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1.
Eduarda sempre ouviu, de forma espontânea, que tinha olhos muito bonitos. Eles não eram azuis, verdes ou cor de mel como das pessoas que costumam receber esse tipo de elogio, mas ela os ouvia mesmo assim.
Não entendia muito bem o porquê. Seus olhos eram escuros, quase negros, com um leve tom de castanho quando observados contra a luz, tão comuns quanto a maioria da população brasileira, e ainda sim, não era incomum que recém conhecidos destacassem o quão belo eles eram.
Mas de uma coisa Eduarda tinha certeza e era da intensidade que os próprios olhos carregavam. Ela tinha consciência de que era extremamente expressiva, dificilmente conseguia disfarçar o que estava pensando e quando conseguia, seus olhos a denunciavam imediatamente.
— O que foi, meu amor? - A mãe lhe perguntava às vezes. E às vezes Eduarda contava, às vezes ela dizia que não era nada, mesmo sabendo que ninguém acreditaria porque tava tudo escrito na sua cara.
A Maggie era outra pessoa que frequentemente fazia a pergunta. Agora nem tanto quanto quando elas estudavam juntas, mas depois de tantos anos de convivência, era fácil pra outra garota perceber que a Eduarda tava pensando em alguma coisa depois de prestar atenção nos seus olhos.
Até o Paulinho já tinha entendido que a chave para decifrar o que se passava na sua cabeça era observar aqueles dois mundos castanhos escuros.
O que ela não sabia era quanto tempo a Lorena ia demorar pra perceber o mesmo, já que enquanto estava sentada na mesa de jantar, de frente pra morena dos olhos verdes mais linda que já tinha visto na vida, tinha certeza, que seu corpo inteiro, principalmente os olhos, que não conseguiam deixar de mirar a outra garota, já diziam tudo.
Não importava que a Lucélia estava do seu lado, ou que a própria Maggie conduzisse a conversa sobre assuntos diversos, os olhos de Eduarda sempre acabavam encontrando os verdes do outro lado da mesa, que a encaravam com uma curiosidade brilhante que não tinha nada a ver com a iluminação do local.
A ruiva conseguia entender a pergunta que, de vez em quando, Lorena lhe lançava sem dizer uma palavra. A garota virava a cabeça levemente para a direita e cerrava os olhos.
— Que foi? - perguntava e Eduarda respondia com a mesma intensidade, também em silêncio. Até que por fim Lorena entendia e desviava o olhar, se abanava, tomava um gole de água e Eduarda só conseguia ficar olhando.
Havia uma comunicação ali, praticamente exclusiva, entre elas duas e o oferecimento de carona foi um pedido para que a conversa paralela não acabasse com o fim do jantar. Por sorte Lorena aceitou e o resultado foi a quase certeza de que esse papo ainda ia durar muito tempo.
2.
Lorena era incrivelmente apaixonante. Aquele tipo de pessoa que deixa uma marca por onde passa. De repente e sem querer. E Eduarda tinha certeza de que jamais iria esquecê-la, não importava quantos anos passassem.
Apesar de se conhecerem há poucas semanas, os sorrisos e as conversas já estavam impregnados na mente da policial de um modo que podia repassá-las de trás pra frente sem nenhuma dificuldade. Isso sem falar dos beijos, que ainda podiam ser contados nos dedos de uma mão só, mas que também podiam ser sentidos, quase como um toque fantasma. Se Eduarda parasse para pensar neles por muito tempo, o corpo reagia na hora. Era como se Lorena estivesse ali na sua frente.
Nunca tinha sentido isso antes. Quando não estava ocupada no trabalho, era difícil não deixar a mente divagar pelos encontros que as duas tiveram nos bares de São Paulo, na risada meio rouca e nos olhos verdes que sorriam tanto quanto a boca. Tinha a sensação de que o que fosse que estivesse crescendo dentro de si era maior do que qualquer outra coisa que já tivesse experimentado. E junto com esse sentimento também vinha a vontade de preservar e cuidar desse talvez relacionamento que ainda não tinha nome.
Mas também não queria apressar demais as coisas, um erro que já tinha cometido anteriormente na ânsia de sentir algo grandioso com outra pessoa.
Na conversa com Maggie na galeria de arte, logo depois do primeiro beijo dentro da viatura, Eduarda entendeu que era a primeira mulher com quem Lorena estava se envolvendo e provavelmente a primeira pessoa com quem a herdeira saía em bastante tempo. Isso poderia requerer uma certa cautela por parte da ruiva, principalmente depois que a outra garota lhe chamou de apressadinha depois da sugestão de passar uma noite fora.
No entanto, o problema é que a Lorena nunca parava de surpreender. Fosse com a sua beleza, ou quando engatava a conversa em um tópico e simplesmente não parava de falar, ou quando fazia questão de deixar claro o quão interessada na Eduarda ela estava.
Tão interessada que pediu a ruiva em namoro ali mesmo no bar, depois de uma conversa sobre o roubo das Três Graças e da atitude suspeita do pai. Era um indicativo de que talvez aquilo que crescia dentro do seu peito também era compartilhado por Lorena, o que deixou a policial sem palavras. Só conseguiu se levantar e beijar a morena para indicar a resposta positiva, ou tropeçaria nas próprias palavras.
— Que foi? - Lorena perguntou depois de rirem sobre uma possível D.R. dentro do carro parado na porta do condomínio da herdeira. A voz um tanto mais aguda do que de costume soava extremamente doce e carinhosa. Era como se toda aquela emoção dentro da outra garota estivesse transbordando.
Eduarda quase não conseguiu responder.
— É que… por mim, a gente já tava namorando desde o primeiro dia que eu te vi lá na Maggie. Só tava esperando um tempo pra você entender as coisas.
A honestidade foi mais forte que a autopreservação. Mas Lorena tinha o costume de não esconder o que estava sentindo e Eduarda achava que devia à herdeira a mesma sinceridade, principalmente quando ela demonstrava ser um porto seguro para todo aquele sentimento que não parava de crescer.
3.
Namorar a Lorena era fácil. O difícil era ver ela ter que lidar com tudo que acontecia ao seu redor e não poder fazer muita coisa que não fosse estar ali ao seu lado quando possível, ou então ser um ouvido amigo para ela desabafar, um local seguro para ela chorar quando tudo estivesse uma merda. Mas Eduarda queria mais, mesmo que a herdeira não exigisse um centímetro a mais do que a policial oferecesse, ela queria que fosse possível arrancar todo o peso e dor que a rejeição do pai, que agora estava hospitalizado, causava.
O olhar triste e o choro preso na garganta doíam como se fosse na própria Eduarda, mas depois de uns dias, mesmo com a situação tendo melhorado apenas um pouco, o sorriso sincero tinha voltado pros olhos de Lorena. Ela já estava brincando, fazendo piada e mexendo no cabelo como de costume e Eduarda só conseguia pensar em como os seus pais iriam simplesmente amar a sua namorada.
— Que foi? - Ela perguntou e só então a ruiva se tocou de que a estava olhando fixamente sem querer.
Porém, era quase impossível não admirar a beleza e a força que Lorena carregava dentro de si, que muitas vezes vinha acompanhada de uma sinceridade e de uma vontade de viver, quase ingênua, de alguém que parece que está descobrindo o mundo agora. Mas a Lorena de ingênua não tinha nada, ela sabia muito bem onde pisava e que caminho era mais seguro de tomar, a diferença era que ela tinha coragem de se arriscar, uma coragem que nem mesmo a Eduarda teria com um distintivo e arma em punho, era uma coragem de se jogar de um penhasco e saber que haveria alguém ali para aparar sua queda. E a policial fazia questão de demonstrar que a Lorena não tinha se enganado quanto a isso, mesmo que parecesse que era ela pulando sem saber o que aguarda lá embaixo.
O pedido de namoro veio rápido, verdade. Mas o eu te amo foi ainda mais surpreendente, porque foi ainda mais natural. Parecia que a Eduarda já amava a Lorena desde o princípio, parecia que aquele sentimento sempre esteve ali e ela só não conseguia nomeá-lo logo no início. Só que com tempo ficou claro, e provavelmente menos de um mês de namoro fosse pouco tempo pra amar alguém, mas não tinha outra explicação.
Não existia outra palavra maior pra descrever aquilo que crescia dentro dela e desembocava no olhar castanho escuro, uma vez que, se houvesse, a Eduarda com certeza a utilizaria mesmo tendo a sensação de que ainda não seria o suficiente.
Então, a decisão de ficar ao lado da namorada e protegê-la de tudo que pudesse era quase tão natural quanto respirar. Querer que aquela mulher tão linda em todos os sentidos fosse sua pro resto da vida não parecia um absurdo, principalmente depois da própria Lorena, mais uma vez, jogar na cara da Eduarda que ela não estava sozinha quando se tratava do futuro daquele relacionamento.
Mesmo assim, ainda era cedo para começar uma vida nova. Parecia que ainda tinham muito o que aprender e explorar, sem falar que a policial tinha certeza que seus pais seriam os próximos a infartar caso eles voltassem de viagem e encontrassem a filha, que nunca tinha namorado antes, já noiva.
Eduarda balançou a cabeça pra indicar pra namorada que havia nenhum motivo para estar lhe olhando tanto, mas Lorena não se convenceu e ela teve que explicar, mesmo com a voz quase falhando e os olhos cheios de lágrimas de um amor que não conseguia guardar no peito e, às vezes, acabava escorrendo pelos seus olhos.
4.
Entre o resultado da busca no ferro velho do Joaquim, o tiroteio e a bala que quase pegou nela, a policial estava bem frustrada com a sua primeira operação. Se fossem outros tempos, provavelmente sairia da delegacia direto pro bar mais próximo com o Paulinho e os PM’s que acompanharam eles até a Chacrinha e ia tomar entre um e cinco copos de cerveja de qualidade duvidosa até o cansaço do corpo dolorido e a irritação tivessem dado lugar a boas gargalhadas e um estômago cheio de um tira gosto compartilhado com todos da mesa.
Não era uma opção ruim, nem de longe, a questão é que hoje em dia Eduarda tinha uma alternativa muito mais atrativa e que certamente não iria deixá-la tendo que aguentar uma ressaca no plantão seguinte.
O quarto da Lorena na galeria era simples, claramente feito para acomodar hóspedes temporários, com uma cama de casal, um guarda-roupa pequeno e simples e uma estante de livros que tinha um espaço para TV bem no meio, de frente para cama, além de um banheiro igualmente pequeno.
Pelo tamanho da casa dos Ferette, Eduarda imaginava que o antigo quarto da namorada deveria ter pelo menos o triplo de espaço e a bagagem que ela trouxe provavelmente não correspondia nem à metade dos seus pertences. Mas apesar disso, Lorena parecia leve e feliz, a única preocupação ultimamente sendo a segurança da própria policial, mesmo com a ruiva garantindo mais de uma vez que estava tudo bem.
Deitada no colchão, com a Lorena encostada no espelho da cama e ela de bruços por cima, encaixada cuidadosamente entre as pernas da herdeira, enquanto sentia uma mão passar pelos cabelos ruivos e levemente ondulados, Eduarda encarava as duas malas vermelhas no canto perto da porta.
Mesmo com a Lorena afirmando que, independentemente de Duda estar na sua vida ou não, a briga com o pai era inevitável, e que estando longe de casa ela podia sentir a sua vida finalmente indo para frente, Eduarda não conseguia se desfazer do desejo de que a namorada não tivesse que passar por tudo aquilo. Mas também já estava ciente de que não havia como mudar o que aconteceu, só poderia se esforçar para que, daquele momento em diante, Lorena pudesse ter uma vida mais tranquila. Ou tão tranquila quanto a família Ferette permitisse.
Foi pensando nisso que decidiu que seria uma ótima ideia passar uns dias longe do caos daquela cidade, talvez em um ambiente cercado de natureza, há algumas horas longe do centro urbano, onde ninguém fosse capaz de interromper um momento delas com alguma emergência familiar ou policial.
Seus inúmeros plantões diários durante semanas, com certeza já tinham resultado em horas extras o suficiente para pedir uns dias de folga e com a Lorena morando na galeria, não seria impossível escolher um final de semana para ficarem sozinhas em um local sossegado. Ela só tinha que conversar primeiro com seus pais, ou escolher uma pousada legal, fazer as reservas, conversar com o delegado e…
— Você tá pensando tão alto que eu não consigo ouvir o filme, sabia? - Lorena falou com um tom de risada, mas uma leve preocupação ainda estava ali. Ela tinha parado de mexer nos cabelos ruivos, mas Eduarda sequer percebeu.
Ela se apoiou na cama e levantou só o suficiente para olhar Lorena nos olhos, sem sair de onde estava. Queria dizer tanta coisa, mas o cansaço do dia e a frustração dos últimos acontecimentos deixavam a mente bagunçada demais pra formar uma frase coerente, então, usando a mão direita, ela puxou a namorada para si, caindo de costas no colchão e trazendo Lorena junto, enquanto beijava a sua boca de uma forma que a outra garota conseguisse entender tudo só com o movimento intenso dos lábios.
O beijo foi correspondido em intensidade e não demorou muito para uma das mãos de Lorena encontrar seu ombro, afastando o cabelo só para poder criar um caminho livre. Sentiu os lábios da namorada deixar os seus, em seguida sentiu eles na sua bochecha, depois no queixo e por último na pele sensível do pescoço, seguido pelos dentes arranhando de leve e a ponta da língua quente em contraste.
Eduarda se arrepiou inteira. A tensão vibrante entre as duas era quase palpável e se fosse qualquer outra pessoa talvez a ruiva não pensasse duas vezes em seguir em frente. Mas acontece que quem estava ali com ela era a Lorena e a garota não merecia que a primeira vez delas fosse uma rapidinha qualquer com gente ouvindo no quarto ao lado. Juntou toda a força de vontade que ainda tinha para afastar a namorada um pouco, a respiração ofegante da Lorena era equivalente à sua, e Eduarda podia apostar que o desejo que enxergava nos olhos verdes também estava nos seus.
— É melhor a gente…- Falou sem vontade nenhuma de sair daquela posição, com o peso da Lorena a pressionando contra a cama.
— É… Tá…- A outra garota respondeu tentando controlar a respiração ao sair de cima da ruiva e se acomodando deitando a cabeça no travesseiro, olhando para o teto.
Eduarda se mexeu o suficiente para deitar do lado dela, também com os olhos fixos para cima, enquanto o coração voltava a bater normalmente. O filme já havia acabado e a música final dos créditos era o único barulho que dava para ouvir para além das respirações se acalmando, até que ela olhou para o lado e já encontrou Lorena a observando com a intensidade que quem quer beijar de novo.
Abrir um enorme sorriso foi praticamente involuntário, assim como foi a gargalhada que Lorena soltou, obrigando a policial a rir junto. Depois de um tempo em silêncio e mais uns outros beijinhos, a herdeira perguntou:
— O que foi, hein? Por que você tava tão preocupada?
Eduarda respirou fundo e respondeu com sinceridade.
— Às vezes eu queria que essa cidade fosse menos louca.
Lorena concordou com a cabeça e abraçou a ruiva de uma forma que a fez deitar com o tronco por cima da herdeira, quase igual ao modo como estavam antes enquanto o filme ainda estava passando, e começou a passar os dedos pelos cabelos ruivos novamente.
— Eu vou tá aqui sempre que você precisar de mim, ouviu?
Eduarda apenas assentiu com a cabeça e se aconchegou no colo da namorada, dessa vez fechando os olhos e relaxando com o carinho. Sentiu Lorena se mexer um pouco e, em seguida, outro filme estava passando na tv, mas não deu tempo nem de identificar qual era, em menos de 2 minutos, a policial já havia pegado no sono.
5.
A casa da família em Campos do Jordão continuava tão perfeita quanto Eduarda lembrava. O amplo espaço, a natureza ao redor e a casa que parecia, ao mesmo tempo, uma galeria de arte e um lar aconchegante eram ainda mais bonitos nessa época do ano.
O sorriso enorme da namorada indicava que ela também havia adorado tudo, os olhos verdes quase cintilantes com seu brilho natural tentavam absorver cada detalhe, enquanto ajudava a ruiva a levar as bolsas pra dentro, mesmo depois de a policial insistir muito que não precisava de ajuda com as malas.
Após arrumar os pertences e uma longa volta para apresentar a casa, Eduarda arrumou um cobertor e algumas almofadas no jardim nos fundos e foi até o carro para retirar a cesta de piquenique e um vaso de flores que havia arrumado no porta-malas, sem que Lorena tivesse visto, ao mesmo tempo que a outra garota ainda explorava a casa e se intrigava com a decoração.
Aproveitando a distração da namorada, a policial também foi até um compartimento atrás do banco do motorista, onde havia escondido uma caixinha cinza e a colocou no bolso do casaco, sentindo como se o objeto fosse 100 vezes mais pesado do que realmente era. Não tinha certeza se aquele era o melhor momento, ou se estava indo rápido demais, ou se sequer teria coragem de fazer o que havia planejado, mas já havia aprendido com a Lorena que, em se tratando de amor, a resposta certa normalmente era a mais irracional possível.
Não adiantava seguir a lógica quando se tratava delas duas, bastava seguir o coração. E o da Eduarda já quase não cabia dentro do peito e queria sempre mais, queria mais da morena de olhos claros que finalmente a ensinou o que era o amor, a paixão, o desejo quase incontroláveis, mas que vinha acompanhado de uma delicadeza e de um cuidado praticamente angelical. Era uma mistura de sentimentos e sensações sem explicação que poderiam ser resumidas em um só nome que Eduarda esperava chamar pelo resto da vida, até porque já não conseguia conceber uma vida sem Lorena por perto.
— Você pensou em tudo mesmo, né? Até num lanche.
Eduarda sorriu.
— Seria um pouco trágico te trazer pra esse lugar lindo e te deixar com fome, não acha?
Decidindo por omitir a piadinha sobre comer ou não, pelo menos por enquanto, a policial observou a namorada se acomodar ao seu lado e vasculhar o conteúdo da cesta de piquenique, ajudando a ruiva a distribuir as frutas, pães e sucos, que estavam dentro, na grama ao redor.
Depois de provar algumas frutas e uns beijos acalorados com gosto de suco de manga, Eduarda estava deitada ao lado da namorada enquanto ela contava sobre quando ela e o irmão quase deixam dona Zenilda morta de preocupação porque acharam uma boa ideia aprender a montar a cavalo, sozinhos, em uma viagem de férias. Por sorte ninguém se machucou, mas Lorena lembrava, aos risos, os detalhes da bronca que os irmãos levaram da mãe e que deixou ambos completamente aterrorizados.
A risada rouca da namorada era encantadora, assim como o jeito como ela mexia no cabelo, ou como a felicidade chegava nos olhos, fazendo eles brilharem mais do que qualquer outra fonte de luz ao redor. Tudo na Lorena parecia uma obra de arte e era difícil pra Eduarda escolher qual detalhe observar primeiro, então ela só olhava. Pra tudo. Pra cada detalhe daquela mulher que amava tanto que não sabia colocar em palavras.
Às vezes olhava tanto que a Lorena percebia e olhava de volta. Com os olhos cheios de carinho e afeto e um sorriso meio envergonhado. Às vezes elas só ficavam assim até que Eduarda não se aguentava e beijava a namorada, mas às vezes a ruiva simplesmente não desviava o olhar por nada e a outra garota acabava perguntando…
— Que foi? - A voz quase inaudível.
Geralmente nessas horas, Eduarda dizia que a amava, que ela era linda, ou que simplesmente não era nada. Dessa vez ela não respondeu, o peso da caixinha cinza ainda sendo sentido mesmo depois de ter retirado o casaco e largado em algum lugar sobre a grama atrás dela.
Lorena continuou olhando, sua expressão mudando lentamente para uma de curiosidade a cada segundo mais que a ruiva ficava calada. Mas as palavras simplesmente estavam engatadas na garganta da policial, afinal de contas, essa era a primeira vez que ela estava namorando, a primeira vez que estava realmente apaixonada, como poderia saber que palavras usar para dizer para alguém que queria que aquela pessoa fosse sua, para amar, cuidar, proteger, para o resto da vida?
Eduarda fechou os olhos e respirou fundo para tentar controlar as emoções, mas sabia que era impossível evitar que elas transbordassem pelos seus olhos e mesmo tentando esconder, Lorena já estava ali, imediatamente secando as lágrimas e perguntando o que estava acontecendo de errado.
— Não tem nada errado, meu amor. - A policial tentou acalmar a namorada mesmo com a voz falhando. — Eu só queria te fazer uma pergunta e não sei como.
— Que pergunta?
Eduarda se virou para pegar o casaco e o objeto que estava dentro do bolso, depois secou os olhos com a manga marrom clara e controlou a respiração o suficiente para conseguir falar sem chorar outra vez.
Ao abrir a caixinha na frente de Lorena, viu a expressão da garota passar de preocupação para espanto em menos de um segundo.
Dentro da caixinha cinza havia um par de anéis cor de prata. Anéis de compromisso, que a policial havia comprado sem pensar duas vezes depois do jantar na casa dos Ferette, mesmo sem saber exatamente quando iria mostrá-los para Lorena.
A garota agora estava definitivamente espantada, mas a ruiva considerava o fato dela não ter saído correndo e simplesmente estar sem reação enquanto desviava a atenção entre os olhos da policial e os anéis na sua mão, tentando entender o que estava acontecendo, um bom sinal.
— Eu sei… - Eduarda começou, mas a voz falhou de novo. Ela limpou a garganta e percebeu que, agora, Lorena estava olhando unicamente para seus olhos castanhos. Começou de novo. — Eu sei que você disse que eu podia te pedir em casamento todos os dias, que você aceitaria todas as vezes. Esses anéis não são um pedido de casamento, mas eu não consigo mais continuar sem ter a certeza de que um dia eu vou fazer esse pedido e a gente vai poder começar a nossa família. Então eu queria te fazer uma promessa, uma que você olhasse ao acordar todos os dias e soubesse que era eu te pedindo em casamento, mesmo que indiretamente. Você aceita?
A essa altura, Eduarda já tinha desistido de brigar com as lágrimas, principalmente porque, depois de algum tempo, a Lorena também já estava chorando, tanto que mal conseguiu responder à pergunta da namorada, simplesmente se jogou em cima da ruiva, em um abraço apertado e cheio de beijinhos no pescoço, na bochecha, no topo da cabeça, em qualquer lugar que os lábios da herdeira alcançassem. Um abraço que misturava choro com risada e que só permitia que Eduarda ouvisse uma coisa ao pé do seu ouvido: a namorada repetindo o tempo inteiro que, sim, aceitava.
1.
Lorena acordou com a luz do sol batendo no seu rosto. Resmungou um pouco, xingando a claridade que havia lhe despertado cedo demais e tentou se espreguiçar, mas sentiu os braços e pernas presos, como se estivesse embaixo de algo ou alguém.
Só depois de abrir os olhos, lembrou que estava bem longe de casa e, apesar da casa de campo da família Fragoso ser quase uma galeria de arte, a herdeira também sabia que aquele não era o quarto que estava acostumada a acordar nas últimas semanas. Sem falar no mar de cachos ruivos espalhados por cima de seu tronco e o cheiro quase inebriante de shampoo de lavanda que indicavam que Lorena também não estava sozinha.
A noite anterior surgiu aos poucos na sua mente. O jantar à luz de velas após o piquenique, a dança acompanhando a música lenta, os beijos, os toques, o abrir da porta do quarto só para revelar o colchão cheio de pétalas de rosa. O despir que não foi somente das roupas, mas também das inibições e dúvidas e finalmente o se entregar, por inteira, como ela sempre quis.
Ela e Eduarda não tinham apenas transado, elas tinham se amado, de uma forma que Lorena pensou que só existisse nos livros, e o fato dela ainda estar nua, com a namorada roncando suavemente enquanto ainda dormia meio abraçada à morena, era um indicativo de que aquela provavelmente havia sido a melhor noite da sua vida e que poderia ser repetida mais e mais vezes.
Lorena tentou se mexer devagar e esticar os braços e pernas que estavam dormentes sem acordar a namorada. Eduarda ameaçou sair do lugar onde estava, mas bastou Lorena passar a mão nos seus cabelos e sussurrar que era pra ruiva voltar a dormir que a garota obedeceu, se aconchegou novamente, o rosto completamente escondido da claridade no seu pescoço.
E a garota sentiu como se pudesse ficar ali eternamente, com a namorada nos braços, a pele nua debaixo das cobertas e o som da natureza. Mas depois de certo tempo, foi impossível não rir do som de uma barriga roncando de fome.
— Que foi? - Eduarda perguntou querendo voltar a dormir enquanto Lorena tentava controlar o riso e falhava miseravelmente.
— Você tá com fome, meu amor. Eu também tô.
— Tô nada. - A policial negou, mas foi desmentida imediatamente pelo som da sua barriga reclamando de fome e resmungou irritada.
Lorena só conseguia rir cada vez mais, estava quase gargalhando, o que fez com que Eduarda abrisse os olhos e finalmente a encarasse.
O riso cessou quase que de maneira instantânea, morrendo na garganta e no peito de Lorena assim que ela deu de cara com aqueles olhos castanhos que pareciam dois mundos iluminados com um farol cada. Era tão fácil se perder neles, mas neles ela também se encontrava e por isso Lorena esperava que Eduarda permitisse que ela vivesse ali, pra sempre.
