Work Text:
O silêncio da casa em Sumeru era habitualmente sagrado para Alhaitham. No entanto, naquela noite, o silêncio era dilacerado por gritos que faziam o Grande Escriba — o homem que enfrentou deuses e conspirações sem piscar — sentir que o chão sob seus pés era feito de areia movediça.
Alhaitham estava sentado à mesa da sala, um livro aberto à sua frente. Ele não havia virado a página nos últimos quarenta minutos. Seus dedos, geralmente firmes, batiam um ritmo irregular na madeira. A análise lógica dizia que Lumine era forte, que as enfermeiras de Amurta eram competentes e que o processo era natural. Mas a lógica não conseguia silenciar o batimento acelerado de seu próprio coração.
— Se você continuar encarando esse livro desse jeito, ele vai entrar em combustão espontânea, Alhaitham.
Kaveh apareceu na sala, carregando duas xícaras de chá de Zaytun. Ele não usava suas joias habituais e parecia genuinamente preocupado, embora tentasse manter o tom leve. Ele depositou uma xícara na frente do amigo.
— Eu estou lendo — respondeu Alhaitham, a voz saindo um tom mais rígida do que o pretendido.
— Não, você está tentando não desmoronar — Kaveh sentou-se à frente dele. — Olha, eu sei que você gosta de fingir que é uma estátua de pedra, mas suas mãos estão tremendo. É o seu primeiro filho, Alhaitham. É permitido ser humano por cinco minutos.
Alhaitham olhou para as próprias mãos. Kaveh tinha razão. Pela primeira vez em anos, ele sentiu uma onda de gratidão por Kaveh ainda morar ali. Quando ele e Lumine se casaram, muitos questionaram por que o arquiteto não se mudara. Mas, naquele momento, ter a energia caótica e o falatório incessante de Kaveh era a única coisa que impedia Alhaitham de invadir o quarto e exigir relatórios médicos a cada segundo.
— Obrigado, Kaveh — disse Alhaitham, baixinho.
Kaveh quase derrubou o próprio chá. — O quê? Você... você me agradeceu? Sem sarcasmo? Sem me chamar de parasita? Céus, a situação está pior do que eu pensei! Você realmente está apavorado!
— Não abuse da sorte — Alhaitham suspirou, mas um pequeno sorriso de canto apareceu. — Só... continue falando. Qualquer coisa. Seus projetos, suas dívidas, a cor das cortinas. Apenas não me deixe ouvir o silêncio entre os gritos dela.
Kaveh, entendendo a missão, começou um monólogo de trinta minutos sobre a estética das cúpulas de Fontaine. Alhaitham não processou uma palavra, mas a voz do amigo serviu como uma âncora na realidade.
O tempo parecia ter se dilatado. Mas, subitamente, o som mudou. O grito de dor de Lumine foi substituído por um silêncio tenso, seguido por um choro agudo, forte e insistente.
Alhaitham levantou-se tão rápido que a cadeira tombou. Kaveh também saltou, os olhos brilhando. — É ele! Ou ela! Alhaitham, nasceu!
A porta do quarto se abriu e a enfermeira sinalizou que ele poderia entrar. Alhaitham caminhou com as pernas pesadas. Ao entrar, viu Lumine. Ela estava pálida, o cabelo loiro colado à testa pelo suor, mas seus olhos dourados brilhavam com uma satisfação que ele nunca vira antes, nem mesmo após derrotarem o remanescente de um deus.
Nos braços dela, envolto em panos brancos, estava um pequeno embrulho.
— Venha ver — Lumine sussurrou, a voz rouca.
Alhaitham aproximou-se e sentou-se na borda da cama. Quando Lumine inclinou o bebê em sua direção, o mundo de Alhaitham mudou de eixo. O pequeno ser abriu os olhos — um tom de turquesa intenso com pupilas que pareciam carregar o mesmo brilho analítico do pai. O bebê não chorava mais; ele apenas observava Alhaitham com uma seriedade cômica para um recém-nascido.
— Ele é... perfeito — Alhaitham murmurou, estendendo um dedo. O bebê agarrou sua mão com uma força surpreendente. — Olá, Haim.
— Haim... — Lumine sorriu, aprovando o nome que haviam discutido semanas antes. — O nosso pequeno sábio.
Kaveh, que estava esperando ansiosamente na porta, não aguentou e entrou de fininho, transbordando emoção. — Deixem eu ver o meu afilhado! Eu já consigo prever, ele terá o brilho de Lumine, a sensibilidade artística que eu vou ensinar e...
Kaveh parou ao lado de Alhaitham e encarou o rosto do pequeno Haim. O bebê franziu o cenho para Kaveh exatamente da mesma forma que Alhaitham fazia quando Kaveh chegava bêbado da taverna.
O silêncio de Kaveh foi mortal.
— Não... — Kaveh deu um passo atrás, dramaticamente. — Não é possível. A genética é uma ciência cruel!
— O que foi, Kaveh? — Lumine perguntou, tentando segurar o riso.
— Lumine, você carregou esse bebê por nove meses para ele nascer uma cópia exata, em miniatura, deste homem insuportável! — Kaveh apontou para Alhaitham. — Olhe para esse nariz! Olhe para essa expressão de "eu sou superior a você"! Ele nem tem um dia de vida e já parece que está julgando o meu senso estético!
Alhaitham, sentindo uma satisfação profunda, ajeitou o bebê nos braços. — Parece que ele tem bom gosto, Kaveh. Ele reconhece a lógica quando a vê.
— Ele é a sua cara, Alhaitham! — Kaveh choramingou, sentando-se numa cadeira próxima. — Eu esperava pelo menos um pouquinho de sol da Lumine. Mas não, recebi um Alhaitham 2.0. Agora vou ter que lidar com dois de vocês nesta casa? Eu vou ser o único artista num ninho de filósofos estoicos?
Lumine soltou uma risada fraca, mas genuína. — Oh, Kaveh, não seja tão dramático. Tenho certeza de que, por dentro, ele é muito gentil.
— Ele me olhou feio, Lumine! O bebê me deu um "olhar de escriba"! — Kaveh resmungou, embora estivesse sorrindo por trás da frustração fingida.
Alhaitham ignorou as reclamações do amigo. Ele encostou sua testa na de Lumine e depois beijou o topo da cabeça de Haim. Naquele momento, o homem que sempre teve todas as respostas percebeu que não precisava de livros ou lógica para entender o que estava sentindo.
Aquele era o projeto mais complexo e maravilhoso que ele já vira. E, pela primeira vez, ele não tinha pressa nenhuma de terminá-lo.
