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Nós já temos problemas demais

Summary:

Alastor e Lúcifer se apoiam um no outro após a batalha contra Vox.

Notes:

Aqui estou eu de novo, publicando devaneios que tenho antes de dormir.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Animal ferido, homem querido

Chapter Text

Lúcifer se arrasta para fora da máquina, grunhindo como um animal ferido.

Charlie, tão rapidamente quanto o abraçou, soltou seu corpo fraco no chão. Ele tentou estar presente, ficar ali por ela, mas não conseguiu. A dor de ter a carne perfurada era lancinante, sua cabeça não parava de girar, o estômago embrulhado e a visão embaçada o torturavam, e o dreno de seu poder fez com que sua regeneração ficasse extremamente lenta.

Mesmo com os sentidos totalmente afetados, ele percebe que não é o único que está ferido e distante dos outros. Alastor está encolhido atrás de alguns escombros, tentando usar o seu poder para regenerar as feridas que o cobrem. Cada tentativa inútil o deixa mais fraco, e a fraqueza irrita Alastor.

Lúcifer se força a ir até lá. Ele sabe como Alastor se sente, tendo seu orgulho surrado, o corpo em colapso, a mente enevoada, e não poder fazer nada sobre isso ou se vingar de quem causou o sofrimento.

— Saia daqui. Meu cajado foi consertado, mas eu não posso absorver todo o poder de uma vez. Daqui a pouco eu sumo desse maldito lugar.

Alastor, sem sequer olhar para Lúcifer, o expulsa grosseiramente.

— Você vai sair — Lúcifer tenta ser amigável, mas sua voz sibilante não está a ajudando. Ele respira com dificuldade — Se me deixar te levar de volta para o Hotel.

Alastor resolve olhar nos olhos dele. Parece incrédulo.

— Me oferecendo uma carona, Lúcifer? Acha que eu sou como você, um cão chutado? — A estática toma conta da voz de Alastor. Mesmo depois de quase ser destruído, ele tenta se manter por cima, descontar sua raiva.

— Você claramente foi um cão por muito tempo — Lúcifer retruca — Mas eu não te vejo assim, sabe que não. Então, posso te levar de volta para o Hotel?

Alastor murmura algo em afirmação, apesar de considerar isso ultrajante. Lúcifer usa o que sobrou de seu poder para envolver seu corpo e o de Alastor em chamas, levando os dois por um portal até o saguão do Hotel. Ele havia selado o lugar para evitar que outros demônios aparecessem repentinamente, mas o selo se abre com o seu poder. Quando chegam, caminham em direções opostas.

O Hotel tem diversos tons de vermelho na decoração, mas todos se misturam na visão de Lúcifer. O chão parece afundar, as paredes parecem mais próximas, o vermelho mancha seus olhos, ele se ajoelha, sem ar. Fraco. E fica ali.

— Está pior do que parece, não é, Majestade? — Alastor se agacha ao lado de Lúcifer, resmungando pela dor que sente no corpo todo, mas principalmente no peito, onde os pontos que seguram o enorme ferimento se reabriram.

— Eu vou subir depois... Só preciso descansar um pouco.

Alastor hesita, mas acaba pegando o braço de Lúcifer para deixá-lo de pé outra vez. Lúcifer não reage, apenas aceita, sentindo-se impotente para tentar protestar. Com o braço segurado sobre os ombros de Alastor, ele caminha vagarosamente, quase se arrastando enquanto Alastor o apoia.

— Eu tenho algumas coisas que podem te ajudar no meu quarto... — Alastor olha para Lúcifer, esperando alguma resposta, mas não recebe nenhuma. Lúcifer está com o olhar vidrado no chão e sem o seu chapéu, que saiu de sua cabeça quando ele caiu sobre o carpete do Hotel.

Alastor chuta a porta pesada assim que chegam nela, com dificuldade. Lúcifer olha ao seu redor, e, mesmo com a visão afetada, percebe que algumas partes do quarto lembram uma propriedade do interior, com troféus de caça em forma de ossadas, e outras são literalmente um pântano úmido repleto de árvores retorcidas e vagalumes. Alastor o guia através do solo molhado e macio até chegarem em uma espécie de cômodo, no meio do pântano, sem porta e com uma parede aparentemente faltante. A cama de Alastor é grande, mesmo que ele durma sozinho, e uma das portas de seu guarda-roupa está jogada no chão, arrancada das dobradiças.

Lúcifer senta-se na cama e o colchão afunda sob seu peso. Alastor puxa uma espécie de baú pequeno de dentro do guarda-roupa. Ele sai do campo de visão de Lúcifer e volta com balde d'água, panos e uma garrafa de destilado.

— As feridas... Eu preciso ver.

— Mais uma vez me chamando de cachorro chutado, Alastor? Acha que eu preciso ser cuidado por você? — Lúcifer sibila e tenta levantar, mas logo cai outra vez no colchão quando pontos pretos e brancos tomam conta de seus olhos.

— Não acho, eu tenho certeza. Tire a parte de cima da roupa e deite, o travesseiro é feito para isso.

A contragosto, Lúcifer desnuda o tronco, gemendo de dor quando as roupas desgrudam dos ferimentos, puxando o sangue seco. As feridas voltam a sangrar e ele se deita. Os travesseiros de Alastor têm um cheiro de amaciante do hotel misturado com tabaco.

Ele sente Alastor mexendo em suas pernas e tirando as botas.

— Cascos? Achei que você só era meio bode nas ilustrações da Idade Média — Alastor diz, surpreso.

— Eu sou um animal de fazenda, mesmo. Me chamam quando precisam, me sacrificam quando eu dou trabalho — Lúcifer murmura, apático.

— Não, Lúcifer... Vai ficar tudo bem — Alastor conclui que sua usual grosseria não vai ajudar.

Um pano molhado desliza pelo corpo cansado de Lúcifer, fazendo-o se arrepiar. A cada vez que ele passa-o pelas feridas abertas, um choque percorre sua pele. Alastor tenta ser cuidadoso quando passa um pano seco, retirando a água que escorre para que ele possa colocar algum tipo de curativo.

— O certo seria você tomar banho e depois fazer isso — A estática volta a cobrir demais a voz de Alastor enquanto ele fala — Mas se você entrar numa banheira, provavelmente vai apagar e eu não tenho força para te puxar desacordado.

Ele puxa um frasco com líquido âmbar, um com uma substância viscosa esverdeada, um rolo de fita e gaze. Os rótulos são de um tom rosa arroxeado que não combina com o resto do quarto. Lúcifer estreita os olhos, tentando ler, mas não consegue.

— A Rosie me deu isso, comprou com um demônio nascido no Inferno que disse ter trazido isso do Anel da Preguiça — Alastor explica ao ver os olhos de Lúcifer pousarem nos frascos — Misturados, eles protegem a ferida e aliviam a dor para ela poder cicatrizar mais rápido, acho que vai te ajudar, já que sua regeneração não está dando conta.

— Belphegor... — Lúcifer murmura, sem olhar direto para Alastor — A culpa provavelmente é minha, não é, Alastor? Fui eu que me afastei de todo mundo, larguei tudo, não posso esperar que alguém me queira por perto.

Alastor pensa no que responder, mas acaba não dizendo nada. Ele sempre percebeu que Lúcifer era alguém quebrado por dentro e que, ao invés de lidar com isso, se escondia dentro de seu quarto. Dentro de si mesmo.

Com os curativos colocados, Lúcifer parece uma boneca remendada. Sua respiração está voltando ao normal.

— Posso ver suas costas?

Lúcifer se vira, mostrando o resto dos ferimentos. O remédio de Alastor realmente funciona, considerando que ele esperava uma dor excruciante assim que pressionasse os curativos.

Alastor repetiu o processo. Limpar com o pano, secar com o outro, passar a mistura, posicionar a gaze em cima e prender com a fita. Ele percebe que Lúcifer tem seis marcas que lembram cicatrizes de queimadura nas costas, no lugar onde ficam as asas. Alastor passa os dedos pelas marcas, assustando Lúcifer.

— A curiosidade matou o gato, e pode matar o veado, Alastor. Imaginou que fosse menos sensível?

— Parecem queimaduras, achei que você não sentiria nada — Alastor admite, a voz falha com estática outra vez. Vai demorar para seu poder voltar ao normal — E… acabamos. Pode virar de volta.

Lúcifer obedece, sua visão parece ter voltado ao normal, mas ele não vai arriscar tentar se levantar e cair de novo. Deitado, ele observa como Alastor abre a garrafa de bebida e a entorna sem mudar de expressão. O movimento do braço faz com que seu peito sangre. Lúcifer percebe, para a surpresa de Alastor.

— Isso está aí desde que o Adão te atingiu? — Lúcifer ergue o braço, a mão trêmula tentando tocar o ferimento, mas Alastor se afasta.

— Não é da sua conta, Majestade. Eu não te curei para pedir algo em troca, se é isso que pensa de mim — A estática estala no quarto. Mais sangue mancha a roupa de Alastor.

— Eu não penso isso de você. Sabe disso — Lúcifer retruca, levemente ofendido — Pegue esse pano coberto com o meu sangue, já que você é um médico tão ruim que não lavou o pano nenhuma vez, e estenda na ferida, fique deitado para a água sanguinolenta penetrar nela. O único jeito de curar um ferimento desses é com sangue de anjo, também pode esperar que eu me cure e sangre sobre você, ou pode pedir para a namorada da Charlie, provavelmente vai funcionar do mesmo jeito.

Alastor o encara com a bebida ainda na mão, tentando decifrar se Lúcifer falou sério ou não. Bom, sangue de anjo era uma das poucas coisas que ele não usou, e, provavelmente, nunca usaria se Lúcifer não tivesse o visto. Alastor acaba cedendo. Ele coloca a garrafa no chão, ao lado das roupas de Lúcifer, e abre a sua camisa. Lúcifer exclama algo quando vê o estado que está a carne de Alastor. Ele segura o pano, que assumiu uma cor amarelada por conta do sangue dourado misturado com água e posiciona ele aberto sobre o ferimento antes de se deitar ao lado de Lúcifer, sem olhar para ele.

— Obrigado, Alastor. V-

— Não me agradeça. Você não é um animal de fazenda ou alguém que só serve como um apoio de outra pessoa, caso realmente pense isso — Alastor fala secamente. Talvez seja melhor assim — Se alguém te vira as costas quando você precisa, mas te chama quando ela mesma está em apuros, é essa pessoa que deveria ter uma conversa consigo mesma, não você. Não se afunde em autopiedade, você tem problemas bem maiores dentro da sua cabeça, não acrescente mais um. Por favor.

Lúcifer surpreende-se com a fala de Alastor. Não esperava ouvir isso vindo do demônio do rádio. Talvez ele esteja certo. Lúcifer se pergunta se poderá ter algum momento assim com ele outra vez.

Ele espera que sim.

Notes:

Sim, Lúcifer, você vai ter isso de novo