Chapter Text
Estocolmo, 202?
Faltam duas horas para o terceiro show em Estocolmo começar, o que significa que, idealmente, Cellbit já devia estar pronto para sair do hotel, subir na van e ir até o lugar em que a performance de fato acontecerá. Mesmo sabendo disso, ele ainda está de roupão, deitado no sofá do quarto, e a ideia de se arrumar e se preparar sequer passa pela sua cabeça; pois de que adianta se apressar quando ele tem certeza absoluta de que todos os membros da banda atrasarão também? Cellbit está cansado de fazer tudo certo e não adiantar de nada. Aliás, está cansado de muitas coisas.
Devagar, ele sai do sofá e caminha até a sacada do seu quarto na cobertura do hotel cinco estrelas e se apoia na grade, respirando o ar que não é tão fresco assim. O maço de cigarro em seu bolso pesa, e a vontade de consumir a nicotina atinge seu cérebro com tudo. Cellbit diz a si mesmo que poderia parar a qualquer momento se quisesse, que “são apenas cigarros, poderia ser algo muito pior, mas eu ainda tenho um mínimo de consciência restante”. Seus braços se movem automáticamente e, antes que ele tome consciência, está com o fumo aceso entre os lábios.
Enquanto Cellbit bate um dedo calejado no cigarro para tirar o excesso de cinzas, ele coloca a mão esquerda no outro bolso do roupão para pegar seu celular. As cinzas mancham a grade da sacada, sujando, poluindo e impregnando ainda mais aquele quarto que não lhe pertence, uma ideia que costumava incomodá-lo, porém a reação que sua mente conjura no mesmo instante, antes que Cellbit possa reprimi-la é: Quem se importa? Não é problema meu. A rapidez com a qual se rende a essa atitude lhe assusta um pouco; ele sabe que seus pais lhe ensinaram melhor que isso, ele acha que não costumava ser assim, e agora, todavia, não consegue se incomodar, por mais que tente.
Cellbit, então, deixa o assunto de lado, espalhando suas cinzas ainda mais, e baixa o olhar para o seu celular, procurando em seus contatos o único que lhe importa. Não, não o único que lhe importa, mas é o único com quem sente que pode falar nesse momento.
Eu preciso tirar um peso das minhas costas, digita, mas não manda. Apenas permanece encarando a tela do celular com o coração apertado e a mente nublada, e é sufocante. Cellbit dá uma tragada antes de deixar seus braços caírem ao lado do corpo e olha para cima, para o céu do anoitecer, enquanto admite pela primeira vez aquele sentimento com tamanha intensidade, sem adornar com eufemismos como vinha fazendo: ele odeia o rumo que sua vida tomou.
Ele suspira, o que faz sua visão embaçar por causa da fumaça que exala, e Cellbit é engolido pelas próprias divagações e arrependimentos, pensando no que diria, se pudesse, para o menino inocente que havia sido um dia. Qual foi o momento exato do efeito borboleta, a decisão final, que determinou o caminho sem volta? Ele sabe a resposta para aquilo, agora sabe, e se enche de raiva. Porém fecha os olhos mesmo assim e pensa, insatisfeito com a possibilidade de que seja tudo tão simples; será que, mesmo antes daquele momento crucial, — aquele que, depois do que descobriu há pouco tempo, passou a ver com outros olhos — será que ainda teria sido capaz de mudar seu rumo de vida com alguma outra escolha diferente? É difícil saber ao certo, é o que conclui, quando é soterrado de memórias.
Cidade Quesadilla, 2013
Uma das poucas aulas que Cellbit e Foolish tinham juntos no Ensino Médio era Artes. De certa forma, era um pouco lamentável que não pudessem fazer trabalhos escolares juntos e que, no geral, só conseguissem se ver direito no intervalo, mas por outro lado, Cellbit às vezes era grato por não tê-lo ao seu lado o dia inteiro, sendo como um diabinho em seu ombro.
— Psst! — Foolish chamou sua atenção.
Cellbit olhou de canto de olho para ele. A professora de artes os havia instruído a tentar desenhar um rosto da maneira mais realista possível, tendo como referência fotos de pessoas reais tiradas de revistas; dizer que os dois amigos estavam tendo dificuldade, contudo, não fazia jus àqueles desenhos. Quando o loiro seguiu com o olhar para ver o que o outro queria lhe mostrar, foi preciso dar tudo de si para engolir uma gargalhada.
A foto de referência para o desenho de Foolish era um homem padrão, um modelo masculino, usando uma jaqueta jeans e posando para uma marca de roupas de renome. Ao lado da imagem estava o trabalho do adolescente, em que alguns rabiscos tortos seguiam mais ou menos a silhueta original, acompanhada da genuína tentativa dele de imitar o rosto, que falhara miseravelmente. Além das linhas semi-abstratas representando uma boca torta e olhos desalinhados, os risquinhos no queixo que visavam representar uma barba por fazer mais pareciam pentelhos.
Depois de alguns segundos da dupla trocando olhares e tentando conter risadas, Cellbit virou o próprio trabalho para compartilhá-lo com o amigo: seu desenho da mulher sorridente de uma propaganda de creme dental tinha dentes demais, sobrancelhas esquisitas e orelhas que não se pareciam com nada que qualquer um dos dois já tivesse visto na vida.
Foolish acabou deixando uma risada um pouco alta demais escapar, o que atraiu a atenção da professora carrasca, a qual se levantou do seu lugar e começou a caminhar na direção deles. Antes que ela os alcançasse, todavia, os meninos foram salvos por algumas batidas na porta, que fizeram a professora mudar seu rumo para atender.
Um grupo de alunos do quarto e último ano do Ensino Médio pediu permissão para tomar alguns minutinhos da aula e repassar um anúncio importante àquela turma do segundo ano. A professora permitiu, desde que eles fossem rápidos, e o pequeno grupo de veteranos entrou na sala de artes.
— Bom dia, gente! Viemos aqui em nome do comitê do show de talentos pra falar um pouquinho sobre esse evento que é tão importante pra nossa escola e explicar mais ou menos como as coisas vão funcionar este ano.
A turma imediatamente se dispersou, explodindo em burburinhos por toda a classe. Foolish, empolgado, agarrou o braço do amigo no mesmo momento e o puxou para perto.
— Por favor me diz que esse ano você vai participar — disse, em tom baixo e animado.
Cellbit mudou a posição em que estava sentado e respondeu em tom hesitante:
— Preciso pensar sobre, Foolish. Você sabe que prefiro ficar mais na minha, mas eu ouvi falar que, dependendo do que você fizer, sua participação no show de talentos fica no histórico escolar, o que pode ser bom pro meu futuro… Preciso pensar se vale a pena.
— Você devia ir, cara, sério! Imagina que foda, a gente montando uma banda juntos… Finalmente você vai encontrar utilidade pra sua habilidade secreta de tocar guitarra.
— Ela tem utilidade, Foolish. Eu toco pra mim mesmo, porque o som me acalma.
Foolish desconsiderou o comentário com um gesto no ar, e o amigo apenas conseguiu respondê-lo com uma revirada de olhos. Cellbit o amava, sério mesmo, mas ele era teimoso demais. Anos antes, os dois tinham virado amigos por acaso, dois opostos unidos pelo mesmo gosto musical; o problema era que Foolish às vezes esquecia — ou ignorava — que os interesses de ambos eram, muitas vezes, conflitantes.
— Pega a visão — Foolish exclamou, com brilho nos olhos e um sorriso no rosto. — Eu tocando bateria e você, guitarra. Só precisamos encontrar mais uma ou duas pessoas com tanto talento quanto nós e nossa banda estará completa!
— Então você não pretende chamar ninguém da banda da escola pra tocar contigo? — Cellbit perguntou, por mais que já tivesse quase certeza de qual seria a resposta.
— Jamais. Sério, eu sou eternamente grato a essa coisa de banda da escola, foi por ter me juntado a uma dessas no fundamental que eu aprendi a tocar bateria e tudo o mais, mas participar do show de talentos com o grupo daqui no ano passado foi uma merda. Nenhum deles tava com a mesma energia que eu e, desde aquele dia, a gente não dá mais muito bem.
Cellbit lembrava. Estava assistindo ao amigo da plateia e viu a banda da escola performando um número bem ensaiado, tradicional, com marcha e uniformes combinando. O rosto de Foolish demonstrava tanto desgosto que seu amigo tinha certeza de que ele devia ter insistido até quando pôde em fazer um número mais rock’n roll, e que só devia ter cedido à visão dos outros depois de ameaçarem tirá-lo da apresentação.
— Eu até diria pra gente se inscrever juntos e só tocarmos nós dois — continuou Foolish. — Mas, assim, com todo respeito, você manda muito na guitarra e tals, mas a gente precisava fazer um cover completo, e nós dois temos voz de taquara rachada. Talvez se a gente cantar em coro e pelo menos uma das pessoas for afinada a gente até consiga disfarçar, mas…
— Eu sei, eu sei de tudo isso, mas calma lá, Foosh. Eu nem sei se vou participar mesmo.
— Ok, ok… — ele cedeu, fingindo uma exagerada decepção, que fez o loiro negar com a cabeça, achando graça.
Ao se virarem para encarar a frente da sala, querendo saber mais detalhes sobre o show de talentos, eles finalmente perceberam que os veteranos anunciantes já tinham ido embora fazia algum tempo e a aula de artes estava chegando ao fim. Como sempre acontecia, eles tinham perdido a noção do tempo com suas distrações, e Cellbit começou a organizar seu material, sentindo-se levemente incomodado, porém conformado, de ter deixado as informações lhe escaparem a atenção. Enquanto ele mexia na mochila, a voz da professora soou:
— Lembrando, turma, que eu sou professora de Artes, e desenhar não é a única forma de arte. Se vocês performarem no show de talentos eu posso reconsiderar a nota final do boletim de vocês. Mas quero ver esforço de verdade, hein? Se alguém só participar pela nota e apresentar qualquer coisa, eu não mudarei a nota! Entendido?
Aquilo capturou a atenção de Cellbit no mesmo instante, como a de muitos outros alunos. A nota em Artes era uma das poucas manchas em seu boletim quase impecável, e aumentá-la poderia ser a diferença entre entrar ou não na faculdade dos seus sonhos, entre conseguir ou não uma bolsa de estudos que faria toda a diferença. Devagar, ele virou a cabeça para seu melhor amigo, o qual, pelo renovado sorriso astuto que exibia no rosto, parecia saber exatamente o que se passava na sua cabeça naquele momento.
— Pensa com carinho! — Foolish disse, dando tapinhas no ombro dele, entregando seu desenho horroroso para a professora e saindo da sala sem Cellbit, juntando-se a um de seus amigos mais populares, rumo a uma aula que ele e o loiro não tinham juntos.
Colocando as coisas em uma balança, parecia não haver motivo nenhum para não participar do show de talentos. Sim, Cellbit preferia evitar ser o centro das atenções, e a ideia de tocar guitarra, algo que lhe era tão particular e pessoal, na frente da escola inteira, enchia-o de ansiedade e preocupação. E se ele errasse alguma nota? E se os outros julgassem seu gosto musical? E se a professora de Artes não achasse a performance o suficiente e tudo acabasse sendo por nada? Por outro lado, ele sabia que é preciso se arriscar na vida, que ninguém consegue o que quer e ninguém se satisfaz sem passar por situações difíceis primeiro. E estaria ao lado de Foolish, seu melhor amigo, além de professores que pregavam o anti-bullying, então a situação era tão controlada e positiva quanto poderia ser.
Cellbit caminhou até a sala em que teria aula de história, e encontrou sua irmã gêmea esperando em uma carteira em seu cantinho favorito de toda sala de aula: na segunda fileira, encostada na parede oposta à porta. O garoto sentou-se ao lado dela, ainda divagando.
— Oi de novo. Que cara é essa? — Bagi perguntou ao notá-lo.
— Será que vale a pena participar do show de talentos só pra aumentar minha nota de artes?
— Vale — ela respondeu sem hesitação. — É provavelmente sua única nota ruim e pode ser o diferencial pra você conseguir ou não uma bolsa pra faculdade.
— Exatamente o que eu tava pensando.
— Então é isso, você sabe o que tem que fazer.
— Eu sei. Bom, não exatamente. Eu meio que perdi a explicação sobre onde me inscrever, o dia das audições e tudo o mais.
— Como assim perdeu a explicação?
— Eu tava na aula de artes com o Foolish--
— Ah, tá explicado. O Tico tava com o Teco.
— Cala a boca! A gente tava discutindo sobre o show de talentos, ok? Ele queria que eu tocasse guitarra e ele tocasse bateria.
— Essa é uma ótima ideia, na verdade.
— Talvez. A gente só precisava encontrar alguém pra cantar com a gente.
— Hm… — Bagi se juntou a ele, pensando nas possibilidades.
O professor de história entrou na sala logo em seguida, o que fez os dois ajustarem a postura. Enquanto o docente buscava em seus pertences um giz para a lousa, Bagi se curvou para sussurrar ao irmão:
— A Jaiden já não participou de uns musicais da escola?
— … A Jaiden!
— Bom, vamos começar, turma? Bom dia — o professor disse a todos.
Os gêmeos responderam o cumprimento enquanto abriam seus cadernos, com canetas a postos nas mãos. As ideias, no entanto, continuavam a se expandir na mente de Cellbit, sem permitir que ele depositasse cem por cento da sua atenção na aula.
Jaiden era uma pessoa tímida no geral, que havia recorrido ao teatro para trabalhar essa questão em si. Ela e Cellbit tinham conversado algumas vezes e estavam em bons termos um com o outro, por mais que ela fosse mais próxima de Bagi. Se era para participarem do show de talentos, se precisavam mostrar esforço e um bom trabalho, realmente fazia sentido que tivessem um vocal decente, e seria o melhor cenário possível se ela aceitasse, pois mesmo que eles não tivessem intimidade, ela estava longe de ser uma completa estranha. Talvez, no fim das contas, aquela ideia de banda fosse dar certo.
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— Você e o Foolish querem que eu participe do show de talentos com vocês?
Não foi difícil encontrar Jaiden: logo na hora da saída, Cellbit passou por ela arrumando o proṕrio armário, então sinalizou para Bagi o que ia fazer e correu até a garota de olhos escuros enquanto sua irmã assistia aos dois de longe. O loiro não tivera tempo de se comunicar com Foolish e lhe propor a ideia de convidá-la para a apresentação dos dois, mas sabia que ele não se incomodaria.
— A gente realmente precisa de um cantor, é pra ganhar pontos extra em Artes. Eu sei que pra você essa nota extra não faz muita diferença porque você manda muito nos desenhos, mas sei lá, acho que o show de talentos vai ser divertido de qualquer forma.
— Sei lá, eu não curto muito cantar, gosto mais de tocar guitarra. Vocês não estão precisando de uma guitarrista?
— É que eu sei tocar guitarra e o Foolish sabe bateria, só que nenhum de nós sabe cantar. Mas acho que normalmente as bandas de rock têm mais de um guitarrista mesmo, então se você quiser fazer os dois, fica à vontade. Ah, e se você não se sentir confortável cantando, podemos dar um jeito de fazer de outro jeito.
Jaiden voltou sua atenção ao armário, considerando a oferta. Depois de colocar um livro ali dentro e fechar a porta, ela falou:
— Ok, eu canto. Mas eu também quero tocar guitarra, a gente toca junto e deixa o Foolish fazer a coisa dele.
Cellbit suspirou, aliviado.
— Muito obrigado, Jaiden!
— A gente vai se falando pra ver os detalhes. Qualquer coisa fala pra sua irmã te passar o meu número de telefone.
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No fim de semana seguinte, os três estavam reunidos na garagem de Foolish, sentados no chão, analisando uma grande caixa de madeira cheia de CDs, tentando decidir qual seria uma boa música para performar. Parecia cedo demais para começarem a pensar naquilo tudo — as inscrições ainda nem tinham sido iniciadas e o show de talentos em si aconteceria apenas dali a mais de dois meses —, porém Foolish, muito ansioso, insistia que deviam começar o mais cedo possível.
— Acho que o baixo vai fazer falta, hein — Jaiden comentou sinceramente, olhando a lista de músicas do CD em suas mãos. — A gente realmente não conhece nenhum baixista disponível?
Foolish negou com a cabeça veementemente.
— Só o da banda da escola, e sem chance aquele lá. As visões criativas dele são algumas das piores que eu já vi — declarou com desdém.
Nenhum deles falava muito, todos concentrados em ver as canções da coleção e considerar se eram uma boa opção ou não. Apesar disso, o espaço era preenchido pelo som repetitivo e constante das finas caixinhas de plásticos duro que guardavam os CDs batendo uma na outra, ocasionalmente sendo puxadas para serem analisadas de perto.
— Hmmm, que tal esse aqui? — Cellbit indagou, mostrando a eles uma música do Slipknot.
— Sem chance — Jaiden respondeu imediatamente — Gritada demais, eu não tenho voz pra isso.
— Que tal essa então? — Foolish sugeriu, apontando para uma do Queen.
— Impossível reproduzir de um jeito legal só com guitarra e bateria — Cellbit contra-argumentou.
— E essa? — Jaiden levantou na altura dos olhos deles a embalagem de CD do Evanescence em suas mãos, apontando para uma das canções.
— Muito boa, mas não combina com um show de talentos do Ensino Médio — disse Foolish — A gente precisa de algo mais animado.
Depois de muito debate e de bagunçarem toda a coleção de CDs de Foolish, finalmente encontraram a canção perfeita: uma letra que, além de não ser romântica demais ou possuir algo muito explícito que poderia trazê-los problemas em uma apresentação de escola, tinha certo padrão de repetição, tornando-a fácil de decorar; notas que a voz de Jaiden era capaz de alcançar; melodia animada e que abria espaço para interação com a plateia; e, por mais que a versão original tivesse baixo, o grupo concluiu que conseguiriam fazer um cover apenas com guitarras e bateria. Ao encontrarem-na, aliás, apenas conseguiram se perguntar: Como não pensamos nela antes?
O trio ouviu a música em looping, sugerindo ideias e debatendo técnicas, mas suas conversas também inevitavelmente desviaram do assunto algumas vezes, com muitas piadas e digressões. A tarde passou rapidamente entre latas de refrigerante e um bom papo, o grupo encostado nas caixas e relaxando naquela garagem. O céu já havia escurecido sem que eles sequer tivessem encostado nos próprios instrumentos, porém sentiam que tinham feito bons planos e, acima de tudo, estavam se divertindo.
No encontro seguinte, marcado somente depois de encontrarem as partituras que precisariam em revistas musicais, era hora de começar de fato o ensaio. Eles abriram espaço na garagem para seus instrumentos, todos se colocaram em posição, fizeram a contagem e deram início à performance.
Foi um desastre. Cellbit entrou com a guitarra no momento errado, Foolish se perdeu na partitura e Jaiden teve dificuldade em se concentrar na letra enquanto, simultaneamente, precisava pensar no que tocava. Ao fim do que quer que tenha sido aquilo, os três ficaram em silêncio por alguns segundos, constrangidos.
— É, gente… Eu não sei se isso vai dar certo — Cellbit vocalizou o que todos estavam pensando.
— Não, que isso, vai dar sim — Foolish protestou, porém sua voz não exibia a usual confiança. Ele limpou o suor da testa antes de continuar — É assim mesmo, acredite em mim. Eu vi isso na banda da escola. O começo é sempre horroroso, mas a gente vai se encontrando com o tempo. Vamos lá, do começo.
Era difícil deixar de lado a insegurança e a vergonha, mas Cellbit sabia que era tarde demais para desistir — seria babaca demais deixar os outros na mão. Ele engoliu o orgulho e a angústia que começaram a atingi-lo com tudo, baixando a cabeça para olhar sua guitarra e sua guitarra apenas, se concentrar nos movimentos que deveria fazer. No fim do dia, ficou extremamente grato por ter em Jaiden uma companheira de guitarra, e não ter de carregar aquela responsabilidade completamente sozinho, mesmo sendo uma música com a qual estivesse, no geral, familiarizado.
Foi ali que os três compreenderam o quanto de fato precisariam se dedicar para fazer aquilo dar certo. Jaiden e Cellbit precisaram engolir suas palavras de julgamento a Foolish por querer começar a ensaiar tão “precocemente”, pois de repente, já pareciam extremamente atrasados para executar aquela ideia, e quase desejavam que o show de talentos tivesse sido anunciado antes.
A banda ficou o dia inteiro tocando a música de nova e de novo, horas seguidas sem intervalos, insistentes e determinados, principalmente Foolish, que manteve a atitude positiva e elogiava cada pequeno sucesso e avanço que observavam. Eles terminaram e se deitaram no chão para esperar que seus respectivos pais viessem lhes buscar para ir embora, mal conversando devido à exaustão. Apesar disso, era preciso admitir que tinham de fato terminado melhor do que começaram.
Ao voltar para casa, tomar um bom banho e então se jogar na cama, Cellbit sentiu as pontas dos dedos queimando de dor, completamente calejadas e esfoladas pelas cordas de metal da guitarra. De alguma forma, todavia, aquilo não o incomodava tanto; havia, de fato, algo de cativante sobre tocar em conjunto, e uma magia em encontrarem, depois de bastante esforço, a sincronia no ritmo. Cellbit fechou os olhos e tentou se imaginar performando para toda a escola no auditório… Era difícil não idealizar o que aconteceria, e o adolescente foi dormir imaginando que ele e seus amigos tocavam como profissionais em uma banda real.
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Assim que as inscrições para o show de talentos finalmente abriram, o trio se reuniu no intervalo em frente ao mural para assinarem seus nomes na lista.
— Imagina a gente vai pras audições e o comitê não aprova nossa performance — Foolish falou, zombateiro, depois de escrever seu nome ali. Cellbit encarou-o, sério, com os olhos arregalados.
— Nem brinca com isso.
Jaiden terminou de assinar o próprio nome, e quando Cellbit pegou a caneta para fazer o mesmo, ela pensou alto:
— Acho que a banda precisa de um nome. Como eles vão nos apresentar? Só “Jaiden, Foolish e Cellbit tocando um cover”?
Cellbit soltou a caneta, presa no mural por uma cordinha, e eles se afastaram. Foolish colocou-se na frente dos outros, caminhando de costas.
— Espera, isso meio que soa bem. Tipo — ele posicionou as palmas de suas mãos sobrepostas na frente do rosto e então as afastou para lados opostos na horizontal, tentando dar um ar dramático ao título — “The Jaidens”!
— Achei péssimo — Jaiden respondeu.
— Por quê?!
— Eu não quero todo o foco em mim ou algo assim. Prefiro algo que nos coloque mais como um time.
— Hmm, alguma coisa com “Team” no nome realmente não parece ruim — Cellbit opinou — “The Rock Team”... Não, isso ficou horrível.
Os três pensaram em silêncio por alguns momentos, interrompidos apenas por Foolish esbarrando em uma pessoa, a qual ele não notara por estar andando de costas; o acidente fez com que ele novamente se virasse para frente, colocando-se entre seus dois amigos.
— “The Rose Team”... — Jaiden sugeriu, incerta — Porque tem uns adesivos com rosas tanto na minha guitarra quanto na do Cellbit…?
Foolish poliu a ideia:
— Ou… “The Red Team”! Acho que dá um ar mais misterioso, mais sombrio, quase.
— Sim! — Cellbit assentiu, animado — A cor do sangue, da paixão, tem tudo a ver com rock!
— Desse eu gostei! — Jaiden concordou.
Foolish bateu palmas.
— Yayy! Ah, eu tô tão feliz que a gente esteja fazendo isso… — admitiu, passando os braços pelos pescoços dos dois em um abraço de lado. — Um dia, essa escolinha de Ensino Médio vai ter orgulho em dizer que presenciou o debut do The Red Team!
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Depois de semanas de trabalho duro, de muita ansiedade e de uma audição muito amada pelo comitê, o tão esperado sábado em que aconteceria o show de talentos finalmente chegou, e o trio do The Red Team não conseguiu relaxar o dia inteiro. Nos bastidores do auditório da escola, eles se fecharam no apertado banheiro, o único lugar privado que encontraram por ali, onde tantos outros alunos que também se apresentariam estavam se preparando.
Nesse improvisado e precário espaço de “camarim” que a banda tomou para si, irritando muitos colegas no processo, o trio estava todo vestido em roupas escuras com estampas de caveiras e bandas de rock, botas de couro, muitos acessórios e unhas pintadas de preto. Uma Jaiden frustrada jogou o delineador no seu estojo de maquiagem, enquanto pegava de um dos bolsos de sua calça baggy um colar de metal com uma grande cruz.
— Porra, não é tão difícil assim fazer maquiagem de rockeiro, Foolish! Pode deixar borrado mesmo que faz parte da estética!
— Mas eu fico enfiando esse negócio no meu olho sem querer o tempo todo porque minhas mãos não param de tremer! — Foolish reclamou, inclinado em frente ao espelho. A garota se aproximou, bufando, para lhe ajudar, e pegou o objeto de suas mãos. Ao olhá-lo de perto, ela fez uma careta.
— Esse é um lápis de boca, idiota!
— COMO ASSIM TEM LÁPIS PRA BOCA?!
— Cadê a merda da minha palheta? — Cellbit murmurava, revirando sua mochila e deixando cair no chão todo o conteúdo dela.
— Não me diz que você perdeu… — Foolish disse, enquanto olhava para cima e a amiga passava agressivamente o lápis de olho em sua pálpebra inferior.
— Você não trouxe palhetas extra?! — Jaiden perguntou.
— Claro que trouxe! Só que eu deixei todas as palhetas juntas, e eu tinha certeza de que tava nessa carteirinha aqui, mas eu não tô achando mais.
Os três pularam de susto quando ouviram batidinhas na porta, seguidas pela voz do professor que vinha ajudando os discentes por trás das cenas do show de talentos.
— Red Team? — ele perguntou — Estão prontos? Depois do grupo que tá entrando agora vai ser a vez de vocês.
— Puta que pariu — Foolish soltou, se sobressaltando.
— Olha a boca, hein? — o professor lhe chamou atenção do outro lado, antes que soasse o som de seu sapato social contra o chão conforme ele se afastava deles.
Jaiden esfregou o dedo embaixo dos olhos do garoto de cabelos escuros como toque final antes de declarar “tá ótimo” e voltar a buscar acessórios em seus muitos bolsos da calça. Foolish, então, se ajoelhou ao lado do melhor amigo, tentando ajudá-lo a encontrar o que buscava.
— Não é isso aqui? — perguntou, seu punho fechado ao redor de incontáveis palhetas.
— Onde que tava isso?!
— No bolso da frente da sua mochila.
— Ai meu Deus…
— RÁPIDO, GENTE, PRECISAMOS IR! — Jaiden os apressou, arrumando o fecho de uma última pulseira e oferecendo ambas as mãos para ajudá-los a levantarem do chão ao mesmo tempo. Depois de um puxão agressivo que fez os meninos ficarem de pé rapidinho, ela os empurrou para fora do banheiro.
Eles chutaram todos os seus pertences para fora dali, para liberarem o espaço do banheiro para os outros novamente, e seguiram em frente tentando ignorar como seus corações pareciam prestes a sair pela garganta. Enquanto iam para trás das cortinas bagunçaram um pouco mais os próprios cabelos, estralaram os dedos e se esticaram um pouco, esperando o truque de mágica que era apresentado naquele momentos ter seu encerramento.
As coxias logo se fecharam, fazendo a dupla da mágica sair de cena e oficializando: chegara o momento da apresentação do Red Team. Os membros da banda se juntaram para empurrar a bateria de Foolish e os microfones até o palco, acompanhados pelo professor que vinha ajudando nos bastidores. A poucos metros deles, por trás das cortinas fechadas, ouviram a professora que vinha mediando e apresentando o show fazer uma introdução ao trio.
— … E para manter a energia lá em cima depois desses truques incríveis, nossa próxima apresentação vai ser, ó! Um show de rock! Três dos nossos alunos prodígios da música se juntaram pra criar a banda The Red Team, que hoje vai apresentar pra vocês um cover de Rock And Roll All Nite da banda Kiss. Então eu quero agora uma salva de palmas para Cellbit, Foolish e Jaiden, o The Red Team!
As coxias abriram e Cellbit pensou que ia desmaiar. Tentava repetir a si mesmo que eles vinham ensaiando há bastante tempo e que tinham melhorado bastante, que ao mostrar a apresentação ao comitê do show de talentos eles tinham adorado, etc etc… Mas era muito difícil se concentrar no lado positivo para tentar se acalmar quando mal conseguia manter seus pensamentos concretos, com tanta adrenalina em seu sistema que o corpo dele devia pensar que Cellbit estava correndo uma maratona ou fugindo de um leão. Ele deu uma última golada em sua água para ajudar suas cordas vocais, já que todos cantariam junto com Jaiden em determinada parte da canção, e então colocou a garrafa em um cantinho perto de seus pés.
Foolish deu o primeiro passo para entrar no palco e os aplausos cessaram, a plateia prestando atenção, cheia de curiosidade. O loiro rapidamente agarrou sua guitarra, cujos cabos já estavam conectados às caixas de som, passou a alça do instrumento pelo ombro e, sentindo Jaiden vindo bem atrás de si, seguiu seu melhor amigo na direção das luzes, todas vermelhas, como o grupo havia pedido à equipe de iluminação.
Era óbvio que o auditório estava cheio, mas dali de cima, todos os rostos individuais eram completamente indiscerníveis, dando à plateia a aparência de uma única massa de gente, que segurava a respiração com expectativa. Os membros da banda se colocaram em seus lugares, fizeram alguns últimos e rápidos ajustes, e então Foolish bateu as baquetas para fazer a contagem, iniciando a música logo em seguida. Como nos ensaios, Cellbit contou as batidas da bateria para entrar com a guitarra no momento certo, e tentou deixar a energia do momento guiá-lo, sem pensar demais. Jaiden, que ele só via de trás, fechou os olhos ao aproximar o rosto do microfone:
— You show us everything you’ve got. You keep on dancin’ and the room gets hot…
O coração de Cellbit pareceu parar por um instante ao perceber que Foolish cometera um erro, mas aquilo não o abalou de forma alguma — ele se recuperou quase imediatamente e continuou como se nada tivesse acontecido, o que fez o loiro concluir que aquele era o segredo: manter a energia e seguir em frente.
O nervosismo se dissolveu rapidamente, substituído pela adrenalina e empolgação. Cellbit percebeu sua cabeça balançando, acompanhando a melodia, enquanto seu pé batia no chão. Seus dedos pareciam quase saber o que fazer sozinhos, quando pausar, e quando voltar a tocar. A música tomou conta de si.
— You drive us wild, we’ll drive you crazy…
Os garotos se curvaram para seus respectivos microfones e se juntaram a Jaiden para que todos gritassem juntos o pré-refrão:
— You keep on shoutin’, you keep on shoutin’!
Seguiu-se uma parte da música sem letra alguma, e Jaiden usou o momento para pegar ar e olhar para a própria guitarra e garantir que estava fazendo tudo certo. Foram poucos segundos até que os três cantassem juntos:
— I- wanna rock and roll all night, and party everyday! I-
O refrão era cantado várias vezes, mas todos eles acertaram o momento em que deveriam parar de repeti-lo para continuar com o resto da canção. A plateia parecia animada, e mesmo que fosse difícil ter certeza do ponto de vista dos que performavam, algumas pessoas pareciam estar se colocando de pé para igualarem a energia do show.
Foolish tomou a decisão corajosa e audaciosa de, antes que voltassem ao refrão novamente, falar no microfone:
— Todo mundo cantando com a gente!
Antes que os dois mais introvertidos da banda tivessem tempo de surtar, ouviram múltiplas vozes vindo da multidão à frente:
— I- wanna rock and roll all night, and party everyday!
O momento foi mais mágico e surreal do que qualquer um deles jamais poderia ter sonhado. Não sabiam dizer se a performance tinha durado horas ou apenas alguns segundos, mas, ainda que suando e arfando, finalizaram com estilo e ouviram a plateia aplaudir calorosamente, como se eles fossem verdadeiros astros do rock.
— Mais um, mais um! — algumas pessoas gritaram da audiência, e os membros do The Red Team trocaram olhares orgulhosos e sorrisos enormes.
— Infelizmente não temos tempo pra mais um — a professora-apresentadora interferiu, subindo ao palco e ouvindo lamentos da plateia em resposta. Ela gesticulou para que o trio se aproximasse e os abraçou de lado antes de voltar o microfone para perto da boca — Mas meus parabéns e mais uma salva de palmas ao incrível The Red Team!
Aquele era o ápice de suas vidas, concluíram os três adolescentes, vendo a escola inteira gritando o nome da banda deles e pedindo bis. Naquele momento, acreditavam piamente que poderiam se acostumar com a adrenalina da apresentação e com a viciante adoração do público. Apertando as mãos entrelaçadas um do outro, todos do trio pensaram a mesma coisa: o mundo ainda veria mais do The Red Team no futuro.
