Actions

Work Header

O Enterro

Summary:

Como combinado com o Rafa, o Matheus volta para a casa antiga dele para finalmente se desfazer das coisas do pai dele. Não por luto, mas por causa que ele não consegue parar de ver ele em todos os lugares.

Work Text:

Depois de algumas semanas, o Matheus perguntou para o Rafael se ele se importava vir com ele na casa antiga dele para pegar algumas coisas.

Nessas semanas, focou em recuperar. Ele não conseguia se mover muito, e não podia ir para a ginástica, então não tinha muita escolha além de deitar na cama até sarar. Se não quisesse que o Rafael ou o Robilson arrastassem ele de volta para cama.

O dia que ele programou com o Rafa tinha finalmente chegado. Acordou normalmente, escovando os dentes, tomando café. Mas ele sentia como se o pai ainda estivesse no seu ombro, falando para ele que ele não ia se livrar dele tão cedo. A chave da casa antiga dele estava como um peso no bolso enquanto terminava de se arrumar. Era simbólico. Não tinha corpo, e o Rafa já falou para ele várias vezes que não tinha como ele voltar. Então porque ele estava tremendo tanto?

— Teco. Tem certeza que você não quer que eu vá? — O Robilson tira ele dos pensamentos. Ele estava de braços cruzados sentado na cama.

— Eu tinha combinado com o Rafa já, amor. — Matheus solta o melhor sorriso que consegue para o namorado. Não era que o Matheus não quisesse ter o namorado por perto. O problema era que esses dias o mais velho estava tão preocupado com ele, e o estresse estava ficando notável. Não queria colocar mais algo para ele se preocupar. — Além do que, vai ser rápido. Nem vai perceber que eu saí.

— Você sabe que isso não é verdade. — Robilson murmurou, fazendo com que o Matheus chegasse perto dele com um suspiro.

— Você tem que dar aula hoje. — Matheus dá um beijo no bico que estava formando no namorado. — Melhor você ir com a cabeça mais tranquila.

O mais velho suspirou derrotado. — Ok…se precisar de algo, me liga tá?

— Ligo sim. Prometo. — Matheus dá mais um beijinho nele. — Te amo.

— Também te amo.

Matheus depois encontra Rafael com um dos carros da ordem esperando por ele do lado de fora. Ele entra no passageiro, e ele sente o coração acelerado batendo forte contra o seu peito.

— Pronto menininho? — Rafa fala, olhando para o Matheus, que estava balançando a perna cheia de nervos.

— Sim. Sim. — Matheus concorda com a cabeça.

Pesadelos sobre voltar para casa são normais na rotina do ginasta. Era só abraçar o Robilson que ele conseguia dormir o resto da noite. Mas, algo novo se desenvolveu recentemente. Tem dias que ele vê o pai dele. Não de verdade, pelo menos é isso que o terapeuta dele acha, mas uma lembrança que ele sempre estaria ali. No reflexo de um espelho, na rua onde ele está andando até a Ordem, quando ele está relaxado com os amigos, ou até agora, onde ele viu o corpo dilacerado mais uma vez quando o Rafa parou em um semáforo.

Ele respirou fundo, fechando os olhos como o terapeuta disse para ele fazer, e depois abre de novo para o lugar onde o pai dele estava estando vazio.

Por isso que as coisas do pai dele tinham que ser queimadas hoje.

— Tá tudo bem? — A voz do Rafa estoura o pensamento dele, fazendo que o mais novo tome um susto. — Viu alguma coisa?

— Não. Vi não. Só pensando. — Ele ri baixinho antes de suspirar. — Quero acabar com isso logo.

— Eu sei… Você quer fazer o que eu te falei né? Algo simbólico?

Matheus concorda com a cabeça. — Fica esquisito se nao enterrar ele de alguma forma.

— Certo. — Com isso, o Rafa estacionou na frente da casa. Olhando para ela mais uma vez depois de tanto tempo longe, era estranho. Essa situação toda era estranha.

Ele saiu do carro com a mochila na mão, que ele trouxe caso que tenha algo que ele queira ficar, e ficou parado na porta enquanto o Rafa segue ele.

O mais velho coloca a mão no ombro dele. — Vou estar aqui contigo o tempo todo.

Ele coloca a chave e destranca a porta. — Ok. Certo. Não fique longe.

— Não está nos meus planos.

A mão dele treme em direção a maçaneta. — Porque caso ele esteja ali, forma de criatura e tal, eu não trouxe nada então assim- —

— Matheus. — Rafa interrompe os pensamentos dele, e vira o mais novo para olhar para ele. — Eu prometo que ele está morto sem rastro nenhum. Não tem como ele voltar.

— Verdade. Você falou.

Rafa começa a dar um carinho no ombro dele. — Isso. Então respira fundo. Eu vou tá aqui com você, e não vou deixar você sozinho aqui.

Matheus fez o que o Rafa pediu, soltando ar pelo nariz. — Ok. Melhor fazer logo.

A porta range altamente, como se alertando o universo que o filho voltou para a casa do pai. Poeira estava em todo qualquer lugar, já que a última vez que estiveram lá foi quando transfiram a mãe dele para um hospital perto. Matheus nem estava lá no dia. Na época, ele não conseguia nem respirar perto da casa, imagina tentar tirar a mãe? Matheus pede desculpa à mãe toda vez que ele a visita.

A casa estava praticamente como ele deixou naquele dia. Os seus tênis jogados na porta, do lado dos sapatos de trabalho do pai dele, as revistas que o pai dele deixava em cima da mesa da sala estão no lugar. Até um prato sujo, com uma garrafa de cerveja, ainda estava na mesa da cozinha.

Mas o que chamou a atenção dele foi uma faca de cozinha. Uma de serra simples. Ela estava em cima do sofá, onde ele normalmente sentava esperando o filho quando ele não recebia os resultados que queria. Ele sempre estava com um cigarro na boca, e ele precisaria falar nada, só se levantava e o Matheus já sabia o que tinha para vir.

As bandagens e o álcool ainda estavam na estante da tv, da última vez que ele tinha que limpar as costas. Era muito perto da última competição ruim do treino que causou tudo isso, não iria dar tempo para as costas dele sararem totalmente. Por isso que o treino foi menos do que esperado, ele estava passando mal de enjoo, e quase desmaiou. Ele iria morrer só pelo sangramento do primeiro corte. Ele não ia conseguir se levantar sozinho para pegar o que ele precisava.

Os punhos dele fecham, unhas cravando a palma da mão como se ajudasse a ele concentrar. O pai dele ia matar ele se o Rafael não tivesse pego ele primeiro. Os olhos dele fixam na faca, como se ele não acreditasse. Como se ele piscasse ele iria perceber que era que nem as ilusões do pai dele, que não era de verdade. Mas não importava o quanto ele piscasse ou respirasse fundo, ela continuava lá.

Rafael fica na frente da sua visão. — Menino? Tá tudo bem?

Matheus balança a cabeça, soltando um suspiro trêmula. Lágrimas apareceram antes mesmo deles olharem a casa direito. — Isso foi uma má ideia. — Ele passa a mão no rosto para esconder o choro. — A gente nem entrou na casa direito ainda e já cansei.

O loiro traz ele para perto em um abraço, e o Matheus apoia a cabeça no ombro dele. — Você quer voltar para casa? — Ele afagava as costas do mais novo. — Podemos parar em uma sorveteria se quiser.

— Não. — Matheus se afasta e respira fundo. Isso não era opção. Precisava queimar tudo que era dele. Nem era mais sobre respeito aos mortos, ele só queria parar de ver o pai em todo lugar. Isso não era luto. Era raiva. Ele pega a faca na mão. — Vamo logo.

— Você que sabe. — Rafa olhou para ele preocupado. — Sempre podemos voltar outro dia.

— Não quero. — Ele pega a garrafa de cerveja e vai em direção ao quintal.

Rafael segue atrás dele. — Ok então.

Matheus pegou um saco de lixo e junto todas as coisas do pai dele. Roupas, sapatos, e até meias. Parte dele pensou em só vender os relógios do velho, para poder começar a juntar dinheiro para o apartamento que queria com o namorado, mas ficou com medo que iria voltar para ele então ele jogou no saco antes de pensar muito sobre.

O tempo todo o Rafa seguia ele, às vezes ajudando a tirar coisas pesadas, já que ele ainda não podia pegar peso, e ficava ali caso precisasse de apoio moral. Matheus não sabia como agradecer o mais velho por causa do quanto ele ajudou ele a ficar mais calmo.

Depois de uma hora, finalmente encheram o saco com todas as coisas dele. Não esperava que iria se desfazer de tudo, mas o luto era engraçado.

Derramaram as coisas no quintal, e o Matheus acendeu o fósforo. Isso era o fim dos machucados que ele tinha achar um jeito de explicar, aos treinos sem fim, e ao descuido com a mãe dele. Não sabia porque ele começou a chorar mesmo assim. O pai dele era tudo de ruim na vida dele, mas aqui ele estava.

Ele chorava tanto que caiu de joelhos, e o Rafa ficou acariciando as costas dele como conforto. O pai dele odiava ele, mas o Matheus não sabia odiar de volta. Raiva era algo tão raro, e mesmo agora sabendo que ele iria morrer quando voltasse para casa, ele não conseguiu ter uma gota de rancor contra o pai.

Os dois ficaram ali por um tempo, vendo a fumaça subir ao céu enquanto o Matheus soluçava. Estava ficando tarde, e nem percebeu quando o Rafa apagou o fogo para não se espalhar.

— Bora menininho. — Ele ajuda o Matheus se levantar, que nem estava muito presente. — Vamos para casa, porque o Robilson deve estar esperando por você.

Matheus só concordou com a cabeça enquanto o outro ajudava ele ir para o carro, dando um carinho no ombro dele.

A volta foi em silêncio, e o Matheus não prestou muita atenção no lado de fora do carro, olhando para suas mãos. Não queria ter a chance de ver o pai dele enquanto ele estava assim.

O Rafa deixou ele em casa, com um olhar preocupado como sinal para o Robilson, que pegou ele na porta.

Robilson dá um abraço apertado no Matheus, e o mais novo quase chora de novo, mas se segura. — Vou te dar um banho e a gente deita.

Matheus mais uma vez deixa ele ser levado pelo namorado, sem discordar muito. O mais velho arrumou a banheira, e ajudou o Matheus a tomar banho com todo o cuidado do mundo, como se um movimento errado quebraria ele.

Ele amava muito o Robilson. O jeito que ele dava carinho e beijos quando o Matheus começava a chorar de novo, como ele sabia exatamente qual era o pijama que ele gostava, a delicadeza enquanto ajudava a se vestir quando o Matheus não tinha energia nem para isso. Todo o cuidado que o Robilson tinha com ele tinha que ser estudado, porque ele quer entender como que ele merecia tanto amor assim.

Ao deitar na cama, o Matheus abraçava ele para perto, e murmurava com o rosto no cabelo dele. — Te amo muito.

— Te amo também. — Foi a única coisa que Robilson respondeu, e era o suficiente.