Chapter Text
“Por causa dos poderes de Shinigami que obtive de repente, o meu mundo virou de ponta-cabeça. Shinigami Substituto, Kurosaki Ichigo. Para proteger os meus amigos, deixarei os meus sentimentos explodirem e liberar a lâmina da minha alma!”
Ichigo encarou o caderno.
Péssimo.
Soava como se estivesse tentando vender boneco articulado de si mesmo.
Rabiscou tudo com força.
Tentou outra vez.
“Era uma vez um garoto normal que podia ver fantasmas...”
Ele fez uma careta.
“Mentira... Nunca fui normal...”, pensou.
Então ele suspirou e deixou a caneta cair sobre a mesa.
— Droga…
Ele precisava mesmo entregar isso? Por que não podia ser uma redação simples e objetiva, do tipo “Fale sobre como as drogas afetam negativamente a juventude”? Assuntos normais? O professor tinha que pedir uma produção textual criativa para ser entregue até sexta-feira...
— …“criativa”, ele disse. “Deem asas à sua imaginação!”.
Ichigo apoiou a testa na mesa.
“Minha imaginação quase morreu três vezes na semana passada...”.
O quarto ainda estava do mesmo jeito que ele havia deixado: uniforme jogado na cadeira, mochila caída perto da cama, a janela entreaberta deixando entrar o barulho distante da rua. Tudo normal. Ridiculamente normal.
E, ainda assim, nada parecia normal.
Ele virou a caneta entre os dedos.
“Se eu escrever a verdade, vão me mandar pro psicólogo da escola. Se eu inventar, vai parecer que estou mentindo. Se eu não conseguir entregar… Vou tirar um zero”.
— Tch…
Pegou no caderno de novo.
“Era uma vez um garoto que achava que podia proteger todo mundo...”
Parou.
Isso… Bem, não estava ruim. Mas também não era verdade inteira.
Ichigo encarou a própria caligrafia por alguns segundos, até que a imagem de uma escadaria branca demais, um céu parado demais e um sorriso calmo demais cruzaram sua mente.
Rukia.
Ele fechou os olhos por um instante.
Ela tinha ficado. A execução tinha sido interrompida. O conflito tinha acabado. Então, por que parecia que alguma coisa ainda estava pendurada no ar?
Ele levantou o olhar para a janela.
Talvez fosse porque ela não estava mais ali. Ou talvez porque o quarto estava silencioso demais. Ou, ainda, porque, pela primeira vez desde que ela entrou pela janela e virou a sua vida do avesso, ele estava sozinho de novo.
Ichigo passou a mão pelos cabelos, irritado consigo mesmo.
— Não começa…
Ele não era do tipo que ficava sentimental, não mesmo, mas a ausência tinha peso.
Voltou para o caderno.
“Era uma vez um garoto que recebeu uma espada...”
Inclinou a cabeça.
“Melhor...”.
“Ele achava que era só uma espada.”
Um leve sorriso torto surgiu no canto da boca. Não era mesmo. Nunca foi.
Suspirou e começou a escrever com mais firmeza. Talvez não precisasse parecer épico, só precisava ser sincero.
Uma batida seca na porta o fez erguer o olhar.
— Ichi-nii! — a voz de Karin veio do corredor. — Vai jantar, ou vai casar com o caderno?
— Já vou!
Ele fechou o caderno rápido demais, como se estivesse escondendo um segredo e olhou para a capa por um segundo. Talvez aquele trabalho não fosse só nota. Estava mais para uma maneira de tentar organizar o caos que se tornou a sua vida.
Ele se levantou e antes de sair do quarto, porém, lançou mais um olhar para a janela.
— …Você ia rir disso, né?
O vento entrou leve, mexendo a cortina.
Ele bufou.
— Tch, idiota...
Ichigo desceu as escadas como quem caminhava rumo ao próprio julgamento. Não porque estivesse com medo do jantar, mas porque estava com medo de pensar.
O cheiro de comida invadiu o corredor. Normal. Casa. Família. Sem espadachins mágicos insanos ou monstros mascarados. Sem execuções públicas. Sem megalomaníacos que almejavam a divindade. Tudo normal demais.
— Você está fazendo essa cara feia pra comida ou pra vida? — Karin perguntou, sem nem levantar os olhos do prato.
— Cala a boca.
Yuzu apareceu da cozinha com aquele sorriso que fazia qualquer coisa parecer menos complicada.
— Onii-chan, você está melhor? Ainda está dolorido?
Ele deu de ombros. Dor física? Quase nada. Dor mental? Em promoção: leve três, pague dois. Sentou-se à mesa. Kurosaki Isshin surgiu do nada, como sempre.
— ICHIGOOOOO! — e tentou um golpe voador completamente desnecessário.
Ichigo desviou por reflexo.
— VOCÊ NÃO PODE ATACAR ALGUÉM ENQUANTO ELE ESTÁ PENSANDO, SEU... MALUCO!
Isshin tombou no chão dramaticamente.
— Ele cresceu… Meu filho cresceu… Já desvia de ataques paternos com facilidade…!
Karin suspirou.
— Drama teatral é hereditário?
Ichigo voltou a encarar o prato. Comida. Arroz. Normalidade. Então, por que parecia que faltava alguma coisa na casa?
...
Porque faltava.
Ele disse que estava feliz por Rukia ter decidido ficar na Soul Society. E ele disse aquilo olhando nos olhos dela e forjando um sorriso. Ele disse aquilo como alguém maduro, responsável, desapegado... E bem mentiroso. Não que quisesse que ela abrisse mão de tudo por ele, mas... Porque parte dele, uma parte pequena e irritantemente barulhenta, queria que ela tivesse escolhido ficar.
Não na Soul Society. Ali. No guarda-roupa. Com aquela cara irritada de quem tinha ainda muito o que ensinar ao pior aprendiz do mundo. Ichigo apertou os hashis com força demais.
— Vai despedaçar o arroz, gênio — Karin comentou.
Ele soltou e respirou.
Talvez fosse só costume. Ela tinha aparecido do nada e virado tudo de cabeça para baixo. O cérebro dele ainda estava tentando entender o silêncio. Ou, talvez… Ele não estivesse gostando da sensação de ter sido deixado para trás.
Não. Não era isso. Ele não era carente. Ele só…
— Você está mastigando o nada, Onii-chan... — Yuzu observou.
Ichigo piscou e olhou para o prato. Realmente. Droga...
E então, como se o universo tivesse decidido que aquela noite era oficialmente a Noite da Crise Existencial Kurosaki™, outro pensamento entrou em cena: Urahara Kisuke. O quitandeiro de sandálias de madeira e leque, e o homem que inventara o Hōgyoku.
Ichigo engoliu a comida quase sem sentir o gosto.
Se ele confiava em Urahara — e confiava —, por que Urahara também não confiou nele? Por que esconder aquilo? Por que deixar ele correr atrás de Aizen Sousuke sem saber da peça principal do tabuleiro? “Para protegê-lo.”, claro que era. Todo adulto com um segredo diz isso, mas Ichigo já tinha enfrentado capitães. Tinha evitado uma execução. E tinha sobrevivido à Aizen.
Então, qual era o limite? Quando ele deixava de ser “o garoto que precisa ser protegido” e virava “o cara que merece saber”? Ele odiava essa sensação. Não de ter sido enganado, mas de ter sido considerado insuficiente.
Ichigo largou os hashis.
— Já acabou? — Karin perguntou.
— Tô cheio.
— Você comeu uns três grãos do arroz.
— Metabolismo eficiente.
Isshin se levantou dramaticamente.
— FILHO! Você está... Com dor de amor?!
Ichigo levantou tão rápido que a cadeira quase foi jogada para trás.
— Eu não tenho dor de nada!
Silêncio. Yuzu piscou. Karin levantou uma sobrancelha. Isshin sorriu com aquela expressão perigosa de quem acertou sem querer.
“Droga...”.
Ichigo se virou e foi para as escadas.
— Vou terminar o trabalho.
— Que trabalho? — Karin perguntou.
— Um criativo.
— Isso explica muita coisa — ela murmurou.
No meio do caminho de volta ao quarto, Ichigo parou.
“Criativo”.
Talvez o problema não fosse o texto, mas que ele estava tentando escrever sobre o que viveu sem admitir para si mesmo o que sentiu, e isso incluía o alívio de quando Rukia sorriu antes de desaparecer diante de seus olhos, a raiva de Urahara por esconder metade do jogo e a estranha sensação de que, mesmo tendo vencido, algo ainda estava começando.
Ele abriu a porta do quarto e a janela ainda estava aberta. O vento entrou. Ichigo se aproximou da mesa, pegou a caneta e escreveu:
“Era uma vez um garoto que achava que sabia o que era proteger alguém.
Até descobrir que, às vezes, proteger também significa deixar ir.
E, às vezes, significa perguntar por que você não foi considerado forte o bastante para saber a verdade.”
Ele encarou as palavras.
Não eram épicas, nem heroicas, mas eram reais. E, pela primeira vez naquela noite, ele não sentiu vontade de riscar tudo. Ichigo ficou encarando o próprio texto como se ele pudesse, em um ato de pura rebeldia literária, se completar sozinho.
Não se completou.
— Hmmmmmm…
Ichigo congelou. Lentamente. Devagar. Com a dignidade de alguém que já enfrentou monstros mascarados e espadachins espirituais.
Virou a cabeça.
Kon estava pendurado sobre o ombro dele, com os olhinhos de acrílico brilhando.
— Isso aí… Tá profundo, Ichigo! Meio triste. Meio emocionante. Eu quase senti alguma coisa aqui dentro — ele apertou o próprio peitinho de pelúcia. — Tipo… Sentimentos!
Ichigo berrou.
— AAAAHH, SEU MALDITO BICHO DE PELÚCIA POSSESSO!!!
A cadeira caiu. Kon foi arremessado contra a parede.
— Waaaa, você quer me matar, Ichigooo?! — Kon protestou enquanto quicava no chão.
— EU QUASE SAÍ DO MEU CORPO, SEU IMBECIL!
— Drama! Drama! Eu só tava elogiando!
Ichigo pegou Kon pelo pé e começou a sacudi-lo.
— Você não pode aparecer assim, DO NADA!!
— E quando eu vou poder aparecer?! Você me esqueceu aqui há dias, como um chinelo velho!!
E Ichigo largou o boneco, respirando fundo.
— Some daqui.
— Tá nervosinho porque tá escrevendo sobre a Nee-san, néééé?
Ichigo travou.
— Não tô escrevendo sobre ela.
— Ah não? “Proteger também significa deixar ir”… Que româantico, Ichigoo~...
E Kon voou pela janela.
Ichigo fechou as cortinas com violência. Silêncio. Respirou. Sentou. Caneta à mão. Concentração. Ele voltou ao caderno.
“Talvez o herói da história não fosse tão herói assim…”
“EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE—”
O som explodiu no quarto.
Ichigo deu um pulo tão alto que teve certeza de que quase alcançou o teto.
— O QUE É ISSO AGORA?!
O emblema de Shinigami Substituto, jogado sobre a mesa, estava vibrando... E gritando.
Não era um simples bip. Era um som horrível. Uma mistura de uma gralha engasgada (talvez sendo torturada) pedindo por socorro com um alarme de incêndio prestes a anunciar o Apocalipse.
“EEEEEEEE-RAAAAK-EEEEEEE-RAAAK—"
Ichigo encarou o objeto como se ele pudesse explicar sozinho o próprio comportamento.
— Não… Não… Não começa…
O som aumentou. O vidro da janela tremeu levemente. Kon reapareceu na soleira, dramático.
— Ichigoo! O que está havendo??
— E você acha que eu sei?! Ninguém me disse que agora eu tenho um emblema berrante!!
Ichigo agarrou o objeto.
Ele vibrava como se estivesse tentando fugir e, então, ele sentiu.
Aquela pressão. Pesada. Rasgada. Errada.
— Hollow… — ele murmurou.
Mas não era um. Era mais. Mais de um. Kon arregalou os olhinhos de brinquedo.
— Ichigo…
Mas Ichigo já apertava o emblema fazendo seu corpo humano tombar sobre a cama.
— O trabalho…
Ele olhou para o caderno. Depois, para o emblema histérico. Depois, para a janela. E suspirou.
— …não vai ficar pronto nem tão cedo.
“EEEERAAAAK-EEEEEE—"
— TÁ, EU JÁ ENTENDI! — ele berrou para o objeto.
E, com um salto, atravessou a janela, Zangetsu repousada em suas costas.
Kon ficou para trás, encarando o tão cobiçado corpo hospedeiro. O vento entrou no quarto. O caderno permaneceu aberto sobre a mesa. A última frase inacabada:
“Talvez o herói ainda não tivesse terminado de lutar.”
Lá fora, a noite respirava. E Kurosaki Ichigo não teria descanso, nem literário, nem espiritual.
