Work Text:
A implicância entre Jasper e Remi já havia se tornado habitual para os funcionários do escritório. A verdade era que, no começo, ninguém esperava que as coisas escalassem para a rivalidade que fervia atualmente — pensavam que seria questão de dias até ambos se acertarem e começarem a se entender.
Afinal, desentendimentos não eram novidade dentro daquele pequeno escritório de design de interiores. A equipe era pequena, um pouco limitada em alguns momentos, e cheia de irmandades que, por vezes, tornava o trabalho complicado. No final do dia, o que mais importava era terem concluído mais um dia de trabalho com sucesso.
Ou… era o que quase todos pensavam.
Vamos por partes, começando pelo início de tudo: o dia em que Jasper e Remi se cruzaram pela primeira vez.
Foi no dia de recrutamento de Jasper, o fatídico dia em que Lena aceitou o homem como estagiário. Naquela época, o albino ainda frequentava a faculdade, possuía pouca experiência profissional na área e era somente uma pequena pulga ingressando no mercado de trabalho. Remi recordava-se com todos os detalhes de como o céu trovejou quando Jasper pousou os olhos cianos em si, a armação fina mal escondia a curiosidade viva em seu olhar.
Para ele, o albino parecia… pequeno. Num sentido que Remi mal se recordou dele no dia seguinte, mesmo tendo sido apresentado a ele, mesmo tendo consciência que compartilhava do seu espaço profissional com ele.
Jasper sentava-se na mesa vazia oposta à sua, onde seus olhos corriam risco de se cruzar a todo segundo. Além de se mostrar extremamente “acertadinho” na organização da própria escrivaninha, Jasper passava mais tempo ajustando os papéis inúteis do seu fichário azul-marinho do que se concentrando no próprio projeto. O que não seria de grande incômodo se Remi não estivesse perdendo a paciência com o barulho irritante das folhas sendo remexidas.
— Dá pra parar? Esse barulho todo tá me desconcentrando — Remi cortou o murmurinho do papel com seu timbre ríspido.
Os olhos de Jasper deixaram a mesa para encontrar Remi por trás do monitor ligado, seus olhos escuros exalavam acidez, como se tentassem parar os dedos pálidos com uma força mental.
Ele riu. Afinal, não era de aceitar broncas de qualquer um — muito menos de um veterano com a qual nunca havia interagido.
— Pensei que fosse preciso mais do que isso para te desconcentrar — Jasper respondeu, meio brincalhão, ainda com o fichário em mãos.
Remi cerrou as sobrancelhas, tão surpreso quanto boquiaberto. Apesar de, às vezes, receber respostas à altura da sua soberania por parte dos seus colegas conhecidos, não pensou que Jasper se atreveria a lhe confrontar assim.
— Pensou errado, pirralho. — O franjudo sorriu, fingindo simpatia. — Vai ver se a Lena tem algo pra você fazer. Talvez assim você pare de atrapalhar o silêncio dos outros — Ele sugeriu, voltando os olhos para o ecrã numa tentativa de não precisar encarar Jasper por mais um segundo.
Nesse mesmo segundo, Lena, a chefe-geral, saiu do escritório individual com o nome de Jasper nos lábios.
— Jaspi, vem comigo. Você vai me ajudar com um cliente complicado, pode ser? — A mulher alta carregava alguns papéis na mão e sua mala no ombro, caminhando com o barulho oco das botas contra o chão de madeira.
O albino se levantou para acompanhar a mulher com pressa, ajudando-a com os papéis enquanto a seguia até a saída.
Antes de sair, pôde ter o vislumbre dos olhos acastanhados de Remi pousados novamente em si, o analisando como um documento importante — como um novo oponente a considerar. Jasper riu pelo nariz, incapaz de compreender se aquilo seria bom ou não.
Mais tarde, ele entendeu que era tudo menos bom. Afinal, agora estava no centro das reclamações do mais velho, batendo de frente com suas implicações como um escudo de guerra.
Não necessariamente odiava isso. Pelo contrário, a voz irritadiça de Remi ajudava os dias do estágio a serem mais interessantes. Jasper não tinha muito o que fazer, pois os trabalhos que lhe eram entregues não passavam de coisas pequenas que podia resolver em poucos segundos.
Remi notou, o que não era tão difícil ao dar uma vista de olhos na secretaria de Jasper. Portanto, numa troca de palavras breve com Lena na copa ajustada do escritório, o veterano de design pôde resolver o problema de Jasper.
— Está pegando leve com o estagiário, Lena — Remi disse numa pausa de café dentro da copa. No espaço, além dele mesmo, estava Lena e o murmuro quente da cafeteira.
A mulher analisou as palavras do colega enquanto pegava a xícara acabada de encher. O vapor do café preto subia lentamente em simetria dos pensamentos da loira.
— Você acha? Tuco disse que não precisava de pesar muito, afinal ele não vai ficar muito tempo. — Remi absorveu a nova informação enquanto apreciava da sua própria xícara.
— Óbvio. Independentemente do tempo que ele ficar, ele precisa mostrar que sabe alguma coisa além de organizar papéis de desenho. — Lena balançou a cabeça em compreensão.
— É… acho que vou começar a dar outras coisas pra ele fazer. Vou ver isso agora. Obrigada, Remi.
Lena sorriu e deixou a copa com o cheiro de café a acompanhando.
Por trás da xícara, Remi também sorria, mas não de agradecimento ou compreensão. Não. Remi se divertia com o pensamento de ver Jasper fora de si, empanturrado de trabalho, tão cansado que não hesitaria em sair dali.
Tão exausto que jamais se atreveria a lhe responder novamente.
✎ᝰ.
Bom, mas o destino nunca foi colega de Remi. Por isso, uma semana após tentar afugentar o albino, Lena havia encarregado Remi e Jasper a uma visita de retificação de medidas na casa de um cliente.
— Isso só pode ser uma piada — Remi murmurou, incapaz de acreditar que estava sentado no passageiro do carro da empresa, com Jasper ao lado conduzindo.
— O quê? Não gostou do seu parceiro de hoje? — Jasper zombou, divertindo-se com a frustração no rosto de Remi.
O franjudo tinha os braços cruzados rente ao peito, emburrado até com o caimento da sua franja por estar no mesmo ambiente que Jasper.
— Fica em silêncio, pirralho. Nós vamos chegar lá, tirar essas malditas medidas e voltar logo, entendeu? — Jasper deu de ombros e Remi apenas tomou isso como uma resposta.
— Se você acha que vai ser assim.
Remi, cansado de ouvir a voz de Jasper, fingiu não ouvir. Apoiou o ombro perto do vidro e observou o exterior borrado até chegarem na casa do cliente.
✎ᝰ.
E, como Jasper havia dito — apenas por coincidência —, o dia não seria fácil.
Além do novato ter se atrapalhado duas vezes durante o trajeto até a casa, Jasper havia esquecido do medidor laser em cima da mesa.
— Não tô acreditando nessa merda, Jasper — Remi vociferou dentro do carro, frustrado e enraivecido.
— Já falei que não fiz de propósito, não dá pra me escutar? — Jasper também elevou o tom, irritado pelas palavras de Remi.
— Se você não me escuta, como é suposto eu te entender? Não falei que o laser era importante? Porra, agora vai demorar mais do que o necessário. — Remi respirou fundo após tanto reclamar. Ele recolheu sua mochila e saiu em direção à porta de entrada, não dando tempo de Jasper sequer pensar.
O albino decidiu que se acalmaria mais tarde e deixou o carro, não podia deixar o cliente esperando por mais tempo.
Como Remi havia dito, acabaram demorando mais do que o necessário. A fita métrica, tão antiga quando o tempo de escritório, se recusava a esticar em alguns momentos, isso sem contar os números meio apagados que dificultavam o trabalho.
Ambos se auxiliaram mesmo odiando sentir a presença um do outro. Enquanto um ditava as medidas, o outro rabiscava por cima do desenho, corrigindo ou confirmando se permanecia o mesmo.
— Retiramos tudo que era necessário, obrigado novamente por nos receber, Dona Cecília — Remi agradeceu à cliente habitual pela quarta vez. Jasper observava de canto o sorriso agradável que o veterano dava à senhora de idade, incapaz de reconhecer que Remi podia fazer tal expressão tão calorosa.
Quando entraram no carro, soltaram em uníssono um suspiro pesado de cansaço. A pressão de compartilhar três horas do dia com alguém a qual se odeia era capaz de esgotar qualquer um. Mas, como não podiam ficar o resto do dia encostados no banco do carro, Jasper se ajeitou para dar partida no carro.
— Vai devagar, pirralho. — Remi avisou, a voz não tão irritada quanto há algumas horas atrás. Ele permanecia numa posição desconfortável, com as costas desencostadas do assento e a mão sob as mesmas.
Jasper analisou de canto de olho, entendendo a situação com rapidez. Decidiu escutar o homem pela primeira vez em dois meses, seguindo o caminho até o escritório numa velocidade reduzida e atenção calorosa.
✎ᝰ.
— Não vai embora? — Jasper perguntou quando a porta do escritório fechou.
Haviam acabado de chegar, acabando por trombar com Maria encerrando o expediente na porta de saída do prédio. Pelo horário, Jasper esperava que Remi também encerrasse o seu, afinal, dado a hora, não precisavam continuar no trabalho por hoje.
Jasper entendeu que estava errado quando viu Remi se sentar na sua cadeira, preparado para abrir outro projeto no computador.
— Preciso terminar esses desenhos para entregar a Lena amanhã. — O mais velho checou as horas no ecrã, sem se virar para o outro. — Já pode ir, pirralho.
Jasper suspirou fundo e sentou-se na sua cadeira, frente a Remi, observando a luz azul do monitor iluminando o escritório meio escuro. Remi, que tinha os olhos num amontoado de papéis, levantou as orbes para encontrar os olhos cianos do albino.
— Não me ouviu? Vai embora, já passou da sua hora. — O franjudo tentou expulsar Jasper pela segunda vez, não escondendo sua intenção dessa vez.
— Não vai passar nada aí? — A voz grave de Jasper e a pergunta repentina pegaram Remi de supetão. Ele levantou o rosto, confuso.
— Quê?
— Suas costas?
Remi suspirou e deixou os papéis na mesa para começar a mexer no projeto.
— Não é da sua conta, vai viver sua vida. Vaza daqui.
— Costuma ter dores nas costas com frequência?
— Vem cá — Remi já começava a se irritar de novo. —, não somos próximos para você dar uma de médico comigo. E se eu nunca te dei abertura, espero que você consiga usar sua cabeça para entender que não te quero por perto.
Jasper revirou os olhos e esfregou o rosto, cansado das palavras rudes de Remi.
— Caralho, é impossível conversar contigo.
O albino levantou-se e revirou sua bolsa antes de jogar um tubo perto do mouse de Remi. O mais velho encarou o objeto e em seguida o novato que não se esforçava para esconder a frustração no rosto exausto.
Novamente, aquele maldito trovão pareceu ecoar na mente de Remi.
— Passa isso nas costas antes de dormir, talvez melhore as dores — Jasper disse antes de deixar o escritório em passos brutos e longos.
Remi fechou os olhos com o impacto que a porta central se fechou, suspirando fundo em seguida quando finalmente ficou sozinho na escuridão. Ele pegou o tubo nas mãos e entendeu de primeira que era algum tipo de pomada para dores musculares.
— Esse pirralho… — Remi sussurrou, incapaz de conter sua mão de guardar o produto na própria mala.
Não que fosse utilizá-lo, nunca.
Apenas o guardaria por precaução.
✎ᝰ.
Quando cinco meses se passaram, o escritório se reuniu para se despedir do estagiário tão querido por (quase) todos do escritório. Jasper abraçou a equipe com um sorriso agradável no rosto, rodeando o corpo dos seus colegas temporários enquanto agradecia pelos dias dentro do escritório.
Remi observava tudo da copa, onde a porta aberta dava visão para o ambiente principal. Ele segurava a terceira xícara de café do dia com a prótese enquanto a outra mão livre descansava na bancada.
Os olhos firmes e analíticos fitavam tudo com leveza, como se finalmente tirasse um peso dos ombros. Ele aguardava o momento caloroso terminar para poder voltar para sua mesa. Esperava que, daqui para a frente, sua paz no trabalho pudesse retornar.
Mas, Jasper gostava de o ver frustrado, o cerrar de sobrancelhas o divertia. Portanto, após se despedir de todos ali, ele encarou Remi e caminhou até ele.
O franjudo tentou ignorar, se virando para pousar a xícara na pia vazia numa tentativa de afastar o albino para longe. Porém, quando se virou, ele permanecia lá, com uma mão esticada e a mala descansada sob o ombro.
— Não vai se despedir de mim, Remi? — Jasper perguntou, mesmo tendo consciência que os olhos do mais velho se reviraram ao ouvir sua voz.
— Não preciso me despedir de alguém que não quero voltar a ver. Espero que você vá para bem longe, pirralho.
Jasper sorriu e, num gesto rápido, apertou a mão de Remi sem esperar por uma resposta. O toque era apertado e desconexo, onde apenas o albino se esforçava para apertar o cumprimento e Remi tentava se esquivar do calor. O franjudo olhou para Jasper com exasperação, incapaz de entender porque ele era tão insistente. Sua raiva não era clara o suficiente?
— Pode ter certeza que, o meu rosto, você vai voltar a ver.
Remi cerrou as sobrancelhas, não conseguiu ler o significado por trás da expressão convencida de Jasper. O sorriso de lado, os dentes levemente expostos, dando-lhe uma aura confiante que frustrava o interior de Remi.
Aquele maldito trovão.
Porra.
— Adeus, Remi.
— Tsc.
✎ᝰ.
A partir de hoje, Remi não teria mais paz.
Ele concluiu isso essa manhã, ao ver, após muitos meses, o par de olhos cianos que o perturbou diariamente no ano passado. Jasper estava sentado na secretária vazia do escritório. Apesar de continuar o mesmo — tirando a altura e o corpo mais trabalho —, Remi podia sentir a travessura exalar do homem. Eles mal tinham se visto e, ainda assim, ele sabia que sua paz havia acabado.
— Eu falei que ia voltar — O albino disse ao ver o par de olhos familiar sentado na cadeira da frente.
— Se eu soubesse, não me dava o trabalho de levantar hoje.
Jasper riu, aliviado de continuarem na mesma implicância de sempre.
— Vai me dizer que não sentiu saudades?
— Só se for de não ver o seu rosto. Me faz um favor, pirralho, me deixa em paz, tá?
Jasper ergueu os braços em rendição, fingindo ser atingido pelas palavras brutas de Remi.
O mais velho suspirou com o silêncio que se instalou em seguida, feliz por não ter que lidar com o timbre rouco de Jasper. Apesar de ter consciência que não duraria muito.
✎ᝰ.
A partir dali, escreveu-se o de sempre. Picuinhas, reclamações e brigas sem sentido. Tudo partido de uma rivalidade criada de respostas brutas e secas.
Hoje, o dia parecia mais acalorado do que o normal. Não só por parte do clima quente, mas pela tensão que crescia entre Remi e Jasper desde a manhã.
— Para de mexer no ar, Jasper! Já falei para não deixar muito gelado — Remi reclamou pela terceira vez naquele período de tempo.
— Caralho, eu vou derreter se não aumentar isso. Não tenho culpa que você é velho e fica doente fácil! — O albino, que não podia se arriscar a usar manga curta pela sua condição, tentava aliviar o calor balançando a camisa suave.
— Velho é o seu–
— Gente, apesar do calor, espero que não se esqueçam do jantar da empresa na sexta — Lena interrompeu o momento ao abrir a porta da sala individual. Ela usava um vestido branco solto que parecia tão leve quanto o frescor do ar-condicionado.
A equipe assentiu para a chefe num “sim” conjunto, deixando a mulher mais tranquila para retornar ao trabalho.
Remi suspirou fundo, infeliz de não ter conseguido se esquivar desse jantar. Planejava ficar em casa ouvindo seus discos favoritos enquanto preparava uma refeição suave para aquela noite acalorada.
Mais uma vez, seus planos vão por água abaixo.
— Porra… — um xingamento baixinho soou da mesa em frente, fazendo Remi coçar o pescoço em frustração.
Ele espiou o albino pela lateral do monitor, esperando encontrar tudo menos o rosto de Jasper vermelho pelo calor. Havia alguns fios presos à testa dele, evidenciando seu desconforto pela temperatura do local.
Remi até se esforçou para tentar sorrir, mas quando pensou na condição de Jasper e na possível agonia que ele podia estar sentindo debaixo daquela blusa comprida, ele decidiu que talvez ceder dessa vez não fosse algo tão ruim.
Discretamente, e de forma até suspeita, Remi esticou ligeiramente o comando enquanto apertava o botão gasto, potencializando a força do ar contra o cômodo. Não demorou muito para ouvir um suspirar aliviado do lado oposto, juntamente de um sorriso que Remi jurou poder enxergar.
Em seguida, como se já não estivesse sendo suspeito o suficiente, o homem escorregou um tubo de protetor solar, que deixava de reserva na sua bolsa, até o lado de Jasper. Seus olhos permaneciam no ecrã, preocupados com o desenho, enquanto sua mão deslizava secretamente até ter certeza que o creme estava perto o suficiente da visão de Jasper.
O albino rapidamente notou o creme em cima da própria mesa, movendo-se instantaneamente para o espaçamento entre os monitores para encarar Remi com os olhos e sobrancelhas cerradas.
Remi não deu importância — ao menos, foi o que o seu exterior transpareceu. Continuou trabalhando com os dedos no mouse e no teclado como se o tubo de protetor solar tivesse deslizado por vontade própria até a mesa do albino.
Enfim, não iria se preocupar mais com esse pirralho insolente. Precisava se concentrar para terminar aquilo logo.
✎ᝰ.
Remi deixou a mão cair com força na mesa pela segunda vez consecutiva ao se irritar com o programa com o qual trabalhava. Era hora de almoço e assim ele decidiu usar o tempo restante para adiantar alguns detalhes pouco importantes.
— Vontade de explodir essa merda — Ele desabafou ao deixar o mouse em cima da mesa para tentar relaxar.
Precisava respirar e se acalmar. Não havia motivo para se irritar com um computador.
— Precisa de ajuda, Remi? — Jasper surgiu como um vulto pela porta da copa, encucado pelo tom alto do homem que ecoava pelo escritório.
— Nã–
— Ah, essa ferramenta costuma ser bem travada. — O albino aproximou-se sem Remi pedir, circulando as costas do mais velho até alcançar o teclado e o mouse enquanto seu rosto ficou perigosamente perto de Remi.
Que porra era aquela?
— Aqui, você clica enquanto aperta “Alt” e… — Jasper começou a explicar sem qualquer pedido ou permissão. Remi, mesmo contra e confuso, prestou atenção no que conseguiu. Afinal, não é fácil prestar atenção quando o rosto de alguém está a centímetros do seu.
O cheiro de Jasper ainda ousava ultrapassar os limites de Remi, penetrando seus pulmões com um aroma frutal que trovejou no peito do mais velho. Os cabelos macios roçavam ligeiramente sua orelha, como se tentassem tirar Remi do sério. Esse maldito estava fazendo de propósito… só podia.
Os ombros largos contra suas costas, os braços roçando levemente contra o moreno, a voz mais baixa pela aproximação, todo esse abraço estava deixando Remi fora de si.
— Prestou atenção? Não vou explicar outra vez, entendeu? — Remi piscou, voltando ao atual quando Jasper parou de mexer o mouse.
Ele o encarou, mesmo tão de perto, aguardando uma resposta do mais velho. Nesse par de minutos, pode observar o perfil lateral agradável de Remi, com o nariz robusto e o par de olhos confusos tirando sua atenção.
— S-Se–... Se afasta, pirralho! — Ele exigiu de repente, obrigando Jasper a recuar. — Eu entendi, eu, eu já entendi, ok? Pode ir, vai, vaza.
Remi esfregou o rosto com pressa, como se estivesse tentando afastar uma sensação ruim. Jasper não entendeu, mas voltou ao seu lugar com obediência.
Talvez pudesse chover hoje, o tempo ameaçou trovejar de novo.
Foi assim que os dias até sexta se tornaram… diferentes.
✎ᝰ.
O último dia útil da semana marcava o jantar marcado por Lena — o que também marcava outro dia de muita estranheza entre Jasper e Remi.
Desde o pequeno (minúsculo) momento que ficaram perto demais, ambos agiam de forma diferente, cada um do seu jeito.
Remi tentava evitar olhar muito para Jasper, qualquer tipo de contacto visual estava proibido por mais de cinco segundos e, talvez, um pouco de distância também fosse o ideal. Tudo para evitar ficar desconcentrado de novo.
Já Jasper não se guardava quando o assunto era descobrir novos pontos no rosto de Remi. Ele se divertia, principalmente nas suas pausas, analisando os traços que, até então, não teve oportunidade de notar. O primeiro embate que tiveram não deu chance a Jasper de explorar seu interesse, por isso aproveitou os últimos dias para alimentar esse sentimento.
Apesar dos colegas no escritório notarem, ninguém citou nada. Não valeria a pena, afinal, o silêncio provido pela curiosidade e a ansiedade de ambos nos últimos dias era algo raro há meses.
Quando Lena saiu do escritório, o relógio já revelava as cinco e cinquenta e assim a equipe entendeu que, por hoje, podiam encerrar.
— Nos encontramos no local marcado. Espero que relaxem hoje.
✎ᝰ.
O local escolhido por Lena era um restaurante pouco popular naqueles dias, onde o número de clientes era o mínimo para a equipe de seis poder relaxar enquanto aproveitava de uma boa comida e bebida.
A mesa retangular tinha espaço o suficiente para todos, mas, para Remi, parecia que o ambiente diminuía a cada segundo que passava de frente a Jasper. Infelizmente, acabaram do mesmo jeito que mais cedo, sentados em lados opostos onde a curiosidade no olhar de Jasper podia engolir Remi o quanto ele quisesse.
Porra, como aproveitaria o tempo assim? Parecia que ia sufocar, parecia mais quente e calorento do que numa sala de fogo.
A equipe voltou a brindar pela quinta vez naquela hora e assim Remi aproveitou para tomar um longo e grande gole da cerveja fresca que lhe foi servida. Sua boca suspirou de alívio pelo frescor da bebida, molhada até os cantos pelo líquido.
E, claro, Jasper notou tudo.
— Vai continuar me encarando assim até quando? — Remi perguntou, um pouco intimidado pela forma diferente que o albino o encarava.
— Você é mais bonito do que eu pensava.
— Enlouqueceu de vez? Do que você tá falando? — O franjudo cerrou as sobrancelhas, completamente confuso e desordenado. Já não entendia os planos de Jasper, não entendia o que era aquilo tudo.
Jasper deu de ombros e o encarou de cima a baixo enquanto dava um gole da própria bebida. Remi engoliu seco, pela primeira vez sentiu-se intimidado por alguém mais novo que ele.
Maldita hora que seu programa decidiu o irritar.
✎ᝰ.
Quando o horário de encerramento chegou, a equipe decidiu se despedir em frente ao restaurante. Poucos cumprimentos foram necessários, afinal voltariam a se ver na segunda. Por isso, não demorou muito para cada um tomar seu caminho.
Remi planejava voltar para casa na calmaria e conforto do seu carro. Mas, óbvio, algo tinha que dar problema. Logo agora, hoje, que havia decidido beber um pouco para descontrair. Quando mais ele rodava a chave e torcia para seu carro ligar, mais ele se decepcionava com o barulho triste que deixava seu motor.
O carro se recusava a ligar.
Remi deitou a cabeça no volante, estava tão cansado que não tinha forças para pensar em ligar por ajuda. Só queria chegar em casa e adormecer até segunda, longe das preocupações do seu automóvel e dos olhares desconcertantes de Jasper.
Toc. Toc. Toc.
Algo batia contra seu vidro. Quando levantou a cabeça, o ar pareceu grudar contra seus pulmões.
— Precisa de ajuda? — Jasper, um pouco desfocado pelo vidro escuro, perguntou do lado de fora. Remi abaixou o vidro.
— Essa merda não quer pegar.
— Já ligou para… Precisa de carona? — Jasper mudou sua pergunta no meio do raciocínio, tirando Remi da sua preocupação.
— Você vai me dar carona?
O albino deu de ombros, apenas aguardando uma resposta do mais velho.
Remi deixou a cabeça cair para trás, tentando fazer o seu eu racional acordar o mais rápido possível.
— Porra, tá — Ele aceitou sem terminar de pensar, demasiado cansado para se deixar ser díficil.
Decidiu que iria buscar o carro na manhã seguinte, afinal seria bom sair um pouco no sábado. Seguiu Jasper até o veículo de poucos lugares e deixou-se ficar confortável contra o banco do passageiro enquanto o aroma familiar de Jasper o invadia como uma tempestade.
— Coloca seu endereço aqui — Ele estendeu o telefone a Remi enquanto colocava o cinto. O mais velho digitou rapidamente o texto já decorado e retornou o aparelho. — Ah, é pertinho de mim. — O albino sorriu, pousando o telefone no suporte à vista. Remi decidiu ignorar as palavras dele, não aguentava mais sentir seu sangue aquecer.
Jasper dirigiu tranquilamente pelo bairro conhecido, virando aqui e ali com suavidade pelo estado exausto que emanava de Remi. Quando o franjudo reconheceu seu prédio ao longe, ajeitou-se no banco, pronto para pular a qualquer momento.
— Eu te acompanho até a porta — Jasper disse, retirando o cinto junto de Remi.
O franjudo respirou fundo ao observar o corpo robusto deixar o carro, tentando controlar seu interior estranho como um tutor sem autoridade. Jasper andou ao seu lado até a porta do prédio, onde os dois ficaram parados durante segundos silenciosos sem sentido.
— Eu… vou entrar.
O albino assentiu, mas quando Remi ameaçou avançar com a chave até a fechadura, ele segurou seu pulso.
— E-Espera..
— Olha, pirralho, me fala o que tá acontecendo logo. Você está estranho desde terça. — Remi disse após prender esse pensamento por tanto tempo. Ele estava cansado, confuso, mexido e um pouco bêbado, não tinha cabeça para jogos confusos agora.
— Não finge que você também não está. — Jasper rebateu. — Você tem evitado até brigar comigo desde esse dia. Qual é o problema, hein?
— E-Eu? Está louco?! — Remi fingiu não ter se sentido desmarcado e concentrou seu olhar num arbusto da rua.
— Sim! Desde que te ensinei aquele atalho no programa, você tem agido assim. Eu fiz algo? F-Foi meu cheiro?
— O quê? Não! Não tem nada de errado com isso.
— Eu sou feio de perto?
— Está maluco? Não!
— Sou bonito, então?
— N-Nã- Sim– Foda-se! Você é um esquisito, isso sim.
A cena que se decorria era tão dramática e cômica que seus vizinhos não se atreviam a espiar. Jasper encurralava Remi contra a parede com as perguntas mais óbvias do mundo, tentando retirar dele o que ele mesmo não queria admitir.
Afinal, confessar que se está interessado no seu rival de escritório era algo que o ego de ambos não admitiria acontecer.
Mas Remi era firme, apesar das suas bochechas revelarem sua vergonha. E Jasper já começava a se cansar de ficar apenas encarando Remi.
Queria… mais. Talvez o tocar ou beijar, qualquer coisa que aliviasse a curiosidade avassaladora que crescia no seu peito. Remi era estupidamente tentador e atraente, um tipo de beleza que se encaixava nos sonhos mais irreais de Jasper. Ele queria Remi mais do que o seu ego conseguia suportar.
— Fala que você também quer, por favor… — Jasper murmurou depois de um tempo, quando Remi pensou que, finalmente, poderia respirar.
— O-oi…?
— Eu não aguento mais, Remi. Porra, você é um maldito. — Jasper o encurralou contra a parede perto da porta de entrada, onde o corpo de Remi voltou a ser envolto com facilidade pelo físico grande e robusto do albino.
— P-Pirralho.. v-você…
— Queria calar sua boca. Você fala tanto, demais, e esquece de entender o que está na sua frente.
Aquele trovoeiro voltou a rugir dentro de Remi, num rugido alto e bruto, que o obrigava a sentir tudo ao extremo, a ver tudo que tentou evitar. Os olhares não começaram naquela semana. Não. Foram meses ignorando o olhar carnívoro de Jasper, contendo todos os arrepios que o ciano profundo lhe causava sempre que pousavam em si. As respostas brutas não passavam de desculpas, soluções rápidas e baratas para algo que, mais cedo ou mais tarde, estouraria com tudo.
Não pensou que cederia tão cedo, pensou que seria mais forte e assim tudo desapareceria. Mas quando mais Jasper ameaçava se aproximar, mais Remi entendia que não tinha como fugir. Não havia como evitar a tempestade que era se atrair por Jasper.
— Pirralho insolente, eu falei para ficar longe de mim. — Remi prendeu os fios de Jasper entre seus dedos, forçando a cabeça e o olhar a se abaixarem.
O albino sorriu, feliz por um mísero contacto com Remi.
— Você é o pior veterano que eu já encontrei.
— Porra, você é insuportável, Jasper. — Ele firmou o aperto, observando o albino morder ligeiramente o lábio avermelhado.
— Também não te suporto, seu babaca.
Remi desceu dos fios até o maxilar numa questão de segundos, apertando a carne e o osso de Jasper até a pele branca ficar vermelha. Só então, quando os olhos de Jasper pareciam implorar, é que Remi se aproximou, cruzando uma linha que nunca pensou encontrar.
A boca de Jasper era macia do jeito que aparentava, tão aconchegante que Remi não conseguia evitar buscar mais e mais dela. O albino ronronava de alívio, prendendo as mãos na cintura de Remi quando teve oportunidade de se aproximar mais. Remi era bruto ao ponto de o fazer derreter pela sensação fervente das unhas grandes contra sua bochecha.
Separaram-se para buscar por ar e um motivo para parar. Remi encarou com carinho as marcas deixadas pelas próprias unhas enquanto Jasper se aproximava para se aninhar contra seu pescoço.
— Devo procurar um lugar para nosso primeiro encontro? — Jasper perguntou enquanto molhava o pescoço do mais velho de beijos, pequenos e carinhosos. Remi sorriu.
— Já? Nem me convidou para sair, vocês jovens…
— Uhm — Jasper grunhiu manhoso ao alcançar a boca de Remi novamente. — Devemos só começar a namorar logo? — O albino roubou um selinho do outro, incapaz de ficar quieto.
— Vamos… nos conhecer primeiro, ok? — Jasper assentiu e Remi sorriu, puxando-o para um beijo rápido antes de afastar os corpos. — Eu vou entrar.
— J-Já?
— Não seja grudento, amanhã conversamos mais sobre isso.
Jasper fez, com orgulho, um bico amuado nos lábios, insatisfeito pela decisão de Remi. O franjudo só conseguiu rir, aproximando-se com rapidez para apertar uma das bochechas de Jasper numa punição brincalhona.
— Me liga amanhã, ouviu, pirralho?
Jasper assentiu com a mão pousada sobre a bochecha, tentando manter o calor do aperto de Remi ali contido.
É… a partir daqui, uma nova história começa a ser contada.
