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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2026-01-25
Updated:
2026-03-31
Words:
3,357
Chapters:
2/10
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1
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17
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222

Entre Camadas de Tinta

Summary:

Eduarda Fragoso é curadora e sabe que entender o artista é tão importante quanto entender as obras. Lorena Ferrette é artista e acaba de conquistar espaço na galeria rival. Quando se encontram, diferente dos outros, Eduarda enxerga Lorena primeiro como pessoa. O interesse pela arte de Lorena nasce profissional, mas aos poucos deixa de ser apenas sobre a obra e passa a ser também sobre a artista.

Chapter 1: Antes da Obra

Chapter Text

A chuva tinha passado há pouco. No cair da noite, São Paulo parecia respirar pela primeira vez. O ar trazia um frio leve, ainda úmido, depois da pancada de chuva no fim da tarde.

Eduarda estacionou o carro onde foi possível, uma quadra antes da galeria. Desligou o motor, mas não saiu. Ficou sentada, com as mãos soltas sobre o volante, ouvindo o tique-tique metálico do motor esfriando. O vidro ainda aberto deixava entrar o cheiro de asfalto molhado. Conferiu a bolsa sem necessidade. Celular. Chaves. Batom. Tudo estava ali.

Gostava do que fazia. Gostava mesmo. Mas odiava esses jantares.

Eram encontros de turma de caráter institucional. As mesmas pessoas orbitando os mesmos grupos, repetindo conversas com pequenas variações. Galeristas, artistas, curadores, convidados estratégicos. Todos sorrindo com cuidado. Todos avaliando com discrição uns aos outros. Um espaço onde cada gesto parecia anotado mentalmente por alguém.

Chamavam de networking.

Eduarda sempre achou que parecia mais uma competição silenciosa, onde ninguém declarava guerra, mas todos mantinham as armas carregadas.

Saiu do carro finalmente, fechando a porta devagar. Ajustou o casaco e começou a caminhar. O salto baixo batia no asfalto ainda úmido, um som seco que se dissolvia rápido na noite.

Antes mesmo de entrar decidiu que ia embora cedo. Ao atravessar a porta vermelha da galeria, Eduarda ativou o piloto automático. Um sorriso leve, socialmente aceitável. Ombros relaxados. Passos seguros. Hora do show.

O jantar ainda não tinha começado oficialmente. Essa era a pior parte. O intervalo entre a chegada dos convidados e a mesa. O momento de circular com a taça na mão, ocupando o espaço sem propósito algum.

Fez seu checklist mental: Primeiro, bebida. Segundo, localizar rostos conhecidos. Terceiro, entrar em alguma roda antes que alguém desconhecido a capturasse com uma conversa maçante. Funcionava quase sempre.

Reconheceu metade das pessoas logo ao entrar. Rostos familiares ocupando posições em rodas de conversas previsíveis. Cumprimentou alguns conhecidos, trocou frases neutras e acenos de cabeça tímidos e aceitou uma taça de vinho branco no exato momento em que ouviu seu nome.

— Eduarda!

Virou-se antes mesmo de localizar a voz. Era Maggye.

O alívio foi imediato, como afrouxar discretamente um cadarço do sapato apertado demais.

— Você finge muito bem — disse Maggye, rindo. — Se eu não te conhecesse, diria que você queria estar aqui.

Eduarda soltou o ar devagar, teatral, mas não totalmente.

— Eu só odeio fingir que a gente não se odeia o resto do ano. — disse, olhando ao redor. — Todo mundo compete o tempo inteiro. Hoje finge que não.

Networking, Juquinha — Maggye provocou, com o sorriso leve de quem repete uma piada antiga, mas ainda gosta dela.

— Seus pais não me pagam o suficiente pra isso — Eduarda respondeu, e dessa vez o sorriso veio com menos esforço.

Maggye acompanhou o olhar dela pela sala, como quem observa o mesmo mapa.

— A Galerie Lenoir veio em peso hoje — comentou, casual, mas com aquele tom levemente conspiratório que sempre antecedia alguma informação relevante. — Estão comemorando alguma coisa. Só preciso descobrir o motivo.

Eduarda fez um som neutro, levando a taça à boca mais para ganhar tempo do que por vontade. O vinho estava gelado demais, ácido, e deixou um rastro seco na língua.

Maggye inclinou-se um pouco mais perto, o perfume cítrico misturando-se ao cheiro leve de madeira do ambiente.

— Só pra te avisar… a Mariana está aqui.

Eduarda ergueu uma sobrancelha antes mesmo de processar o nome. O corpo reagiu primeiro, ajustando a postura num movimento mínimo, quase invisível.

Virou discretamente. Encontrou-a do outro lado da sala, ocupando o espaço com naturalidade. Mariana falava com duas pessoas ao mesmo tempo, gesticulando com precisão elegante. Parecia confortável, como alguém que nunca duvidou do próprio lugar. Estava linda.

Eduarda observou por um segundo a mais do que deveria.

— Claro que está — disse, baixo.

— Ela continua igual — Maggye comentou. — Impecável. A Lenoir adora isso.

Eduarda não respondeu, só desviou o olhar e voltou a observar a sala ao redor.

Maggye apertou seu braço com leveza, num gesto rápido de solidariedade, e foi puxada para outra conversa.

Foi só então que Eduarda reparou nela.

Estava alguns passos à esquerda, parcialmente isolada. Segurava a taça com as duas mãos, mas não por nervosismo evidente. Era delicada. Riu de algo que alguém disse, passando a mão pelos cabelos escuros. As covinhas surgiram rápidas, quase tímidas, e desapareceram antes de se tornarem um gesto completo.

Havia um cuidado excessivo na forma como ocupava o espaço. O olhar demorava meio segundo a mais em cada rosto antes de responder, avaliando o terreno antes de avançar. Ela olhava no olho para falar. Não tinha receio, mas sim um cuidado.

Não parecia desconfortável. Apenas alerta. Como uma onça que acabou de entrar em território desconhecido, mas decidiu não recuar.

Eduarda percebeu que estava observando demais. Levou a taça à boca, disfarçando. Quando baixou o copo, os olhos da outra mulher já estavam sobre ela.

O encontro foi direto, limpo, sem hesitação.

Eduarda não desviou.

Não houve sorriso. Não houve constrangimento. Apenas uma espécie de reconhecimento silencioso, difícil de nomear, como quando duas pessoas percebem ao mesmo tempo que dividiram a mesma ideia, mas nenhuma disse em voz alta.

Lorena desviou primeiro.

Não rápido o suficiente.

 


 

Lorena voltou a atenção para a conversa à sua frente, mas as palavras que escutava pareciam chegar um pouco atrasadas, como se atravessassem água antes de alcançá-la. Assentiu no momento errado, riu meio segundo depois do comentário, e percebeu que tinha perdido o fio da meada. Pediu licença com naturalidade, apontando discretamente para o corredor, e saiu com passos medidos, nem rápidos demais, nem lentos o suficiente para chamar atenção.

No banheiro, apoiou as mãos na pia fria. A superfície de mármore devolveu um frio imediato à pele. Respirou uma vez, profunda, sentindo o ar entrar com mais peso do que o necessário. Não era nervosismo propriamente dito, mas apenas a consciência total de estar ali por um motivo novo: primeiro jantar depois da assinatura com a Galerie Lenoir. A conquista ainda parecia grande demais para caber com naturalidade dentro dela.

“Agora vai”, tinha pensado nos primeiros dias. Como se alguma engrenagem finalmente tivesse se encaixado depois de muito girar em falso.

No espelho, ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. O gesto não mudou nada, mas serviu como ponto final. Lavou as mãos. A água fria trazendo-a para a realidade. Endireitou a postura e voltou.

A sala parecia levemente diferente, como se tivesse se reorganizado enquanto ela esteve fora. Maggye chamava todos para a mesa com uma eficiência quase coreografada. De fato, uma ótima anfitriã. As conversas se dissolviam sem resistência enquanto as pessoas se moviam em pequenas levas silenciosas em direção à mesa grande.

Eduarda esperou antes de se mover. Observou o fluxo, como quem escolhe o momento de atravessar uma rua movimentada. Lorena retornou do corredor exatamente nesse intervalo. Restavam dois lugares.

Sentaram lado a lado por acaso, daqueles que nenhum gesto humano é capaz de abolir.

Lorena hesitou antes de puxar a cadeira. Eduarda afastou a sua um pouco mais, abrindo espaço para Lorena se acomodar, mas sem olhar diretamente para a morena. Um gesto mínimo, quase invisível, mas gentil e suficiente para dissolver a hesitação.

— Esses jantares são sempre assim — disse Eduarda, em voz baixa, se acomodando, olhando para frente. — O começo é pior.

Lorena virou o rosto, surpresa, como se tivesse sido flagrada em pensamento.

— Dá pra perceber?

Eduarda negou com a cabeça e então a olhou, com um leve sorriso que não chegava a ser irônico. Os olhos grandes da ruiva pareciam enxergar tudo.

— Seu segredo está a salvo comigo.

O sorriso apareceu primeiro nos olhos de Lorena, depois na boca, pequeno, aliviado, como quem aceita ajuda sem admitir que precisava. Ali estavam as covinhas novamente.

— Lorena Ferette, prazer — disse, estendendo a mão.

— Eduarda Fragoso.

As mãos se tocaram. Um contato breve, formal, mas com aquele instante microscópico em que nenhuma das duas soltou imediatamente. Não houve reação visível de qualquer parte, apenas um leve silêncio que se acomodou entre elas antes da conversa continuar.

— É meu primeiro — Lorena acrescentou, ajeitando o guardanapo no colo. —  Oficialmente. Ainda estou aprendendo.

— Artista? Curadora? Marchand?

— Artista. Assinei recentemente com a Galerie Lenoir.

Eduarda assentiu com um gesto pequeno. Tentou não demonstrar surpresa, mas algo no seu rosto se reorganizou. A sobrancelha arqueou muito brevemente.

— Corajosa — disse, depois de um instante.

Lorena soltou uma risada curta, mais ar do que som. Esperava esse tipo de reação.

— Não é tão ruim. Eu juro. Nada é fácil no começo, eu acho.

Eduarda olhou para ela então, com mais atenção.

— Eu sei. Estou brincando. Trabalho aqui na galeria dos Damatta, então preciso manter o tom de rivalidade — disse com um sorriso.

Lorena desviou o olhar enquanto os ombros desciam meio centímetro.

O prato principal ainda não tinha chegado quando a conversa ao redor se dissolveu em pequenos núcleos. Eduarda apoiou o cotovelo na mesa, girando a taça lentamente, observando o vinho desenhar um círculo irregular nas bordas.

— Que tipo de trabalho você faz? — perguntou.

Lorena demorou um instante antes de responder, como se tentasse traduzir algo que não cabia bem em palavras.

— Pintura, principalmente. Não sei dizer bem o que é… é meio natural, eu acho. Bem gestual, talvez. As figuras aparecem e somem. Eu só desenho o que estou vendo… ou o que eu acho que estou vendo. — fez uma pausa curta. — E eu uso texto às vezes. Frases soltas. Coisas pessoais.

Sorriu, quase constrangida, como se a explicação tivesse exposto mais do que pretendia. Ainda não sabia descrever bem sua “arte”.

Eduarda inclinou levemente a cabeça.

— Bem Tracey Emin da sua parte.

Lorena abriu um sorriso surpreso, quase aliviado.

— Nossa… não tem nem comparação. Eu amo o trabalho da Emin. Se meu trabalho fosse algo próximo do dela… — hesitou, procurando a formulação certa. — Na verdade, acho que é isso. Minhas inspirações são ela e a Cecily Brown talvez. Gosto da Brown pela pintura acontecendo… meio caótica. E a Emin pela parte confessional. Eu gosto quando parece que a tela não está resolvida.

Eduarda acompanhava sem interromper, o olhar atento.

— Como se você tivesse parado de pintar não porque a tela terminou, mas porque já disse o que tinha que dizer ali.

Lorena assentiu, imediata.

— Isso.

Eduarda girou a taça devagar.

— Você trabalha mais com o quê na galeria? — perguntou Lorena.

— Curadoria e acompanhamento de artistas. Um pouco de tudo. — respondeu Eduarda. — Mas acabo tendo minhas preferências.

Fez uma pausa curta.

— Gosto de pintura que parece silenciosa, mas que não é. Tipo a Agnes Martin. Aquela coisa minimalista, quase nada acontecendo, mas se você fica tempo suficiente… tudo muda. Ou alguns trabalhos mais frios do Gerhard Richter. Tem emoção ali, mas ela fica atrás de uma superfície.

Lorena assentiu devagar, reconhecendo um território que não é o seu, mas respeitando a escolha.

— Eu entendo. Mas eu sempre fui puxada pro oposto. Coisas mais… instáveis. Parece que a pintura está acontecendo na sua frente, não depois.

Eduarda sorriu, interessada.

— Faz sentido. Você tem essa energia.

Lorena riu, e havia algo de verdadeiro no riso.

A conversa da mesa seguiu, mas as duas criaram uma espécie de linha paralela, discreta. Eduarda não dominava o diálogo, mas intervinha no momento certo, introduzindo Lorena quando necessário, puxando assuntos que a incluíam naturalmente. Era uma presença silenciosa, quase estrutural, como uma viga que sustenta sem aparecer.

Quando as sobremesas chegaram, a mesa já tinha se fragmentado em conversas menores. Eduarda percebeu que não estava mais com pressa. Lorena falava com mais fluidez agora, os gestos menos contidos, o olhar mais direto.

— Se quiser ver o ateliê algum dia… — disse Lorena, deixando a frase suspensa.

Eduarda demorou um segundo a mais do que o necessário.

— Claro.

Trocaram contatos. O gesto foi simples, mas carregado daquela formalidade leve que tenta disfarçar interesse.

Quando se levantaram, veio o instante incerto da despedida. Eduarda vestiu o casaco devagar demais. Lorena ajeitou a bolsa no ombro, repetindo o gesto duas vezes sem perceber. Hesitaram entre o aperto de mão e o abraço, mas Lorena decidiu primeiro. Aproximou-se, passando o braço pelo ombro de Eduarda. O contato foi breve, mas mais próximo do que o protocolo exigia.

— Bom te conhecer — disse, sincera.

— Igualmente. A gente se fala.

Do lado de fora, a rua estava ainda mais fria. A cidade parecia suspensa num intervalo silencioso.

Eduarda caminhou até o carro com uma sensação leve de inquietação. Antes de ligar o motor, segurou o volante e soltou um riso baixo, quase envergonhado.

Não tinha sido um dos piores jantares.

Lorena permaneceu alguns segundos diante da galeria, olhando o novo contato salvo no celular. Passou o polegar sobre o nome. Depois bloqueou a tela e levantou os olhos para a rua, sentindo que algo pequeno, quase imperceptível, tinha se deslocado dentro dela.