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Não mereço amor (ainda vou te amar)

Summary:

Agatha morde Veríssimo.

Notes:

Oiê, eu escrevi isso originalmente no meu tumblr @idontknowanametouse em agosto de 2025 e decidi postar aqui agora que tenho um ao3!
Isso foi inspirado por uma arte maravilhosa no tumblr de @violetspatellaa, depois vão lá conferir!
Como eu disse, o original é do ano passado, mas mudei uns poucos detalhezinhos pra combinar com o conto animado da Agatha, só um pouco pelo meu perfeccionismo com histórias mesmo rs
Espero que gostem :3

Work Text:

Agatha já teve ataques de pânico antes.

Ela sabe como agir nessa situação. Teve uma época em que era praticamente normal pra ela que isso acontecesse.

Ela entende que não está morrendo de verdade. Entende que é tudo dentro da sua cabeça. Entende que isso vai passar.

Mas, porra, isso não torna toda essa merda fácil.

Tudo começou... tão simples. Tão normal. Ela estava só analisando alguns objetos amaldiçoados que os agentes trouxeram de uma missão. Só isso. Coisa comum. Fácil.

Ela começou a analisar aquilo e a se envolver... e aí a coisa foi piorando. E piorando, e piorando, e piorando.

Era um ritual de sangue, meio parecido com o ritual de ódio, mas também... diferente. Enfim, isso não importa. Não agora.

Não quando Agatha sente seu coração batendo tão rápido que a sensação é que ela vai explodir numa nuvem de sangue e tripas.

Calma, calma, calma, calma...

Ela estava na base da Ordem, estava bem, estava segura. Ela já teve ataques de pânico na sala de rituais antes, só... nunca havia sido tão ruim a sensação (na verdade, nunca foi...). Não tem ninguém aqui que vai machucá-la, na verdade, não tem nem ninguém aqui! Todos estão fora, só Ivete que talvez esteja lá em cima cuidando do bar e olhe lá, foi Agatha quem ficou de fechar o lugar nessa madrugada! (que bom, que bom que não tem ninguém lá, ela não quer que a vejam desse jeito, não podem vê-la desse jeito)

Se Agatha se manter ali, se ela só conseguir se acalmar, então vai ficar tudo bem, ninguém vai ver isso e ela nunca vai precisar contar pra ninguém, e não vai mais precisar pensar nisso nunca, nunca mais. Agatha só precisa ser...

...mais forte.

Bom, claro, ela sempre teve que ser mais forte que o mundo ao seu redor, né? Se ela não fosse, não estaria viva hoje. Não com o bullying, o massacre na sua rua, a prisão da mãe, a solidão, o que houve no bunker, a investigação da Ordem, o...

O porão daquele transtornado...

Foi... muito tempo... sem ver o sol. Depois que saiu, ela descobriu que se passou menos de um mês... mas parecia tanto mais...

Ela odeia porões. Odeia, odeia, odeia. Nunca contou pra ninguém sobre isso, não tem pra quê contar, eles não podem mudar a Ordem de lugar só por causa dela, ela não é burra. Mas Agatha sente nervosismo quando se lembra de que está em uma sala coberta de componentes de rituais e objetos amaldiçoados debaixo da terra, com constante cheiro de sangue e um símbolo de Transcendência no chão...

Na primeira vez, ela estava apavorada. Estava trêmula e com raiva do mundo e se odiando mais do que tudo por ser burra pra caralho e só querendo uma chance de sobreviver. Transcender assusta, e Agatha estava sozinha e só queria um conforto.

Seja mais forte, seja mais forte.

Agatha cravou as unhas nos braços, tentando focar na dor e não no seu coração desenfreado. Ela já se infligiu dor antes, para afinar a Membrana. Para ser mais forte. Para que outros não a machucassem.

Se ela se machucasse, os outros não a machucariam, certo?

Agatha só agora percebe que está tremendo. Ah, merda. Só se concentra, se acalma, respira... mas seu coração parece bater cada vez mais rápido e nada do que ela faz ajuda. Porque isso está acontecendo? Porque?!

Ela se sente tão estúpida. Veríssimo a trouxe lá pra ajudá-los com o ocultismo e nem mesmo isso ela consegue fazer. Ela é tão inútil, todos vão perceber, vão perceber e machucá-la e jogá-la fora porque ela não serve pra nada...

Todo mundo que já se aproximou dela queria alguma coisa. Se Veríssimo a queria fora daquele porão, então ele queria alguma coisa com ela, óbvio. Ele é um homem que... nunca erra. Por causa dele Agatha estava livre, então ela precisava se mostrar útil. Sempre foi assim durante sua vida, porque não seria desse jeito aqui?

Ela precisava ser melhor... ser mais útil... ser mais forte. Só assim pras coisas melhorarem pra ela.

E como melhoraram, não é? Ela está em um porão, cercada de rituais, com sangue saindo dos braços e sozinha.

Dor.

Merda.

Sangue, dor, medo, solidão.

Caralho. Caralho, caralho, porra!

Cortes, uma figura maior que ela, machucados, gritos, lágrimas, risadas, risadas, risadas altas.

Tá tudo tão alto, tá tudo tão alto, tão horrível, alguém faz parar...

Raiva, raiva da Ordem, raiva da escola, raiva do diretor, raiva de Gabriel, raiva de Lina, raiva dos ocultistas, raiva do paranormal, raiva da mãe, raiva do mundo, raiva de tudo, raiva de todos, raiva de si mesma.

Dói, dói, dói, o cheiro de sangue se impregna nela, e ela não consegue respirar, e é tudo cada vez mais vermelho...

Vermelho incessante na escuridão, sofrimento, pele descascando, carne rasgando, sangue pingando, ossos partindo.

Ela está em perigo, porra, ela está em perigo, tudo a machuca e dói e quer matá-la e quer vê-la sofrer e vai se erguer acima dela e rir dela e ela precisa ser mais forte senão ele vai pegá-la.

A porta abre e alguém entra para fazê-la sofrer e a figura do homem se ergue sobre ela e ri da sua dor e torna tudo vermelho.

Ela não o viu se aproximando por trás, porra, ela não o viu, mas ela precisa revidar, Agatha precisa revidar e ela precisa machucá-lo antes que ele a machuque e ela precisa gritar e rasgar e machucar e MORDER

agatha sente a pele se rompendo e o sangue metálico manchando sua língua e ela usa todo o seu peso em cima dele para derrubá-lo porque ele nunca mais vai machucá-la de novo ninguém vai ninguém além dela mesma

e há luta e é uma confusão de membros e eles rolam e ela o chuta enquanto finca ainda mais os dentes nos músculos e ela não desiste mesmo que não entenda mais nada porque ela precisa ser forte e ela só é forte se machucar alguém

e então ele a envolve com um braço e ela tenta fugir mas ele não solta e ele é mais forte que ela e ele aperta aperta aperta aperta até ela sentir que vai quebrar no meio-

.

..

...

Não. Não é...

Não é isso o que tá acontecendo, é?

Ele... não tá apertando. Ela não tá quebrando. Ele segura firme e não solta, mas não dói.

Porque? Sempre dói. É assim que ele gosta. É assim que ela é útil pra ele.

O peito dele está ofegando, porque ela pulou nele, mas ele não está nervoso. Ele está tentando se acalmar, tentando...

Ele está pressionando o peito dela contra o seu, tentando fazer o ritmo dela voltar ao normal, fazê-la se acalmar...

Ela tenta sair, chutar, mas de repente está muito fraca para fazer qualquer coisa, ela quer lutar, mas só consegue...

...tentar deixar a sua respiração igual à dele.

.

..

...

...hã?

Seus olhos... ela os fechou, já tem um tempo. A visão dela estava embaçada antes, mesmo. Mas... agora... aquela firmeza afrouxou e não há nada a envolvendo.

Lenta, trêmula, hesitantemente, Agatha abre os olhos.

Veríssimo (o que? Quando foi que o velho chegou ali?) está na frente dela, e eles estão ajoelhados no chão, e seu braço está machucado (merda, não parece grave, mas porque ele ainda não cuidou ou só limpou? Que velho teimoso do caralho), e eles estão na sala de rituais, e Agatha sente um gosto esquisito na boca.

Leva um momento para perceber o que é aquilo em sua língua, mas logo entende porque é que lhe parece estranhamente familiar. Ela já sentiu esse gosto antes.

É sangue.

E ela olha para o braço de Veríssimo e suas mãos e o chão e o braço dele e suas mãos e o sangue pingando e o braço e o vermelho e então...

Ele pega seu rosto com as mãos e ela instintivamente fecha os olhos. Ele ergue seu rosto, gentilmente, mas ela não abre os olhos. Não ainda.

Agatha não está pronta para ver o olhar de nojo, raiva e decepção dele.

Que porra foi que ela fez?

É o fim. Acabou.

É esse. É o grande erro que não pode ser perdoado e não vai. Porque ela não merece que ele a perdoe.

Como ela pôde fazer isso?

Como foi tão fraca pra deixar essa merda tomar conta de si?

Ela é uma coisa nojenta, violenta e incontrolável. Não é melhor que qualquer cultista ou criatura que ele já matou. É uma pirralha burra, amaldiçoada e sem um futuro fora de um círculo de Transcender.

E ela é tão idiota que achou que poderia ter algo agora, algo bom, algo que ela não merece.

Como ela foi capaz de se apegar a Veríssimo daquele jeito? A achar que as coisas iam ficar bem? A achar que merecia alguém se importando com ela?

Ela não merecia. Ela não foi feita pra ser amada. Foi feita pra ser usada e aí jogada fora quando não precisarem mais dela.

Agora, seu tempo aqui acabou. Ele viu o quanto ela é um bicho asqueroso e vai mandá-la pra longe... isso se não matá-la.

Agatha já quis morrer outras vezes, e quer morrer agora de novo, só pra não ter que abrir os olhos e encarar a decepção no olhar de Veríssimo.

-Agatha.

Ouvir seu nome a faz tremer e querer se encolher, mas ela não pode fazer isso. Não, não agora.

-Pode me ouvir? Sou eu, Veríssimo.

Um gemido baixinho escapa de sua garganta. Porra, ela é tão patética.

-Pode olhar pra mim?

Fracamente, ela nega com a cabeça. Veríssimo faz um "hmm" baixinho, como se concordasse ou dissesse "ok". A voz de Agatha, então, sai rouca e prestes a se quebrar.

-Eu quero lembrar... um pouco mais. - ele devia estar revirando os olhos agora, e Agatha só sente vergonha e vontade de se enfiar em um buraco e morrer.

-Lembrar?

-Do... seu rosto. Antes. Sem você me odiar.

Só mata ela logo, por favor, ela não aguenta mais essa merda...

-Eu não te odeio, Agatha.

-Para de mentir!! É claro que odeia!!! - ela exclama, subitamente com raiva subindo pela sua garganta, se desvencilhando das mãos de Veríssimo e abrindo os olhos.

Merda, merda, merda!

Ela os fecha novamente, tentando não pensar na raiva que viu, no nojo, na mão lentamente se estendendo na sua direção...

...não. Isso... isso também não é real, é?

Isso aconteceu naquele porão... não agora.

E ela tenta, e ela olha de novo. Veríssimo...

...não está com raiva dela. Parece quase normal, só que mais... preocupado.

-Porque? - as palavras tremem em sua língua amargada. - Porque cê não tá com raiva...?

-Não vou ficar com raiva por uma coisa dessas, e sei que você não fez por mal.

-Desculpa... me desculpa... - sua voz sai tão pequena e tão fraca que a faz se sentir minúscula.

-Não, não precisa se desculpar. Não foi culpa sua. - ele lenta, mas seguramente, leva as mãos de volta ao rosto dela, tentando mantê-la ali, próxima, presente, com ele.

Ela não merece isso.

-Eu... eu não queria... eu não...

-Eu sei, Agatha. Sei que você não ia querer isso.

-P-por favor... - as pontas de seus dedos estão dormentes e tudo ao seu redor parece esfriar um pouco mais enquanto também esquenta. - Não... não me odeia...

-Eu não te odeio, já disse.

Mas devia.

-Mas devia. - um pouco de sangue escorre para dentro de sua garganta. A sensação boa luta contra a bile em seu estômago que revira e faz com que ela pense que vai vomitar. - Eu te ataquei e não fiz a única coisa que você me pediu... eu sou inútil aqui agora...

-Agatha... você não é...

-EU SOU, PORRA! - ela grita, e então começa a falar e falar e falar e a sensação é de que ela está vomitando todos os seus órgãos. - Eu... eu sou uma coisa que você só trouxe porque precisavam e eu não sirvo pra nada! Eu sou burra e agressiva e esquisita e babaca e horrível e feia e nojenta e tudo o que eu faço é machucar os outros!!! - sua respiração voltou à irregularidade, mas ela não se importa. Nada importa diante da tormenta incontrolável. - Eu SEI que todo mundo só me usa, tá bom?! Eu não ligo!! Então PARA DE FINGIR QUE SE IMPORTA COMIGO, PORQUE AGORA EU NÃO SOU MAIS ÚTIL PRA VOCÊ!!

Agatha se arrepende dessas palavras no instante em que saem de sua boca.

Ela não acredita nisso. Não mesmo. Ela sabe como é quando as pessoas só fingem se importar, e Veríssimo se importa mesmo.

Só que ele não deveria se importar com ela.

Seria melhor para os dois. Ela não teria que perder alguém que realmente se importasse e ele não teria que se decepcionar com ela.

Tudo o que ela faz é machucar os outros, e ela sabe muito bem que isso machucou Veríssimo. Ele não vai mostrar, porque ele nunca mostra nada, mas machucou.

Agatha se odeia tanto.

-Agatha... - as mãos dele voltam. Porque ele ainda quer segurá-la tanto? Porque passa os dedos com cuidado sobre o rosto manchado com o sangue dele? - ...você não é uma coisa. Não é horrível ou nojenta, nem nada disso.

-Eu sou... - ela murmura, engolindo um soluço.

-Não, você é só uma menina. Uma menina que sentiu muita dor e medo, e mesmo assim, nunca desistiu. Você é forte, mesmo que não devesse precisar ser. Você não é uma pessoa má, Agatha.

-Eu te machuquei... - dedos trêmulos. - Eu te mordi... e...

-Isso? Eu sou velho. Já aguentei coisas piores.

-Desculpa, eu não... o que eu falei, eu não acho que é isso, eu não acho que você finge... é só que... - ela funga. Ela se sente tão frágil quanto uma vidraça rachada. - ...eu não mereço isso.

-Agatha. - ele suspira. - Eu não te trouxe pra cá pra tirar proveito disso. Eu só queria que você pudesse viver.

-...hã...?

-Você merece isso, mais do que tudo. Eu achei que eu não deveria me aproximar. Tinha medo de te machucar.

-Me... machucar?

-Me desculpa, Agatha... pela minha negligência, acabei deixando que você não percebesse uma coisa bem importante. Mas eu vou falar agora, e vou falar todas as vezes que você precisar. - ele olha nos seus olhos, e eles não têm os mesmos olhos, mas, ainda assim, eles se enxergam. - Eu te amo, Agatha.

E, então, tudo para. As tremedeiras, as respirações aceleradas, os zumbidos da sala de rituais, o sangue no braço e na boca, os batimentos descompassados, tudo para de importar. E Agatha só percebe os olhos dele nos seus e as mãos dele no seu rosto.

Ah... é mesmo... Veríssimo já machucou pessoas antes, né...? Especialmente ocultistas... ela entende agora... ele tinha medo de machucá-la por causa disso...

Os dois já machucaram muitas pessoas. Os dois têm mãos cheias de sangue. Mas... ainda assim...

Ainda assim, as mãos dele seguram o rosto dela para mantê-la segura.

Ainda assim, ele a ama.

E, pela primeira vez em sabe-se lá quanto tempo, Agatha chora.

É feio e descontrolado e mancha todo o seu rosto e se mistura com o sangue em sua boca, mas ele não se importa e a abraça.

E, de repente, ela percebe o quão nova sempre foi.

E, de repente, nada mais importa enquanto ela se agarra no homem como uma criança ao seu pai.

E, de repente, ela é amada porque merece amor.

E, de repente, ela está em casa.