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A igreja estava vazia quando ele entrou, o ambiente iluminado apenas pela luz fraca das poucas velas que ainda queimavam, em seu fim, e pelos reflexos do sol poente, coloridos através dos vitrais antigos, um tapete de sangue e azul sendo pintado sobre o chão polido. O cheiro de madeira antiga e incensos impregnava o ar, a névoa da fumaça remanescente se dissipando através das imagens sagradas enquanto o pensamento de quantas orações desesperadas já havia sido murmuradas ali passava rapidamente por sua mente.
Sentindo que suas pernas não seriam capazes de sustentá-lo por muito mais tempo, Rossi sentou-se em um dos últimos bancos, o corpo rígido, as articulações protestando pelo cansaço e dor. O cantil de uísque ainda pesava em seu bolso – um peso familiar, reconfortante e não totalmente esquecido -, mas ele não precisava de nenhum tipo de anestesia agora. Não enquanto ainda tentava encontrar algum sentido no vazio.
Completamente exausto, Rossi fechou os olhos. Agora que estava ali, havia uma lembrança. Uma única vez em que havia discutido fé com Emily. “Você acha que existe algo depois disso? Algum lugar para onde vamos depois que morremos?” David se lembrava vagamente de ter respondido que sim, que ele gostava de pensar que havia um sentido maior para a vida do que apenas aquele tempo terreno. “Não sei, às vezes me pergunto se não estão tentando apenas nos confortar.” Emily havia suspirado baixinho, mas Dave apenas sorriu, dando um leve tapinha em sua perna. “Bem, Em, eu ainda acho que você tem mais fé do que imagina.”
Muito tempo havia se passado desde aquela conversa – que ele não tinha a menor ideia de como começara – e, de repente, David se viu obrigado a voltar para o presente, muito feio e dolorido, as imagens recentes de um funeral preenchendo sua mente no lugar de outras mais agradáveis, de uma época em que ele ainda não tinha como saber que sua vida desmoronaria de uma maneira tão brutal.
Ele passou as mãos pelo rosto, sentindo a barba áspera de dias de negligência e o suor frio na testa, sem saber ao certo como começaria, ou por que seu subconsciente o levara até ali. Durante toda sua vida, sua fé havia sido um pilar inabalável. Mas agora? Agora tudo parecia uma piada cruel e de mau gosto.
Com um pouco de dificuldade, David respirou fundo, o resquício de um soluço morrendo em sua garganta, as lágrimas ameaçando voltar quando pensou sobre o motivo que o tinha feito se arrastar até aquela igreja fria, mesmo sem forças. Emily... E foi só naquele momento que ele conseguiu soltar o ar preso que queimava em seus pulmões, a coragem e o desafio enfim superando qualquer temor ou respeito que ele ainda pudesse ter pelo Divino.
“Minha dor te diverte, não é?” um murmúrio atravessou os lábios rachados, olhos vermelhos e inchados voltados para o imponente altar de ouro e sombras. “Primeiro James, agora Emily. Quanto mais você acha que eu posso suportar? Essa é a recompensa por ter sido bom? Por ter passado décadas caçando o mal que você permite caminhar sobre a Terra? Você me dá algo que eu quero, que eu amo, só para poder arrancar de mim logo em seguida. Que tipo de jogo doentio é esse que você, tão feliz, está jogando comigo? Me diz!” Ele exigiu, entredentes, o corpo se curvando sob uma nova e violenta onda de dor enquanto o choro rasgava seu peito e desaguava em seus olhos através de lágrimas quentes e grossas, “por favor, me diz...”
Ali dentro, David não precisava gritar para ser ouvido. Sua voz sempre suave e polida estava rouca, quebrada, e o sons de seu lamento ecoavam por entre as paredes opressoras. Ele não esperava uma sarça ardente ou alguma voz vinda do céu, realmente, mas precisava perguntar mesmo assim, como se aquele desabafo pudesse remover o prego enferrujado que sentia cravado no peito. No entanto, só havia restado um silêncio, quase absoluto, que parecia zombar dele, vasto e indiferente.
“Que tipo de Deus é você, hein?” Ele riu, um som seco e sem humor, sentindo uma coragem suicida em provocar um Criador que ele jamais ousou questionar. “Você nos dá todos esses animais, essas pessoas horríveis que matam seus próprios irmãos em rituais de poder e ódio, e Você tira os poucos bons que ainda restam. Por quê? Ela merecia isso? O que ela fez de tão ruim que despertou a sua ira? Ou será que seu alvo sempre fui eu e Emily apenas pagou o preço por cruzar meu caminho? O que foi que eu fiz?! É uma aposta que Você fez pela minha alma?”
As palavras saíam amargas, carregadas de uma raiva que queimava seu peito mais que o uísque que ele recusava em seu bolso. Emily não merecia morrer daquela forma, lutando contra um mal que o próprio Pai havia virado o rosto. Ela não merecia o que tinha acontecido. E ali estava ele, diante de um Deus que parecia ter lhe dado as costas, tentando entender algo que nunca teria uma resposta.
O pior de tudo, David podia admitir, era o vazio dentro dele. Aquele espaço que só ela preenchia e que agora estava completamente tomado pelos espasmos da agonia e um remorso corrosivo. Anos de convivência, de amizade, de algo que nunca tinha sido dito em voz alta, mas que pairava entre eles como eletricidade. Algo que todos viam, mas que ele havia tentado esconder. Rossi nunca havia se permitido reconhecer o que realmente sentia por Emily. Por medo de estragar as coisas, talvez, ou por uma simples covardia disfarçada de profissionalismo. Não importavam mais os motivos, de qualquer forma. Emily estava morta. E agora, qualquer coisa que ele pudesse querer dizer ou fazer, qualquer confissão de amor tardia, seria um insulto à memória dela. Ele nunca teria a chance. Emily se foi. E, se havia algo que doía muito profundamente, era saber que ela tinha partido no escuro, sem saber o quanto ele a amava. Sem saber que ela era o centro do mundo dele.
O som de passos ecoou no chão de pedra, rítmico e firme. Ainda assim, Dave não se moveu. Não tentou limpar as evidências das lágrimas ou endireitar os ombros sob o terno amassado; estava exausto demais para manter a fachada do homem forte que havia sustentado durante todo o dia. Seu acompanhante estava mais perto agora, e ele não precisou virar a cabeça para saber quem era. Ele conhecia aquele passo, a cadência de quem havia aceitado carregar o peso do mundo nos ombros. David já tinha previsto isso, que Aaron não o deixaria sozinho por muito tempo, e sabia que Penelope provavelmente tinha ajudado a encontrá-lo, rastreando seu celular enquanto se preocupava com ele perdido no escuro como se ainda fosse um menino assustado de dez anos.
O pensamento quase o fez sorrir em uma resposta irônica, quando sentiu o banco de madeira ranger levemente sob o peso de Hotch que, por alguns segundos, manteve um silêncio profundo.
“Eu sei como você está se sentindo agora, Dave. Como se todos os ossos do seu corpo tivessem sido quebrados de uma só vez. Como se toda sua pele tivesse sido arrancada e seus músculos estivessem expostos.” Ele finalmente disse, sem virar o rosto, “Você sabe que eu sei. E eu não queria que ninguém passasse por esse tipo de dor, mas se tem uma coisa que eu aprendi é que devemos manter as esperanças.” A voz de Hotch estava baixa, mas carregava todo o peso de quem já havia visitado o inferno.
David se remexeu, desconfortável com as palavras do outro, um nervo em sua têmpora saltando, e seus olhos brilharam em uma fúria contida quando ele soltou uma risada curta e vazia, seu olhar fixo no Cristo crucificado acima do altar.
“Manter as esperanças? Em que, exatamente, Aaron? Não sei se você notou, mas Emily está morta. Me diz que tipo de esperança sobrevive a isso.”
Hotch não respondeu de imediato, o maxilar tão apertado que chegava a doer. Ele sabia de tudo. Sabia que, naquele momento, Emily estava escondida em algum lugar seguro, pronta para começar uma vida de sombras em algum país da Europa, bem longe dali - deles. Mas ele não podia contar aquilo a ninguém. O peso do segredo apertava seu peito, sufocava suas palavras, mas era o único jeito de manter todos seguros. Manter Emily segura, até que Doyle tivesse sido neutralizado. E se David Rossi precisava sangrar agora para que Emily pudesse respirar em paz amanhã, então era que o que seria feito. Ele aceitaria o papel de carrasco, por mais difícil que fosse ver sua família sofrendo. No fim, ainda parecia um preço baixo a se pagar.
“Ela não iria querer que você perdesse a fé.” Aaron apelou com um suspiro, finalmente deixando as costas caírem contra o encosto duro.
Rossi virou-se para encará-lo com uma intensidade dolorosa, em um misto de incredulidade e raiva. “Então ela devia estar aqui para me dizer isso, não é? Se ela realmente se importasse, não teria me deixado sozinho com as minhas dúvidas. Emily me deixou, para sempre. Agora, Aaron, me diga, em que a porra da minha fé vai ajudar nisso?”
O silêncio entre os dois foi longo, pesado como chumbo. Dave apontou para a imagem no altar, seus olhos castanhos brilhando ainda mais intensamente contra a luz das velas, incluindo Aaron no seu acerto de contras com Deus. “Eu achei que Ele também se importasse. Mas não. Se Ele realmente nos ama, então tem uma péssima maneira de demonstrar esse amor.”
Aaron suspirou, os olhos brilhando com as lágrimas que ele, com dificuldade, ainda conseguia controlar. Sua mão esquerda pousou sobre o ombro do amigo, um toque pesado e que, naquele momento, carregava mais significado que qualquer coisa que ele pudesse dizer. A verdade era que ele sentia a dor de David como se fosse sua, e a culpa por aumentá-la corria em suas veias como um veneno lento.
“Eu sei que você a amava, Dave. Mesmo que você tenha passado anos fingindo que não.” Hotch o encarou nos olhos. “E sei que nada vai preencher esse buraco no seu peito agora. Mas eu preciso que você continue. A equipe agora está partida. Penelope não para de chorar e Spencer não disse uma palavra desde que voltamos de Boston... Eles precisam de você. Emily precisa que você faça o que ela teria feito se estivesse aqui. Se você cair agora, então ninguém mais vai encontrar motivos para se levantar. Faça por ela, Dave, se não por nada mais.”
Rossi fechou os olhos, respirando o ar viciado. Ele queria dizer que sim, que no dia seguinte levantaria, colocaria seu crachá e seguiria em frente como sempre fez. Mas isso seria mentira. Porquê dessa vez era diferente. Agora, ele tinha perdido uma parte de si mesmo. Uma parte que ele jamais conseguiria recuperar.
“A equipe vai ficar bem, eventualmente. Eles não precisam de um velho quebrado para carregar nas costas.”
“Você está realmente se ouvindo, David?” Hotch perguntou, a voz chocada subindo um tom, mas ainda mantendo um controle frágil. “Você é o alicerce deles agora. Se você desistir, dará a permissão para que eles desistam também. Tire o tempo que precisar, mas, por favor, não se perca. Nós precisamos do motivo que apenas você pode dar para seguirmos em frente.”
David não respondeu. A ideia de entrar no escritório e ver a mesa dela vazia, ou a foto dela em um quadro de honras, era um castigo que ele não sabia se poderia suportar. Mas então ele olhou para Hotch e viu, por trás da máscara que ele ainda lutava para manter, um homem que também estava sofrendo com a perda de uma pessoa que ele se importava.
“Eu não sei, Aaron. Honestamente, não sei se sobrou algo de mim para dar a eles.”
Hotch sacudiu a cabeça devagar, uma tristeza genuína atravessando seu olhar. “Então, até você saber, eu ficarei aqui. Ao seu lado.”
Eles ficaram ali, em silêncio, dois homens marcados pela tragédia, sentados em uma casa de Deus que parecia pequena demais para o tamanhos de suas dores. Não havia mais palavravas a serem ditas, nem nenhum tipo de milagre que pudesse trazer Emily de volta. Havia apenas o som distante de um sino marcando a passagem de um tempo que Rossi não queria mais contar.
Depois de um longo tempo, David se levantou, secando o rastro de uma lágrima com a mão trêmula. “Eu preciso de um tempo. De verdade.”
Comprimindo os lábios finos em uma linha firme, Hotch apenas assentiu, observando as costas curvadas de Dave enquanto ele caminhava para a saída, os passos arrastados e pesados raspando o chão em um som quase desagradável. E quando a grande porta se fechou atrás dele, Aaron fechou os olhos por alguns instantes, deixando o ar escapar em um suspiro trêmulo, os ombros caindo, finalmente permitindo que a própria dor fluísse através de seu corpo cansado. Ele estava quebrando seu melhor amigo, pedaço por pedaço, para manter uma mentira que poderia ser a única chance de vida para todos eles.
No fim, o eco dos passos de Rossi se perdeu no crepúsculo frio do final de inverno, e Hotch permaneceu ali, sozinho, olhando para o altar e sentindo-se incapaz de rezar por si mesmo. Ele queria acreditar que estava fazendo a coisa certa. Que manter aquele segredo era absolutamente necessário. Que David o perdoaria um dia. Mas, no fundo, Aaron sabia que, quando a verdade viesse à tona, não haveria absolvição para ele.
Porque, naquele momento, David Rossi estava despedaçado. E era culpa sua.
FIM
