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Era mais uma noite pensando nessa casa horrível, as árvores rangendo contra o vento era assustador nos primeiros dias morando por aqui, mas com toda certeza agora virou um certo conforto, era uma das únicas coisas que parecia continuar por aqui independentemente de tudo que acontecia. Franco já não sabia mais nem se ele continuaria morando por essa cidade depois do que aconteceu, todo mundo tava estranho um com o outro, claro que foi a porra de um acidente, mas não é como se o clima deixasse de estar tão pesado a partir desse fato!
Eloy já nem conseguia mais olhar no rosto de Cindy, afinal, foi ela que sem querer deu o golpe, Franco passava o dia inteiro dentro do quarto e saia apenas para ir à faculdade, Alê então?! Muito menos! Ninguém nem mesmo se lembrava qual foi a última vez que ê garote saiu de casa, principalmente se estivesse ficado mais de dois minutos do lado de fora. Cada um tinha seu jeito de tentar lidar com o trauma, e nenhum desses jeitos pareciam remotamente saudável.
E mais uma vez, Franco sai do transe em que estava quando ouve as pessoas sentadas ao seu lado se arrumando para saírem da sala de aula e irem comer... Que caralho, ele odiava perder matéria da faculdade por estar muito pensativo, claro que o ruivo não podia parar de se distrair após ter uma perda tão grande de um de seus melhores amigos, a quantidade de matéria que se acumulou desde a morte de Andrei era exorbitante, para dizer o mínimo.
- Você conseguiu prestar atenção no que o professor disse..? - Uma voz calma disse ao lado de Franco, o ruivo apenas virou calmamente e conseguiu notar um menino moreno e bonito ali sentado do seu lado... Cara, ele nem prestava mais atenção sequer em quem senta ao seu lado, ele não lembrava desse belo rostinho.
- Não..? - Franco respondeu enquanto voltava a ficar de frente para ele ao invés de deixar o garoto olhar para as suas costas o tempo inteiro.
- E como você acha que vai passar na aula dele...? - O mais baixo perguntou enquanto sua sobrancelha arqueava, o que era uma boa pergunta; Franco não sabia.
- Eu vou dando meus corres, sabe como é, né? Vou pra lá e pra cá peço pra alguém me passar o que ele explicou, estudo em casa e pronto, tô feito. - Ele respondeu, por mais que Franco não acreditasse em nada do que tinha acabado de dizer. Ele sabia que no momento que chegasse em casa ia só se deitar e dormir muito.
Ambos ficaram em silêncio depois disso, foi apenas alguns segundos, mas desconfortável o suficiente para Franco já dar um suspiro, pronto para ir embora.
- A gente podia estudar juntos, eu não entendi muito bem o que o professor disse de qualquer forma. - Pomba respondeu, por mais que ambos soubessem que ele tinha entendido sim tudo e só queria ajudar o idiota que Franco era, que otário... Seria muito vergonhoso só recusar e deixar o muleque se oferecer por nada....
- É, pode ser... Eu sou o Franco
- Pomba.
- Pomba..? - Franco perguntou, olhando para o garoto antes de suspirar de novo. - É, não é como se meu nome fosse melhor, vô é ficar quieto.
Pomba deu uma risada com isso, olhando para Franco enquanto esticava a mão, que logo foi apertada pelo mais alto.
- Sempre que precisar, você pode me achar com a Coruja na biblioteca. Se eu não tiver lá eu provavelmente vou estar na aula ou comendo no refeitório. - O pardo disse enquanto pegava suas coisas da mesa, se preparando para sair do assento que estava para ir ao refeitório, Franco apenas continuou ali enquanto ele saia, pensando um pouco sobre o garoto... Não foi uma das melhores formas de se conhecer alguém, mas o que ele podia fazer? Franco não conheceu nenhum de seus amigos de forma comum, e esse era até que bem bonitinho.
Não demorou muito para que Franco arrumasse suas coisas e fosse para o refeitório, e quando menos percebeu, já estava voltando para casa. O garoto não conseguiu prestar atenção em basicamente nada da aula, foi como se tivesse pulado todas as cutscenes de um dos seus jogos favoritos pois já sabia que ia ser a mesma coisa de sempre.
Foi ao chegar perto da frente da casa que ele dividia com Eloy, Alê e Cindy que suas pernas travaram, era sempre a mesma coisa; ele sentia aquele clima pesado, sabia que nenhum deles teria coragem de ter uma conversa concreta com mais de dez minutos, a situação tava verdadeiramente como um filme de terror... Obviamente, no momento que tudo aconteceu, na adrenalina, os três ajudaram a Cindy, mas ainda assim isso não tirava o peso da situação.
Depois de muita hesitação para entrar, Franco finalmente abriu a porta para ir direto ao seu quarto, o que não demorou muito para tirar os acessórios, se deitar, e cair no sono. Mais uma vez desejando que tudo estivesse completamente mudado quando ele acordasse de manhã.
