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Em uma casa de chá, a dupla de demônio celestial e rei fantasma derrotou um pequeno grupo de cultivadores que vieram buscar problemas, enquanto seus dois maridos, o imortal Shen QingQiu e a divindade Xie Lian, admiravam-nos ensinando uma lição aos arruaceiros. Exceto que uma explosão os atingiu inesperadamente; talismãs estavam ocultos nas colunas do salão luxuoso que Binghe escolhera.
O som alto foi suficiente para que o par retornasse ao salão e puxasse seus respectivos maridos para longe de ataques furtivos. Porém, no ar, a energia espiritual parecia conter uma eletricidade estranha, e Luo Binghe percebeu que o peso em seus braços… estava errado.
Muito errado.
Rapidamente, seu olhar desceu, o medo de estar segurando a pessoa errada estampado em suas íris avermelhadas. Porém, o que encontrou ia além de sua imaginação. Onde deveria haver uma cintura curvilínea e um corpo esguio contra seu peito, havia uma maciez maleável, incomum e pequena. Onde antes tinha a imagem etérea e digna de seu mestre, agora existia um bebê de bochechas coradas e olhos marejados, vestido em miniaturas perfeitas de branco e verde.
E ele estava… chorando.
— Shizun? — Binghe chamou, com voz trêmula.
A resposta foi um berro indignado.
Ao mesmo tempo, do outro lado do salão de chá, Hua Cheng encarava a imagem divina e delicada de Xie Lian reduzido a um pequeno pacote de roupas brancas, braços balançando no ar, soluçando como se o mundo tivesse acabado de traí-lo pessoalmente.
— Gege…? — Hua Cheng murmurou, em choque.
O bebê Xie Lian fez um beicinho, usando sua pequena força para tentar se afastar do homem que o segurava. Seu esforço, porém, não moveu um único fio de cabelo do Rei Fantasma, restando-lhe apenas chorar mais alto.
O eco dos choros desesperados, enquanto dois homens altos e fortes os observavam sem saber o que fazer, parecia quase cômico. Hua Cheng usava uma voz delicada, um sorriso mais suave, mas isso só fazia a pequena Alteza derramar mais lágrimas, enquanto Binghe tentava ninar desajeitadamente seu pequeno Shizun. Mesmo assim, os dois bebês se encolhiam ainda mais, tentando empurrá-los, olhando para qualquer direção que não fosse aqueles rostos desconhecidos, na pequena esperança de que suas forças pudessem afastá-los daqueles homens enormes.
— Shizun, Binghe é seu marido! — Luo protestou baixinho, magoado.
O bebê Shen respondeu com um soluço trêmulo e virou o rostinho para longe, sem reconhecê-lo.
Se fosse em outra situação, Hua Cheng adoraria provocar o jovem demônio. No entanto, sua pequena Alteza não era muito diferente do mestre de Binghe, totalmente firme em ignorá-lo e fugir dele.
— Gege — sussurrou, tirando uma pequena chupeta dourada e oferecendo ao bebê. — Descanse um pouco. Vou encontrar uma forma de reverter essa situação.
Suas palavras tinham um tom sério, mas seu olhar era amoroso.
O bebê Xie Lian encarou o homem de tapa-olho e depois a chupeta. Embora sua curiosidade fosse tentada, sua sensibilidade o tornava incapaz de aceitar qualquer coisa que viesse daquele homem de vermelho. Um biquinho se formou, seguido por um novo choro, suas mãozinhas acertando pequenos tapas na mão que se aproximava.
A chupeta caiu no chão, e a confiança de Hua Cheng ruiu junto diante da reação exagerada e altiva da pequena Alteza. Sua expressão era tão desolada quanto a de Binghe, que ainda tentava argumentar com QingQiu. Os cultivadores de antes tinham sumido, mas pouco importavam agora; os minutos com duas crianças assustadas eram muito mais desafiadores do que qualquer batalha.
— Você! — Binghe apontou, aproximando-se. — Tenha alguma ideia para acalmar Shizun.
— Eu? — Hua Cheng riu. — Seu Shizun não te reconhece, Sua Alteza não me reconhece. Como quer que eu resolva isso se também não consigo acalmá-lo?
— Oitocentos anos devem servir para alguma coisa — respondeu Binghe, sem deixar sua superioridade ser abalada.
— Seu Reino Demoníaco também deve servir para alguma coisa — devolveu Hua Cheng, sem olhá-lo, mas com a mesma zombaria na voz.
O Rei Demônio estava pronto para responder à afronta quando a porta deslizou.
Wei Wuxian parou na entrada, mãos na cintura, encarando a cena caótica: dois cultivadores perigosos e imortais seguravam dois bebês aos prantos como se estivessem lidando com uma calamidade demoníaca. Atrás dele vinha Lan Zhan, com sua expressão tranquila e neutra.
— Uau. Quem diria? O grande Luo Binghe derrotado por alguém de meio metro. — Ele inclinou a cabeça, claramente se divertindo. — E você também, Chengzhu? Sua Alteza é realmente muito perspicaz nessa idade.
Hua Cheng lançou-lhe um olhar frio. — Não é da sua conta.
Outro choro agudo ecoou.
Binghe fingiu que não ouviu as palavras de Wuxian, apenas olhando para seu Shizun, desolado, quase como um cachorro sendo expulso de sua confortável casa.
— Shizun não quer nem olhar para mim, este marido desamparado… — Sua voz estava carregada de profunda tristeza.
Wei Wuxian suspirou, guardando a risada para outro momento, e aproximou-se com cuidado. — Deixe-me vê-los.
— Eles não reconhecem ninguém — Binghe murmurou, devastado.
— Especialmente a gente — Hua Cheng completou, sem admitir que seu coração estava ferido pelas reações intensas de seu amado gege.
Wuxian quase respondeu com deboche, mas suavizou a expressão ao encarar os dois pequenos pãezinhos.
— Ei, ei… está tudo bem. — Estendeu os braços primeiro para Shen QingQiu. O bebê hesitou entre soluços, mas não se debateu quando foi acolhido contra o peito de Wei Wuxian. Ele secou suas lágrimas com o lenço que Lan Zhan lhe ofereceu e, com a outra mão, recebeu Xie Lian, ajeitando-o com prática natural enquanto o Lan limpava delicadamente suas bochechas macias.
— Shhh… acabou, acabou… — murmurou, balançando-os com leveza. — Olhem só vocês dois, chorando como se esses maridos fossem monstros enormes.
Os bebês não protestaram. Pelo contrário, admiravam o homem que os ninava, deixando escapar pequenas risadas e suspiros. Em contrapartida, Binghe e Hua Cheng ficaram em silêncio, atordoados.
— Vai passar. Eles não vão mais assustar vocês — sussurrou Wei, dando delicadas batidinhas para relaxá-los.
Lan Wangji posicionou-se ao lado dele, firme como uma muralha tranquila. Seus olhos dourados pousaram nos dois pequenos rostos agora grudados ao peito do marido, um pequeno sorriso iluminando suas feições. Wei sorriu de volta e relaxou ainda mais, cantarolando baixinho. Não era uma canção formal, apenas um som suave, quase brincalhão, mas carregado de calor. Seu olhar doce repousava nos dois pacotes, alheio ao par que os observava.
Devagar, os soluços diminuíram e suaves bocejos ecoaram no salão. Shen QingQiu agarrou o tecido preto da roupa de Wei, respirando fundo enquanto fechava os olhos. Xie Lian esfregou o rostinho contra seu peito, quase dormindo também.
A cena carregava uma doçura que Wangji admirava em silêncio, enquanto Binghe segurava as lágrimas e Hua Cheng desviava o olhar, sentindo-se indigno daquela visão.
— Viu só? — Wei Wuxian cochichou, orgulhoso. — Técnica secreta do Patriarca Yiling.
— Eles estão cansados — Lan Zhan sussurrou, observando os dois pequenos adormecerem, serenos, os cílios ainda úmidos. — Vamos levá-los para Gusu.
Wei sorriu satisfeito, concordando, logo depois piscando para os dois imortais de vermelho. — Relaxem. Quando crescerem de novo, vão lembrar que vocês são os favoritos.
— Injusto — bufou Binghe, cruzando os braços.
— Sua Alteza poderia muito bem ficar comigo, tenho servos para isso — Hua Cheng resmungou, ofendido.
— Eles estão sensíveis à energia demoníaca, irá assustá-los de novo — apontou Lan Zhan, guiando o marido até uma cadeira próxima.
A dupla não respondeu, reconhecendo o aviso do Lan com uma expressão quase injustiçada.
Wuxian, aproveitando o embalo, sentou-se com cuidado para não perturbar o sono dos bebês. — Não será prudente voar em espadas ou cortar o espaço para se locomover, deveríamos buscar por uma… — disse, fechando os olhos.
— Irei atrás da carruagem. — Hua Cheng se moveu com pressa.
— E a comida também deve ser nutritiva, pelo tamanho podemos julgar que podem ficar sem uma ama de leite e…
Ele nem precisou terminar a frase para que Binghe cortasse o espaço.
— Irei buscar alguns livros na Montanha Cang Qiong e trazer Mu-Shishu para auxílio médico — disse, atravessando o portal.
— Eles são muito fáceis de persuadir, né Lan Zhan? — disse, com uma piscadela, seu rosto tomado por uma expressão travessa. — Nem precisei dizer muito e eles já foram correndo resolver.
— Hm — acenou Wangji, tomando o bebê Xie nos braços. — Não se canse muito — sussurrou beijando os fios negros do marido.
— Não são pesados — suspirou, apoiando a cabeça no ombro do Lan, acolhendo mais o pequeno Shen em seu peito.
A bagunça deixada foi esquecida, o silêncio quebrado discretamente pelas respirações lentas. Wei Wuxian adormeceu encostado no marido, acompanhando os dois bebês naquele instante. Como se o caos anterior nunca tivesse existido.
