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Português brasileiro
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Published:
2026-01-21
Words:
1,480
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1/1
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3
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145
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1,341

Porto Seguro

Summary:

Lorena desaba ao contar sobre sua expulsão para Eduarda

Work Text:

As microagressões de seu pai, ao decorrer dos anos, que outrora fizeram seu peito rasgar, tinham-na feito acreditar que estaria preparada para qualquer que fosse a reação dele, quaisquer que fossem as palavras duras que lançaria contra ela. Os ataques contra sua existência eram tão cotidianos e rotineiros que ela já havia se conformado em ser chamada de erro. Seu inconsciente a sabotava, não permitindo que escapasse daquela prisão dourada; mesmo não querendo, os insultos sobre ser inútil rastejavam para dentro de sua mente todas as noites, quando às vezes chorava em silêncio e, em outras, apenas aceitava que sua existência era, no mínimo, patética.

Ela não sabia ao certo o que era felicidade ou o que era amor. Claro que sabia que sua mãe a amava incondicionalmente, mas, em épocas sombrias demais para serem ditas em voz alta, Lorena se perguntava: se sua mãe não fosse obrigada a amá-la, ainda restaria alguém? O pensamento cruel, é óbvio, não condizia com a realidade; era apenas mais uma tentativa de seu cérebro de machucá-la ainda mais.

Isso foi antes de Eduarda chegar à sua vida.

Quando Lorena olhava para Juquinha… sua Eduarda… seu amor, sentia que poderia fazer tudo. Quando via o sorriso mais lindo do mundo que Eduarda lhe lançava — como se a morena fosse a coisa mais preciosa que a ruiva já tivesse encontrado — sua vida parecia ganhar cor. E quando encontrou aqueles olhos de jabuticaba, molhados de lágrimas que escorriam por suas bochechas, teve certeza de que enfrentaria qualquer consequência imposta pelo pai para continuar vivendo aquele amor.

Pensou que estaria preparada, mas ouvir da boca do próprio pai que ele a renegava como filha doeu. Doeu muito mais do que ela imaginava.

A pior coisa do mundo é tentar odiar alguém que você ama. Independentemente do que ele fizesse, ela ainda o enxergava como pai como o homem que, em dias raros, demonstrava carinho. Era nostálgico pensar em Ferette dessa forma, porque ele havia reservado esse lado apenas para momentos específicos da infância da garota.

Lorena não chorou desde que foi expulsa. Seus olhos marejaram, a garganta fechou, a voz ficou trêmula, a boca tremeu. Mas o desabar, de fato, ainda não havia vindo. Sempre pensou que precisava ser forte, na frente do pai, para não demonstrar abatimento; por trás, para mostrar força à mãe e ao irmão.

Sempre fora assim. Preferia que doesse nela, e não nas pessoas que amava. Mas, internamente, implorava para que, ao menos naquele dia, pudesse desabar e que houvesse alguém ali para segurá-la, para que pudesse deixar as lágrimas lavarem sua alma.

—— Você pode vir aqui na galeria? Tô precisando te ver…

A voz saiu abatida do outro lado da linha, apesar do esforço descomunal para esconder isso. Não passou despercebido pela namorada.

— Claro, meu bem. — Eduarda respondeu, a voz transbordando cuidado e preocupação. — Tá tudo bem?

— Tá sim… é que eu quero muito te ver, meu amor. — soltou uma risada meio forçada e entrecortada.

O faro de polícia da Juquinha era ainda mais apurado quando se tratava de Lorena. Ela sabia que havia algo errado, mas entendeu que a namorada preferia contar pessoalmente, qualquer que fosse o motivo do incômodo.

Por volta das 20h45, a ruiva chegou à galeria. Por um triz Lucélia não atendeu a porta com toda a sua inconveniência e preconceito; Maggye foi mais rápida e evitou a confusão.
Juquinha cumprimentou a amiga com um abraço e a prima insuportável dela com um aperto de mão. Não pôde deixar de varrer o local com os olhos, procurando por Lorena.

— A Lorena tá na sala. — Maggye disse, respondendo à pergunta silenciosa da amiga.

— Sim, coitadinha… ela tá abatida depois do que aconteceu hoje. — Lucélia comentou em falsa preocupação, o que só acendeu ainda mais o alerta de Eduarda.

— Lucélia, eu já disse pra você parar de se intrometer nos assuntos dos outros. — a prima a repreendeu, dando-lhe um tapa leve no ombro.

Ela fez uma expressão de arrependimento claramente falso e se virou para a ruiva.

— Desculpa. É só que a Lorena tem algo muito importante pra te contar, Juquinha. — a voz era sonsa o suficiente para esconder boa parte do veneno que carregava.

Eduarda se apressou em ir ao encontro da namorada, antes que ouvisse da boca de outra pessoa os motivos que a afligiam.

Quando chegou à sala, encontrou Lorena sentada em uma poltrona, quase encolhida, frágil. Os olhos verdes estavam perdidos em algum ponto indefinido do ambiente.

— Oi…
A ruiva falou baixo, chamando sua atenção.

— Oi… tava com saudades.
Lorena sorriu fraco ao ver Eduarda à sua frente. Olhou para os cantos da sala, percebendo que estavam sendo observadas.

— Vamos conversar lá no quarto. — disse, segurando a mão da policial.
Juquinha achou estranho ser chamada para um quarto de uma casa que nem sequer era de Lorena, mas não questionou. Apenas sorriu em concordância e se deixou guiar até o cômodo.

Quando a porta se fechou atrás das duas, o peso da tristeza que Lorena carregava tornou-se ainda mais perceptível. A ruiva segurou o rosto dela com carinho, vendo a expressão sofrida que a namorada fez ao fechar os olhos e se aconchegar no calor daquele toque.

Quando os olhos verdes se abriram e encontraram os olhos brilhantes de Eduarda, cheios de preocupação, paciência e um cuidado que Lorena nunca havia experimentado antes, ela travou. Como iria contar? Como explicaria que o pai era contra a própria existência das duas? Como verbalizaria as coisas terríveis que ele dissera sobre elas?

Ela temia que o coração da namorada não aguentasse tamanha crueldade. Eduarda não estava acostumada com gritos, grosserias ou com a violência quase silenciosa que Lorena sofrera a vida inteira.

— O que aconteceu, meu bem?
A pergunta, somada ao tom cuidadoso de Eduarda ao fazê-la, foi o suficiente para Lorena desabar.
Ela praticamente caiu sobre o ombro da namorada, que prontamente a segurou. Um soluço alto escapou de seus lábios.

— Ei… tá tudo bem. Eu tô aqui. — sussurrou, fazendo carinho nos cabelos escuros.

A partir daquele momento, o choro de Lorena veio desenfreado. Os soluços rasgavam sua garganta, ficando cada vez mais altos — um choro desesperado, profundo. Ela agarrou a regata de Eduarda com as mãos em punho, como se nem mesmo aquela proximidade fosse suficiente.

Lorena chorou por horas… ou minutos. Nenhuma das duas tinha certeza.
Chorou como nunca antes. Permitiu-se sofrer e ser acolhida por alguém que a amava. As lágrimas escorriam não apenas pela expulsão, mas por todos os anos de comentários que a machucaram, por toda a passividade da mãe diante do pai. Zenilda também era uma vítima, mas não era dever de uma mãe defender seus filhos? Lorena sempre tentou defendê-la.

Ela chorou alto por todas as vezes em que chorou em silêncio, sozinha em seu quarto, para não preocupar ninguém.

Depois de algum tempo, a respiração de Lorena começou a se estabilizar. Os soluços diminuíram, ainda que incontroláveis. As lágrimas pararam de cair.

— Desculpa… — foi a primeira coisa que saiu de seus lábios trêmulos quando afastou o rosto e percebeu que havia encharcado a camiseta verde de Eduarda.

— Não precisa se desculpar, Lo. — disse, dando um beijo em sua bochecha molhada.

A morena abaixou a cabeça, envergonhada, sem saber o que dizer.

— Ei, presta atenção. — Eduarda falou com carinho, segurando o rosto dela com as mãos e fazendo-a olhar para si.

— Você não precisa ser forte o tempo todo, tá bom?

— O nosso amor é sobre cuidar uma da outra. Não só você cuidar de mim. — concluiu.

A frase fez Lorena suspirar. Uma lágrima solitária escorreu enquanto ela concordava em silêncio.
Um breve momento de quietude se instalou, e as duas se sentaram na ponta da cama.

— Você… — Eduarda começou, cuidadosa. — consegue me contar o que aconteceu?

Os olhos ainda marejados se ergueram para encarar o rosto da ruiva. O nariz vermelho e os olhos ainda mais brilhantes entregavam que a dor de Lorena também doía nela.

Enquanto Lorena contava tudo o que havia vivido com Santiago, Eduarda sentia um misto de raiva e tristeza percorrer seu corpo. Às vezes, a raiva dominava, os punhos cerrados denunciavam isso.

Ela sentia que poderia matar Santiago Ferette com as próprias mãos.

— Eu sinto muito por você ter convivido tanto tempo com um ser tão desprezível quanto seu pai.
Lorena assentiu, triste.

— Mas ele está errado. — Eduarda continuou. — Você não é um erro. Você é o maior acerto da minha vida… e da vida de qualquer pessoa que tenha a chance de te conhecer.
— Te amo.
— Também te amo. Muito. — respondeu, enchendo o rosto da namorada de beijos, assim como Lorena tantas vezes fizera com ela.

— E não se preocupa. Se seu pai não quer que você faça parte da família Ferette, nós vamos construir a nossa própria família juntas.

Lorena sorriu largo e, naquele momento, teve certeza de que, independentemente do que acontecesse, o futuro reservava algo maravilhoso para as duas.