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SÃO PAULO, 21 DE JUNHO DE 2026 – 19H27
Lorena Ferette
A Biblioteca João Dom Bosco deveria estar fechada há pelo menos trinta minutos. Deveria, mas não estava.
Em meio a uma bagunça de livros espalhados sobre uma velha mesa de madeira, ao ar completamente tomado pelo frio de junho e ao som de uma vitrola antiga tocando Walk on the Wild Side, de Lou Reed, encontra-se Lorena. Uma bibliotecária de vinte e três anos que luta diariamente contra a própria rinite, mesmo trabalhando em um lugar tão velho e empoeirado. A garota até gostaria de cuidar melhor da saúde nasal, mas não suporta a ideia de ficar muito tempo longe dos livros que tanto preza e protege.
Lorena Ferette é a personificação das cores vermelho e marrom. Ela acredita fielmente que, em uma vida passada, deve ter sido algum objeto abstrato que misturava exatamente todos os tons dessas cores. Sua personalidade comprova isso com facilidade, mas talvez este não seja o momento ideal para se aprofundar nesse detalhe. Não quando Lorena precisa lidar com um policial apaixonado que já está há pelo menos meia hora procurando, incansavelmente, por um livro cujo nome ele não faz a menor ideia, apenas sabe que foi um pedido da namorada.
— Olha só… eu consigo lembrar que era um livro aqui do Brasil e que tinha um nome com alguma coisa a ver com vidro… vitro… vinho… vitral? — diz o rapaz, que Lorena já conhecia de outros empréstimos literários.
O detetive Paulo Reitz, um cana-dura, era ao mesmo tempo um homem absurdamente dedicado em agradar a namorada, uma leitora feroz chamada Gerluce.
— Se eu voltar sem esse livro, é capaz da Gerluce me amassar igual latinha. Por favor, Lorena, me ajuda — pede ele, exibindo uma expressão clássica de cachorro abandonado.
— Olha, Paulinho… só com essas características fica muito difícil te ajudar, além de que o detetive aqui é você. — Lorena suspira, tentando associar as pistas confusas do policial aos últimos livros que ele havia pegado emprestado. — Você tem certeza de que tinha alguma palavra com V? Talvez seja… um romance?
Lorena sabe que Gerluce tem um gosto literário impecável, mesmo nunca tendo a visto pessoalmente. Suas leituras transitam facilmente entre poemas, biografias e romances.
— ABSOLUTA! — ele responde, já um pouco exaltado. — Ela repetiu pelo menos umas trinta vezes o nome desse livro, mas minha memória anda tão ruim que eu esqueci tudo. Ela vai deixar minha cabeça em mini caquinhos. — E então, como se uma luz caísse sobre sua cabeça, o detetive abre um sorriso enorme.— LEMBREI! O nome é Cacos para um Vidral! — anuncia, incapaz de conter a própria animação.
— Vitral, Paulinho — corrige Lorena, rindo da empolgação dele. — Vou buscar pra você. Só espera um pouquinho, porque se eu pegar mais um livro nessa poeira, minha rinite vai acabar me matando.
Delegacia, SÃO PAULO - 22 DE JUNHO DE 2026 – 15h00
Eduarda Fragoso
Poucas coisas no mundo deixavam Eduarda tão nervosa quanto perder documentos importantes, e, nisso, seu colega de trabalho e amigo de longa data, Paulinho, era um verdadeiro mestre. O problema, é que perder um documento de uma das investigações mais sigilosas e importantes significava o fim para os dois investigadores.
— Paulinho, qual foi o último lugar, além da sua casa, em que você esteve com esse documento? — perguntou Eduarda, visivelmente preocupada com o sumiço de um dos papéis mais importantes do caso em que eles estavam trabalhando havia meses, as Três Graças e seu desaparecimento.
— Juquinha… olha, eu passei em dois lugares ontem à noite, um deles foi na casa da Gerluce e outro na biblioteca João Dom Bosco. Mas agora a Gerluce simplesmente não me atende — respondeu o detetive, a voz trêmula mostrando como ele se encontrava a beira do desespero, coisa que Eduarda se identificava.
Eduarda não queria pressioná-lo, principalmente ao vê-lo daquele jeito. Ainda assim, diante da situação, era impossível não ficar nervosa também.
— Tá, olha só — disse ela, respirando fundo para manter a calma. — Você vai até a casa da Gerluce, revira aquele lugar inteiro e vê se encontra o documento. Eu vou na tal biblioteca. Me passa o endereço.
Biblioteca, SÃO PAULO - 22 DE JUNHO DE 2026 – 16h00
Eduarda Fragoso
A Biblioteca João Dom Bosco era quase um monumento da cidade de São Paulo. Não por sua beleza, mas por sua antiguidade. O lugar era marcado por tons de marrom e vermelho, algo antigo, porém aconchegante.
Eduarda chegou ao local por volta das quatro horas da tarde, visivelmente desesperada para encontrar o tal documento perdido. A investigação tinha dado passos importantes, e a essa altura, perder aquele documento era pedir para o Delegado Jairo arrancar a cabeça dos dois cascas-grosas.
Ao abrir a porta giratória da biblioteca, seu olhar começa a percorrer cada canto daquele espaço. Eduarda não deixou de notar a bagunça organizada em que a biblioteca se encontrava. Era tudo minimamente retrô e ela não deixou de notar o quão perfomatico aquele lugar parecia.
Havia uma vitrola antiga em uma mesa de madeira próxima a uma grande estante de livros de romance policial. O ambiente cheirava a café quentinho e chocolate quente, e Eduarda reparou instantaneamente que a música que tocava era Doce Vampiro de Rita Lee.
Em meio a devaneios e análises que somente uma investigadora cascuda poderia ter, Eduarda ouve uma voz atrás de si.
— Tudo bem? Posso ajudar? — diz uma voz desconhecida. — Você precisa de alguma coisa?
Eduarda Fragoso já viu muitas coisas no mundo, sua vida confortável de Fragoso havia dado a ela uma boa bagagem de monumentos lindos e viagens caras. No entanto, em todos os seus vinte e cinco anos, ela nunca havia visto uma mulher tão bonita quanto aquela bibliotecária. Os cabelos castanho-escuros dela dançavam com o vento frio de junho. O nariz levemente avermelhado, que Eduarda supunha ser por causa do frio, marcava seu rosto, e seus olhos, verdes claros, que eram o que mais chamava atenção.
Honestamente, diante daqueles olhos, Eduarda já não fazia a menor ideia do que tinha ido fazer ali. E com seu sorriso mais galanteador, o que ela sabia que causava um bom efeito nas pessoas, Eduarda olhou para a garota, que pelo crachá pendurado em seu pescoço, se chamava Lorena.
— Prazer, eu sou Eduarda Fragoso, sou investigadora. Eu trabalho junto com o Paulinho Reitz, ele vem aqui com frequência— disse sem conseguir parar de sorrir — Eu preciso de uma ajuda na verdade.
— Prazer, Eduarda. Me chamo Lorena. Lorena Ferette — respondeu a garota, abrindo um sorriso com covinhas, algo que fez o pobre coração lésbico de Eduarda fraquejar. — Você precisa de um livro desconhecido para uma namorada exigente também? — perguntou, com um resquício de curiosidade e bom humor na voz.
— Definitivamente não. Estou muito bem solteira, completamente solteira — Eduarda diz com leveza, quase cantando as palavras, como quem deixa uma informação no ar de propósito. — Na verdade, meu amigo perdeu um documento muito importante para uma investigação, e eu queria saber se ele acabou perdendo por aqui.
A bibliotecária se virou, indo em direção ao balcão. Abriu uma gaveta cheia de livros de bolso e tira um documento dobrado.
— Eu estava esperando que ele voltasse — diz. — Ontem, ele ficou tão feliz por lembrar o nome do livro que a namorada pediu que acabou deixando isso cair. Quando eu percebi, ele já tinha ido embora.
Ela ainda sorria. Aquele mesmo sorriso, com aquelas benditas covinhas.
— O Paulinho é um homem muito apaixonado… e muito atrapalhado — comenta Eduarda, rindo. Tão presa naquele sorriso que não percebe o grande e gordo gato preto enroscado em suas pernas. Ao se inclinar para pegar o documento, quase perde o equilíbrio.
— Clarice, saia do pé da moça — diz Lorena, contornando o balcão enquanto chama pela felina, que parece muito confortável aos pés de Fragoso. — Desculpa, detetive, ela não costuma ser tão carinhosa assim. Acho que ela gostou de você.
Lorena se abaixa, pega a gata no colo e, ao se levantar, entrega o documento diretamente nas mãos de Eduarda. Os dedos se tocam por um segundo a mais do que o necessário.
Eduarda pigarreia, ajeitando o documento mas ainda mantendo seus olhos diretamente em Lorena.
— Então… — começa, um sorriso surgindo devagar. — Tem alguns livros que eu queria saber se tem aqui, mas agora eu to em horário de trabalho sabe? — diz sentindo suas bochechas corarem um pouco
Lorena inclina a cabeça, um sorriso curioso, surgindo em seus lábios.
— Então será que eu poderia pegar seu nu-
— JUQUINHA! NÃO ACHEI O DOCUMENTO! A GENTE TÁ FUDIDO!
Paulinho Reitz praticamente esmaga a porta ao entrar, tomado por um desespero que não combina com a harmonia e o silêncio da biblioteca. O desespero só se dissipa quando ele finalmente percebe o bendito documento já nas mãos de Eduarda.
— Ai, graças a Deus. Que bom que você achou — dispara, sem recuperar o fôlego. — O delegado Jairo já tá me ligando sem parar, perguntando onde a gente se meteu, e eu tive que mentir.
Antes que Eduarda consiga responder, o detetive segura seu braço e começa a arrastá-la em direção a porta, claramente decidido a voltar para a delegacia antes que o delegado resolvesse arrancar a cabeça dos dois.
Eduarda, contra a própria vontade, e sem o número que tanto queria, acaba saindo da biblioteca. Ainda assim, consegue se virar uma última vez, trocando um sorriso curto e sem graça com Lorena.
Eduarda deixa a biblioteca com uma sensação nova. Ela com certeza vai precisar procurar alguns livros amanhã. O que ela não sabe, é que na próxima semana a rinite de uma certa bibliotecária atacaria tanto que ela ficaria uma semana fora da biblioteca.
