Work Text:
Oscar nunca se questionou há quanto tempo o jardim existia, mas sabia que existia antes mesmo de haver um nome para ele. Crescia quase em total silencio – seus sussurros cantantes podiam ser ouvidos vez ou outra –, protegido por paredes antigas e vidro embaçado por toda parte, havia algo no ar que fazia-o sentir que o tempo decidira passar mais devagar ali dentro. Oscar tinha cansado de ouvir, durante seus estudos, que orquídeas eram flores delicas, mas aquelas não eram. No santuário, elas nasciam de memórias intensas e já vividas: era o que sempre lera nos registros.
Gostava do seu trabalho no Santuário de Orquídeas Memórias, era simples: catalogar, cuidar, observar, sentir o que cada uma significava. Cada flor tinha uma origem emocional diferente e clara: havia as do luto e suas cores extraordinárias e escuras; O amor e suas variações de tons quentes; A culpa era sempre tão branca que parecia assombrar a estufa com suas pétalas fantasmagóricas; Promessas quebradas trazia marrom e amarelo em cada pequeno cacho elegante. Tantas outras decoravam o lugar. Oscar não julgava nenhuma delas, apenas as preservava. Era mais fácil lidar com dores e alegrias dos outros.
Foi numa manhã comum que ele percebeu algo errado.
Entre duas orquídeas antigas, havia um caule novo. Jovem e forte, mas crescendo onde nenhuma lembrança vivenciada deveria estar, tão pouco registrada pela magia da estufa. Oscar a tocou com os dedos desnudos – como sempre fazia quando queria sentir a origem da lembrança –, a pulsação estava lá, mas tinha algo estranho. A sensação era vivaz além do esperado para o tamanho e a dormência que alastrou por seu braço causou-lhe um estranho reconhecimento, um calor que não vinha dos raios de sol contra o vidro.
Não era uma memória passada. Ele saberia. Aquilo… ainda não tinha acontecido.
A ideia o perseguiu pelo resto do dia como um erro de cálculo impossível de ignorar. Orquídeas não nasciam do futuro. Não deveriam.
Foi nesse mesmo período de esquisitices que o outro homem apareceu.
Era fim de tarde, e Oscar terminava de checar as últimas remeças de adubo, quando a sineta que ficava sobre a porta tocou. O homem era alto e esguio, cabelos louros curtos, mas que cobriam um pouco a testa, um resquício de barba aloirada contornava o rosto, ele vestia roupas casuais e frescas para um verão inglês.
Não houve longas explicações nem pedidos formais demais. Disse que estava de passagem, que pesquisava lugares esquecidos ou que sentia serem diferentes, para contar histórias há muito esquecidas. Chamava-se Logan, e havia algo leve nele – no jeito de andar, de observar o espaço – que Oscar apreciou de cara.
Conversaram pouco no começo, descobrindo a presença um do outro. As flores e o Santuário eram sempre o maior assunto. Ainda assim, Oscar sentia a magia nas mãos formigar sempre que estava próximo de Logan, e a sensação fez com que percebesse detalhes demais no outro: as mãos inquietas, a voz naturalmente baixa, o cuidado ao se aproximar das flores. Algo nele se encaixava desconfortavelmente bem na sensação deixada pela orquídea impossível.
Com o passar dos dias, dividiram o silêncio enquanto trabalhavam lado a lado. À noite, sentavam-se próximos demais para que fosse casual, examinando desenhos científicos e registros datados de séculos passados. Às vezes, quando o calor era tanto na estufa, Oscar e Logan caminhavam pelo extenso gramado, rindo e compartilhando memórias que insistiam que deveriam ter sido esquecidas, e compartilhando que nunca haviam tinha uma memória forte o bastante para gerar uma orquídea.
Enquanto isso, a orquídea mudava.
O botão crescia lentamente, ganhando relevos e cor. Outra coisa incomum era o perfume, muito leve e fresco que começou a se espalhar pela estufa: normalmente as orquídeas de memória não tinham cheiro. Oscar se atreveu a toca-la novamente em um momento que Logan não estava por perto, e de olhos fechas, os fragmentos vieram mais claros à mente: um homem, dois, uma conversa, frações de peles claras se tocando, silêncios compartilhados.
Não demorou para entender: aquela flor guardava uma memória que envolvia aquele homem, os dois.
Oscar dificilmente se sentia apavorado após uma leitura de flor, havia estudado e aprendido a controlar sua emoção e magia, mas não tinha aprendido sobre nada daquilo, sobre ler uma orquídea do futuro e que trazia fragmentos seus. Se o futuro já estava escrito, então o que restava a ele? Deveria apenas caminhar em direção ao que já estava feito?
No outro dia, acordara disposto a contornar a situação: se afastaria de Logan, reduziria as conversas, mudaria seus horarias e tentaria permanecer assim até que o homem resolvesse ir embora.
Dois dias depois a orquídea respondeu murchando.
As pétalas ainda fechadas escureceram levemente. O caule perdeu firmeza. Era como se a flor sentisse a negação, como se a memória futura estivesse sendo rejeitada antes mesmo de nascer. Ele entendeu, então, que fugir não apagava o destino, apenas o feria.
Não demorou muito mais tempo para que fosse confrontado. A pergunta veio simples, mas certeira: “Qual é o problema, Oscar?”, e Oscar não conseguiu sustentar o olhar de Logan. O ar pesado gritava que algo precisava ser dito, que algo deveria ser feito. As mãos de Oscar tremerem ao lado do corpo quando percebeu que o momento estava próximo, que se alinhava demais com o que a flor mostrara.
Quando conseguiu sair do torpor, ergueu suas mãos e tocou nos braços de Logan, a pele quente encheu seu corpo de energia. Oscar hesitou. Por um segundo, pensou se deveria mesmo repetir o que a memoria previu, em obedecer. Deveria deixar que o futuro se cumprisse como um ciclo fechado.
Mas não o fez.
Mudou o gesto, mudou o que vira. Mudou para escolher o que estava sentindo no momento, pelo calor de Logan, pela cor adoravelmente rosada em seu rosto, pelo que tinham criado no último mês. Se era destino ou não, não faria o que tinha visto.
Quando os lábios se tocaram, Oscar sentiu seu corpo derreter contra Logan, contra as mãos que o seguravam pela cintura. Logan tinha o gosto leve que a flor exalava, mel e algo cítrico. O sorriso que soltou durante o beijo surgiu tão espontâneo que arrancou um suspiro do peito e outro e outro beijo.
No dia seguinte, a orquídea havia florescido.
Para sua surpresa e de Logan, suas pétalas estavam com outra tonalidade e seu perfume parecia uma mistura de ambos. Quando a tocou, a flor não guardava mais a memória futura definida, eram inúmeras possibilidades, inúmeros fragmentos.
Oscar sorriu ao perceber que memórias não eram prisões. Eram sementes. E algumas só precisavam de coragem para crescer.
Entre memórias e orquídeas, ele percebeu que havia possibilidades além da estufa.
