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alien blues

Summary:

— Você não vai entrar na água? — Mike perguntou, estando metros adiante. A água estava a altura de sua barriga, enquanto Will continuava parado na parte rasa, exatamente onde tinha entrado minutos antes. Ele acenou negativamente com a cabeça. — Por que, Will? Tá tão calor… Tem medo de entrar?

Will assentiu e desviou o olhar. Mike o encarava intensamente demais, aquilo estava embrulhando seu estômago e ele não podia mais sustentar o contato visual.

— Você não sabe nadar? — questionou novamente, e Will deu de ombros. — Bom, tá tudo bem, eu posso te ensinar a nadar se quiser. Eu já ensinei minha irmãzinha, a Holly. Sou bom nisso. Prometo não deixar você se afogar!

ou

Onde, no verão de 1986, Will Byers conheceu Mike Wheeler e se apaixonou pela primeira vez. Em meio às tardes que passavam juntos e às aulas de natação, Will descobriu que um garoto transgênero poderia ser amado exatamente como era.

Notes:

olá! essa é a minha primeira publicação no ficdom de byler e confesso que estava bem ansioso para fazer esse debut. antes dos leitores iniciarem a leitura, gostaria de fazer um esclarecimento:

deixo claro que a fanfic se passa em um universo alternativo, e nesse universo o Will é um garoto transgênero. durante a narração, eu não vou tratá-lo no feminino em nenhum momento e sequer estabelecer um nome morto para ele. no entanto, os personagens que convivem com Will irão, por exemplo, usar pronomes como "ela" dirigindo-se a ele, uma vez que ele não é assumido para a família e essa é uma parte importante para a construção da narrativa.

era isso! espero que tenham uma ótima leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Diga o meu nome

Chapter Text

"The sun is fun, the land is dandy

I only talk to dogs because they don't understand me

My teeth are yellow, hello world

Would you like me a little better if they were white like yours?"

Alien Blues by Vundabar

 


Hawkins, Indiana, Estados Unidos

15 de junho de 1986

 

William. Esse foi o novo nome que escolheu para si. William Byers.

O motivo poderia parecer tolo para aqueles que não compreendiam a maneira como Will pensava. Era um espírito livre e criativo, gostava de deixar seus pensamentos viajarem pelos reinos mais longínquos e os prados mais floridos que sua mente podia imaginar. A ficção sempre fora uma de suas amigas mais íntimas — resgatava-o do caos quando o resto mundo parecia ter o abandonado lá.

Dentre as histórias que mais gostava, “A Volta ao Mundo em 80 Dias com Willy Fogg” era uma de suas preferidas, e escolheu o nome Will justamente porque tinha um apego muito grande ao personagem protagonista. Muitos diziam que ele era velho demais para assistir a animações, afinal, já tinha 15 anos, mas Will não ligava e assistia mesmo assim. Ninguém nunca iria compreender o significado que isso tinha para si, sequer tinham visto quantas vezes Will havia se sentido melhor após ter um dia horrível por conta daquela animação. A escolha era dele e de mais ninguém — significava o mundo para ele e era somente isso o que importava.

Sentia-se bem desta maneira. Ele era William, nada mais.

Will pensava nisso enquanto estava sentado sobre uma rocha, à beira do lago nos fundos de sua nova casa, o sol se pondo entre as árvores. Havia passado toda a tarde ali, e seus braços e pernas coçavam graças à picadas dos mosquitos que rodeavam a grama e ao bosque. Sua pele, normalmente pálida, começava a ficar bronzeada por conta da quantidade de sol que estava pegando desde que tinham ido morar na nova casa. Os pés estavam descalços, vestia uma bermuda vermelha velha e uma camiseta amarela listrada dois números maior do que seu tamanho, cuja gola era grande demais e ficava desengonçada no pescoço, mostrando mais dos ombros do que ela deveria. No seu colo, um livro qualquer de sua coleção estava negligenciado há pelo menos uma hora enquanto ele atirava pedras no lago apenas para vê-las quicando sobre a água e depois afundando à distância com uma concentração admirável.

Estava mortalmente entediado, não havia nada interessante para fazer durante suas férias. Já tinha lido todos os seus livros, sua bicicleta estava com o pneu furado e Will não sabia consertar, não tinha nenhum amigo na nova cidade (nem na antiga, na verdade) e Jonathan, seu irmão mais velho, passava todo o tempo procurando emprego e sua mãe, trabalhando. Havia o lago, mas ele não sabia nadar, e seus desenhos, mas já tinha praticado tanto nos últimos tempos que as ideias se esgotaram. Os dias eram longos, quentes, chatos e solitários. O verão continuaria sendo uma tortura e apesar de odiar ir para a escola, até a volta às aulas parecia mais agradável do que sufocar até a morte naquele tédio insuportável.

Ao menos, era o que achava.

Atirou a última pedra e assistiu ela tristemente afundar na água, sem quicar. Resmungou sozinho. Seu braço começava a doer, tamanho tempo ele passara fazendo isso.

— Que garoto patético você é, Will Byers — falou sozinho, e apoiou os cotovelos sobre os joelhos, emburrado. O livro escorregou de sua perna e caiu no chão, onde permaneceu, abandonado.

Desistiu de continuar a brincadeira. Levantou-se e caminhou para perto da água, inicialmente molhando apenas a ponta dos pés para testar a temperatura da água para depois molhar os pés por completo. Era uma pessoa sensível à mudança de temperatura e sempre precisava acostumar-se à água gelada antes de entrar nela, mesmo que só se molhasse até a altura dos joelhos.

O garoto estava totalmente absorto em pensamentos quando ouviu uma voz atrás de si:

— Não sabia que haviam vizinhos novos morando aqui.

Will se assustou e olhou para ver quem era, com os olhos levemente arregalados. Parado atrás de si havia um garoto desconhecido. Ele era alto e magro, e parecia ter a mesma idade que Will. Seu cabelo era escuro, ondulado e bagunçado, com alguns cachos espetando-se para todas as direções. Seus olhos eram realmente escuros e sardas salpicavam sua face. Seus lábios exibiam um sorriso discreto porém amigável.

— Desculpa se te assustei — disse o garoto. — Me chamo Mike, a propósito. — Will não proferiu uma palavra em resposta. Isso não pareceu incomodar Mike, que continuou a falar como se nem percebesse o silêncio: — Eu meio que ouvi você falando sozinho… Seu nome é Will, isso?

Will estreitou as sobrancelhas. Não estava acostumado a ser chamado por aquele nome — o seu nome. Era a primeira vez que isso acontecia, e fez com que algo dentro dele mudasse. Acenou positivamente, ainda confuso. Mike sorriu em resposta, sem parecer nem minimamente perturbado pela confusão na face do outro garoto.

— Eu sempre venho aqui para nadar. Bom, pelo menos vinha, agora não sei se é muito apropriado já que… bom, tecnicamente estou invadindo a casa de vocês. Se importa se eu der um mergulho? — perguntou ele, mas antes que uma resposta viesse, ele já estava tirando seus tênis. Ao atirar o calçado para longe, na grama, notou o livro que estava caído no chão. — Sem chance! Você gosta de Stephen King? É meu escritor favorito! Você já leu Carrie? Definitivamente não é para qualquer um, tipo, não é todos que gostam desse tipo de livro… Terror, e tal. Eu gosto muito de O Iluminado. É brilhante e eu sempre falo para as pessoas lerem, mas ninguém lê, e eu… — Mike falava sem parar enquanto tirava peça por peça das roupas.

Já tinha arrancado o tênis, depois tirou as meias, então parou para olhar o livro e falar como ele ainda não tinha lido aquele ainda e iria querer emprestado, e que também poderia emprestar os próprios para Will caso ele quisesse, então voltou a se despir e tirou a camiseta, atirando ela no chão. Will não havia dito nada desde que se encontraram, mas não era necessário, Mike era perfeitamente autossuficiente numa conversa, tudo o que precisava fazer era sorrir, acenar com a cabeça, fazer expressões concordantes com o que o rapaz dizia e ouvir tudo o que ele tinha a dizer. Não pôde evitar corar intensamente ao ver Mike arrancar a bermuda e ficar apenas de samba-canção em sua frente; seu rosto ardia e ele evitava fitá-lo a qualquer custo.

Mike, ao despir-se por completo, exceto pela roupa de baixo, aproximou-se de Will e se juntou a ele no lago. Ao sentir o gelado da água contra sua pele quente, fez uma expressão de satisfação genuína. Ele era bem bonito, Will não podia deixar de pensar. Evitava olhar para Mike porque ele tinha o tipo de aparência difícil de olhar apenas brevemente, sabia que poderia se deixar levar se começasse a encarar todos os detalhes e não queria ser esquisito. Tinha dificuldade para distinguir seus sentimentos, não sabia se apenas o achava bonito ou se queria ser ele, parecer como ele. Talvez fosse ambos. De qualquer forma, com apenas alguns minutos de interação, já havia decidido que tentaria desenhá-lo.

Mike era uma figura curiosa, deixava Will desnorteado com tamanha espontaneidade. Era a primeira vez que se encontravam, mas demonstrava estar tão confortável na presença de Will, falando sem parar sobre as coisas que gostava, como um jogo chamado “Dungeons & Dragons” e o hábito de ir todo fim de tarde para nadar no lago antes de ir para casa depois de passar o dia pedalando por aí, sem rumo. Fazia inúmeras perguntas para Will, as quais ele respondia unicamente acenando a cabeça ou dando de ombros — parecia ser o suficiente.

Não era muito comum que respeitassem a maneira como Will era quieto, normalmente faziam comentários sarcásticos ou julgavam-no como estranho. Apenas era uma pessoa tímida, não sabia muito o que falar quando tinha um primeiro contato com alguém e levava algum tempo até se acostumar. Isso não significava que não queria ou não gostava de interagir com outras pessoas, ele apenas não era muito bom nisso, mas se esforçava ao máximo. Naquele momento, se sentia bastante confortável com a presença de Mike, ele não fazia nenhuma dessas coisas e parecia não estar nem um pouco incomodado com a personalidade de Will. Isso o deixava feliz. Genuinamente feliz.

— Você não vai entrar na água? — Mike perguntou, estando metros adiante. A água estava a altura de sua barriga, enquanto Will continuava parado na parte rasa, exatamente onde tinha entrado minutos antes. Ele acenou negativamente com a cabeça. — Por que, Will? Tá tão calor… Tem medo de entrar?

Will assentiu e desviou o olhar. Mike o encarava intensamente demais, aquilo estava embrulhando seu estômago e ele não podia mais sustentar o contato visual.

— Você não sabe nadar? — questionou novamente, e Will deu de ombros. — Bom, tá tudo bem, eu posso te ensinar a nadar se quiser. Eu já ensinei minha irmãzinha, a Holly. Sou bom nisso. Prometo não deixar você se afogar!

Will sentiu seu peito aquecer, tocado pelo tom de voz que Mike usava para falar consigo. Por que é que aquele garoto desconhecido estava sendo tão legal consigo? Will não estava conseguindo entender. Quer dizer, sabia que era uma pessoa estranha. Suas roupas eram desengonçadas, já que usava as antigas peças de Jonathan, que ficavam grandes demais para si; seu cabelo tinha um corte meio estranho já que era sua mãe quem cortava, e era mais comprido do que gostaria que fosse; ele mal abria a boca para oferecer contribuições para a conversa e não conseguia fazer contato visual por muito tempo. Ainda assim, Mike parecia estar apreciando sua companhia. Como?

A falta de resposta fez com que Mike insistisse:

— Vai ser legal, Will! Sério, eu prometo! — Sua expressão facial fazia com que parecesse um filhotinho de cachorro que caiu da mudança. Estava implorando com os olhos.

Will tinha medo da água e de aprender a nadar, mas se sentia mal em negar aquele convite feito com tanto entusiasmo. Além de não poder negar que realmente parecia divertido a ideia de passarem as tardes nadando juntos. Talvez fosse uma nova atividade para as férias. Will sorriu timidamente para Mike, acenando que “sim”. Mike ergueu os braços, num gesto de comemoração, o que fez com que água espirrasse para todos os lados. Will riu quando as gotas geladas tocaram sua pele e comemorou também, de maneira mais discreta, chacoalhando levemente as mãos em punho em frente ao tronco. 

— Podemos começar amanhã! O que acha, Will? — perguntou, aproximando-se do outro garoto. Will prendeu a respiração com a proximidade repentina e deu um passo para trás. Os olhos de Mike brilhavam em empolgação. A afirmativa de Will fez com que ele ficasse mais animado ainda. — Eu vou te passar uma lista de coisas que você vai precisar para amanhã. Na verdade, algumas delas não são objetos, mas tipo… Coisas que você precisa saber ou fazer. Primeiro: se você tiver protetor solar, algum chapéu ou boné, é melhor usar! Tipo, a sua pele é bem pálida, melhor tomar cuidado para não se queimar. A minha também é e minha mãe sempre me obriga a passar protetor solar antes de sair de casa, mesmo que eu sempre reclame porque eu odeio a sensação de meleca na minha pele. É nojento e pegajoso. Não sei. Mas dizem que é importante. Enfim, eu tenho boné e protetor solar e posso te emprestar se precisar. Segundo: é bom trazer uma toalha porque depois de um tempo nessa água você vai começar a ficar com um pouco de frio. Pelo menos eu fico, ela é bem gelada. Mas é refrescante.

“Terceiro: preciso que você confie em mim. Quando eu pedir para você fazer algo, você precisa acreditar em mim e no que estou dizendo. Precisa acreditar de verdade que vou dar conta de salvar você caso algo aconteça, porque, caso contrário, talvez fique com medo e não consiga relaxar. É importante se manter calmo, sabe? Conseguir respirar normalmente, deixar que seu corpo fique confortável na água, essas coisas. Essa é a etapa mais importante, na verdade.”

Mike continuou seu monólogo bastante empolgado, como se tivesse arrumado um emprego de férias que exigia muita responsabilidade e seriedade, e Will estava se divertindo com a ideia, anotando as recomendações de Mike mentalmente e acenando com a cabeça para demonstrar que estava ouvindo atentamente. A animação de Mike era contagiante, ouvir ele falando sem parar era muito divertido para Will, porque, por mais tímido que ele fosse, isso não importava naquele momento e alguém realmente queria falar com ele. Mike e Will complementavam um ao outro: Will não falava muito, mas adorava ouvir, e Mike não tinha muitas pessoas que tivessem interesse em ouvi-lo, mas adorava falar. Ambos estavam felizes por encontrarem um ao outro.

Continuaram na água até que ficasse escuro demais para continuar na água. O sol já tinha se escondido há algum tempo, mas aguardaram até o último segundo para começar a pensar em voltar para casa. Will já estava com frio por ficar tempo demais na água, embora tivesse ficado o tempo todo na parte rasa do lago, mas pouco importava. Mike, mesmo sabendo nadar e podendo ir para a parte funda, ainda preferiu continuar por perto durante todo o tempo em que esteve ali, fazendo-lhe companhia, o que não passou despercebido por Will — era algo tão pequeno e singelo, mas ele apreciou profundamente tamanha gentileza. Mike, de muitas maneiras, estava sendo a primeira pessoa para além de Jonathan e sua mãe a tratá-lo com cuidado e gentileza, em vez de estranheza e julgamento. Era como poder respirar pela primeira vez depois de muito tempo segurando o fôlego, como uma brisa fresca de verão.

Quando saíram da água, Mike havia ficado alguns minutos sem falar pela primeira vez durante toda a tarde e Will já estava sentindo falta de sua voz. Mike vestiu-se em silêncio, pouco se importando se a roupa de baixo encharcada iria molhar sua bermuda, apenas vestiu-a sem pensar — como, Will imaginava, ele fazia todos os dias. Enquanto isso, Will juntava as suas coisas evitando ao máximo o impulso de olhar para Mike sem camisa e com o cabelo molhado, os cachos pingando, pois sabia que iria enrubescer outra vez bem como fizera inúmeras vezes durante o dia. Ao terminar de colocar suas roupas, Mike chacoalhou a cabeça para tirar o excesso de água do cabelo, como fazem os cachorrinhos após o banho. Algumas gotas respingaram no outro garoto, que fechou os olhos por reflexo.

— Ops — disse Mike, rindo —, foi mal.

Will riu de volta, encarando Mike, seu pequeno sorriso de coelho encantadoramente evidente. A troca de olhar se sustentou durante longos segundos, até que Mike desviou o olhar e pigarreou, como que para distrair sua mente de algo que havia se instalado nela.

— Acho que eu deveria ir para casa. Já anoiteceu… — ele disse, evitando olhar para Will. Estava extremamente escuro, mas Will podia jurar que parecia que ele estava corado. Não podia ter certeza, no entanto. — Foi bom te conhecer, Will.

— É… Foi um prazer, Mike — Will disse baixinho, a voz soando fraca após tanto tempo em silêncio.

Mike levantou os olhos para encará-lo, mas agora era Will quem desviava o olhar. Ambos sorriam, e Mike exibia uma expressão satisfeita ao ouvir a voz de seu novo amigo. Ambos ficaram parados durante algum tempo, sem saber como reagir, mas não era algo desconfortável. Era novo, e o que pairava no ar era curiosidade e entusiasmo, acima de tudo. Ainda havia muito a descobrir um sobre o outro, e sobre si próprios.

Mike finalmente quebrou o silêncio, numa voz suave e gentil que fez o coração de Will derreter em seu peito:

— Eu gosto da sua voz, Will.

— É? — voltou a olhar Mike, sentindo seu rosto esquentar. Seus olhinhos brilhavam sob o luar.

— É… é. Ela é… — Mike parou alguns segundos, como que para pensar na palavra mais apropriada — Ela é boa.

Will solta uma risadinha discreta porque não era exatamente a palavra “boa” que estava esperando, mas era mais que suficiente, principalmente porque odiava a sua voz, achava suave demais para um menino. Já era muito mais do que ele sequer esperava ouvir algum dia. Ter alguém que apreciava as coisas que ele odiava em si ajudava a lançar um novo olhar sobre elas. Não pôde deixar de notar que, mesmo ao elogiar a sua voz, Mike não disse algo como “você deveria usar ela mais vezes”, ou algo do gênero. Ele apenas gostava da voz de Will, sem poréns ou julgamentos.

Um vento soprou sobre eles vindo da direção do lago, fazendo com que o cabelo de Will ficasse bagunçado, voando para todos os lados. À distância, ouviu-se um trovão ribombar.

— Bom — Mike jogou os cabelos para trás com a mão, para fazê-lo parar de pingar em seu rosto. — Acho que vou indo… Parece que vai chover.

Will concordou, ainda um pouco assustado pelo trovão. Mike começou a caminhar e Will somente então notou a bicicleta que estava encostada numa árvore um pouco mais a frente.

— Tchau, Will! Te vejo amanhã.

— Até — Will disse, ainda se acostumando a falar com Mike. Fez tchau com a mão e ficou observando seu novo amigo montando na bicicleta e pedalando em meio ao caminho entre as árvores, sumindo na escuridão e entre os galhos.

Will estava feliz como nunca.

 

%

 

Will chegou em casa sem fazer ideia de que horas eram, só sabia que já estava bem tarde. Ele entrou pela porta dos fundos que dava na cozinha, e parou para tirar seus sapatos e meias. Pensava no quanto gostaria de um banho naquele momento, quando ouviu sua mãe falando exasperada ao telefone, de costas para a porta:

— … eu cheguei em casa faz uma hora, mais ou menos. O Jonathan disse que estava procurando faz algum tempo, mas que não encontrou em lugar nenhum. — Fez uma pausa para ouvir o que a pessoa do outro lado da linha telefônica dizia, então voltou a falar: — Como que eu não vou me preocupar? É só uma criança. — Outra pausa. — Não, eu estava trabalhando, eu não sei a última vez que ela esteve em casa…

Ela”. Ali estava de volta: a realidade nua e crua.

Foi bom ter se distanciado disso por pelo menos algumas horas, mas de certa forma era cruel ter tudo por um momento, apenas para perder novamente. No fim das contas, era isso que tinha que lidar diariamente e Mike foi apenas uma distração dessa realidade. Ele era, sim, um garoto. O problema era que somente ele próprio sabia disso. Tecnicamente, Mike sabia também, mas Will tinha certeza que era apenas uma questão de tempo até ele começar a agir como todas as outras pessoas, sobretudo as que tinham a mesma idade que eles: os valentões da escola, as pessoas que riam e faziam piada dele pelas costas. Não conseguiu evitar dar um suspiro de frustração, o qual chamou a atenção de sua mãe. Após pedir “só um momento” para a pessoa no telefone, sem virar-se para ver quem era, perguntou:

— Jonathan, alguma notícia?

— Sou eu, mãe — Will disse, baixinho. Tinha a cabeça baixa, sem olhar para sua mãe, e os braços cruzados em frente ao corpo. Estava envergonhado por ter chegado tão tarde e preocupado todo mundo.

Finalmente, sua mãe, Joyce, virou-se para olhar a figura que entrava na cozinha, tão encolhida que parecia minúscula. A expressão de Joyce era uma mistura clara de surpresa e preocupação, e, ao ver seu filho, colocou o telefone de volta no gancho sem se importar com mais nada além do fato que estava tudo bem.

— Ei… Você tá aqui — sua voz estava carregada de alívio. Sua mãe se aproximou rapidamente, envolvendo-o em um abraço apertado. Will estava paralisado pela vergonha, portanto não conseguia retribuir o abraço caloroso que Joyce lhe oferecia. — Meu amor, que bom que você tá bem.

Ela distanciou-se um pouco para olhá-lo, e passou a mão sobre seu cabelo carinhosamente, tirando os fios que caíam sobre seu rosto. Não parecia brava, mas feliz em vê-lo. Will apenas assentiu com a cabeça, incapaz sequer de forçar um sorriso.

— Eu preciso avisar seu irmão que você tá aqui. — Joyce pensou em voz alta, mas não moveu um músculo para fazê-lo. Não conseguia largar Will, aliviada por reencontrá-lo. — Jonathan disse que chegou mais cedo e você não estava, começou a anoitecer e ele ficou preocupado, te procurou por toda parte. Ficamos com medo que tivesse acontecido alguma coisa.

Os olhos de Will começaram a lacrimejar, sentindo-se culpado. Era uma pessoa sensível, e não podia suportar a ideia de preocupar sua família por um alarme falso. Estava tão próximo da casa todo esse tempo, teria levado 5 minutos para avisá-los onde estava. Teria evitado todo o transtorno para eles. Eram pequenas coisas como essa que faziam-no se sentir um peso para todos que se aproximavam dele.

— Me desculpa… — disse baixinho, ainda com a cabeça baixa.

Joyce abraçou-o novamente.

— Ei, ei, tá tudo bem. O importante é que você tá aqui agora. Não precisa pedir desculpas… Só levamos um susto, porque isso nunca aconteceu antes e você não costuma ficar fora até tarde, mas não é nada. Tá tudo bem, ok?

A entonação afetuosa que ela usava consigo lembrava bastante a entonação que Mike estivera usando durante toda a tarde consigo. Foi um pensamento bobo, rápido, que cruzou a mente de Will por alguns segundos sem que ele sequer percebesse, mas fez com que algo dentro de si despertasse — não estava realmente acostumado a ser tratado afetuosamente por outras pessoas além de sua família. Finalmente conseguiu retribuir o abraço de sua mãe, enterrando seu rosto nos fios de cabelo dela. Aquele sempre seria seu lar e o lugar para onde voltaria quando o mundo parecesse cruel demais.

— Eu não quis assustar vocês — Will disse, finalmente deixando-se relaxar.

— Sei que não, meu amor. Tá tudo bem. Que tal você tomar um banho, eu aviso o Jonathan que tá tudo bem e faço o jantar, e depois nos sentamos todos juntos para comer? E aí você me conta como foi seu dia, o que acha? — Joyce fazia carinho no cabelo do filho enquanto falava.

— Parece bom. Eu gostei da ideia.

 

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Will, Joyce e Jonathan Byers jantaram juntos, satisfeitos pela presença um do outro. Joyce contou sobre como havia sido o dia na loja, reclamando dos clientes babacas que pareciam descontar todas as frustrações de suas vidas no primeiro trabalhador que encontram. Haviam os clientes cínicos e mal-educados, os que imploraram por descontos mesmo que ela negasse veementemente e explicasse que não podia porque senão seria descontado de seu salário, os folgados, os sem noção, aqueles que faziam questão de bagunçar tudo o que tinha acabado de ser arrumado apenas pelo prazer de vê-la arrumando novamente, e a lista poderia continuar até o fim dos dias. Ainda assim, segundo ela, havia sido um bom dia na loja. Will se perguntava o que seria um dia ruim.

Jonathan, por sua vez, contou sobre a busca por emprego e a possibilidade de trabalhar num jornal da cidade, sendo o encarregado por tirar as fotos para estampar cada matéria. Tinha feito uma entrevista e o contratante demonstrou ter gostado dele, embora parecesse ser um homem terrível, do tipo que obriga os estagiários a ficar buscando café e a fazer coisas que ninguém mais quer. Ainda assim, era um risco que valia a pena correr, uma vez que eles precisavam muito do dinheiro, além de que ele estaria trabalhando também com algo que realmente gosta: a fotografia. Jonathan estava otimista e acreditava que não precisaria continuar entregando currículos e fazendo pequenos trabalhos temporários, como tinha feito nas últimas semanas. Todos comemoraram pela a notícia, fazendo um brinde com seus copos cheios de suco de morango.

Por fim, Will contou sobre seu dia. O banho havia ajudado a melhorar seu humor e diminuir a culpa, Will tinha certeza que sua mãe sabia que isso aconteceria por isso deu a ideia. Mencionou que esteve nos fundos da casa o tempo todo, e Jonathan se sentiu idiota por ter esquecido totalmente dessa possibilidade. Na verdade, ele não tinha visitado a parte de trás da casa ainda e sequer sabia que havia um lago lá. Will contou, também, sobre as futuras aulas de natação. Joyce pareceu um pouco preocupada com a ideia no início, mas permitiu que elas acontecessem, afinal, não podia proteger seu filho de tudo; em vez de proibi-lo, limitou-se a dar as mesmas orientações que Mike: usar protetor solar e boné para não se queimar, levar toalha, relaxar, usar roupas leves. Relembrou inúmeras vezes para tomar cuidado. Por fim, disse que gostaria de conhecer Mike, e que ele estava convidado para jantar com os Byers um dia desses.

Após todos terminarem o jantar, os irmãos lavaram e guardaram as louças enquanto conversavam sobre as expectativas de Jonathan para seu novo trabalho, sobre música, sobre Mike, saltando de um tópico para outro rapidamente. Joyce ouvia tudo da sala de estar, e inconscientemente pensava em como era sortuda por ter em sua vida dois filhos tão bons, ela não achava que merecia tanto. Ao terminar de limpar tudo na cozinha, Will escovou os dentes e foi para seu quarto. Ele tinha acabado de deitar para dormir quando sua mãe bateu à porta, abrindo-a lentamente logo em seguida. Exibia um sorriso tranquilo em seu rosto.

— Oi, mãe — Will disse ao vê-la entrar.

— Oi, meu amor — Ela aproximou-se e sentou na beira da cama de Will. Sua expressão era serena. — Podemos conversar?

— Claro — Will sorriu, um pouquinho nervoso por não saber o que esperar. Odiava essa frase, era inesperada e imprevisível e podia significar qualquer coisa.

No entanto, parecia não haver muito com o que se preocupar. Joyce estava de bom humor e a expressão que carregava em sua face era de carinho, de uma mãe que achava adorável ver seu filho adolescente deitado para dormir com as cobertas até o pescoço (mesmo que isso fosse totalmente incoerente com o calor que fazia).

— Eu estava pensando como tem sido essa mudança de cidade para você — Joyce disse, fazendo um carinho de leve na perna do filho sobre as cobertas. — Como você tem se sentido com tudo isso…? A casa, os vizinhos, tudo. Não temos conversado tanto quanto eu gostaria, mas eu queria checar como as coisas estão indo.

Will sentiu-se relaxar instantaneamente ao descobrir sobre o que se tratava.

— Tem sido bom — ele disse, simplista, e Joyce fez uma expressão que demonstrava que aquela resposta não seria suficiente. Ela queria detalhes. Will complementou sua resposta: — Eu gosto daqui. Gosto do meu quarto, da casa e realmente gosto do quintal. É bem grande. Não conheço nenhum dos vizinhos, exceto Mike, mas também gostei dele. Ele é legal. — Ele me chama de pelo meu nome de verdade, ele pensou, mas não disse em voz alta. — Eu tenho ficado bastante tempo no lago, você sabe, para me refrescar. Mas tirando isso, eu não tenho muito o que fazer quando vocês não estão em casa.

— É? — Joyce acena positivamente, para demonstrar que estava ouvindo atentamente. — Esse garoto… Mike. Ele é legal com você?

— É, é. Ele é bem legal, na verdade — Will se empolga ao começar a falar de seu novo amigo, levantando-se um pouco no colchão e encostando as costas na cabeceira da cama. — A ideia de me ensinar a nadar foi dele. E ele gosta de Stephen King como eu, nós combinamos de emprestar nossos livros um para o outro. E... Hum… — ele parou para relembrar o que Mike havia dito durante o dia, já que foram muitas coisas. — Ele não se importa por eu ser… tímido. Quieto. Parece nem notar.

— Eu fico muito feliz ao saber disso, filha. — Filha. Ali estava, outra vez. Tentou ignorar. Achou incrível a própria capacidade de se acostumar rapidamente a ser tratado como menino, mesmo quando Mike era a única pessoa que já tinha feito isso. — Ele parece ser um bom menino.

— Parece, sim — Will concordou.

— Fiquei um pouco preocupada quando mudamos para cá — Joyce confessou, sem olhar para Will. Seu olhar parecia distante, como se relembrasse algo. — Não queria que fosse como nossa antiga cidade, que fossem maldosos com você. Fico aliviada que tenha feito um novo amigo.

— Eu também — Will sorriu meio triste. — Os outros garotos eram bem ruins. Mas Mike parece ser diferente. Quer dizer, conheci ele hoje, mas tive uma boa impressão. Ele é meu primeiro amigo, eu acho.

— Fico tão aliviada que as coisas estejam se ajeitando... Promete que vai me contar se estiver passando por problemas? — Joyce disse. Esse era o ponto que queria chegar com toda a conversa. — Promete que não vai fugir de casa outra vez?

Will sentiu seu coração apertar. É claro. Era por isso que sua mãe tinha ficado tão assustada por ele não ter chegado em casa na hora. Tinha sido um evento tão distante para si, se tratava de uma época tão dolorosa de se lembrar que a mente de Will havia a enterrado bem lá no fundo. Agora que Joyce tinha mencionado, era como se flashbacks nebulosos e indistintos  viessem à tona. Preferiu afastar-se dessas memórias, não queria ter que lidar com elas naquele momento. A carga emocional que veio com tais memórias era pesada demais, e ele só queria deitar e dormir após o dia mais divertido que tivera em muito tempo.

— Prometo. — Will encarava as próprias mãos. — Eu não vou mais fazer isso. Aquela vez… aquela vez foi diferente. Tinha o Lonnie. Agora, não tem mais. Apenas nós três, e fico mais feliz assim.

— Eu também, meu amor — ela se aproxima e deixa um beijinho no cabelo de Will. — Sabe que pode contar comigo pra tudo, não sabe? Sempre pode me contar a verdade.

Will desejou contar naquele mesmo momento o segredo que tinha guardado consigo e que, às vezes, o sufocava à noite enquanto tentava dormir, por fazê-lo pensar coisas horríveis sobre si próprio. Um segredo que fazia-o usar apenas roupas largas para esconder seu corpo; que fazia-o odiar a sua voz; que fazia-o preferir as roupas velhas de Jonathan a usar as próprias; que fazia-o fugir do espelho toda vez que seu cabelo crescia demais. Mas não conseguiu. Ainda não estava pronto — não sabia quando estaria. Temia mais do que tudo que a maneira como sua família o via e tratava mudasse com esse segredo, por isso o deixou morrer em sua língua. Quem sabe um dia ele fosse mais corajoso… No momento, ainda era apenas um covarde.

— Sei, mãe. Obrigado. — Will sorriu e deixou-se ser abraçado pela mulher que lhe daria de presente o planeta, as estrelas, toda a galáxia e o universo, caso ele quisesse. Aquele era o lugar onde mais se sentia seguro em todo o mundo. Ao separarem o abraço, Will disse: — Mas, mãe… Eu não sou mais uma criança. Você sabe, né? Eu já tenho quinze anos, não precisa mais se preocupar tanto comigo.

Joyce soltou uma pequena risada com o apontamento do filho. Ela sabia que essa hora iria chegar — Jonathan também já havia dito isso para ela, quando tinha mais ou menos a mesma idade que Will.

— Para mim, você sempre vai ser meu bebê — ela apertou a bochecha de Will, que resmungou com o gesto. — Mas entendo o que você quer dizer. Você precisa de espaço para poder descobrir quem é, eu sei bem. Isso eu posso dar, mas pedir para eu não me preocupar… Isso já é demais.

Ela riu. Will riu também.

— Por mim, tudo bem.

Sua mãe fez uma última carícia em seu cabelo, antes de dar boa noite e deixá-lo dormir.

— Eu te amo, meu amor — ela disse.

— Eu também te amo, mãe — Will respondeu.

Notes:

agradeço imensamente por terem chegado até aqui! para quem desejar me contatar, o meu twitter/X é @miwitopia (mesmo username daqui).

nos vemos no próximo capítulo :)