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Sem pressas e descobertas

Summary:

Um vída tranquila e sem problemas desnecessários. É o que Alfredo Júnior pensava de sua vida antes de conhecer uma pessoa intrigante e principalmente interessante que foi capaz de quebrar essa mesmice.

Um história sobre limites e descobertas de um homem perante a um relacionamento com um neurodivergente.

Notes:

Olá, sou Jonathan Ariadiny e essa história é bem importante pra mim pois lida com assexualidade e problemas mentais. De um jeito real de ser tratado.

Chapter Text

Alfredo Júnior tinha aprendido cedo a andar pelo mundo como quem atravessa um lago congelado: passos firmes, sem pressa, sem ruído, sem movimentos desnecessários. Aos vinte e cinco anos, gerente de marketing de uma empresa que crescia rápido demais, ganhava bem e sentia pouco também. Não por tristeza, apenas por escolha. Emoções complicavam decisões, e decisões eram o que ele fazia melhor.

No trabalho.

Conseguir mesmo era outra história.

Naquela tarde, saiu do prédio espelhado mais cedo do que o habitual. O céu estava nublado, a cidade parecia suspensa num tom de cinza confortável. Alfredo caminhava com o celular no bolso, sem fones, sem pressa para voltar, observando vitrines sem realmente vê-las.

Foi quando notou um homem agachado na calçada.

No começo, pensou que fosse alguém passando mal. Depois, alguém bêbado. Só quando chegou mais perto percebeu o detalhe que não fazia sentido algum: o homem estava completamente focado no chão, com uma expressão séria demais para algo tão… pequeno.

Formigas.

Um rastro delas ia até uma rachadura no concreto, e o homem, da idade dele, talvez, usava um pedaço de papelão para criar uma espécie de ponte improvisada sobre uma poça de água suja. Ele murmurava coisas baixinho, como se estivesse incentivando as próprias criaturas.

— Vai por aqui… isso, isso… cuidado — disse, quase sorrindo.

Alfredo parou.

O mundo seguiu em frente ao redor: passos, buzinas, conversas. Mas aquele pequeno quadro parecia isolado, deslocado da lógica urbana. Alfredo sentiu um incômodo estranho, uma curiosidade que não costumava permitir.

— Você tá… bem? — perguntou, num tom neutro, já esperando uma resposta desconexa.

O homem ergueu o rosto devagar. Tinha olhos atentos demais, vivos demais. Não parecia perdido, parecia concentrado.

— Tô — respondeu prontamente. — Elas é que estavam com problema.

Alfredo piscou uma vez.

— As… formigas?

— É. A chuva ia voltar, e o caminho delas passa bem ali — apontou para a poça. — Se molhar, elas se perdem. Algumas morrem.

Houve um silêncio curto. Alfredo sentiu o impulso automático de se afastar. Aquilo cheirava a algo que ele sempre evitara com eficiência clínica.

Problema.

— Entendi… — disse, educado. — Bom, boa sorte com isso.

Ele deu um passo para seguir caminho, mas algo o fez parar. Talvez fosse o cuidado excessivo nos gestos do outro. Ou o fato de que não havia drama, nem exagero, apenas uma preocupação genuína. Ele tinha certeza que já viu aquele homem pela cidade, mas nunca prestou atenção. Ninguém devia prestar.

— Você para sempre pra ajudar as formigas? — Alfredo perguntou, virando-se de novo.

O homem ergueu a cabeça e sorriu, agora de verdade.

— Não sempre. Só quando ninguém mais para. Essas estavam em estado de emergência.

Alfredo sentiu um aperto leve no peito. Inesperado. Incômodo.

— Davi — o estranho disse, estendendo a mão sem se levantar. Suja de terra — Prazer.

Alfredo hesitou um segundo antes de apertá-la.

— Alfredo. Alfredo Júnior.

Davi voltou sua atenção às formigas, como se a apresentação fosse apenas um detalhe secundário. Alfredo ficou ali, parado, observando. Não sabia explicar por quê. Ele, que sempre seguia adiante. Ele, que nunca se envolvia. Mas, naquele instante, algo naquele homem estranho, ajoelhado no chão sujo, descabelado e preocupado com vidas microscópicas, parecia perigosamente… humano demais.

E Alfredo, pela primeira vez em muito tempo, se sentiu interessado. Então se agachou. O movimento foi quase automático, e isso o surpreendeu mais do que a cena em si. Seu joelho encostou no concreto frio, a calça social certamente marcaria, algo que normalmente o faria levantar na mesma hora. Mas não agora.

Ele passou a observar.

Davi segurava o papelão com cuidado excessivo, ajustando o ângulo como se estivesse lidando com algo frágil demais para errar. As mãos dele tremiam levemente, não de nervosismo, mas de concentração. Os olhos seguiam cada formiga individualmente, não o grupo. Uma por uma.

— Se você muda rápido demais — Davi comentou, sem olhar para Alfredo — elas entram em pânico. Parece bobo, né?

Alfredo franziu o cenho:

— É bem específico.

Davi deu um meio sorriso.

Houve um silêncio confortável. Estranho, mas confortável. Alfredo notou detalhes que normalmente ignoraria: a respiração controlada do outro, o jeito como ele inclinava a cabeça. Em certos momentos, Davi murmurava coisas, música? Coisas? Alfredo não sabia.

Ele sentiu aquele conhecido reflexo profissional surgir: análise fria, classificação mental.

TOC?

Algum transtorno do espectro?

Delírio leve?

Nada encaixava perfeitamente. Davi não parecia desconectado da realidade. Pelo contrário, parecia conectado demais. A ponto de ignorar o resto.

— Você tem muito tempo livre — Alfredo constatou, com cuidado.

Davi parou o papelão por um segundo. As formigas continuaram passando. Ele respirou fundo.

— Tenho — respondeu. — E elas tiveram sorte.

Ele ergueu o olhar então. Não havia vergonha. Nem defesa. Só uma honestidade quase desconcertante.

— As pessoas julgam o que faço — continuou. — Algumas rindo, outras com pena. E eu me acostumei em parte.

Aquilo atingiu Alfredo de um jeito inesperado.

Porque Davi não estava pedindo validação. Não estava se explicando. Apenas constatando um fato, como quem fala do clima.

— E você? — Davi perguntou de repente. — Acha que eu sou doido?

Alfredo abriu a boca para responder algo racional, seguro, distante. Algo que o mantivesse no lugar confortável de observador. Mas não foi isso que saiu.

— Acho que você vê coisas que eu passo direto — disse, após alguns segundos.

Davi piscou, como se aquela resposta precisasse ser processada.

— Isso é ruim? — perguntou.

Alfredo sentiu o peito apertar de novo. Mais forte agora. Uma sensação quente, estranha, quase um deslocamento interno. Ele não se lembrava da última vez que sentira algo tão… vulnerável.

— Não sei — admitiu. — Mas é diferente.

Davi sorriu de leve. Um sorriso pequeno, torto, quase tímido.

— Diferente costuma assustar.

As formigas terminaram a travessia. Davi recolheu o papelão devagar, como quem encerra um ritual. Ficou alguns segundos olhando o chão vazio, satisfeito.

Alfredo percebeu então que o que ele sentia não era só curiosidade. Não era só piedade. Era inquietação. Era empatia. Era uma vontade absurda de entender, de não se afastar como sempre fazia.

Talvez Davi tivesse, sim, algum transtorno.

Mas, pela primeira vez na vida, Alfredo sentiu que o problema não era isso. O problema era que algo dentro dele, algo cuidadosamente controlado por anos, tinha acabado de despertar. E ele não fazia ideia do que fazer com aquilo.

Davi se levantou com um estalo leve nos joelhos, como quem sai de um transe cotidiano. Sacudiu as mãos, limpando o pó invisível nelas, e olhou em volta, não como alguém perdido, mas como alguém procurando algo específico.

Alfredo se levantou logo depois. Não disse nada. Não perguntou para onde iam. Apenas ficou ali, à distância exata de dois passos, como se estivesse observando um experimento que não queria contaminar.

Davi começou a andar. Não em linha reta. Ele desviava de certas placas, mudava o ritmo ao passar por lojas com coisas que ele achava legais.

Em determinado momento, parou abruptamente diante de uma lixeira pública. Alfredo parou também e antes que pudesse reagir, Davi abriu a lixeira. Lá dentro, o saco plástico estava mal encaixado, preso na borda metálica, ele ajeitou o saco com cuidado, fechou a tampa e respirou aliviado, como se tivesse resolvido algo importante.

— Pronto.

Alfredo franziu o cenho e pensou:

Atenção seletiva extrema.

Alfredo caminhava atrás dele como um cientista silencioso, anotando mentalmente cada detalhe: a forma como Davi não parecia constrangido em público, a ausência total de autoconsciência social, a tranquilidade genuína depois de “corrigir” algo.

Davi seguiu adiante e, poucos metros depois, parou de novo.

Desta vez diante de um semáforo de pedestres.

Ele ficou observando a luz vermelha. Não o trânsito, a luz. Contou os segundos em voz baixa.

— Ele demorou dois segundos a mais hoje — comentou.

— O semáforo? — Alfredo perguntou, incapaz de conter.

— Uhum. Ontem ele trocou mais rápido. Deve estar desregulado.

Não era delírio. Não era fantasia. Davi não achava que o semáforo falava com ele. Ele apenas percebia padrões minúsculos, desvios mínimos, variações que o resto do mundo ignorava.

— Isso te incomoda? — Alfredo perguntou, com cuidado calculado.

Davi pensou por alguns segundos antes de responder.

— Não — disse. — É só um fato. Gosto de fatos. Gosto ainda mais de notar fatos.

Ele atravessou a rua quando o sinal abriu. Alfredo foi atrás. E, enquanto caminhava, Alfredo percebeu algo perturbador em si mesmo: ele não estava mais apenas analisando.

Estava regulando o próprio passo ao de Davi. Diminuindo o ritmo. Como se, por proximidade, algo nele estivesse sendo puxado para fora do eixo habitual. A frieza não desapareceu. Ela apenas se reorganizou. Agora, estava focada em uma única variável imprevisível. 

Acompanhamento.

Davi parou de repente enquanto estavam em uma praça. Alfredo quase esbarrou nele, mas conseguiu frear a tempo. O motivo ficou claro no mesmo instante: alguns metros à frente, um homem alto, largo, camiseta justa demais para provar um ponto inexistente, tentava impressionar dois amigos chutando uma lata vazia no meio da calçada.

O chute saiu errado.

A lata ricocheteou no meio-fio, voltou e acertou em cheio a própria canela do sujeito. O som metálico foi seco. O homem xingou alto, pulando num pé só, enquanto os amigos riam sem piedade.

Davi levou a mão à boca.

Tentou segurar.

Falhou.

Ele riu.

Não foi alto. Não foi debochado. Foi uma risada curta, espontânea, quase infantil, dessas que escapam antes do filtro social entrar em ação.

Foi o suficiente.

— Qual foi, porra? — o homem virou na hora, o rosto vermelho, o orgulho ainda mais. — Tá rindo do quê?

Davi congelou. O riso morreu no meio do rosto, substituído por confusão genuína.

— Eu… não foi de você grandão — disse, sincero demais. — Foi da situação.

— Tá me tirando, maluco do bairro? — o homem se aproximou de Davi que correu alguns metros por impulso.

Alfredo se colocou entre os dois antes que Davi pudesse dizer qualquer outra coisa errada.

— Não vale a pena — Alfredo disse, voz baixa, firme, sem agressividade. — Segue teu caminho.

O homem olhou Alfredo de cima a baixo. Avaliação rápida. Ele não gritava ameaça, mas também não gritava alvo fácil. Havia algo na postura dele, ombros alinhados, olhar estável, distância bem medida, que não convidava ao ataque.

— E você é o quê? Babá dele? — provocou o sujeito, inflando o peito.

Alfredo não se moveu:

— Sou alguém que não quer confusão. Mas não vai deixar passar se você encostar nele.

Silêncio.

O vento passou. Um carro buzinou ao longe. Davi observava tudo de lado, os olhos atentos, como se estivesse analisando uma dinâmica nova.

O homem rangeu os dentes, deu mais um meio passo… e parou. A coragem murchou rápido demais para virar violência.

— Louco do caralho — resmungou, virando-se para ir embora, mancando um pouco da canela.

Quando ele se afastou, Alfredo soltou o ar devagar. Só então percebeu que os punhos estavam cerrados.

Davi olhou para ele.

— Você ficou diferente — comentou, sem acusação. Apenas curioso.

— Diferente como? — Alfredo perguntou.

— Mais… sólido — Davi inclinou a cabeça. — Tipo uma parede. Iguais aos heróis. 

Alfredo sentiu algo quente subir pelo peito. Um orgulho discreto, estranho. Ele nunca brigara. Nunca precisara. Mas descobriu, naquele instante, que sabia se impor quando importava.

— Você precisa tomar cuidado — disse, virando-se para Davi. — Nem todo mundo reage bem quando vira motivo de riso.

— Mas ele fez algo engraçado.

— Fez — Alfredo concordou. — Mas algumas pessoas frustradas descontam em quem não precisa.

Davi pensou nisso por alguns segundos. Depois assentiu, como quem arquiva uma informação nova.

— Tá — disse.

Eles caminharam mais pela praça. O ritmo agora era outro, mais lento, mais atento. Alfredo percebeu que já não observava Davi como quem estuda um objeto externo, mas como quem testa hipóteses em algo perigosamente próximo.

Ele quebrou o silêncio primeiro depois de terem comprado uma água e Davi pagou a dele.

— Você trabalha? — perguntou, num tom neutro, quase casual demais para a pergunta em si.

Davi respondeu sem hesitar.

— Não.

Nenhuma defesa. Nenhum constrangimento.

— Não gosta ou não consegue? — Alfredo ajustou, medindo as palavras.

— Consigo algumas coisas. Outras não — Davi deu de ombros. — Trabalhar do jeito que as pessoas esperam… não dá muito certo comigo. Então não gosto.

Alfredo assentiu devagar.

— E como você vive?

— Recebo um salário do governo — respondeu, simples. — Benefício. Eles chamam de apoio permanente.

Alfredo sentiu um leve choque interno. Não pela resposta em si, mas pela forma. Não havia ressentimento. Nem vergonha. Nem tentativa de justificar o próprio valor.

— Você fala isso com todo mundo assim? — perguntou.

— Uhum. É verdade, né? — Davi virou o rosto para ele. — E você perguntou.

Alfredo engoliu seco. Aquilo contrariava tudo o que aprendera sobre autopreservação social.

— E… — ele fez uma pausa curta. — Você tem algum diagnóstico?

Davi parou de andar.

Por um instante, Alfredo pensou que tinha ido longe demais. Mas Davi não pareceu ofendido. Apenas pensativo. Como alguém abrindo uma gaveta antiga.

— Tenho — disse por fim. — Vários nomes. Nenhum fecha direito.

Eles retomaram a caminhada.

— Os médicos dizem que é complicado — Davi continuou. — Longo de explicar. Tem coisa sensorial, coisa cognitiva, coisa emocional… eles discutem mais entre eles do que comigo.

— Isso te incomoda? — Alfredo perguntou.

— Às vezes — Davi respondeu. — Principalmente quando querem me encaixar em algo que não cabe. Eu não sou uma lista de sintomas.

A frase ficou suspensa no ar.

Alfredo sentiu um aperto estranho no peito. Algo entre admiração e desconforto. Davi falava de si mesmo com uma clareza que Alfredo não tinha nem sobre a própria vida perfeitamente organizada.

— Você nunca teve vergonha disso? — Alfredo perguntou, quase sem perceber que a pergunta dizia mais sobre ele do que sobre Davi.

Davi parou de novo. Olhou para Alfredo com atenção verdadeira.

— Vergonha de quê? — perguntou.

Alfredo abriu a boca. Fechou. Não encontrou resposta imediata.

— De… não saber o que tem de errado — disse por fim.

Davi pensou. De verdade. Como se nunca tivesse considerado aquela possibilidade sob aquele ângulo.

— Não vou negar que já fui muito atrás, mas é natural, não tenho desespero para essa resposta — disse, com calma. 

O mundo ao redor seguiu barulhento, apressado, indiferente. Mas Alfredo sentiu como se algo tivesse sido deslocado dentro dele, fora do lugar habitual.

Ele, que sempre filtrara tudo.

Ele, que sempre vestira camadas de controle, silêncio e adequação.

Caminhava agora ao lado de alguém que não filtrava nada.

E, contra toda a lógica que o guiara até ali, Alfredo percebeu: não era desconfortável. Era perigosamente libertador.

A luz da rua começou a mudar sem que Alfredo percebesse de imediato.

Os prédios, antes cinzentos, agora refletiam tons alaranjados. As sombras se alongavam no asfalto. O fluxo de pessoas aumentava, mais apressado, mais ruidoso. Alfredo olhou para o céu quase por reflexo, um hábito antigo, herdado de dias em que precisava se lembrar de ir embora.

Anoitecendo.

O peito dele apertou levemente. Não por ansiedade. Por interrupção.

— Eu preciso ir — disse, finalmente, quebrando o silêncio que já não era estranho. — Tenho que voltar pra casa.

Davi assentiu na mesma hora, sem sinal de frustração.

— Tá ficando mais barulhento mesmo — comentou. — À noite piora.

Alfredo hesitou. Aquilo não era comum para ele: hesitar em encerrar algo. Normalmente, despedidas eram limpas, rápidas, funcionais.

Mas não agora.

— Davi… — chamou, e esperou até que o outro o olhasse. — Eu queria te ver de novo.

A frase saiu firme. Direta. Sem rodeios. Alfredo percebeu isso no exato instante em que a disse.

Davi piscou algumas vezes, como se estivesse reorganizando informações.

— Tá — respondeu, simples. — Eu tô quase sempre por aqui.

Alfredo tirou o celular do bolso. Desbloqueou. Digitou o número com movimentos seguros, quase automáticos, os mesmos que usava em reuniões importantes, apresentações decisivas.

— Anota — disse, estendendo o aparelho.

Davi pegou o celular com cuidado exagerado, como se fosse algo frágil. Digitou o número no próprio telefone antigo, a tela com pequenos arranhões. Conferiu duas vezes.

— Alfredo cara legal — leu em voz alta, antes de salvar o contato. — Pronto.

Ele devolveu o celular e acrescentou, como quem oferece um dado relevante:

— Eu sempre tô por esse bairro. De tarde, principalmente. Se não me ver, é só me mandar mensagem.

Alfredo assentiu. Um gesto simples, mas carregado de algo que ele ainda não sabia nomear.

— Mando — disse. Não como promessa vazia. Como decisão.

Davi sorriu. Não largo. Não contido. Um sorriso tranquilo, genuíno.

— Gostei de andar com você — comentou. — Você não tenta me consertar.

A frase ficou com Alfredo.

— Você não parece quebrado — respondeu, quase num murmúrio.

Eles se despediram sem aperto de mão, sem abraço. Apenas um olhar sustentado por alguns segundos a mais do que o socialmente esperado.

Quando Alfredo se afastou, caminhando em direção ao metrô, sentiu algo inédito: uma conexão com alguém.

 

De madrugada, Alfredo acordou com o celular vibrando. Não era o alarme. Não era e-mail do trabalho. Não era mensagem de emergência. Era insistente. Curta. Repetida. Ele abriu um olho só, ainda meio perdido, e puxou o celular da mesa de cabeceira. A tela iluminou o quarto escuro com um brilho agressivo demais para aquele horário.

Davi (3 mensagens)

Alfredo franziu a testa. Desbloqueou.

O primeiro vídeo carregou.

Um cachorro usando óculos de sol estava sentado numa cadeira giratória enquanto uma voz distorcida repetia “é o gerente… é o gerente…” ao fundo. Do nada, a cadeira girava rápido demais, o vídeo cortava abruptamente e surgia uma imagem de um micro-ondas explodindo confete.

Alfredo piscou.

O segundo vídeo veio em seguida:

Um homem fantasiado de milho correndo em câmera lenta por um estacionamento vazio, enquanto uma música épica tocava… até ser interrompida por um “plim” de notificação e cortava para ele dançando de cueca por três segundos.

O terceiro era de uma receita sendo feita bem rapidamente com uma música de fundo e no meio de repente apareceu dois personagens masculinos transando por um milésimo de segundo e o vídeo continuava normalmente até acabar.

Alfredo apoiou o celular no peito.

Silêncio.

Então ele soltou ar pelo nariz.

Não era engraçado.

Não fazia sentido.

Não tinha lógica alguma.

Alfredo sentiu algo estranho acontecer.

Um canto da boca subiu antes que ele percebesse.

O humor não estava na piada. Nem na imagem. Estava no absurdo cru, na quebra completa de expectativa, na ausência total de propósito. Não havia mensagem. Não havia contexto. Só… caos inofensivo.

O celular vibrou de novo.

Davi: “Isso é bom pra quando a cabeça fica muito reta. Sua cabeça é muito reta, desalinha um pouco”

Alfredo ficou olhando a mensagem por alguns segundos. Com sono.

Cabeça muito reta.

Ele pensou no dia seguinte, nas reuniões, nos números, nos gráficos alinhados, nas respostas calculadas. Pensou em como tudo na vida dele fazia sentido, o tempo todo.

E, pela primeira vez, isso pareceu cansativo.

Ele respondeu.

Alfredo: “Isso não faz o menor sentido mas eu ri”

A resposta veio quase imediata.

Davi: “Então tá funcionando :)”

Alfredo soltou uma risada curta. Baixa e real. Daquelas que não precisam de permissão.

Ele virou de lado na cama, colocou o celular de novo na mesa, mas não no modo silencioso.

E, antes de fechar os olhos, pensou que talvez... talvez não fosse tão ruim deixar algumas coisas sem sentido por um tempo.