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Apesar de entediante, Maitimo estava parado de forma educada e sem falar nada. Mesmo estando longe da maioridade, surpreendentemente já alcançava a altura da coxa do pai ao lado dele. Seus cabelos ruivos brilhavam levemente sob a luz e sua túnica azul adicionava mais elegância a sua forma élfica. Porém estava parado ali há um tempo como espectador e infelizmente já tinha alinhado qualquer mecha de cabelo fora do lugar ou dobras da roupa que estava usando, ficando sem distrações para ocupar a mente. Sem nada para fazer e apesar de não ser muito educado, Maitimo lançava olhares curiosos para o elfo que conversava com Fëanaro, notando que o outro elfo ainda o ignorava.
Maitimo não conhecia esta casa, apesar de às vezes ter passado pelo jardim em suas explorações curiosas. Estar no interior estava sendo empolgante, menos a presença do proprietário dela. Alimamoro. Um amigo de seu pai, um dos mais antigos pela forma de conversar. Não havia cordialidade ou cuidado naquela conversa, ambos estavam sendo muito casuais um com o outro. Porém havia algo errado, que para os olhares inocentes de Maitimo a postura tensa e protetora do elfo velho não passou despercebido. Fëanaro com certeza não deixou de notar também, e era por isso que neste momento, atormentava o outro de forma irritante com suas perguntas sem fim e ignorando a falta de educação de Alimamoro sobre Maitimo. Isso ele resolveria depois no devido tempo.
Mas Maitimo não se importou muito com aquilo, permaneceu ao lado do pai e com grande interesse na conversa, uma orelha focada na troca de palavras e olhos no ambiente. Pois grandes tapeçarias enfeitavam a sala principal e uma bem próxima dele era muito linda. Uma tapeçaria enorme pedurada na parede, com uma paisagem que ele nunca tinha visto na curta vida. Estava muito absorto nos detalhes pintados e pontos de linhas elegantes para não se assustar com o tom exasperado de Alimamoro e alegria de um Fëanaro empolgado.
"Aha! Mostre o que esconde agora seu corvo velho. Te conheço bastante, chega de enrolar ou eu mesmo encontro o que você tanto deixa escondido!" Maitimo sorriu divertido ao ver o pai encurralar Alimamoro com um dedo enluvado no peito. Maitimo e Alimamoro sabiam que ele passaria pela porta com permissão ou não, assim era Fëanaro. Com um passo para trás e um tapinha no dedo invasor, Maitimo viu Alimamoro se afastar a contra gosto da porta que protegia com tanto afinco.
"Que seja. Apenas se comporte se possível e sua pulguinha ruiva também." E assim ele deu as costas para Maitimo, ignorando completamente um Fëanaro ofendido dramaticamente pelo novo apelido dado ao filho. Impediu qualquer possível protesto de Fëanaro quando soltou um assobio bonito, um leve chamado de ritmo elegante sem precisar levar os dedos nos lábios. O assobio foi breve e um movimento veio de dentro da casa que estavam, atiçando ainda mais a curiosidade de Maitimo.
Sem nenhuma demora, uma figura surgiu rapidamente dos fundos após o chamado e abraçou as pernas de Alimamoro. Foi tão rápido que Maitimo não conseguiu ver se era outro elfo ou um animal de estimação se escondendo no tecido esvoaçante que agarrou ao chegar. Mas quieta e tão próxima, Maitimo logo percebeu que se tratava de uma pequena elfa, um pouco mais nova aparentemente do que ele. Ela parecia mais pequena ao ser empurrada para longe dos tecidos e trazida para frente, ficando totalmente exposta para os olhares de Maitimo e Fëanaro.
"Fëanaro, Nelyafinwë Maitimo. Esta é Meluicraban, minha filha." Alimamoro a apresentou orgulhosamente, mas ainda assim de forma protetora, pois segurava os pequenos ombros da filha.
Maitimo ficou surpreso, não esperava que uma pequena elfa fosse o grande segredo misterioso que o pai buscava saber com tanta curiosidade. Ele olhou para o Fëanaro e notou a mesma surpresa no rosto, a sala ficando dolorosamente silenciosa e todos se encarando. Mas o silêncio foi interrompido.
"Uma filha?! Do nada?!" Fëanaro berrou, assustando Maitimo e a pequena elfa, que saíram do caminho quando Fëanaro avançou em Alimamoro. Fëanaro o agarrou pelos tecidos do peito, os dois andando alguns passos para dentro da casa em uma discussão acalorada, esquecendo totalmente a dupla de jovens muito surpresos para trás. Os dois ainda permaneceram na sala, olhando com surpresa para os pais antes de se encararem, cada um um pouco afastado do outro.
Sem toda aquela bagunça, os dois elfos nanicos se olharam em silêncio, examinando da forma que as crianças curiosas fazem. Maitimo engoliu a saliva, reunindo coragem para quebrar o silêncio dos dois.
"Olá, prazer em te conhecer Meluicraban." Maitimo foi o primeiro a dar o passo com as mãos apertadas, de forma ansiosa, ao lado do corpo. Apesar de muito sociável, ainda sentia insegurança ao conversar pela primeira vez com alguém novo. Sua insegurança aumentou mais sob o olhar inclinado e fofo da outra criança, que adorávelmente o olhava como uma coruja de cabeça inclinada. A pele dela era mais escura que a dele, com olhos esticados de forma muito elegante, igual seus cabelos longos e de cor parecida porém diferente do preto cacheado que ele sempre via no pai. Os grandes olhos verdes piscaram surpresos quando ele falou e se aproximou, mas a elfa não se afastou da iniciativa.
Melu, olhando curiosamente para Maitimo, não respondeu de imediato para ele, muito atenta quando Maitimo deu o último passo e ficou muito mais próximo dela. O tamanho deles, agora juntos e pertinho foi um problema, pois ela precisou esticar um pouco o pescoço para conseguir olhar o rosto dele. As mãos dela ficaram juntas, se beliscando ansiosas ao encontrar um rosto muito bonito lá em cima. Melu só o tinha visto de longe, ouvido rumores, ter o ruivo tão perto agora fez ela sentir o coração bater mais rápido.
"Hm, Oi príncipe Nelyafinwë Maitimo." Ela se lembrou das instruções de seu pai e fez uma leve reverência ao falar com voz suave, abaixando a cabeça brevemente com respeito.
"Só um nome, sem o príncipe também." Maitimo a corrigiu prontamente, levemente exasperado, o rosto dele ficando quente ao ouvir seu título e ser tratado de maneira muito formal. Memórias de elfos bajuladores desta manhã, anteriores à visita nesta casa, inundaram a mente de Maitimo e o deixaram muito incomodado. Ele não gostava dessa parte de ser príncipe, ainda estava aprendendo a lidar com elfos bajuladores. Ficando tão distraído com o próprio desconforto e memórias, ele esquentou ainda mais ao ouvir a pequena elfa sorrir e respondê-lo, muito divertida com a reação do ruivo.
"Tudo bem, Maitimo.. Me chame de Melu, se preferir também." A escolha do nome materno surpreendeu Maitimo mas ele não disse nada sobre isso, guardando internamente.
"Melu." Maitimo testou o apelido, gostando do som. "Porque seu Atya não queria que você fosse vista?" Ele perguntou o que tanto incomodava na mente dele naquele momento. Não entendo toda aquela situação estranha. Alimamoro era bastante conhecido, principalmente entre a família de Maitimo, esconder a existência da filha era estranho até para o jovem e alheio príncipe. Mas a pergunta incomodou a elfa, fazendo que ela começasse a segurar os tecidos e dedos de forma ansiosa. Maitimo não a forçou a responder rapidamente, ficando parado e esperando uma resposta ou talvez nenhuma.
Mas seria falta de educação não dar uma resposta e sendo um ellon tão amigável, Melu não tinha motivos para esconder e não falar. Maitimo parecia muito simpático e um potencial amigo para ela, algo muito raro que ela não gostaria de perder.
"Atya é muito protetor. Só posso ir para alguns lugares específicos e sou restrita, vou para minhas aulas e falo com pouca gente." Melu disse enquanto torcia o tecido do vestido. "E ele diz que sou o tesouro dele, devo obedecer e ficar segura até crescer mais, pois ainda muito nova e os outros podem se aproveitar de mim." Ela soltou um suspiro e olhou para Maitimo, ainda muito ansiosa ao ponto de estar machucando as pontas dos dedos sem perceber.
Não era uma resposta que Maitimo esperava, mas fazia sentido. Alimamoro era conhecido por todos, seu exagero em relação a proteção e paranoia era algo que todos tinham conhecimento, até mesmo Maitimo. Com olhos atentos ele notou as mãos inquietas de Melu e por extinto, segurou as mãos mais pequenas que a dele, a impedindo de machucar ao redor das unhas delicadas dela. "Entendi. Mas você não parece boba e agora todos vão saber sobre você. Meu Atya vai.." Ele disse suavemente e mordeu a língua sentindo o rosto esquentar ao perceber a atual situação. Maitimo nunca tinha pegado nas mãos de uma elfa daquela maneira e Melu estava tão vermelha de vergonha também. Maitimo sentiu as orelhas coçar de vergonha e a saliva em sua boca secar, o fazendo gaguejar o restante da frase.
Por coincidência, para quebrar o transe da dupla, os dois par de orelhas pontudas ouviram um Fëanaro se aproximando, com sua voz potente e um Alimamoro reclamando ao ser arrastado.
"Olha como os dois estão se dando bem." Fëanaro apontou para a dupla de mãos dadas quando terminou de arrastar o velho amigo. "Se arrume, vou mostrar esta pequenina para Nerdanel e meu filho que logo vai nascer!" Fëanaro deu alguns tapinhas na cabeça ruiva de Maitimo que estava tão vermelho quanto o cabelo. Foi um carinho cheio de orgulho pelo filho ter socializado e feito uma amiga enquanto ele mesmo estava ocupado. Melu recebeu tapinhas na cabeça também, antes de ser empurrada na direção de Maitimo por Fëanaro. "Vamos, vocês dois vão na frente. Eu carrego esse corvo rabugento logo atrás." Fëanaro empurrou a dupla para fora da casa e voltou para perseguir Alimamoro que tentava fugir da socialização, deixando Maitimo para guiar Melu. O pequeno príncipe e sua nova amiga olharam divertidos para os pais antes de Maitimo puxar gentilmente a manga do vestido da elfa.
"Vem, vou te mostrar o melhor caminho pra minha casa e as coisas legais no caminho pra ela!" Maitimo estufou o peito, se sentindo muito importante com a tarefa de ser um guia para a nova amiga. Ficou ainda mais empolgado e orgulhoso quando Melu assentiu. Mas toda a marra do ruivo sumiu quando a elfa segurou a mão dele com um aperto firme e o arrastou para frente, o incentivando a andar e cumprir o que tinha dito. Ela sorria e estava animada.
"Vamos! Vamos então!" Ela deu um último puxão, ansiosa para explorar e ainda mais por ter companhia nova. Os dois riram divertidos e logo começaram a correr. Maitimo guiava para um caminho fora das ruas de pedras bonitas mas perto o suficiente para ser visto pelo olhar atento do pai. Em um passo apressado por estar animado, ambos seguravam a mão um do outro, explorando e se divertindo na grama e os quintais.
Fëanaro só conseguiu ouvir passos e risinhos de longe quando foi para a rua. Sorrindo ao ver Maitimo e Melu se divertindo nos terrenos abertos com flores e enfeites das casas próximas. Ele puxou o amigo para uma caminhada tranquila, deixando que a pequena dupla animada tivesse tempo para explorar tudo pelo caminho sem pressa ou preocupações, ambos podendo aproveitar o dia bonito pela frente.
Rascunho antigo da dupla. Aqui eles estão mais velhos e mais próximos um do outro.

