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Silêncios que não doem

Summary:

Quando Jasper sai para uma missão de última hora ele não esperava que iria reencontrar alguém do seu passado. Também não esperava voltar a ouvir aquele maldito nome tão cedo, mas parece que hoje as coisas não estão a acontecer como Jasper esperava.

Ou

Onde Jasper sai para uma missão urgente onde reencontra alguém ligado ao culto dos seus pais, alguém que não conhecia Jasper por esse nome.

Work Text:

A disforia para Jasper sempre se manifestou como um cansaço de existir fisicamente. Não era exatamente tristeza, nem raiva, era o esforço. O esforço de sustentar uma coisa ou algo que nunca se encaixava completamente, um desconforto sempre presente, um peso.

Quando Jasper saiu de casa não pensou que teria que lidar com ela hoje. Não pensou nisso quando foi chamado à última da hora para uma missão, nem quando Arthur passava os detalhes da missão para ele e para um grupo de agentes com quem ele nunca tinha conversado, mas que já conhecia de vista. Não pensou nisso enquanto arrumava as coisas na carrinha com o resto da equipa, nem quando finalmente chegaram no local.

Era uma missão simples, que estava bastante abaixo das capacidades de Jasper, mas estavam com falta de agentes na base, pois a maioria estava ocupada com outras missões em lugares muito mais distantes.

O objetivo era fazer o reconhecimento e descobrir o motivo da membrana se encontrar mais fina nesse local. 

O grupo de agentes parou numa zona industrial abandonada, cheia de vários armazéns que não deveriam ser usados há alguns anos. Era uma zona consideravelmente grande, mas não era muito complicado encontrar o armazém correto, afinal era o único sítio que continha uma ligeira névoa. Supostamente não seria nada muito complicado, já que a névoa não era tão densa assim, como seria típico de lugares com uma atividade paranormal intensa.

Jasper saiu da carrinha, que ficou estacionada um pouco mais distante, junto com o resto do grupo. As foices presas em ambos os lados do corpo por correntes e pronto para terminar esta missão o mais rápido possível e ir para casa. 

Se a missão fosse rápida talvez conseguisse chegar a casa a tempo de preparar o jantar para quando Remi chegasse. O namorado tinha saído de manhã cedo para uma reunião com o Veríssimo sobre algo importante, uma missão pelo que Jasper tinha entendido, mas ele também não tinha prestado muita atenção. Aquilo que ele sabia, no entanto, é que estava cansado e queria passar o resto da noite abraçado no sofá com o namorado, depois de ambos terem tomado um banho quente muito merecido.

O albino suspira e começa a caminhar em direção ao armazém da forma mais discreta e silenciosa possível. Esperava que a missão realmente não demorasse.

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Como imaginava, a missão tinha sido rápida. O armazém estava realmente a ser utilizado como um local para realizar rituais e guardar alguns itens amaldiçoados, talvez para venda, quem sabe.

Tudo estava a ir exatamente como deveria. As últimas pessoas que pertenciam a este grupo e que estavam presentes estavam a ser amarradas e a ser levadas em direção à carrinha. Isso significa que só faltavam alguns minutos e Jasper poderia dar o dia como terminado.

O loiro não estava realmente a prestar atenção nas caras das pessoas que estavam no armazém, agia no piloto automático. Enquanto amarrava um dos últimos indivíduos presentes levantou o olhar para o rosto deste, e foi quando o reconhecimento passou por ele. 

Ele já tinha visto este cara antes, muitos anos atrás, quando uma das únicas coisas que conhecia eram o medo, a vontade de sobreviver e o sentimento de proteção para com Elisa, a sua irmã, que não via desde que tinham saído daquele inferno. Desde que ele os tinha tirado daquele inferno.

Ele não foi o único que parou em espanto. Demorou mais para aquele desgraçado o reconhecer, já que Jasper tinha mudado bastante desde aquela época, mas quando viu os olhos daquele indivíduo se arregalarem em choque foi quando tudo deu errado.

Porque não foi só o espanto, foi aquele nome. Aquele nome que Jasper não utilizava mais, que não ouvia desde que os seus pais tinham morrido, desde que Jasper os tinha matado a tiro, desde que ele e a sua irmã tinham escapado daquela vida, daquele inferno.

Não era suposto aquele nome voltar a ser utilizado, não em direção a ele pelo menos. Já não havia ninguém que o utilizasse, pelo menos ninguém que estivesse vivo.

O albino congelou quando ouviu, não só se sentia errado, como uma avalanche de memórias se abateu sobre ele.

Devia estar assim há algum tempo, pois um dos seus companheiros de equipe colocou a mão no ombro dele para o trazer de volta à realidade. O corpo de Jasper parecia bem mais pesado do que antes, e estava a sentir-se muito mais desconfortável naquelas roupas, mas não era a hora de deixar aquele homem o desestabilizar, se havia uma coisa que podia fazer naquele momento era tomar de volta o controle sobre a situação. Era a única coisa naquele momento que poderia ajudá-lo a sentir-se no controle do próprio corpo de novo.

Foi por isso que se levantou e arrastou aquele fantasma do seu passado para a carrinha, onde ficaria junto dos seus amigos que também iriam presos. 

A viagem de volta para a Ordem passou como um borrão, cheia de memórias sobre o passado, não só a sensação de cansaço, não, bem mais do que isso. O afogamento bem presente na mente de Jasper. 

Foi por isso que nem percebeu quando chegou a casa quarenta minutos depois. Não percebeu que tinha tirado os sapatos e o casaco à porta. Não percebeu que estava parado na entrada com a porta fechada há já cinco minutos.

Estava em casa, aqui não havia uma fachada para manter, pelo quê ser forte, não havia o porquê disfarçar. Este final de dia tinha sido uma merda e o loiro podia finalmente se deixar sentir tudo isso.

A disforia veio inteira dessa vez, na forma de uma exaustão acumulada. O corpo finalmente teve tempo de sentir e processar os acontecimentos daquele dia.

Jasper deslizou até sentar no chão, porque ficar em pé exigia mais esforço do que ele tinha energia para sustentar. Aquele maldito nome voltou, não como som, mas como peso. O peso não só do passado dele, mas também de um corpo que parecia que não lhe pertencia, um corpo que não parecia dele para controlar. 

E muitas vezes Jasper não queria controle, não precisava dele, na realidade gostava de o entregar aos outros. Seguir ordens era algo em que ele era bom.

Mas hoje era essencial, depois de tudo o que tinha acontecido hoje, ele precisava da sensação de controle sobre o próprio corpo, sobre a própria vida. E ele tinha conseguido manter esse controle durante a volta, mas agora que estava sozinho não.

Afinal não era só a sensação de peso, era a sensação de sufocamento, como se estivesse a ser afogado de novo.

O que Jasper precisava agora não era resolver isso, era tempo, tempo para processar o que tinha acontecido, tempo para o corpo parar de reagir a algo que já tinha passado. E foi por isso que Jasper ficou ali, parado, a sentir o frio do chão na pele, uma forma de se conectar com o presente.

 

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Deve ter passado uma hora até a porta da frente se abrir lentamente e Remi entrar em casa.  Jasper continuava no chão da sala, não caído, mas como se estivesse ali por falta de energia para sustentar outra posição.

Remi parou por um instante, e observou a forma específica de segurar o próprio corpo que Jasper só usava quando algo tinha passado dos limites.

— Ei, meu amor - Remi aproxima-se devagar e senta-se ao lado de Jasper. Próximo, mas ainda com algum espaço entre eles caso o toque não seja bem vindo. 

Jasper levantou os olhos, mas não respondeu, não precisava, o olhar já dizia que qualquer pergunta seria pesada demais. O silêncio não era vazio, não era desconfortável, era o necessário.

Remi encostou as costas na parede e, depois de alguns segundos, colocou a mão no chão voltada para cima no meio do espaço entre os dois. Um gesto que já tinham feito em muitas outras ocasiões. Quando queriam demonstrar o afeto um pelo outro em público de forma discreta, ou até em situações como esta.

Jasper olhou para a mão entre eles e depois de avaliar se o contacto seria bem-vindo ou não, colocou as pontas dos dedos em cima da mão.

O corpo ainda estava errado, aquele nome ainda estava presente, tal como as memórias, mas não houve perguntas excessivas, não houve exigência por uma explicação. Remi não disse “vai ficar tudo bem”, não disse “o que aconteceu?”. Ele simplesmente ficou.

Após alguns minutos o albino finalmente encontrou a sua voz de novo.

-Vamos para um sítio mais confortável?

-Claro, vem Jasmin - Remi ajuda o loiro a levantar-se do chão e finalmente dirigem-se para o sofá.

O moreno liga a televisão num programa de desenhos animados que sabe que o albino gosta, pega um cobertor que está em cima de uma poltrona logo ao lado e aconchega o namorado no sofá enquanto se dirige para a cozinha.

-Vou fazer algo para comermos. Alguma preferência?

-Só uns ovos mexidos com torrada está bom - não é como se Jasper estivesse com tanta fome assim depois do dia que teve de qualquer maneira.

Alguns minutos depois o namorado aparece na sala com dois pratos e duas canecas de chá para os dois, coloca as coisas na mesinha bem em frente a eles e aconchega-se no sofá ao lado de Jasper. Era exatamente disso que ele precisava. 

Amanhã ele voltaria a funcionar e explicaria o que tinha acontecido, amanhã quando as coisas não estivessem tão recentes, quando não estivesse marcado na memória dele. Hoje ele só precisava sobreviver ao próprio corpo e às próprias memórias, mas não precisava fazer isso sozinho, e agora ele lembrava-se disso, enquanto se aconchegava mais perto do namorado e sentia os dedos de Remi passarem no seu cabelo. Ele estava seguro agora.