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A Beira Mar de Ipanema

Summary:

Um garoto de 24 anos chamado Scaramouche precisa descansar a mente do Japão, um pequeno país com memórias ruins, ele decide que ficará fora por uns meses para relaxar, ele escolhe o Brasil, seria uma boa escolha se um carioca de 19 anos que vive a vida trabalhando como garçom em um quiosque e as vezes furta um celular não cruzasse seu caminho certo dia, e além de roubar seu celular, roubasse seu coração.

Work Text:

Um novo país, um novo recomeço. Para contextualizar, eu tenho problemas de estresse pós traumático e ansiedade social, a qual fazia terapia a anos para tratar, eu vivia reclamando para minha psicóloga que nunca via mudanças no meu comportamento, então ela sugeriu algo brusco, passar alguns dias afastado de Tóquio, cidade a qual nasci e cresci, ela me recomendou ir para uma zona mais rural e calma para eu desligar minha mente do estresse urbano, talvez experimentar novas coisas, mas eu perguntei se ao invés de cidade ou estado, eu poderia ir para outro país? Seria uma grande mudança de rotina, ela disse que seria uma boa ideia, mas eu tinha que ter certeza se era isso que queria e até me mandou ir para um que eu tivesse conhecidos para ter uma experiência mais agradável.

Eu não pensei muito antes de ir para o Brasil, um país tropical e totalmente diferente do Japão, pelo o que eu ouvia, Kaedehara Kazuha era meu amigo de infância que nos conhecemos des dos quinze anos e até hoje éramos amigos, recentemente ele havia se casado com Heizou, um garoto mestiço, que também o conheci na mesma época que Kazuha, ele havia nascido em Hamamatsu, uma cidade do Japão onde tem bastante brasileiros e seu pai era um dos, eu sabia que Heizou tinha planos de voltar ao Brasil após os estudos, mas não esperava que levaria Kazuha, ok, eles eram namorados, agora maridos, mas isso é egoismo comigo! Fiquei um pouco triste sabendo que meu melhor amigo iria tão longe após se casar com o garoto. Não seria uma má ideia visitá-los agora, não é? Eu conversei disso com Kazuha, ele me disse que o Brasil com toda certeza é o melhor país que já esteve, o povo é bastante extrovertido e caridoso, ele até disse que percebeu como os japoneses são antipáticos depois de conhecer tantos brasileiros, só de ouvir isso minha ansiedade social atacou... mas eu estaria com Kazuha e Heizou que eram bons amigos, então oque podia dar de errado?

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Rio de Janeiro, Brasil

Eram 8:37 da manhã, ontem havia chegado no Brasil de madrugada e resolvi dormir no hotel que pedi para Kazuha reservar para mim, eu ficaria nervoso pensando em como falar com o ou a recepcionista, eu até dei o dinheiro para o esbranquiçado, que fez toda a reserva para mim e só me bastou descansar assim que cheguei. Mas agora eu acordava com Kazuha me ligando, eu peguei o celular Z Flip 5, eu o abri e atendi a ligação, com minha voz de extremo sono.

— Bom dia Scara! Como está? — ele me pergunta animado e falando em português, sua voz era diferente do japonês quando falava em português, não podia deixar de notar o quão bonito ficava, meu tom falando português era terrível, apesar de saber o básico, Heizou sempre ensinava a mim e Kazuha, na maioria das vezes, fazendo a gente fala coisas obscenas dizendo ser coisas comuns.

— Uh... b-bom dia.. eu estou bem, sobrevivi as primeiras interações que tive com uma mulher que falava super rápido! — comentei minhas primeiras frustrações, Kazuha riu do outro lado da linha, eu estava com sono e queria voltar a dormir, mas sabia que ele não me deixaria fazer isso facilmente, Kazuha não era chato, ele só era preocupado com minha saúde mental, ele sabia que eu mal saia de casa no Japão, até meu trabalho era pelo computador então eu basicamente só saia para ir na psicóloga, se dependesse de mim nem isso, mas ela insistiu que eu fosse pelo menos algumas vezes já que seria um estímulo para eu sair mais de casa.

— Hehe, eu surtei muito com isso também, mas é normal, cariocas falam rápido. — ele diz, eu solto um gemido cansado, já queria ter crise existencial pensando que foi uma péssima ideia sair para outro país sendo que eu mal saia da minha casa! — Quer ir para a praia amanhã? Vai ser divertido, vamos eu, você e o Heizou, o que acha? Tire hoje para sair sozinho e conhecer o lugar! Só não vá tão chamativo, o Rio tem uma fama de roubo, e eles conseguem reconhecer estrangeiros de longe, também toma cuidado, o Brasil é um país transfobico de certa forma, não tanto como o Japão, mas é bom ter cuidado. — ele me fala, eu fico surpreso.

— Como assim? — eu pergunto, talvez tivesse entendido errado pelo meu péssimo conhecimento no idioma.

— ブラジルは危険です。強盗、暴行、トランスフォビアも多いので気をつけてください。( Burajiru wa kikendesu. Gōtō, bōkō, toransufobia mo ōinode kiwotsukete kudasai. ) — ele repetiu a frase, só que em japonês, eu respirei fundo, eu não morreria, certo? Eu não podia morrer tão jovem e tão longe de casa, seja lá o que fosse "casa"

— 大丈夫です( Daijōbudesu ) — disse que ficaria bem, estava nervoso, mas eu não vim para outro país somente para vegetar na cama, isso eu já fazia no meu país de origem.

— Sendo assim confiarei em ti, você consegue Scara! — ele diz, eu solto um riso fraco e desligo, não fazia a mínima ideia de onde iria, talvez apenas comprar alguma coisa?

Às 11:29 estava pronto para sair, usava uma camisa preta com listras cinzas e uma bermuda de uma mesma tonalidade de cinza com uma estrela branca bordada, também coloquei um tênis preto com meias brancas, passei chapinha no meu cabelo para deixá-lo da forma que queria, apesar dele ser liso naturalmente a porcaria desse cabelo nunca estava da forma como queria, eu fiz uma maquiagem bem no estilo coreano, porém discreta, eu quase nunca saia de casa, não podia sair por ai com cara de acabado! Depois de me olhar no espelho e ter certeza que estava bonito eu sai, levava comigo uma pequena bolsa preta com meu celular, carteira, um isqueiro e uma caixa com alguns cigarros, que mal podia acontecer? Eu sai andando pelas ruas, de primeira vista, não era tão diferente do Japão, com prédios gigantescos e um calor insuportável, mas eu via estabelecimentos coloridos e chamativos, normalmente, no Japão, se algum lugar fosse tão chamativo eu presumida que era um bordel, mas muitas pessoas estavam entrando... ou talvez bordéis sejam famosos no Brasil...? Perguntaria isso para Kazuha mais tarde! Por enquanto eu iria andar por ai e segurar bem a minha bolsa para não perdê-la de vista, eu vi um estabelecimento que parecia menos cheio, tinha um cara até bastante simples, com as paredes em amarelo, uma placa escrito "X FATUIS", eu entrei timidamente e logo vi um homem e uma mulher conversando, a mulher de cabelos brancos com um rabo de cavalo frouxo levava a caixa de bebidas até perto do freezer, ela parecia mais velha, talvez eu chutasse uns trinta anos? Ela também era bastante forte, tinha um piercing labret sombrancelha esquerda e uma tatuagem no braço de um lírio aranha vermelha a qual parecia está lá para esconder uma cicatriz, era bem funda mas as cores vermelhas da tatuagem deixavam a cicatriz imperceptível, se eu gostasse de mulher a acharia bastante atraente, mas ela é intimidadora. Um homem que ela conversava era ridiculamente bonito, tinha lindos cabelos ruivos ondulados, olhos azuis claros como o tão bem falado mar da praia de Ipanema, sardas adoráveis pelo seu rosto que tinha uma pele bronzeada, e céus, tinha músculos fortes que percorriam todo seus braços, costas e até sua coxa, a camisa branca que estava por baixo do avental preto parecia implorar para ser rasgada de tão apertada que estava nos peitos robustos do homem, sua aparência, apesar de forte, sua personalidade parecia doce pela forma que ele ria do que a mulher falava, o ruivo também tinha uma tatuagem de água-viva enorme em seu braço e um piercing na boca, ele até mostrava a tatuagem para mulher com um sorriso orgulhoso, ele era tão lindo, puta que pariu, se no Japão eu encontrasse tão facilmente homens atraentes como esse homem eu já estaria casado a muito tempo.... e olha que eu tenho só 24 anos.

Eu adentrei mais na loja sem olhar muito para eles e peguei o cardápio, eu não estava conseguindo entender bem oque estava escrito... a fonte da letra dificultava um pouco para alguém que tentou aprender português em 1 mês antes da viagem, até a mulher ao meu lado com o crachá escrito "Arlecchino", ela me olhou com seus olhos fixos e assustadores, céus...

— Escolheu oque quer? — ela perguntou de forma ríspida cruzando os braços, eu sequer ouvi oque ela disse corretamente, ela tinha um sotaque puxado para o espanhol tão forte que era impossível compreender, no seu crachá tinha a bandeira da Colômbia, talvez fosse uma sinalização que ela é estrangeira, mas também era assustadora, muito assustadora! Minha ansiedade começou atacar e eu fiquei muito nervoso, como não ficar??? Aquela mulher parecia que iria me comer vivo só com aqueles olhos carmesins!

— Arle! Você está intimidando o garoto... deixa que eu atendo! Ei, ignora a cara feia dela, a pobrezinha nasceu assim. Vamos lá docinho, oque você quer comer? — o ruivo pergunta, empurrando a esbranquiçado que o da o dedo do meio é volta a repor as bebidas e depois vai para os fundos atender uma ligação. Estava só eu e... "Ajax", o que dizia no seu crachá, seus enormes peitos estavam tão próximos do meu rosto que senti que ia sufocar somente de tê-los por perto.

— E-..e-eu... n-n-não sei! — falo com dificuldade e talvez estivesse tremendo, errei a pronúncia inteira da palavra, achei que iria zombar de mim ou rir, ou ser ignorante por descobrir que não sou do Brasil, ele puxou uma cadeira e sentou do meu lado.

— Japonês? Caramba nunca vi um que realmente veio do Japão! Seu rosto é bem fofo, sabia? Precisa de alguma ajuda, japinha? Eu não sou traficante não, pelo menos, não mais. — ele sorri caloroso, oque ele queria dizer com "não mais"??!

— Eu... eu não sou japinha e nem fofo... Para você meu nome é Scaramouche. — disse sendo sério, ele era bonito e encantador, mas não iria cair em seu canto, não vim para o Brasil para me irritar com relacionamentos.

— Esse nome é lindo igual a você, me chamo Ajax. — ele diz sorrindo de forma fofa e me dá a mão para apertar, assim fiz.

— ... Você poderia me ajudar? Essa letra é impossível! — eu comento, ele ri de forma suave, pergunta se eu sabia inglês, após eu dizer que era fluente ele começa a dizer tudo que tem no cardápio, ele tinha o típico sotaque carioca que ouvia da mesma forma em Heizou, embora de forma mais suave, e era uma delícia de se ouvir e tive que me esforçar MUITO para manter o foco no que ele dizia, mas acabei falhando o observando, ele era lindo pra' porra, como alguém assim trabalha em um quiosque do outro lado do mundo ao invés de ser um super modelo estadunidense ou até russo?! Ele realmente parecia ser russo, ou pelo menos ter descendência, isso o deixava mais lindo ainda.

— E então? Qual você quer? — ele me pergunta eu senti um estalo e esqueci de ouvir atentamente o que ele dizia.

— A-Ah... não sei! Escolhe algum que você prefere — eu comento timidamente.

— Claro! É quase meio dia já, oque acha de já almoçar? Eu adoro comer o misto quente daqui, a gente esquenta bem na chapa, coloca mussarela, presunto, para ti eu adiciono até calabresa e boto uns extras, que tal? — ele me pergunta animado, indo atrás do balcão e pegando os ingredientes já que toda a cozinha ficava a vista para os clientes.

— Ah.. talvez não precise de extras, se eu comer muito nesse calor eu passo mal. — eu comento, ele solta uma risada.

— Aqui é realmente quente para quem vêm de fora, compra um protetor solar, esse seu lindo rostinho pálido deve ser conservado, com essa pele branquinha em trinta minutos você fica vermelhinho. — ele me zoa enquanto já colocava o pão na chapa, ele era ágil, devia ser um bom cozinheiro e também era bem conversando. Por que não entrar na onda?

— Por que a tatuagem de água-viva? — eu pergunto, ele olha brevemente para tatuagem e depois sorri de uma forma talvez até... nostálgica?

— Meu irmão mais novo se chama Teucer, ele é neurodivergente e tem hiperfoco em água-viva, ele está em São Paulo agora, é um estado vizinho, eu gosto de fazer isso para lembrar dele, ele é meu único irmãozinho, ele adora a minha tatuagem e sempre pede para tocar nela de tanto que gosta, ahh...saudades da minha casa, faz tanto tempo que não volto para visitá-los. — ele me conta, parecia de outro mundo para mim sentir saudade de casa, minha casa me deixou doente até eu sucumbir e enlouquecer, era estranho alguém sentir saudade de casa, o que era casa? Era para ser um lugar aconchegante? Talvez becos e esquinas na adolescência tivessem sido minha casa, mas foi lá onde achei a maioria dos meus traumas, e o que não estão lá, estão no "lar" que devia me abrigar.

— Não dê brecha para ele, Ajax é um tagarela, tenho três filhos adolescentes e nenhum deles me dá tanta dor de cabeça como Ajax. — a mulher assustadora disse, três??? Okay, ela definitivamente não tinha trinta anos, talvez um pouco mais? Talvez na casa dos quarenta? Embora estivesse, ela estava muito conservada, Ajax faz bico para ela.

— Isso não é verdade! — ele reclama.

— Estou brincando, Ajax, tome conta aqui para mim, eu preciso ir. — a esbranquiçada diz, o ruivo concorda com a cabeça e ela sai apressada.

Sim senhora.— ele diz, parecendo demonstrar respeito  por ela, quando se ouve o sino batendo indicando que a mulher saiu do quiosque. —  Deve ser o filho mais novo dela, o garoto as vezes tem umas crises fortes por conta do autismo e outros problemas, Alercchino parece séria mas é uma mãezona e tanto, aquela cicatriz no braço é porque ela já se envolveu na vida errada, tá' ligado? Ela tem uma cicatriz enorme e fez uma tatuagem de flores para não assustar seus filhos que na época eram crianças. — ele me explica calmamente, logo me entrega o misto quente e uma "latinha" que nunca havia visto. — Isso se chama "guaravitta", não tem gás e é uma delícia, tem muito dele no estado do Rio, para os japoneses fofos é por conta da casa. — ele diz com um sorriso e eu finco meu dedo em uma espécie de papel por cima da lata, que nem era uma lata e sim um copo de plástico com algumas cores.

— A tatuagem dela é da cultura japonesa, significa morte, essas flores crescem em túmulos e os pais falam para as crianças que se levarem uma dessas para casa a residência pode pegar fogo. — eu conto, ele solta uma risada fraca, ele sempre é tão sorridente assim até quando falava falava de coisas sérias?

— Então o japa sabe das coisas, ela provavelmente sabe do significado e deve ter feito de propósito. — ele me conta com um sorriso enquanto me observa comer.

Eu e Ajax conversamos por horas, seu sotaque de "carioca" era uma delícia de ouvir, como se fosse mágico e até mexia comigo, eu falei bastante, apesar que não gostava muito de falar, principalmente com estranhos, aquele garçom era um flertador astuto, um galanteador, se os japoneses tivessem tanta atitude assim... e Ajax ainda não se importava de dar em cima de outro cara de forma tão pública e descarada, isso porquê o cara nem me conhecia direito, o tanto na adolescência que eu já fui o "segredinho" dos homens a qual na frente das pessoas eu não podia nem andar do lado, como um homem a qual morava do outro lado do mundo conseguia ser melhor que os japoneses que conheci doa meus 15 até 24 anos?? O Brasil realmente proporciona vistas e experiências maravilhosas, em certo momento ele olha para o céu e fica sério de repente.

— Está de noite. — ele diz, eu levo um susto, a noite??! Eu não podia ficar tanto tempo assim... ainda com uma bolsa! Okay eu seria assaltado, morreria como indigente em um país desconhecido e minha mãe iria se arrepender de ter me dado traumas para eu acabar nessa situação! Minha cara de espanto deve ter sido óbvia pois ele pegou minha bolsa e colocou no ombro, me dando um sorriso. — Eu te levo em casa, acredita em mim, se eu andar do seu lado ninguém vai se quer olhar você. — ele fala convencido, eu não tinha oque perder, então me levantei e fui andando ao seu lado, quando saímos do estabelecimento ele segurou minha cintura, ele era tão abusado mas ao mesmo tempo isso era muito bom, eu estava adorando receber essa atenção, eu nunca mais quero sair do Brasil, sua mão era calejada com algumas veias e cicatrizes e era definitivamente sexy, quando questionei da mão na cintura ele mandou eu confiar nele, e bem, eu confiei... conversa vai e vem, ele falava sem parar de sua família e amigos, eu conversava  também, as vezes me dava um aperto quando ele jurava que eu era cis, eu tinha medo de dizer que era trans para ele, se ele me tratasse mal de repente?? O Kazuha fez questão de dizer que os brasileiros são ruins ainda menos que os japoneses, a minha vida toda sempre que sabiam que não era biologicamente homem eu era atacado até por pessoas lgbt, mas Ajax parecia tão gentil e simpático... seu sorriso era fofo e caloroso, seus olhos azuis eram um mar calmo e pacífico, sua risada era tranquilizante e seu toque mínimo uma massagem que me relaxava, quando menos notei e quis estávamos em frente ao meu hotel a qual no meio da conversa dei o endereço, estava frustrado de ter que ir, mas hoje a minha primeira "aventura" pelo Brasil havia chegado ao fim.

— Quer que eu suba para te ajudar? — ele diz com um sorriso, eu não entendo bem o jeito que ele falou, ajudar com o que?

— Não precisa, obrigado pela sua ajuda, Ajax. — eu me curvo e entro para o hotel, sem se quer pedir seu número, não havia lembrado desse detalhe, mas algum momento o encontraria.

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