Chapter Text
Nevada era um lugar barulhento e ao mesmo tempo um lugar de silêncio ensurdecedor e caótico, com um céu vermelho tão intenso quanto o sangue fresco dos inocentes que morreram pela ganância de pessoas que ansiavam pelo poder.
Não importava quantas paredes fossem destruídas, quantos prédios fossem explodidos, quantos clones morressem e quantos outros fossem fabricados para morrer de novo. O ar sempre voltava para o mesmo clima que dava arrepios. Tudo estava um caos. Poeira. Fumaça. Sangue seco e, por algum motivo, Hank gostava disso, mas não porque era bonito, afinal nada era bonito em Nevada, e sim porque era algo familiar e porque matar era a única coisa que Hank sabia fazer direito.
Ele não devia achar isso normal.
Mas achava.
Só que ultimamente, alguma coisa vinha saindo do lugar dentro dele, algo que ele desconhecia. Um tipo de incômodo que não combinava com o resto do corpo. Um sentimento, e um que não era a familiar raiva que ele tanto sentia.
Hank não era um homem de “sentimentos”. Ele era um homem de violência, com o instinto de matar, matar aqueles que se opõem a ele, matar aqueles que entram em seu caminho para desafiá-lo, matar pelo simples prazer e desprazer. Esmagar crânios com suas botas de combate e estourar cabeças.
A violência era fácil para ele.
E sentimento… lhe parecia um erro.
---
Hank entrou no esconderijo com passos pesados, a roupa grudada no corpo. Ele estava voltando de uma missão e, como já esperado, estava ferido. O sangue já não escorria tanto e estava mais para aquele tipo de sangue que secava e endurecia, formando placas na pele e no tecido da roupa. Mas mesmo assim, pingava o suficiente para deixar um rastro por onde ele passava.
O consultório de Doc ficava logo adiante, no mesmo canto de sempre, como se fosse o coração daquele lugar.
Ou o cérebro.
Ou o único órgão que ainda tentava funcionar direito.
Hank, sem bater, abriu a porta e parou no batente. Doc estava sentado na cadeira, de costas, com a luz do monitor iluminando o rosto.Trabalhando.Como sempre.
Hank ficou parado alguns segundos, observando.O consultório era pequeno e apertado, mas Doc conseguia transformar aquilo numa espécie de universo próprio: pilhas de papel, pastas com etiquetas, frascos com líquidos, instrumentos organizados com obsessão.
O caos perfeito.
Doc não se virou. Ele só soltou um suspiro longo, daqueles que pareciam vir de dentro do osso.
— Você está pingando no meu chão — o médico reclamou, irritado e cansado, como de costume.
Hank não respondeu. Ele era um homem de poucas palavras, ele sempre foi assim, mesmo antes de ter sua mandíbula arrancada por aquele palhaço calvo endemoniado.
Doc girou a cadeira lentamente e, ao olhar, viu o corpo de Hank. A expressão mudou instantaneamente. Não era de se surpreender.Claro, Doc nunca se surpreendia, ele já estava acostumado com Hank voltando quebrado. Era… irritação misturada com aquela preocupação que ele fingia não sentir.
— Porra, Hank. — Doc parecia meio... Hank não tinha certeza de como ele parecia.
Hank inclinou levemente a cabeça, como se aquilo fosse uma saudação. Doc se levantou e veio até ele com passos rápidos, puxando-o pelo braço, mas tomando cuidado para não encostar em nenhum ferimento grave.
— Vem. Senta.
Hank deixou.
Ele sempre deixava.
Doc empurrou Hank até a maca, tirando o casaco dele, tomando cuidado com possíveis ferimentos que ele talvez não enxergasse.
O tecido estava rasgado em vários pontos. Hank tinha marcas de tiro pelo peito, cortes nos ombros, um ferimento feio na lateral do abdômen, e o braço esquerdo estava claramente deslocado.
Doc olhou aquilo como se estivesse olhando uma lista interminável.
— Você avançou sozinho de novo.
Não era pergunta.
Hank soltou um som baixo, confirmando.
Doc apertou os olhos.
— Você é um imbecil.
Hank não discutiu, ele sabe que foi imprudente, sabe que errou e sabe que discutir com Doc não daria certo.
Doc foi até a mesa e pegou uma pinça, gaze e uma seringa.
— Você completou a missão?
Hank jogou sobre a mesa o que tinha roubado: um dispositivo da AAHW, pesado, com o símbolo estampado.Doc olhou e assentiu
.— Ótimo. Pelo menos você não voltou morrendo por nada.
Hank observou Doc preparar tudo. Doc parecia sempre cansado. Sempre. Mesmo quando estava parado, era como se ele estivesse carregando o peso de tudo nas costas. Mas quando ele começava a trabalhar… quando ele entrava naquele modo cirúrgico…Hank não conseguia desviar os olhos.
Doc era eficiente. Frio. Rápido. Dedicando toda a sua atenção.
Dedicando sua atenção a Hank. Cuidando dele.
E, de algum jeito, isso fazia Hank sentir uma coisa estranha no peito.Uma coisa que ele odiava.
Odiava porque não sabia lidar com isso, não sabia o que era e não conseguia matar igual ele matava todos os agentes da AAHW.
Doc aproximou a mão do ferimento do abdômen e pressionou.
Hank nem se mexeu. Ele estava acostumado, acostumado com a dor.
— Porra! Você sente dor!?
Hank olhou para o teto e Doc riu sem humor.
— Claro que sente. Você só finge que não.
Doc começou a limpar o ferimento. A cada movimento, o sangue aparecia de novo, como se o corpo de Hank não quisesse cooperar.
Doc trabalhava com a mandíbula travada. Hank notou um comportamento incomum em Doc.
Noto a pele mais pálida do que deveria.
Notou o jeito como Doc respirava, como se estivesse segurando a exaustão com as unhas.
Hank falou baixo. Com a voz mais rouca do que queria por causa da falta de uso.
— Você dormiu?
Doc congelou por um segundo. Como se não esperasse ouvir isso.
— …Não é da sua conta.
Hank ficou em silêncio. Doc voltou a trabalhar, mas agora estava mais tenso.
— E não, eu não dormi. Porque alguém tem que manter essa merda funcionando.
Hank observou. Doc era médico.Mas parecia o tipo de homem que esqueceria de comer por dias, só porque tinha “trabalho”.
Hank achava isso ridículo.
É engraçado
.E… ele não sabia o que mais.
Doc puxou uma pinça e tirou um fragmento metálico alojado no corpo de Hank. Hank sentiu o impacto e Doc nem piscou
— Você caiu em uma emboscada?
A pergunta veio simples, seca.Hank hesitou.Um segundo.
Doc ergueu o olhar, afiado.
— Hank.
Hank soltou um som baixo, confirmando.
Doc fechou os olhos e respirou fundo, como se estivesse contando até dez para não explodir.
— Você… é inacreditável. Deveria ser mais cuidadoso! Se você continuar assim você pode acabar...
Doc voltou a costurar, e o silêncio ficou pesado e Hank percebeu que Doc não estava só irritado, Doc estava… assustado. E isso era novo.
Doc nunca parecia assustado. Ele parecia cansado, rabugento, ácido, mas não assustado. Doc terminou a costura e puxou o fio com força.
— Você tem que parar com isso.
Hank não respondeu. Doc continuou, mais baixo:
— Você não é invencível.
Hank olhou para ele. Doc estava tão perto que Hank podia ver detalhes que ele nunca prestava atenção:
O leve tremor nos dedos.
As marcas de noites sem descanso.
A expressão que tentava ser firme, mas falhava.
Doc estava com raiva.
Mas por baixo da raiva… tinha outra coisa.
Hank sentiu o peito apertar.
Ele não gostou.
Ele odiou.
Porque aquilo parecia…Importante.
E ele não sabia o que era e não conseguia ajudar.
Doc desviou o olhar primeiro, como se tivesse percebido que Hank estava encarando demais.
— Vira. Eu vou colocar isso no lugar.
Hank virou o corpo e Doc segurou o braço deslocado e puxou. O estalo foi seco, mas Hank nem reagiu Doc soltou o ar, aliviado..
— Você é uma desgraça.
Hank soltou um som baixo que podia ser riso. Doc olhou, incrédulo.
— Você está rindo?!
Hank deu de ombros. Doc apertou a ponte do nariz.
— Eu vou te deixar no inferno da próxima vez.
Hank olhou para ele. E, por algum motivo… aquilo fez Hank querer sorrir. Ele não sorriu.Mas quis..Porque ele sabia.
Doc dizia isso sempre.
E nunca cumpria.
Nunca.
---
Horas depois, Hank estava sentado no chão da sala. O sofá velho rangia sob o peso de Sanford e Deimos, que estavam jogados ali como se o mundo não fosse acabar a qualquer segundo. Deimos estava com o braço em volta de Sanford que estava com a cabeça levemente inclinada, encostando na de Deimos.
Os dois assistiam a alguma coisa na televisão.Algo idiota.
Algo que Hank não entendia.Mas eles riam.
Riam de verdade.
Hank observava em silêncio. Ele não sabia por quê.Talvez porque aquilo fosse… estranho. Em Nevada, nada era assim.
Nada era calmo.
Nada era leve.
E mesmo assim, ali estavam os dois, como se o mundo fosse normal.
Como se eles fossem normais.
Deimos mexeu nos cachos de Sanford, distraído. Sanford segurou a outra mão dele, apertando de leve.
Hank sentiu aquela coisa no peito de novo.
O incômodo.
O aperto.
E, sem querer.Hank imaginou.
Ele imaginou Doc ali.
Sentado ao lado dele.
Doc reclamando da televisão.
Doc dizendo que aquilo era perda de tempo.
Mas ficando mesmo assim.Hank imaginou puxando Doc para perto.Imaginou o peso dele contra o corpo.Imaginou… beijando.
O pensamento veio tão forte que Hank ficou rígido. Por que diabos ele estava pensando nisso?
Ele levantou-se de repente. O som fez Sanford olhar na hora.
— O que foi?
Hank não respondeu e Deimos virou o rosto, sorrindo como se tivesse entendido alguma coisa.
— Iiiiiih.
Sanford suspirou
.— Deimos.
— Que foi? — Deimos deu de ombros. — Ele está com aquela cara.Hank
lançou um olhar que prometia violência. Deimos levantou as mãos, rindo.
— Tá bom, tá bom. Eu não falei nada.
Hank saiu dali.
Rápido.
Como se fugir do próprio cérebro fosse possível.
---
Ele foi direto para a sala de armas.
Era onde ele sempre ia quando não sabia o que fazer. Quando o corpo estava inquieto. Quando o cérebro parecia cheio demais para caber dentro de sua cabeça.
Hank pegou uma faca e começou a afiar. O som do metal raspando era constante. Repetitivo. Fácil. Simples.
Hank precisava de algo simples.
Sentimentos não eram simples.
Doc não era simples.
Hank tentou pensar em outra coisa.
AAHW.
Missões.
Sangue.
Alvos.
Mas Doc voltava.
Doc sempre voltava.
Aquela voz rabugenta.
Aquele olhar cansado, que de vez em quando Hank os via atrás dos óculos vermelhos de proteção.
Aquele jeito de tocar Hank sem medo, como se Hank não fosse um monstro.
Hank apertou a faca com força demais. O metal cortou a pele da mão. Um corte pequeno, mas o sangue apareceu. Hank encarou irritado. Ele não sentia dor do jeito normal, mas sangue era sangue.
Ele ouviu passos atrás dele e não precisava olhar para saber.
Doc.
Claro.
Doc sempre aparecia.
Doc sempre sabia.
— …O que você está fazendo?
Hank não respondeu.
Doc se aproximou, e o olhar dele caiu na mão.
— Você está sangrando.
Hank continuou afiando, como se não fosse nada, mas Doc o impediu e arrancou a faca da mão dele.
— Chega.
Hank levantou o olhar na hora. A raiva veio rápido, instintiva.
Doc não recuou.
Doc nunca recuava.
— Você está se machucando de propósito?
Hank ficou imóvel.
Doc apertou os olhos por trás de seus óculos.
— Hank.
A voz dele ficou mais baixa.Mais…Real.
Doc pegou a mão de Hank. E aquele toque… aquele toque fez o mundo ficar estranho por um segundo. Porque não era um toque médico. Não era um toque de “deita na maca”.
Era um toque de… cuidado.
Doc puxou Hank até uma mesa ali perto e começou a limpar o corte.Hank ficou parado, olhando.Doc trabalhava em silêncio, mas a tensão estava ali. No jeito como ele respirava.No jeito como ele segurava a mão de Hank com firmeza demais.
Doc falou sem olhar:
— Você está estranho.
Hank não respondeu.
Doc amarrou um curativo improvisado. O nó ficou apertado. Doc puxou de leve para testar e Hank não desviou os olhos do rosto dele.
Doc percebeu e congelou.
Os dois ficaram parados. Doc ainda segurava a mão de Hank.
Hank sentiu o coração bater.
Ele odiou.
Porque Hank não tinha medo de nada.
Mas aquilo parecia medo.
Doc engoliu seco.
— …O que está acontecendo com você?
Hank queria dizer: você. Mas não disse. Ele não tinha palavras. Ele tinha vontade, mas ao mesmo tempo não tinha.
Doc soltou um riso fraco, frustrado.
— Você está indo em missões extras.
— …
— Voltando pior do que antes.
— …
— E ficando quieto, como se… como se tivesse alguma coisa presa na sua garganta.
Hank apertou os dedos, ainda na mão de Doc, e o doutor ergueu o olhar e, por um instante…Os dois ficaram presos.
Doc parecia cansado, mas também parecia... vulnerável.
E isso foi o que quebrou Hank.
Porque Hank podia lidar com Doc irritado.
Doc rabugento.
Doc gritando.
Mas Doc vulnerável?
Isso era perigoso.
Hank puxou Doc. Foi rápido. Impulsivo.
Doc tropeçou para frente. Hank segurou a cintura dele com força, como se precisasse ter certeza de que ele estava ali.
Doc arregalou os olhos.
— Hank!
Hank aproximou o rosto.
Doc ficou rígido.
A respiração dele falhou.
Hank sentiu o cheiro de café frio, remédio e papel.
Sentiu o calor do corpo dele
.E o desejo bateu como um soco.
Doc sussurrou:
— Você está fora de si…
Hank não negou. Ele não podia negar. Ele não sabia fingir.
Doc colocou as mãos no peito de Hank. Não empurrando. Só tocando.Como se estivesse testando.Como se estivesse tentando entender.
O coração de Hank estava disparado, batendo forte contra sua caixa torácica.
Provavelmente, Doc sentiu seu coração.
Doc falou, a voz mais suave:
— Você sabe o que isso significa?
Hank não sabia ou talvez soubesse e odiava.
Doc riu sem humor.
— Você… você vai me destruir.
Hank apertou a cintura dele. Doc fechou os olhos. E então, num gesto pequeno…Doc encostou a testa no peito de Hank.
Hank ficou imóvel.
Como se o mundo inteiro tivesse parado.
Doc sussurrou:
— Eu devia te bater.
Hank soltou um som baixo. Doc levantou o rosto. Os olhos dele estavam estranhos.
Doc segurou o rosto de Hank com as duas mãos.
— Hank… você é uma péssima ideia.Hank se inclinou e passou a mão na máscara do doutor, sussurrando:
— Posso?
Doc não se afastou e acenou com a cabeça. E Hank lentamente tirou a máscara e os óculos de Doc junto com as ataduras que estavam enroladas no queixo do médico, colocando-as em cima da mesa.
O mercenário se afastou apenas o suficiente para dar uma boa olhada no rosto de Doc, e a primeira coisa que reparou foram os buracos em suas bochechas que deixavam os dentes à mostra.
Hank sentiu um aperto no peito.
"Quem foi o arrombado, filha da puta, que fez isso com seu Doc? Seja lá quem for, mas esse desgraçado pau no cu vai entender com quem mexeu." Pensou hank com sangue nos olhos.
Doc, percebendo a raiva nos olhos do mercenário, achou que era direcionada a ele.
— Elas são horríveis, não são? — perguntou Doc com um sorriso triste em seus lábios marcados.
— ...— Hank se assustou com as palavras do médico, ele não as achava horríveis, longe disso — Elas não são horríveis, elas são lindas igual a tudo em você. — Hank não sabia de onde vieram essas palavras. Elas simplesmente parariam certas para o momento e ele as falou.
Doc ficou surpreso pelas palavras de Hank, mas ficou ainda mais surpreso por ser puxado para um beijo do mais alto.
Hank o beijou.
