ESPECIAL — CINCO ANOS DEPOIS
O que sobrou da guerra… e o que mudou desde então
Por Seraphina Lockwood
Cinco anos se passaram desde o fim oficial da Segunda Guerra Bruxa.
Tempo suficiente para reconstruir prédios, reorganizar departamentos e fingir, com algum sucesso, que o pior ficou para trás. Também tempo suficiente para perceber que as consequências de uma guerra não desaparecem de uma hora para outra — elas apenas aprendem a ocupar menos espaço nas conversas públicas.
Nos meses seguintes à queda do Lorde das Trevas, o mundo mágico tentou voltar à normalidade. Nem sempre conseguiu. Ataques isolados continuaram a ocorrer, especialmente contra trouxas e nascidos trouxas, enquanto antigos Comensais da Morte desapareceram do radar sem explicações muito convincentes.
“Eles não sumiram”, comentou um funcionário do Ministério que pediu para não ser identificado. “Só ficaram mais discretos.”
Sem uma liderança central, pequenos grupos extremistas passaram a agir por conta própria, aproveitando um cenário bastante conveniente: uma sociedade cansada, ainda de luto, e pouco disposta a lidar com problemas complexos. Discursos antigos, que muitos acreditavam enterrados com a guerra, voltaram a circular com surpreendente naturalidade — principalmente entre famílias tradicionais que nunca esconderam completamente suas opiniões.
Enquanto isso, o mundo trouxa também não colaborava com boas notícias. Conflitos internacionais, crises econômicas e desastres ambientais dominaram os jornais não-mágicos, reforçando a sensação de que o caos era, infelizmente, um esforço conjunto.
Foi nesse clima que o impensável começou a ser planejado — e, eventualmente, colocado na prática.
Reuniões discretas entre líderes mágicos e representantes do alto escalão trouxa abriram caminho para uma flexibilização inédita do Estatuto do Sigilo. O segredo do mundo mágico não foi abandonado, mas deixou de ser absoluto.
No Reino Unido, sob a liderança do Ministro da Magia Kingsley Shacklebolt, essa mudança tomou forma concreta com a criação da Unidade Mista de Investigações Especiais , a MSIU. O programa, hoje em funcionamento completo, uniu aurores e policiais trouxas para investigar crimes que simplesmente não respeitavam as fronteiras entre os dois mundos.
Bruxos e não-mágicos trabalhando juntos — algo que, até pouco tempo atrás, parecia impensável.
A reação inicial foi, previsivelmente, caótica. Protestos, editoriais inflamados e cartas indignadas inundaram o Ministério. Muitos temiam pela exposição do mundo mágico; outros, pela perda de controle. Ainda assim, cinco anos depois do fim da guerra, poucos negam que ignorar o problema deixou de ser uma opção viável.
Para minimizar riscos e acalmar a população bruxa, o Ministério estabeleceu critérios rigorosos. Apenas agentes trouxas altamente treinados, recomendados e submetidos a acordos severos de sigilo passaram a integrar o programa. Antes de qualquer atuação, todos completam seis meses de imersão no mundo mágico — o EWM Training: Magic World Immersion.
Segundo relatórios oficiais, a MSIU já solucionou dezenas de casos que antes ficariam presos em lacunas burocráticas entre jurisdições. Críticos, no entanto, apontam para tensões internas, diferenças culturais e uma convivência longe de ser harmoniosa.
“No papel, é uma ideia brilhante”, comentou um membro anônimo do Wizengamot. “Na prática… é um experimento em andamento.”
Cinco anos depois da guerra, o mundo mágico segue tentando se redefinir. Nem tudo foi concertado. Nem todos os ferimentos cicatrizaram. Mas, pela primeira vez em séculos, há uma tentativa real de enfrentar problemas que antes eram conscientemente ignorados.
Se isso será suficiente, ainda é cedo para dizer.
No entanto, como a própria história já provou mais de uma vez, o mundo bruxo é excelente em sobreviver.
Aprender com o passado, no entanto… essa sempre foi a parte mais complicada.

REGISTRO DE ATIVO OPERACIONAL: MSIU-09
ARQUIVO: #2908-JT
NOME: Turner, Jake
RANK: Senior Detective Sergeant (SDS) (Ex-MI6 / Operações Especiais)
IDADE: 30 anos
STATUS: Ativo – Destacado para a Unidade de Investigação de Casos Incomuns (MSIU).
NÍVEL DE ACESSO: [RESTRITO - ULTRA]
Desde que entrou na MSIU Jake Turner aprendeu duas coisas:
1. Magia existe.
2. Isso nunca vai parecer normal.
Em um domingo, ele estava num encontro arranjado pela mãe — porque, segundo ela, se ele continuasse solteiro e não a desse netos logo ela morreria de desgosto — sofrendo enquanto o Newcastle levava uma surra em campo. No outro? Estava na beira de um estádio de Quadribol, investigando um homicídio, enquanto um bando de malucos voava atrás de uma bolinha alada em cima de vassouras.
Completamente plausível.
Ninguém ali achava aquilo estranho. Jake achava. Jake achava muito.
Ele tentou ser profissional. Cena do crime é cena do crime, certo? Errado. É difícil manter a postura quando alguém soltava, com total seriedade: “O pomo de ouro tava perto”, ou “É uma vassoura longa, firme, ergue rápido… e encaixava perfeitamente na mão”. E esperava que ele lidasse com isso numa boa.
Spoiler: Ele não lidava.
E já tinha aceitado que isso nunca aconteceria.
Algumas coisas a gente aprende. Outras, a gente só registra, arquiva na mente e segue em frente. O mundo mágico definitivamente era do segundo tipo.
Mas o que mais irritava Jake não eram objetos flutuando ou a física sendo chutada para escanteio, nem bruxos tratando varinhas como extensão do corpo. Era outra coisa.
Era a incompetência brutal dos Aurores com quem ele tinha que trabalhar.
Bruxos não seguiam pistas. Eles não organizavam pastas. Eles simplesmente balançavam um pedaço de madeira, murmuravam algo em latim mal falado e esperavam que a solução caísse do céu. Para alguém treinado em padrões e evidências, trabalhar com a comunidade mágica era como tentar montar um quebra-cabeça com alguém que insiste em comer as peças.
E então, tinha o seu parceiro.
Irving Rowle. Um idiota de marca maior, confiante demais e com a capacidade de concentração de um peixinho dourado.
“Sabe, Jay, semana que vem vou levar a Suzi naquele boate nova perto do Caldeirão Furado,” Rowle falou, pisando perigosamente perto de uma mancha no carpete.
Jake teve que puxá-lo pelo braço antes que contaminasse tudo.
“A boate é cheia daquelas coisas trouxas que piscam sem parar,” continuou Rowle, animado, dando um soquinho no braço de Jake e quase derrubando um frasco de vidro apoiado na cabeceira da vítima. “Bora um encontro duplo, hein? Você leva aquela sua loira gostosa.”
Jake fechou os olhos por um segundo.
Maldita hora em que tinha mencionado Jane.
“Claro,” respondeu, já se agachando para examinar o frasco vazio. “Só vou precisar violar o Estatuto de Sigilo, ser demitido e talvez levar uma lavagem cerebral do Ministério. Mas tirando isso, um plano brilhante, Rowle.”
A vítima da vez foi Justin Appleby. Um não-mágico morto em seu próprio apartamento em Londres. Sem sinais de arrombamento — o que, com bruxos envolvidos, teve o total de zero informações. O chão estava forrado de frascos vazios. Que, baseado no resquício de cheiro, eram diferentes poções.
O problema? O Departamento de Aurores tinha o orçamento de uma barraca de limonada para perícia técnica, então descobrir o que todas aquelas poções juntas faziam, seria um pouco complicado.
”Ah, é… eu sempre esqueço que você é… hum… você sabe,” Rowle gesticulou com as mãos, parecendo um mímico tendo um derrame. "Já que você é todo investigador fodão e tudo mais."
Jake o ignorou. Ele estava focado na mancha amarela-bile dentro de um dos frascos.
"Notícias de Slughorn?" Jake pergunta sem muito otimismo.
"Nada há semanas" Rowle diz com um bufo de desgosto. O velho mestre em poções é um sujeito esquivo e não gostava de se envolver com algo tão pouco político e neutro como uma investigação criminal.
"Onde a gente arruma um mestre em poções?" Jake disse, a contragosto. “A menos que você tenha desenvolvido um cérebro nos últimos cinco minutos e saiba identificar isso aqui.”
Rowle soltou uma risadinha, já completamente acostumado ao comentário passivo-agressivo do colega, e se apoiou em uma estante, quase derrubando uma fileira de livros.
"Oh, não. De jeito nenhum. Poções era minha pior matéria. Tinha um cara na minha turma que era terrível, vivia explodindo os caldeirões e..."
Jake estalou os dedos na cara dele, cortando o flashback.
"Foco, Auror . Onde a gente acha alguém que presta para analisar isso?"
Rowle hesitou, fazendo uma careta como se estivesse tentando resolver uma descoberta complexa.
”Bem... não existem tantos Mestres em Poções sobrando no Reino Unido”, começou ele, torcendo a boca. Seria pedir demais que houvesse um departamento especializado em poções, não é? "Mas podemos ver em Hogwarts. O Professor Snape, com quem eu tive aula era péssimo, mas ele está em prisão domiciliar, então ele não trabalha mais lá. Ainda bem! De qualquer forma, Hogwarts deve ter alguém."
O nome era familiar, Jack já ouvia conversas no departamento sobre a escola. Aparentemente a única escola mágica de todo o Reino Unido — o que é um absurdo por si só.
”E, bem…” Rowle abriu um sorriso de quem não vale nada e deu uma risadinha. "Pelo que eu ouvi, a atual professora é uma mulher. Dizem que a comissão da frente , se é que me entende, é de cair o queixo. Conferir os boatos ao vivo seria, no mínimo, um serviço de utilidade pública."
Jake revirou os olhos com tanta força que por um segundo achou que veria o próprio cérebro. A careta de desgosto foi realizada.
"Tanto faz, Rowle. Só manda uma carta ou faz aquela coisa brilhante com a varinha que vocês fazem, eu não me importo," Jake disparou, limpando as mãos na calça do uniforme e marchando em direção à porta. “Vamos falar com essa professora e acabar logo com isso.”
Rowle saiu tropeçando atrás dele e, fiel ao seu estilo, conseguiu derrubar um porta-retratos no caminho. O barulho de vidro quebrado ecoou no apartamento, mas Jake nem se deu ao trabalho de olhar para trás.
”Mensagens por Patrono são consideradas informais demais, só para emergências, sabia, Jake?” Rowle reclamou, recuperando o fôlego ao alcançá-lo no corredor. "Vou enviar uma coruja para a Diretora McGonagall solicitando uma audiência. Nada de informalidade com a velha guarda."
Nos dois anos desde que Jake Turner resolveu jogar no lixo um cargo perfeitamente decente no MI6 por uma proposta de emprego que cheirava a golpe desde o primeiro aperto de mão — compensado, claro, por um salário obscenamente alto — ele aprendeu duas verdades fundamentais: fadas são criaturas hostis e a física é apenas uma sugestão de rodapé.
Para seu infinito desgosto, Jake descobriu que as histórias idiotas da infância não eram metáforas, nem exageros culturais. Eram relatórios mal escritos. Desde então, adotou uma política pessoal e inegociável de tolerância zero para turismo mágico. Se o lugar exigia varinha ou um código de vestimenta medieval, ele preferia mastigar vidro a carimbar o passaporte.
Durante seu treinamento de seis meses de imersão no mundo mágico (um dos momentos mais traumatizantes de sua vida), alguém achou uma boa ideia entregar a ele um folheto chamado “Os Dez Destinos Imperdíveis da Europa Bruxa”. Jake leu o título, sentiu uma dor física atrás dos olhos e condenou o guia ao fundo de uma gaveta, onde ficaria até ser devorado por traças, mofo ou pelo colapso térmico do universo. Ele não queria “experiências”. Queria cumprir o protocolo, registrar horas e voltar para casa com um cérebro ainda funcional. Seu limite diário para o bizarro costumava ser ultrapassado no exato momento em que lembrava que existiam criaturas capazes de mastigá-lo vivo antes que ele pudesse terminar de gritar que aquilo violava umas quinze leis básicas da biologia.
E ainda tinham os supremacistas locais. “Sangue puro”, aquela merda de sempre. Magia fazia muitos milagres, menos consertar gente escrota. Algumas merdas, simplesmente não valiam o adicional de periculosidade.
Hogwarts, no entanto, era uma variável que ele ainda não tinha testado.
Em dois anos de MSIU, nenhum caso tinha sido catastrófico o suficiente para exigir que ele colocasse os pés naquela escola. Até agora.
Eles chegaram via flu no escritório da Diretora: um ambiente cheio de quadros vivos nas paredes — ele ainda precisava se acostumar com isso — e engenhocas de aparência exotérica que ficavam girando ou se mexendo de formas aparentemente aleatórias. Tinha uma ampulheta com as areias paradas em cima de uma mesa de madeira maciça, atrás da qual estava uma mulher idosa de coque alto e aparência severa com um óculos na ponta do nariz. As janelas ficavam altas e cercadas de quadros de diversos homens igualmente velhos, a maioria parecia rigorosa, mas havia alguns sorridentes no meio.
“É um prazer recebê-los em Hogwarts, Detetive. Auror.” A saudação veio de uma mulher de cabelos prateados, presos em um coque tão firme e aerodinâmico que Jake sentiu uma dor de cabeça por empatia só de olhar.
Jake inclinou a cabeça, tentando desesperadamente recuperar sua postura de "sou um profissional sério e nada me abala".
”Senhora.”
”Diretora!” Rowle, claro, brotou ao lado dele com o entusiasmo de um Golden Retriever. “A senhora está ótima! Rejuvenescendo a cada dia!”
A Diretora ergueu uma sobrancelha, medindo-o com um olhar que, se fosse um laser, teria desintegrado o pobre Rowle em segundos.
”Senhor Rowle, espero que seja mais pontual agora do que era nos seus tempos de estudante,” disse ela, arqueando uma sobrancelha, parecendo pouco impressionada. “E devo lembrá-lo de que bajulações nunca funcionaram comigo. Espero que o tempo não tenha atrofiado o pouco que lhe restava de memória.”
Rowle ficou da cor de um tomate maduro.
A diretora se levantou da cadeira com uma graça contida, quase discreta, mas impossível de ignorar. Apesar do comentário ácido, um sorriso leve surgiu em seus lábios, pequeno e controlado, acompanhado por um brilho atento no olhar, rápido demais para ser confundido com indulgência. Aquele breve lampejo suavizava as linhas ao redor de seus olhos e lhe dava uma aparência surpreendentemente jovem.
Ainda assim, algo levemente alarmante percorreu a nuca de Jack quando aqueles olhos castanhos capturaram sua atenção. Neles, assim como nos ombros retos e na postura firme da diretora, havia uma resiliência rara. Algo que ele só tinha visto poucas vezes antes.
Normalmente, em soldados sobreviventes de uma guerra.
“Sou a diretora da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Minerva McGonagall. E o senhor deve ser o agente Jake Turner, estou correta?”
Ela parou diante da mesa com as mãos cruzadas às costas, exalando uma autoridade tão ancestral e absoluta que Jake sentiu seu distintivo — aquele que ele polia com um orgulho quase patológico — parecer um brinde de plástico encontrado em um pacote de salgadinhos. De repente, a postura de Jake falhou. Ele se sentiu transportado de volta ao primeiro dia no centro de treinamento: um recruta de dezenove anos, desajeitado, usando um uniforme três tamanhos maior que sua massa muscular inexistente, murchando sob o olhar de veteranos que cheiravam a café barato e desprezo.
Que porra é essa?, ele pensou, lutando contra o desejo absurdo de pedir permissão para respirar. Ele era um agente federal, pelo amor de Deus, não um primeiranista prestes a levar uma detenção por correr nos corredores.
Engolindo em seco e tentando ignorar a súbita autoconsciência de seus próprios membros, Jack assentiu, endireitando os ombros e ignorando a breve rigidez que o movimento causou.
“Acredito que temos uma reunião marcada com a Srta. Clark,” Sua voz saiu em um barítono forçado, uma oitava mais grave do que o planejado, o que o fez soar, em sua própria cabeça, como um adolescente tentando comprar bebida com identidade falsa. Para recuperar o pouco de dignidade que lhe restava, ele desviou o foco e lançou um olhar mortal para o parceiro, “Isso se o Rowle não tiver confundido o horário.”
“Ei!” Rowle fez um biquinho ridículo.
“Não seria a primeira vez.” murmurou Jake, ainda sentindo que precisava retomar o controle da situação.
Seu parceiro levou uma mão ao peito, exibindo a expressão ofendida mais falsa que Jack já tinha visto. “Isso aconteceu pouquíssimas vezes, Jay” Rowle tentou apoiar o braço no ombro de Jack, como se ambos fossem malditos melhores amigos “Você precisa parar de ser esse poço de amargura.”
“Foram dezesseis vezes, Rowle.” Jake retrucou, inexpressivo, afastando a mão antes que tocasse seu ombro.
Rowle não pareceu se importar com a rejeição. “Você é um homem de pouca fé”, declarou, cruzando os braços como se aquilo tivesse sido o plano desde o início. “Eu conferi o horário três vezes hoje de manhã. Não que eu te deva satisfações, mas estamos perfeitamente no horário.” Sua bravura, porém, murchou quando ele encontrou o olhar de McGonagall. “Certo, Diretora?”
McGonagall, que observava a dinâmica entre os dois com um leve sorriso nos lábios, assentiu. “De fato, senhor Rowle.” Então, lançou um breve olhar para o relógio em formato de meia-lua sobre a sua mesa. “Na verdade, ainda faltam quinze minutos para a Senhorita Clark ser liberada.”
Ela ergueu uma sobrancelha fina e prateada, e voltou-se para os dois. “Já que estão aqui, cavalheiros, me dariam a honra de um breve passeio até a aula de poções?”
Eles a seguiram pela portas até os corredores e ele teve seu primeiro vislumbre do castelo.
Jake sabia o que esperar, em teoria. Ele era um homem de dados, e os dados diziam: Castelo Antigo + Séculos de História = Pedra, mofo e correntes de ar.
Mas a teoria é uma coisa linda até ser atropelada pela prática. E nada, nem mesmo seus anos de treinamento de elite ou seu cinismo blindado, o preparou para o impacto de ver aquele lugar de verdade.
Hogwarts não era apenas um prédio. Era um insulto pessoal a todas as leis da arquitetura que Jake Turner considerava sagradas.
Hogwarts não era apenas grande. Era obscenamente grande.
Parecia que um arquiteto medieval tinha sofrido um surto psicótico, empilhado uma dúzia de castelos uns sobre os outros, espetado torres em ângulos que faziam a Lei da Gravidade chorar no banho e decidido: “Sim, isso aqui parece um bom lugar para colocar crianças”. Era um colosso de pedra que conseguia ser, simultaneamente, um pesadelo logístico e a coisa mais absurdamente bonita que Jake já vira.
Ele sentiu um nó estranho no peito. Depois de passar tanto tempo mergulhado no lado podre da magia — lidando com cenas de crime, resíduos de poções e o intelecto limitado de Rowle —, ele quase tinha esquecido que aquele mundo também podia ser... extraordinário.
O castelo parecia respirar. Cada candelabro e cada parede de pedra sólida parecia ter uma pulsação própria, como se o prédio tivesse um metabolismo ativo. Seu lado nerd, aquele que ele tentava manter trancado em um cofre de gelo, estava basicamente dando cambalhotas de alegria.
Jake já tinha aceitado que aquela escola não respeitava as leis da física, da arquitetura ou, honestamente, do bom senso básico. Ainda assim, não conseguia ignorar o desconforto que subia por sua espinha enquanto avançavam.
Por fora, o castelo parecia um sonho saído de um editorial de Dark Academy. Por dentro, era estupidamente opressor.
O motivo era simples: Magia.
Magia em todo lugar. Em cada maldito centímetro quadrado.
Jake não era exatamente um entusiasta de ambientes mágicos desde que fora jogado de cabeça naquele mundo, mas aquilo ali já passava do aceitável. Escadas que se moviam sozinhas — como se o senso de direção de adolescentes já não fosse naturalmente fodido — e retratos que cochichavam a cada passo seu, como se ele fosse a atração principal de um circo de horrores.
Para completar o caos, pequenas fadas insistiam em mergulhar em seu cabelo, rindo de forma histérica, como se aquilo fosse um comportamento socialmente aceitável.
E a pior parte?
Ele tinha quase certeza de que acabara de sofrer assédio por parte de uma obra de arte.
Ao passar por uma pintura de duas mulheres sentadas em um gramado, ouviu claramente a loira sussurrar: “Você viu o volume naquele uniforme?” A morena riu, abanando o rosto com uma mão pintada a óleo. “Eu não me importaria nem um pouco de ser sufocada por bíceps como aqueles.”
Nem Rowle, nem McGonagall pareceram ouvir. Ou pior: ouviram e simplesmente não se importaram.
O que era um absurdo completo.
E Puta que pariu. Talvez, para eles, aquilo fosse só uma terça-feira comum.
Jake apertou os olhos e massageou as têmporas. Definitivamente precisava de um aumento. E, longe de dar razão a sua mãe, um terapeuta.
“A sala de Poções não é mais nas masmorras?” Rowle perguntou, a voz quase sumindo quando um ser translúcido — que Jake rezava para ser alguma espécie de holograma mágico, e não um cadáver flutuante — passou raspando em seu ombro.
Ele parou de andar abruptamente, o cenho tão franzido que suas sobrancelhas quase se fundiram.
“Masmorras?” repetiu ele. “A gente está indo para uma masmorra?”
Automaticamente, o repertório de documentários históricos do History Channel que ele assistira nas madrugadas de insônia começou a projetar um filme de terror em sua mente. Imagens de pessoas sendo arrastadas por correntes enferrujadas, prisioneiros esquecidos em celas úmidas e instrumentos de tortura medievais ganharam vida com uma nitidez perturbadora. O cheiro de mofo e desespero pareceu se tornar real, deixando-o subitamente tonto e com um refluxo amargo na garganta.
Rowle, que aparentemente fora abençoado por um pingo de inteligência pela primeira vez na vida — ou talvez apenas pelo prazer de ver Jack em pânico —, exibiu uma careta divertida. Ele se aproximou e deu um tapinha audacioso no ombro do parceiro, um gesto que Jack normalmente recompensaria com um olhar de ódio puro o suficiente para derreter aço.
“Ah, não faça essa cara de quem viu um dementador, Jay,” disse Rowle, rindo. “Já faz algumas décadas que os alunos não são mais punidos nas masmorras. O lugar foi reformado e agora abriga algumas salas de aula.”
Ele deu de ombros, como se "estudar em uma câmara de tortura reformada" fosse a coisa mais pedagógica do mundo.
A Diretora McGonagall limpou a garganta, recuperando a atenção dos dois.
“Bem, sei que nossos costumes podem ser diferentes, Agente Turner, mas fique tranquilo. Hogwarts é o local mais seguro do mundo bruxo; cuidamos dos nossos alunos com excelência e,” ela fez uma pausa dramática, enquanto começavam a descer uma escadaria de pedra em espiral, “garanto que não perdemos nenhum visitante para as correntes da parede há, pelo menos, dois séculos.”
Jake sentiu um espasmo involuntário no olho esquerdo.
Os olhos escuros da diretora brilharam de relance, capturando o exato momento em que os circuitos lógicos de Jake entraram em curto-circuito. Ela estava se divertindo com o colapso interno do homem à sua frente, e o pior: ela nem tentava esconder.
Cacete. Aquela mulher sabia exatamente o que estava fazendo.
Um relutante e irritante respeito começou a escalar as muralhas de sua indignação. Jack Turner não era fácil de impressionar — ele lidava com psicopatas e burocratas armados semanalmente —, mas havia algo naquela bruxa que o fazia se sentir como um recruta desajeitado tentando explicar um erro de iniciante para o comissário de polícia.
Ótimo, Jake pensou, a acidez de seu monólogo interno atingindo níveis industriais. Pelo menos alguém está achando a minha iminente queda para o lado sombrio da loucura divertida.
“De qualquer forma, respondendo à sua pergunta, senhor Rowle,” a diretora disse ao seu parceiro, girando sobre os calcanhares com uma precisão que faria um sargento chorar de inveja. “Sim, as masmorras continuam sendo perfeitamente adequadas para o ensino de Poções. No entanto…” Ela fez uma pausa calculada, parando diante de um portal côncavo de pedra que se abria para a vastidão dos terrenos externos do castelo. “A senhorita Clark utiliza algumas... metodologias diferentes.”
Jake parou logo atrás dela, sentindo o vento frio e úmido das Terras Altas beijar seu rosto, trazendo consigo o cheiro de grama molhada e, estranhamente, algodão doce. Ele seguiu a direção do olhar de McGonagall..
Quase instantaneamente, sua boca se abriu.
Um gramado tão extenso e vibrante se abria diante deles, de um verde tão irreal que parecia ter sido pintado por um artista caprichoso, e que, com certeza, era mantido por algum tipo de magia berrante. Ali, adolescentes de várias faixas etárias estavam amontoados em torno do que Jack só conseguia descrever como... um campo de treinamento mágico.
No centro daquele tapete esmeralda, um grande palco quadrado chamava a atenção, suas superfícies de pedra polida ostentando quatro cores primárias — amarelo ensolarado, vermelho vibrante, azul celeste e verde-floresta — esculpidas no chão e interligadas por linhas sinuosas que culminavam em um grande círculo luminoso no meio. Nas bordas do palco, montes de sacos de areia, surpreendentemente simétricos, serviam como barricadas improvisadas. Atrás delas, alunos que pareciam ter acabado de sair das fraldas de tão jovens observavam com expressões sérias que conflitavam comicamente com seus rostos ainda redondos e bochechudos. Aquelas "crianças-soldado" tinham os rostos pintados com duas listras alternando entre o vermelho e o verde e algumas, para o desespero crescente de Jack, usavam até capacetes de proteção, parecendo miniaturas de uma tropa de elite.
No centro do palco, uma plataforma imponente feita de pedra rústica erguia-se, adornada com longas raízes entalhadas que se assemelhavam a um tronco de árvore retorcido. Em seu topo, um caldeirão borbulhante e ofegante exalava um vapor translúcido e levemente alaranjado, que dançava no ar como uma aurora boreal em miniatura. Em pé, logo atrás da plataforma, duas figuras se destacavam.
Uma garota, que parecia ser relativamente mais velha — talvez no último ano de Hogwarts? —, tinha o cabelo escuro preso em uma trança lateral tão emaranhada que parecia um ninho de passarinhos elaborado. O mesmo tipo de pintura facial camuflada de guerra que as crianças usavam cobria suas bochechas, só que com uma cor rosa intensa. Ela vestia calças jeans puídas, uma blusa rosa chocante com florezinhas delicadas e a frase “Normal people are so weird” estampada, completando o look com um par de tênis All Star surrados.
Ao lado dela, um garoto mais baixo e gordinho vestia o que aparentava ser o uniforme tradicional da escola e segurava a varinha com as duas mãos, as juntas dos dedos brancas de tensão. Sua expressão era a de quem estava prestes a desarmar uma ogiva nuclear usando apenas um palito de dentes e muita esperança.
Jake só percebeu que seus pés haviam começado a se mover por conta própria quando a Diretora McGonagall pigarreou, um som curto e afiado que cortou o ar como um chicote. Instantaneamente, a massa de alunos que assistia ao espetáculo se dispersou; eles se afastaram com uma agilidade quase cômica, como se tivessem acabado de notar uma cobra coral entre seus pés, abrindo um corredor humano para que o grupo avançasse até a borda do palco.
“Esta, cavalheiros, é nossa Mestra e Professora de Poções, a Senhorita Clark", anunciou a Diretora, erguendo o queixo com uma dignidade soberana em direção à figura no centro do palco.
Jake travou. O quê?
Aquela garota, que parecia ter acabado de sair de um festival de música alternativa ou de uma maratona de séries adolescentes, era a Mestra de Poções? A mesma que comandava aquele exército de mini-soldados com bochechas de bebê?
Ele olhou para a blusa dela — “Normal people are so weird” — e depois para o caldeirão que cuspia fumaça laranja. E a relutante admiração que ele estava sentindo por toda aquela experiência foi substituída por uma confusão tão profunda que o deixou sem fôlego.
"Muito bem, será que alguém pode nos lembrar o que temos no caldeirão até agora?
Uma menina com um caderno na mão cheio de coisas escritas e manchas de tinta, imediatamente começou a recitar uma série de ingredientes e instruções perturbadoramente precisas de preparo que não faziam nenhum sentido para ele. Quer dizer, realmente era necessário especificar quantas vezes deveria girar uma poção? Ou se mexia em sentido horário ou antihorário?
"E, de acordo com a receita do livro, o que devemos colocar agora?" Clark perguntou com um sorriso satisfeito.
Um menino muito mais hesitante que a menina anterior levantou a mão antes de falar: "Verme-cego?"
"Muito bem, senhor Schmidt!"
Em silêncio, Jake observou a garota — não — professora, inclinar-se para um garotinho com um sorriso encorajador. Ela sussurrou algo ao pé do ouvido do menino, que assentiu com uma resignação heróica, como se estivesse aceitando uma missão suicida. Ele caminhou até uma mesa de carvalho que estava cheia de coisas, segurou a varinha com os nós dos dedos brancos, estufou o peito e declarou:
"Wingardium Leviosa."
Imediatamente, em um movimento fluido, um frasco de cristal começou a flutuar. O garoto recuou, acomodando-se ao lado da Professora Clark atrás de uma barricada de sacos de areia ao lado da plataforma.
O frasco, preenchido por um líquido leitoso e denso, pairou sobre a boca do caldeirão como um abutre de vidro.
"Agora, posicionem-se na área de segurança" a professora fez um sinal para a turma, mas ela permaneceu ao lado do menino que mantinha o feitiço de levitação sobre o frasco que estava casa vez mais perto do caldeirão. Os olhos das crianças acompanhavam o frasco, quase hipnotizadas.
Mãos dispararam para o ar. Os olhos amendoados da professora percorreram a plateia e, por um milésimo de segundo, chocaram-se com os de Jack. Por um motivo sem qualquer sentido lógico, Jack sentiu o ar travar em seus pulmões. Mas, tão rápido quanto o impacto veio, ela desviou o olhar para uma garotinha de pele retinta e tranças impecáveis a sua direita.
"É comum que poções explodam assim?" Jake não conseguiu deixar de perguntar e voz alta.
Isso, infelizmente, atraiu a atenção da professora para ele, que só hesitou por um segundo ao vê-los antes de voltar sua atenção para Jake novamente:
"Não se você fizer direito" ela respondeu com um sorriso irônico.
"Mas você não sabe fazer isso direito?" ele perguntou, cético. Ela não deveria ser a Mestra ali?
"Eu sei" ela ergueu uma sobrancelha. "Eles não."
Jake não pode deixar de pensar em como isso era parecido com uma aula de ciências. Deixar que as crianças experimentassem fazer a poção em um ambiente controlado e deixá-los cometer erros livremente para que soubessem por que as coisas são como são. Ele se lembra do seu projeto de escola em que construiu uma maquete de vulcão e se divertiu explorando as reações químicas de diferentes substâncias.
"Muito bem!" Clark brilhou, sorrindo tanto, que uma leve covinha se revelou em uma bochecha esquerda e voltou sua atenção para a alunos. "Mais cinco pontos para cada um de vocês. Agora, Senhor Schmidt... incline o frasco. Deixe o muco escorrer."
Jake, contagiado pelo pânico silencioso das crianças, se viu prendendo a respiração. O líquido branco, com a consistência de uma gelatina suspeita, deslizou para dentro do caldeirão de uma vez só.
O tempo pareceu parar. Todos cheios de expectativa, tensos.
BUM!
Jake quase pulou de susto, soltando um xingamento silencioso. O som era tão perturbadoramente parecido com o de uma bomba...
Uma série de detonações começou a saltar do caldeirão. Mas, em vez de estilhaços de metal e morte, o que Jack viu foram jatos de luzes impossíveis subindo aos céus, cores se sobrepondo em um arco-íris exuberante que desafiava a luz do dia. O som não era de uma explosão desastrosa; era o estalido rítmico e festivo de... fogos de artifício.
E então, ele ouviu. Uma risada estridente, clara e genuinamente alegre.
Jake virou a cabeça e viu a Professora Clark. Ela estava de pé, com os braços abertos para os fogos, gargalhando como se tivesse acabado de ganhar na loteria enquanto o ar era invadido por um cheiro doce e inebriante de algodão doce quente. Ela parecia absolutamente maluca. E, de alguma forma irritante, hipnotizante.
Ao seu lado, a Diretora McGonagall soltou um suspiro longo.
"Professora Clark?" chamou a diretora.
