Work Text:
As horas naquela delegacia nunca passaram tão devagar.
Eduarda tenta se distrair com os inqueritos que Paulinho deixou para ela organizar, mas é inútil. Nada consegue afastar da sua mente o tom de voz de Lorena durante a ligação que tiveram mais cedo. Quebrado, cansado... diferente. Ela até tentou animar Lorena pois sabe da situação difícil com o pai, mas não teve muito sucesso. Lorena não está bem. Tudo o que mais queria era poder sair correndo dali e envolvê-la em um abraço forte, daqueles que seguram quando tudo parece desabar.
Presa ali por mais três horas, ela faz a única coisa que está ao seu alcance.
Eduarda:
Contando as horas pra te ver. Te amo!
Do outro lado, Lorena está deitada em uma cama que não é dela, encarando o teto enquanto revive, uma a uma, as palavras que o pai jogou contra ela. O celular vibra e, ao ver a notificação, solta um sorriso bobo. A lágrima que estava pendurada finalmente cai, escorrendo pelo rosto até alcançar a boca. Ela sente o gosto salgado nos lábios mas, pela primeira vez naquele dia, não se importa. A dor cede espaço a algo mais leve. Um breve alívio silencioso.
x x x
Eduarda sai correndo da delegacia e chega na galeria em tempo recorde. Toca a compainha e, para sua infelicidade, não é Lorena quem aparece.
"Oi, Eduarda! Não sabia que você vinha hoje aqui." Lucélia sorri daquele jeito ensaiado, que nunca chega aos olhos. Antes mesmo que Eduarda consiga abrir a boca, ela continua, com um tom quase casual demais. "Mas também... depois da Lorena ter sido expulsa de casa por sua causa, acho que faz sentido mesmo."
As palavras a atingem como um tapa.
"Como é que é?" Eduarda responde, a voz saindo mais alta do que pretendia, misturando surpresa e raiva.
Antes que Lucélia consiga acrescentar mais veneno à conversa, passos se aproximam pelo corredor. Lorena surge na sala, o rosto cansado e os olhos ainda vermelhos, marcas evidentes de um choro recente.
"Eduarda," ela suspira, como se apenas dizer o nome já aliviasse um pouco do peso que carrega. "Que bom que você chegou."
Eduarda sente o chão balançar sob os pés.
"Seu pai te expulsou de casa?" A pergunta sai quase como um sussurro. Um nó se forma em sua garganta, forte demais para permitir qualquer outra palavra ou mesmo um som.
Lorena se vira para Lucélia, a testa franzida, o olhar duro. "Eu não acredito que você contou pra ela antes de mim!"
"Ain... eu não sabia que você ainda não tinha contado," Lucélia responde, dando de ombros, fingindo arrependimento. "Desculpa..."
Lorena simplesmente a ignora. Com um tom suave, ela volta a atenção para Eduarda.
"Vamos conversar lá no quarto?"
Sabendo bem dos joguinhos sujos de Lucélia, Eduarda fixa os olhos nela por mais um segundo, deixando claro o desprezo e a raiva contidos. Em seguida, passa por ela sem dizer uma palavra e vai ao encontro de Lorena. Lorena segura sua mão e a guia para dentro da casa.
No quarto, antes que Lorena se afasta ou mesmo possa dizer alguma coisa, Eduarda a puxa para perto e da um abraço apertado, a envolvendo.
O mesmo alívio que tinha sentido antes com a mensagem de Eduarda se faz presente em seu corpo inteiro. Seu coração fica mais leve e ela se entrega totalmente àquele momento.
"Que bom que você está aqui," a confissão sai em um suspiro, quase como se o corpo finalmente tivesse permitido relaxar.
Lorena aperta o abraço por um segundo a mais, sentindo o peso daquele corpo contra o seu. Não é só cansaço físico, é o esgotamento de quem foi ferida onde mais dói. Quando se afastam, ainda permanecem próximas, como se qualquer distância maior fosse insuportável. Os olhos se encontram por um instante que parece se estender além do tempo, carregado de tudo o que não foi dito ainda. Elas se beijam por um breve momento. Eduarda tenta dizer sem palavras que está ali para Lorena, mesmo sem ainda saber da história toda.
Quando elas se afastam, Lorena passa a mão pelo rosto numa tentativa de se recolocar no chão. Ela olha ao redor do quarto antes de indicar duas cadeiras próximas à escrivaninha.
"Vamos sentar um pouco?" pede, a voz baixa.
Lorena puxa uma das cadeiras e se senta, o corpo levemente curvado. Eduarda puxa a outra e a arrasta para perto. Senta-se de forma que seus joelhos quase se encostem, eliminando qualquer espaço entre as duas.
Eduarda se inclina um pouco para frente, pega as duas mãos de Lorena, o olhar atento, inteiro.
"Me conta..." Eduarda começa, a voz baixa, cuidadosa. "O que aconteceu?"
Ela não pressiona, apenas abre espaço. Um convite para que Lorena possa existir ali sem medo.
Lorena respira fundo antes de falar.
"É verdade o que você ouviu. Meu pai me expulsou de casa." A frase sai dura, pesada. A decepção perceptível em sua voz. "Eu esperava tanta coisa dele... Mas isso? Me pôr pra fora? Eu nunca imaginei." Ela balança a cabeça, incrédula.
Eduarda sente o aperto no peito e se aproxima um pouco mais.
"Eu sinto muito que isso esteja acontecendo," diz, sincera. "Eu queria poder tirar toda essa sua dor."
"O que mais machuca, não foi só ele ter mandado eu sair. Foram as coisas que ele falou." Seus olhos brilham, marejados, mas ela se recusa a deixar as lágrimas cairem. "Ele disse que eu não sou nem mais filha dele."
O silêncio que se segue é pesado, quase reverente. Eduarda segura a mão dela com firmeza, como se estivesse ancorando Lorena naquele momento. Não há pressa. Há tempo. Tempo para sentir, para doer, para existir.
"Sabe..." Lorena engole em seco. "No fundo, eu ainda tinha um pouco de esperança. Achei que talvez o amor que ele pudesse sentir por mim fosse ser maior que o preconceito dele." Um sorriso triste surge, breve. "Claramente, eu estava errada."
Eduarda inspira fundo antes de responder.
"A gente nunca vai entender o que faz alguém agir assim," diz, com uma calma que vem da empatia, não da distância. "De onde nasce esse preconceito." Ela aperta levemente a mão de Lorena. "Mas você precisa saber: você não está sozinha. Nunca esteve. Tem tanta gente que te ama do jeito que você é, inteira."
Ela ergue o olhar de Lorena com delicadeza para que encontre o seu.
"Eu tô aqui com você. Pra tudo." A voz de Eduarda é calma, serena e recheada de amor. "Seu pai não faz ideia do quanto ele abriu mão hoje."
As lágrimas finalmente caem, silenciosas, livres. Lorena deixa escapar um riso fraco, quebrado, mas real.
"Obrigada por estar aqui. Por me ouvir." Ela enxuga o rosto com o dorso da mão e beija mão de Eduarda que ainda estava entrelaçada na dela. "Era tudo o que eu precisava hoje."
Eduarda encosta a testa na dela, num gesto simples e cheio de significado.
"Estou aqui para você," diz, sem hesitar. "Sempre."
Elas se abraçam, com carinho, cuidado. Um abraço que significa tanta coisa. O acolhimento, o amor. Em uma tentativa de minimizar a dor que ainda perpetua ali. E, naquele pequeno espaço compartilhado, entre corpos entrelaçados, Lorena sente profundamente que ainda há um lugar onde ela pertence.
