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Prefácio - A Conquista de Aegon.
Prefácio
O Século de Sangue arrastou-se por gerações, um vendaval de aço e fogo que consumiu as Cidades Livres em guerras intestinas, deixando para trás apenas cinzas e a memória de um poder há muito perdido. Foi nesse cadinho de desolação e ambição que Aegon Targaryen, o Conquistador, tomou a decisão que redefiniria o destino do mundo conhecido. Enquanto seus ancestrais, nos primeiros dias após a Perdição, haviam voltado seus olhos para o poente, para o continente verde e promissor de Westeros, Aegon olhou na direção oposta. Olhou para leste, para o continente-mãe, para Essos, a terra de onde sua família havia fugido séculos antes, carregando consigo o sangue dos senhores de dragões e os segredos da antiga Valíria.
Ele compreendeu algo que os outros não compreendiam: a glória não estava em conquistar reinos bárbaros e fragmentados do outro lado do mar estreito, mas em reconstruir o que fora destruído, em reunir sob uma única coroa as cidades que um dia foram as mais brilhantes joias do mundo. E para isso, precisava de uma base, de um coração pulsante de onde pudesse irradiar seu poder.
Volantis foi a escolha natural. A Primeira Filha, a mais antiga e orgulhosa das colônias valirianas, ainda guardava em suas muralhas ciclópicas o eco dos tempos antigos. Suas ruas de mármore, seus templos de pedra negra e seu porto, o maior do mundo conhecido, eram um palco digno da grandeza que Aegon pretendia forjar. Com suas irmãs-esposas, Visenya e Rhaenys, montadas em Balerion, Vhagar e Meraxes, ele desceu sobre a cidade como uma tempestade de fogo e escamas. As legiões mercenárias das Cidades Livres, acostumadas a lutar entre si por moedas e prestígio, desconheciam o terror de um ataque coordenado por três dragões adultos. Em dias, a resistência foi aniquilada. Em semanas, as demais cidades — Lys, Myr, Tyrosh, Pentos, Norvos, Qohor e Lorath — compreenderam a inutilidade da oposição. Uma a uma, curvaram-se ou foram subjugadas.
Apenas Braavos resistiu. A Cidade Secreta, escondida atrás de suas lagoas e da neblina eterna, nunca se rendeu. Seus titãs de pedra guardam a entrada, e seus habitantes, descendentes de escravos fugidos, preferiram a independência solitária ao jugo de qualquer imperador. Até hoje, Braavos permanece como uma exceção teimosa, uma farpa na carne do dragão, um lembrete de que o poder absoluto, por maior que seja, encontra limites na vontade inabalável de um povo livre.
Mas Aegon não se deixou abalar por uma única cidade rebelde. Ele proclamou-se Imperador de Valíria, não como um sucessor da antiga Cidade Franca — aquela estava morta e enterrada sob as Quatorze Chamas — mas como o fundador de uma nova dinastia, de um novo império, erguido sobre as cinzas do antigo e temperado pelo fogo de seus dragões. Fixou sua capital em Volantis, transformando a cidade num monumento vivo ao seu poder. Os antigos palácios dos magisters foram convertidos em sedes de governo; as arenas de escravos, outrora palco de carnificina, tornaram-se locais de treinamento para as legiões que ele começou a organizar.
Pois Aegon sabia que dragões, por mais terríveis que fossem, não podiam estar em todo lugar ao mesmo tempo. Para governar um território que se estendia do Mar Estreito às fronteiras do Mar Dothraki, e do norte gelado de Lorath ao sul escaldante das Ilhas de Verão, era preciso mais do que fogo e sangue. Era preciso ordem. Era preciso estrutura. Era preciso um sistema que funcionasse mesmo quando o imperador estivesse ocupado em outro canto do mundo.
Assim nasceu a Hierarquia Sólida do Império, um modelo administrativo e militar que rivalizava com a própria máquina burocrática da antiga Valíria. Legiões permanentes, treinadas e equipadas com o melhor aço que Qohor podia forjar, substituíram os exércitos mercenários volúveis. Questores percorriam as províncias recolhendo impostos e ouvindo queixas. Magistrados aplicavam as leis escritas em pergaminhos mais antigos que muitas dinastias. E o Senado, composto por representantes das grandes famílias das Cidades Livres, dava voz — ainda que controlada — aos súditos do Império.
E no topo de tudo, o Trono de Obsidiana. Uma cadeira monstruosa, esculpida não por mãos humanas, mas pelo fogo de Balerion, que derretera a pedra de dragão e a moldara numa forma de pesadelo, com lâminas e farpas que lembravam a todos que o poder é um assento desconfortável, e que quem nele se senta deve estar disposto a sangrar.
A dinastia Targaryen floresceu sob este novo sol. Gerações de imperadores e imperatrizes sucederam-se no trono, enfrentando rebeliões, guerras civis, crises sucessórias e ameaças externas. Os dragões, um a um, foram morrendo, até que o último deles adormeceu para sempre nos poços de fogo de Volantis. Mas o Império não morreu com eles. A Hierarquia Sólida mostrou-se mais forte do que qualquer besta alada. As legiões, os questores, os magistrados, o senado — tudo continuou funcionando, uma máquina perfeita e impessoal que garantia que, mesmo sem dragões, Valíria continuasse a ser a maior potência do mundo conhecido.
E os Targaryen continuaram a reinar. Não mais como senhores de dragões, mas como imperadores de um império que se estendia por todo um continente. Eles se casaram entre si, como era tradição, para manter o sangue puro. Mas também selaram alianças com famílias poderosas de outras terras, expandindo sua influência para além das fronteiras do Império. Alguns se aventuraram em casamentos com nobres westerosis; outros preferiram a segurança dos laços internos. A todos, o nome Targaryen permaneceu como sinônimo de poder absoluto, de linhagem divina, de um destino manifesto de governar.
Agora, trezentos e três anos se passaram desde que Aegon, o Conquistador, pôs os pés nas docas de Volantis e reivindicou o mundo para si. Trezentos e três anos de paz e guerra, de prosperidade e crise, de glória e decadência. O trono de obsidiana ainda está de pé, e nele se senta-se Rhaegar Targaryen, Primeiro de Seu Nome, Imperador de Valíria, Senhor de Todas as Cidades Livres, Protetor da Fé e Guardião do Trono de Obsidiana.
Ou, pelo menos, é isso que ele acha.
Ouça-me Rugir!
Ato 1
A névoa do amanhecer ainda se agarrava às margens do Tridente como um sudário úmido e fantasmagórico quando Eddard Stark viu o exército inimigo desdobrar-se na margem sul. A bruma subia do rio em espirais lentas, enrolava-se nas patas dos cavalos, dissipava-se contra os peitorais de aço, e emprestava a tudo uma qualidade de sonho — ou de pesadelo. O ar, pesado e frio, cheirava a erva esmagada pelos milhares de pés que aguardavam, a couro encharcado pela umidade da noite, ao brilho oleoso do metal recentemente polido... e à promessa inconfundível de morte. Era um odor que Ned aprendera a reconhecer nos últimos dias, mas que ainda assim lhe revirava o estômago: doce e metálico, como cobre velho e açúcar queimado.
O Olho de Deus, um ilhéu no meio do lago próximo a Harrenhal onde outrora os homens diziam que os deuses velavam, erguia-se como uma testemunha silenciosa, sua massa escura recortada contra o céu que clareava lentamente. Seria hoje um altar de sangue, pensou Ned, e os deuses, se estivessem assistindo, veriam um sacrifício de proporções épicas. Os deuses antigos, aqueles sem nome que habitavam os bosques sagrados e os rios profundos, talvez já estivessem ali, observando por trás da névoa. Os sete deuses do sul, pensou com um toque de amargura, provavelmente preferiam não testemunhar a carnificina que seus seguidores estavam prestes a cometer em seus nomes.
O Exército do Norte estava a seu lado, dezoito mil almas endurecidas pelo gelo e pela fé nos Antigos Deuses. Eles se estendiam pela margem norte como uma extensão da própria terra — mantos cinzentos e castanhos que se confundiam com o solo árido, cotas de malha que brilhavam opacas sob a luz pálida e leitosa do dia que nascia, espadas longas e machados de guerra que reluziam com um brilho frio e assassino. Não cantavam hinos à Fé dos Sete. Guardavam um silêncio profundo, pesado, que pesava mais do que qualquer grito de guerra. Era o silêncio dos bosques sagrados, onde as árvores-coração guardavam memórias de milênios; o silêncio dos corvos que espreitam nos galhos aguardando a carnificina; o silêncio do inverno que sempre se aproxima, inexorável e silencioso como a própria morte.
Quando falavam, era na língua áspera do Norte, cheia de consoantes cortantes como gelo quebrado, palavras que soavam estranhas e duras aos ouvidos dos homens do Sul. Ned ouvira sulistas zombarem daquela língua, chamando-a de grunhidos de selvagens. Que viessem agora, pensou ele, e ouvissem o silêncio daqueles mesmos "selvagens" diante da batalha. Que vissem a calma nos olhos deles, a aceitação tranquila do que estava por vir.
— Stark! — O nome ecoou de boca em boca, passando pelas fileiras como um vento frio, baixo e gutural, uma promessa de aço, não um brado de triunfo. Era um lembrete de quem lutava ali, de quem caíra antes, de quem ainda cairia. Era uma oração sem deuses.
À esquerda, dispostos em uma ordem tão impecável que doía nos olhos, estavam os cavaleiros do Vale. Dez mil homens sob o estandarte da Lua e do Falcão de Jon Arryn. Suas armaduras reluziam — aço polido até o brilho de espelhos, adornos de prata e bronze que capturavam os primeiros raios de sol e os devolviam em feixes ofuscantes. Um contraste gritante com a sobriedade do Norte. Suas capas azul-celeste tremulavam como asas de pássaros gigantes, e suas lanças erguidas formavam uma floresta de aço e céu, tão numerosas que pareciam capazes de furar as nuvens. Eram a luz contra a escuridão, a ordem contra o caos. Rezavam à Donzela e ao Guerreiro em sua língua cantada, mais suave, mais fluida, mais adequada a salões de banquetes do que a campos de batalha.
Ned perguntou-se, por um momento, se aquela beleza toda sobreviveria à primeira carga. O aço reluzente não parava lanças, pensou. Capas bonitas não detinham machados. Mas Jon Arryn sabia o que fazia. O Velho Falcão nunca estivera em uma batalha que perdesse.
Mais ao centro, os oito mil homens das Terras da Tempestade de Robert Durrandon formavam uma massa disforme e feroz. Robert estava ausente, ferido numa escaramuça tola dias antes — uma lançada de cavalo por um cavaleiro menor que ele deveria ter ignorado, mas que seu orgulho não lhe permitira deixar passar. Agora, seus homens lutariam sem ele, e a fúria que sentiam era um eco distorcido da fúria do próprio Robert. Eram ferozes, desgrenhados, com longos cabelos ao vento e barbas por fazer, empunhando martelos de guerra e machados como se fossem extensões de seus braços. Não havia ordem em suas fileiras, não havia disciplina. Havia apenas sede de sangue e a necessidade de provar que, mesmo sem o Urso, a Tempestade ainda rugia.
E à direita, espremidos contra o lago como se a própria água pudesse oferecer alguma proteção, estavam os quatro mil rebeldes da Casa Tully. Maltrapilhos era a palavra que melhor os descrevia. Suas armaduras eram uma colcha de retalhos de aço e couro, peças herdadas de pais e avós, remendadas às pressas por ferreiros de aldeia. Mas havia determinação em seus olhos, uma teimosia que Ned reconhecia bem. Eram homens lutando por suas terras, por suas famílias, por suas casas. A truta prateada de sua casa tremulava desesperadamente sobre um mar de verde e vermelho — as cores dos Lannister e dos Hoare que, Ned temia, os queriam afogar antes mesmo que a batalha começasse.
Do outro lado do Tridente, o inimigo se estendia como uma mancha sinistra e organizada, uma úlcera na paisagem. Trinta mil soldados Lannister formavam uma muralha impenetrável de ouro e carmesim. Sua infantaria era a mais disciplinada que Ned já vira — uma parede de escudos pintados com leões rampantes, tão perfeitamente alinhados que pareciam um único organismo vivo. As lanças, por trás dos escudos, apontavam para o céu como as cerdas de um porco-espinho de aço. Atrás deles, fileiras e mais fileiras de arqueiros com seus longos arcos de teixo, aguardando o momento de transformar o céu numa chuva mortal. E nas alas, a cavalaria pesada — cavaleiros envoltos em armaduras tão polidas que doíam nos olhos, montados em corcéis enormes cobertos por caparões de seda carmesim. Quando aquela massa se movesse, pensou Ned, o chão tremeria.
Mas não eram a única ameaça.
Flanqueando os Lannister, estendendo-se para leste numa mancha escura e disforme, estavam os vinte mil homens de Harren Hoare. O Rei das Ilhas de Ferro comandava o que restava de sua frota transformada em exército terrestre — homens brutais com machados de arremesso e escudos negros, tão duros e implacáveis quanto as rochas de onde vinham. E com eles, coagidos pela força, estavam os vassalos ribeirinhos, homens cujas lealdades eram tão instáveis quanto as águas que deveriam defender. Ned viu estandartes que conhecia — o salmão dos Mooton, a ponte dos Frey, o lavrador dos Darry — tremulando ao lado da lula negra dos Greyjoy. Traidores ou reféns? Era impossível saber. E na confusão da batalha, talvez não fizesse diferença.
E entre a vanguarda Lannister, algo novo, algo que Ned jamais vira e que gelou seu sangue mesmo à distância: bestas enormes, leões das Terras Ocidentais, mantidos em rédeas curtas por cavaleiros corpulentos. Suas jubas eram um eco dourado dos estandartes que tremulavam sobre eles, e seus rosnados baixos formavam um trovão contido que fazia os cavalos mais experientes relincharem de pavor e dançarem nervosos sob seus cavaleiros. Os leões escarvavam o chão com garras que podiam rasgar um homem ao meio, suas línguas ásperas lambendo os focinhos como se já provassem o sangue que estaria derramado em breve.
Sobre todos, os estandartes dominavam o campo como predadores observando sua presa: à esquerda, o negro do corvo de Hoare, com suas correntes douradas pintadas como se o próprio pássaro estivesse acorrentado ao mastro; à direita, o dourado do leão de Lannister, feroz e soberbo. Entre eles, uma profusão de cores menores, vassalas, que nada significavam diante daqueles dois colossos.
Ned sentiu o peso da couraça e da cota de malha sobre os ombros, mais pesada que a neve no Telhado do Mundo na pior das tempestades de inverno. Respirou fundo, sentindo o ar frio queimar-lhe os pulmões, e sua mão foi instintivamente à cabeça de Sombra.
O lobo gigante cinzento estava imóvel ao seu lado, tão grande que a cabeça do animal alcançava a altura do ombro de Ned. Os olhos dourados de Sombra estavam fixos na margem oposta, e um rosnado baixo, contínuo, vibrava em seu peito como o ronronar de um gato monstruoso. Os pelos da nuca estavam eriçados, formando uma crista que ia da cabeça até o meio das costas. Sombra sentia o perigo. Sentia a morte que se aproximava. Mas não recuava. Lobos não recuam.
— Tranquilo, rapaz — murmurou Ned, mais para si mesmo do que para o animal. Sombra não se acalmou, mas o rosnado cessou por um momento, como se ele tivesse entendido.
À sua direita, Rickard Stark montava seu imponente garanhão de guerra — um animal enorme, de pelagem negra como a noite e olhos que pareciam feitos de brasa. A armadura do Rei do Inverno era uma obra-prima da metalurgia nortenha: aço negro gravado com runas antigas que diziam proteger o usuário de qualquer mal, passado ou futuro. As runas brilhavam sombriamente sob a luz do amanhecer, como se absorvessem a claridade em vez de refleti-la. Gelo estava desembainhada, apoiada no ombro do rei, sua lâmina larga e ondulada emitindo uma luz leitosa que parecia vir de dentro do próprio metal. O aço valiriano, pensou Ned. Forjado no fogo de dragões que já não existiam, em terras que já não lembravam. E ali estava, pronto para provar mais uma vez por que era a espada dos reis do inverno.
O rosto de Rickard era uma máscara de gelo — os mesmos olhos cinzentos que Ned via no espelho todas as manhãs, o mesmo nariz aquilino, a mesma boca firme que não sorria desde que a mãe morrera. Mas havia algo mais ali, algo que Ned nunca vira antes: uma frieza tão absoluta, tão completa, que parecia emanar do próprio âmago do homem. Era o olhar de quem já aceitara a possibilidade da morte e não temia encontrá-la. Era o olhar de um rei que sabia que este dia poderia ser o último, e que estava em paz com isso.
Aos pés de Rickard, Pata de Ferro, o maior dos lobos da ninhada, observava o campo com uma inteligência fria que beirava o sobrenatural. Seu pelo castanho-avermelhado brilhava como cobre polido sob a luz, e seus olhos, amarelos como os de Sombra mas mais escuros, mais profundos, percorriam as fileiras inimigas com a paciência de um predador que sabe que a hora de atacar ainda não chegou. Pata de Ferro não emitia som. Apenas observava. Esperava.
À esquerda, Brandon era o oposto de tudo aquilo. Impaciente, irrequieto, a raiva emanava dele como uma aura visível, distorcendo o ar ao seu redor — ou talvez fosse apenas a imaginação de Ned, alimentada pelo medo. Brandon usava a mesma armadura que o pai, mas nela as runas pareciam inquietas, tremulando como chamas. Seu cavalo, um alazão fogoso de crina dourada, piava e dançava sob ele, sentindo a tensão do cavaleiro, ansioso pela carga que sabia estar próxima. Ao lado do cavalo, Tempestade, o lobo de Brandon, andava em círculos incessantes, sua língua vermelha pendendo da boca, seus olhos castanhos faiscando com a mesma impaciência do mestre. Tempestade não era como Sombra ou Pata de Ferro. Tempestade era fogo puro, pura fúria, pura vontade de atacar.
— Pai... — Ned começou, a voz rouca. As palavras soaram ásperas no ar úmido, quase tão estranhas quanto a língua do Norte aos ouvidos sulistas. — A ala direita Lannister... está muito exposta. Se os cavaleiros do Vale carregarem agora, podemos...
Rickard Stark virou a cabeça lentamente. Não foi um movimento brusco, não foi uma reação de surpresa. Foi o movimento deliberado de um homem que tem todo o tempo do mundo, que já viu batalhas demais para se apressar. Seus olhos cinzentos, frios como lagoas congeladas no coração do inverno, encontraram os do filho mais novo.
— Jon sabe o que fazer, Eddard. — A voz do Rei do Inverno era como o ranger de gelo sob os pés, um som que não admitia réplica. — A paciência dele é a nossa maior arma. — Ele fez uma pausa, e quando continuou, sua voz baixou ainda mais, tornando-se quase um sussurro, mas um sussurro que Ned ouviu com clareza absoluta. — Foque-se no centro. A ordem é clara: quebrem os Hoare. Quebrem seu espírito, e os ribeirinhos que os seguem por medo fugirão como baratas.
Ele então fixou o olhar em Brandon, e pela primeira vez, algo que poderia ser preocupação, cruzou seu rosto.
— Brandon. — O nome foi dito com uma ênfase que era quase um aviso. — Contenha seu fogo. Você não é um cão raivoso para ser solto na primeira oportunidade. Você é um Stark. Você é meu herdeiro. Espere meu comando.
Brandon cerrou os punhos nas rédeas com tanta força que o couro rangeu, e Ned viu os nós dos dedos do irmão ficarem brancos sob as luvas. Seu lobo, Tempestade, soltou um ganido frustrado, como se ecoasse os sentimentos do mestre. Mas Brandon acenou com a cabeça, um movimento seco e contido, os dentes rangendo de forma audível mesmo à distância.
— Sim, pai — respondeu ele, e havia naquelas duas palavras uma promessa — e um aviso.
O toque de um corno de guerra Lannister rasgou o ar. Foi um som longo, arrogante e triunfante, que pareceu vir das profundezas do inferno e ecoar por todos os cantos do campo de batalha. Os corvos que haviam se empoleirado nas árvores próximas levantaram voo em nuvens negras, seus grasnos misturando-se ao som do metal.
Foi o sinal.
Como uma besta gigantesca disparada por uma mão invisível, a ala direita Lannister começou seu avanço. Não foi uma carga desordenada, mas o movimento calculado de uma máquina de guerra: a cavalaria pesada à frente, uma massa compacta de aço e músculo, e atrás a infantaria de elite, mantendo a formação com uma disciplina que gelou o sangue de Ned. Eles não avançaram diretamente sobre o centro aliado, onde o Norte e o Vale aguardavam. Em vez disso, traçaram um arco largo e calculado, ameaçando envolver os já pressionados rebeldes Tully, que se seguravam precariamente à margem direita.
E então, os cavaleiros com os leões esporearam seus cavalos.
As correntes que seguravam as feras foram afrouxadas, e com um rugido que fez o chão tremer — um som tão profundo e primal que parecia vir das entranhas da própria terra — os leões das Terras Ocidentais foram soltos. Eles não correram em linha reta, como cães de caça. Correram em arcos, em ziguezagues, em movimentos que imitavam a dança de predadores antigos. Atacaram o flanco dos homens das Terras Fluviais, e onde passavam, deixavam um rastro de gritos, sangue e morte.
A linha dos Tully, já frágil, transformou-se em caos em questão de segundos.
— ARQUEIROS! — O grito veio de Jon Arryn, do alto de sua colina, e sua voz, mesmo à distância, carregava a autoridade de quem comandava exércitos havia décadas.
Uma saraivada negra de flechas subiu ao céu — milhares delas, tantas que por um momento escureceram o sol nascente. Subiram, pairaram por um instante no ápice de sua trajetória, e então desceram como um véu de morte sobre os leões que avançavam.
Cavalos gritaram — um som horrível, agudo, quase humano — ao serem atingidos. Homens caíram, perfurados, suas armaduras reluzentes transformadas em túmulos de aço. Mas a massa dourada da infantaria não parou. Eram muitos. Eram demais. As flechas, por mais mortais que fossem, não passavam de picadas de insetos para aquele exército colossal.
Então, o erro.
O erro fatal que mudaria tudo.
Ned viu, como se o tempo desacelerasse para uma pasta de mel espessa e pegajosa. Um grupo de cavaleiros Hoare — uns cinquenta, talvez, com suas armaduras negras e machados reluzentes — rompeu a própria linha no centro. Talvez buscassem glória. Talvez um capitão estúpido e ávido tivesse dado a ordem errada. Talvez fosse apenas o acaso, o deus cego que rege as batalhas.
Eles carregaram direto para onde o estandarte do Lobo Gigante ondulava. Para onde Rickard Stark estava.
— BRANDON, NÃO! — O grito de Ned foi engolido pelo rugido crescente da batalha, engolido pelo som dos cascos, dos gritos, do metal contra metal. Foi um sopro no furacão, uma palavra perdida no vendaval.
Brandon Stark viu o que percebeu como uma ameaça direta a seu pai. Viu os cavaleiros Hoare avançando, viu os machados erguidos, viu a morte galopando em sua direção. E todo o controle que ele havia prometido ao pai, toda a paciência que jurava ter, toda a disciplina que tentara aprender nos anos de treinamento — tudo isso se desfez em um único instante de fúria cega.
Com um urro que nem parecia humano — um som primal, animalesco, que fez os cabelos de Ned se eriçarem na nuca — Brandon espetou os esporões no cavalo. O animal disparou como se tivesse sido atingido por um raio, e Tempestade, seu lobo amarronzado, correu ao seu lado como um demônio, seus dentes à mostra, seus olhos arregalados de fúria.
Brandon foi seguido por seu séquito de jovens senhores nortenhos — homens como ele, criados nas histórias de glória e batalha, sedentos de sangue e de um nome que ecoasse pelos séculos. Eles romperam a linha aliada, abandonando sua posição crucial, e mergulharam na brecha como um punhal cego e assassino.
— PELOS DEUSES, BRANDON! — Rickard Stark rugiu. Desta vez, sua voz não era o ranger gelado de um lago congelado. Era um trovão de fúria e terror, um som que Ned nunca ouvira do pai em toda a sua vida. Ele ergueu Gelo, a lâmina valiriana brilhando ameaçadoramente, e por um momento o sol pareceu refletir-se nela como se a própria espada fosse feita de luz.
— NORTE! — Rickard gritou, e sua voz, mesmo em meio ao caos, alcançou cada homem que vestia o cinza e o castanho. — COMIGO! SALVEM MEU FILHO INSENSATO!
E o Rei do Inverno, com Pata de Ferro uivando um chamado de guerra que gelou o sangue até dos homens mais endurecidos — um uivo longo, agudo, que parecia vir das profundezas de um tempo que já não existia — mergulhou no moedor de carne que o centro da batalha havia se tornado.
Ned não hesitou. Gritou ordens desesperadas para os homens ao redor, palavras que ele mesmo mal ouvia, e cravou os esporões em seu cavalo. Sombra estava colado em sua perna, um vulto cinzento de dentes e fúria, tão rápido quanto qualquer cavalo. Juntos, pai e filho e lobo, mergulharam no inferno.
Foi uma confusão de aço e gritos de agonia, um pesadelo do qual não se podia acordar. O cheiro metálico de sangue quente jorrando no ar frio misturava-se ao odor acre de vísceras expostas e ao doce nauseante da morte. Cavalos tombavam com gritos agudos, suas pernas quebradas, seus cavaleiros esmagados sob seus pesos. Homens eram atropelados pelos cascos dos que vinham atrás, seus corpos transformados em massa informe na lama que agora era mais vermelha do que marrom.
O estandarte do Lobo Gigante avançava como um navio em um mar revolto, ora sumindo entre as ondas de aço, ora emergindo triunfante. Ned lutava mecanicamente, sua espada longa um borrão cinzento que subia e descia, desviava e cortava, sentindo o impacto surdo de golpes em seu escudo a cada segundo. Homens morriam à sua volta — amigos, inimigos, rostos que ele conhecia desde a infância, rostos que jamais vira — e ele não podia parar para pensar em nenhum deles. Se parasse, morreria.
Ele via o manto negro de seu pai à frente, uma mancha escura no meio do caos. Via Gelo cortando homens de Hoare como se fossem juncos, a lâmina valiriana passando através de aço e carne e osso com a facilidade de uma faca quente na manteiga. Via Pata de Ferro derrubando homens de suas selas com a força de um aríete, suas mandíbulas encontrando gargantas, suas garras rasgando ventres.
E então, não viu mais.
Um vulto enorme surgiu como um demônio da névoa ensanguentada. Era um capitão das Ilhas de Ferro, um homem tão largo quanto alto, com uma barba emaranhada salpicada de sangue seco e fresco. Empunhava um machado de duas mãos, uma lâmina tão grande que parecia pesada demais para qualquer homem comum, e usava um elmo em forma de lula, cujos tentáculos de metal lhe cobriam as bochechas e o queixo.
Rickard Stark girou Gelo com a graça letal de um lobo — a lâmina cantou no ar, traçando um arco de luz leitosa que por um momento pareceu iluminar todo o campo ao redor. Era um golpe perfeito, um golpe que teria partido qualquer defesa.
Mas o machado veio de baixo.
Não foi um golpe limpo, não foi um movimento que qualquer mestre de armas ensinaria. Foi um golpe sujo, traiçoeiro, nascido do desespero e da força bruta. A lâmina do machado subiu num arco terrível, inevitável, e encontrou o flanco exposto do Rei do Inverno.
O som foi horrível.
O metal encontrou o metal da couraça — um som agudo, estridente — e então encontrou a carne por baixo, um som molhado e repugnante, e depois o osso, um estalo seco que Ned ouviu mesmo à distância.
O Rei do Inverno foi arrancado de seu cavalo.
O corpo de Rickard Stark voou pela lateral, descrevendo um arco grotesco no ar, e caiu para trás com um baque surdo na lama ensanguentada. Seu manto negro, que fora símbolo de poder e dignidade, agora estava manchado de um vermelho vivo e pulsante que se espalhava rapidamente, transformando o tecido numa mancha de horror.
Pata de Ferro uivou.
Não foi um uivo de batalha, não foi um chamado de guerra. Foi um som de pura dor, um lamento tão profundo e primal que fez todos os homens ao redor paralisarem por um instante. O lobo gigante se lançou sobre o capitão Hoare, suas mandíbulas encontrando a garganta do homem antes que ele pudesse levantar o machado para um segundo golpe. O sangue jorrou, quente e escuro, e o capitão caiu, seus dedos ainda agarrados ao cabo da arma que matara um rei.
— PAI! — O grito de Ned foi um uivo de dor animal, perdido no inferno de som e fúria, mas ele não se importou. Não havia mais nada no mundo além daquele corpo caído na lama.
Ele lutou como um louco para chegar ao pai. Derrotou dois homens que se interpunham em seu caminho — um com um golpe de espada que lhe abriu o ventre, outro com uma estocada no olho que o silenciou para sempre. Recebeu um golpe de maça no ombro que rachou a placa e a malha e fez o sangue escorrer quente por seu braço, mas a dor era distante, abafada pela urgência do momento.
Quando ele chegou ao local, era tarde demais.
Rickard Stark jazia de costas, os olhos cinzentos abertos fitando o céu de chumbo, que parecia mais cinzento, mais vazio do que antes. Seu peito era uma ruína ensanguentada, as costelas à mostra, o coração — se é que ainda batia — invisível sob a massa de carne e osso destroçados. Gelo estava caída a alguns passos de distância, sua lâmina valiriana cravada na lama, como se a própria espada chorasse a perda de seu portador.
Ao lado, Brandon lutava como um homem enlouquecido.
Seu cavalo estava morto sob ele, crivado de lanças, e ele combatia de pé, rodeado por inimigos. Ele e Tempestade eram um redemoinho de morte — o lobo saltava, mordia, rasgava, e Brandon golpeava com sua espada em movimentos largos e desesperados. Seu rosto era uma máscara de sangue e ódio, os olhos arregalados, a boca aberta num grito silencioso.
Brandon derrubou mais um homem, depois outro. Estava sozinho, completamente sozinho no meio de um mar de inimigos, mas não recuava. Não sabia recuar.
Até que uma lança Lannister, dourada e traiçoeira, surgiu de um emaranhado de corpos.
A ponta de aço atravessou Brandon pelas costas, perfurando o pulmão, saindo do peito num jorro de sangue escuro. Ele parou. Seu rosto, por um instante, perdeu a expressão de fúria e assumiu uma máscara de surpresa — como se não pudesse acreditar que aquilo estava acontecendo.
Brandon Stark caiu de joelhos, um som borbulhante escapando de seus lábios. Depois, caiu de bruços, ao lado do pai. Seu sangue misturou-se ao de Rickard na lama, formando uma poça única, quente e vermelha.
Tempestade, com três flechas cravadas no flanco, cambaleou e caiu ao seu lado, ganindo suavemente, um som fraco e lastimável que não combinava com a fera que fora momentos antes.
Ned Stark ficou paralisado.
O mundo desmoronou ao seu redor. O rugido da batalha, que antes era ensurdecedor, transformou-se num zumbido surdo e distante, como o zumbido de abelhas num dia de verão. Ele viu o estandarte do Lobo Gigante cair na lama, o mastro partido, o tecido manchado de sangue. Viu os nortenhos ao seu redor pararem, seus olhos cheios de terror e fúria impotente se voltando para ele.
O filho quieto. O segundo filho. O último Stark ali.
Ned abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu. O que poderia dizer? Que tudo estava perdido? Que lutassem até o fim? Que fugissem?
— LEVEM-NOS! — A voz saiu finalmente, não como um grito, mas como uma lâmina fria cortando sua própria dor. Dois guardas leais, homens que haviam servido a seu pai por décadas, agarraram os corpos de Rickard e Brandon sob uma saraivada de flechas inimigas. — PARA TRÁS! RETIRADA ORDENADA! — Ele gritou para os capitães nortenhos que ainda lutavam, sua voz agora firme, inabalável. — RETIRADA ORDENADA, POR TODOS OS DEUSES!
Era um massacre agora. Sem o centro, sem o comando, sem o Rei do Inverno, a linha aliada desmoronava como um penhasco na maré. Homens do Norte, do Vale, das Tempestades, Tullys — todos misturados, confusos, fugindo ou morrendo sob as lanças dos Lannister e os machados dos Hoare.
Ned cavalgou na retaguarda com um pequeno grupo de cavaleiros, sua espada manchada de sangue que não era apenas dos inimigos, seu ombro latejando com uma dor que ele mal registrava, seu coração um bloco de gelo no peito. Sombra mancava ao seu lado, uma flecha cravada na perna traseira, mas não o deixava. Não o deixaria nunca.
Ele olhou para trás, uma última vez.
O Olho de Deus estava vermelho.
Vermelho do sangue de seu pai. Vermelho do sangue de seu irmão. Vermelho do sangue de milhares de homens que haviam confiado neles e agora jaziam mortos na lama. A ilha no meio do rio, onde os deuses supostamente velavam, refletia o sol poente num tom carmesim que parecia um presságio — ou uma maldição.
Jon Arryn, o rosto pálido sob o elmo amassado, um corte profundo no rosto sangrando livremente por uma ferida que ninguém tivera tempo de tratar, encontrou Ned na margem norte, já no crepúsculo. O velho senhor do Vale desmontou com dificuldade, apoiando-se numa lança quebrada como se fosse um cajado de mendigo. Seus olhos, que Ned sempre vira como faróis de sabedoria e força, estavam agora cheios de uma dor antiga e de uma nova e terrível culpa.
Eles se encararam por um longo momento. Não havia palavras que pudessem expressar o que ambos sentiam. Apenas o vazio. A mesma perda irreparável. O mesmo silêncio ensurdecedor onde antes havia risos, planos, esperanças.
Os senhores nortenhos sobreviventes começaram a se reunir ao redor deles. Grande Jon Umber, sua barba ruiva agora mais escura com sangue seco, um corte profundo no braço que ele mal parecia notar. Jeor Mormont, o velho urso, com o rosto marcado pela fuligem e pela exaustão. Rickard Karstark, seus olhos vermelhos de choro, segurando o estandarte rasgado de sua casa. Wyman Manderly, pálido e trêmulo, apoiado em dois de seus guardas.
Eles cercaram Ned em um círculo silencioso e sombrio. Não havia júbilo em seus olhos. Não havia vitória. Havia apenas o vento frio do Norte soprando sobre um campo de mortos, trazendo o cheiro de sangue e cinzas, e o peso de um reino quebrado caindo sobre os ombros de um jovem que nunca, em todos os seus dias, quis ser rei.
O silêncio se estendeu por um longo momento. Apenas o vento e o som distante dos corvos que já começavam a descer sobre o campo de batalha.
Então, um dos homens de Umber — um gigante com metade da orelha arrancada, o rosto uma massa de cicatrizes antigas e novas — ergueu uma espada manchada de sangue. A lâmina tremia em sua mão exausta, mas sua voz não tremeu.
— EDDARD STARK! — ele rugiu, a voz rouca rasgando o silêncio fúnebre como um trovão. — O REI NO NORTE!
O grito foi pego pelos outros, hesitante no início, como se temessem profanar o luto com aquelas palavras. Depois, cresceu, ganhou força, uma força desesperada que vinha do fundo das almas feridas. Homens que haviam perdido irmãos, pais, amigos, encontravam naquele grito um propósito, uma razão para continuar.
— O REI NO NORTE!
— O REI NO NORTE!
— O REI NO INVERNO!
Ned fechou os olhos. Os gritos ecoavam ao seu redor, um som estranho e terrível que não pertencia àquele momento de luto e perda. Dentro dele, porém, só havia silêncio. O silêncio dos deuses antigos, que observavam sem intervir. O silêncio das árvores-coração, que guardavam memórias que jamais seriam contadas. E o som do machado caindo sobre seu pai, repetindo-se em sua mente como uma maldição eterna.
Ato 2
O Salão das Cem Lareiras de Harrenhal não cheirava a derrota; cheirava a um poder tão absoluto que a própria noção de derrota parecia absurda dentro das suas paredes. O ar era pesado, denso com o aroma de cera de abelha de mil velas, o perfume resinoso de tochas de pinho a arder em arandelas de ferro negro, e o cheiro subtil de vinho caro e carne assada — vestígios de um banquete vitorioso na noite anterior ao qual os vencidos não tinham sido convidados. Por baixo de tudo, no entanto, um olfato mais atento, um olfato nortenho como o de Eddard Stark, conseguia detetar o odor metálico e persistente de sangue polido do chão de mármore e o cheiro a medo, um suor azedo que parecia emanar das próprias pedras, como se a fortaleza transpirasse o terror de todos os que ali haviam sido humilhados antes deles.
A grandiosidade do salão era uma arma em si mesma. Era um espaço concebido para diminuir, para esmagar o espírito antes mesmo de qualquer palavra ser dita. As abóbadas do teto perdiam-se numa escuridão artificial, tão altas que as bandeiras penduradas — o corvo negro de Hoare e o leão dourado de Lannister, lado a lado numa aliança profana — pareciam pequenos papagaios de papel esquecidos por uma criança gigante. As paredes de pedra negra polida, lisas e perfeitas como a superfície de um lago gelado à noite, refletiam a luz das tochas em milhares de minúsculos pontos brilhantes, criando a ilusão de um espaço infinito, um abismo de poder que se estendia para sempre em todas as direções. As janelas em arco, maiores que os portões de Winterfell, eram preenchidas com vitrais intrincados que não celebravam os deuses, mas sim os homens — e que homens! Retratavam as conquistas sangrentas da Casa Hoare: navios a arder sob céus noturnos, reis ajoelhados perante tronos de madeira de naufrágio, krakens gigantes a emergir das profundezas para afogar a esperança de cidades inteiras. A luz que por eles entrava era fraca, tingida de vermelho-sangue e negro-luto pelas cores dos vitrais, pintando o chão de mármore com padrões movediços de carnificina que se alteravam com o passar das horas. Tapeçarias ricas, tecidas com fio de ouro e prata verdadeiros, mostravam mais cenas de triunfo e, mais importante, abafavam qualquer som que não fosse a voz dos vencedores, engolindo os sussurros, os gemidos, as respirações ofegantes dos derrotados.
Eddard Stark sentia um frio que nada tinha a ver com a temperatura do salão. Era o frio da impotência, um gelo a instalar-se na sua alma que nem o mais longo verão do Norte, nem as mais quentes lareiras de Winterfell, conseguiriam derreter. Estava sentado a uma mesa de carvalho negro maciço, tão longa que um homem teria de gritar para ser ouvido na outra ponta, uma mesa construída para banquetes de reis e agora usada como o altar do seu sacrifício pessoal. Estava polida até ao brilho de um espelho, e o seu reflexo mostrava um homem que ele mal reconhecia: um rosto jovem, mas já endurecido pela barba por fazer de dias sem dormir, olhos cinzentos assombrados por imagens de morte que se recusavam a desaparecer, e sobre os seus ombros, o pesado manto de pele de lobo que pertencera ao seu pai. O peso da pele era um lembrete constante do que perdera, do que agora carregava.
À sua direita, Jon Arryn, Rei da Montanha e do Vale, era a imagem da rebelião desfeita, um espelho do que o tempo e a guerra faziam aos melhores dos homens. O velho senhor, o homem que fora um segundo pai para Ned e Robert, que os ensinara a montar, a lutar, a pensar, parecia ter envelhecido dez anos em cinco dias. Um grosso curativo de linho branco, já a precisar de ser trocado há muito, envolvia-lhe a cabeça, manchado de um amarelo sinistro onde o pus se infiltrava na ferida, o cheiro da infecção a misturar-se com os perfumes do salão. Outro curativo cobria parte do seu rosto, escondendo o olho esquerdo e a cicatriz profunda que um machado de um homem de ferro lhe deixara, um sulco que ia da testa ao queixo e que jamais cicatrizaria completamente. A sua respiração era um sibilo rouco, o som doloroso de um fole furado, e a cada inspiração, um pequeno tremor percorria o seu corpo, como se o próprio ato de respirar lhe custasse um esforço sobre-humano. Atrás dele, como uma sentinela de granito esculpida na rocha do Vale, estava Bronze Yohn Royce. A sua famosa armadura de bronze rúnico, que diziam proteger o usuário de qualquer mal, estava amolgada e baça, coberta de mossas e arranhões que nenhuma polidura conseguiria apagar. O seu manto de pele de urso estava rasgado, mas a sua postura era ereta, desafiando a derrota com a pura força da sua vontade. O seu rosto largo e severo era uma máscara de fúria contida, um espelho da paisagem agreste das montanhas do Vale, prometendo a todos que o vissem que, embora vergado, não estava quebrado — e que um dia, talvez, o bronze voltaria a brilhar. Ao seu lado, Sor Lyn Corbray, pálido e perigosamente belo como uma estátua de gelo, descansava uma mão no punho de Lady Coração, a sua espada de aço valiriano, cujo pomo em forma de coração pulsava com uma luz rubra à luz das tochas. O seu olhar inquieto saltava de um vencedor para o outro, não com medo, mas com uma intensidade predadora, como uma víbora à espera de uma oportunidade para atacar, mesmo sabendo que seria esmagada se o fizesse.
À esquerda de Ned, a dor era mais ruidosa, mais crua, menos contida. Robert Durrandon, Rei da Tempestade, o homem cuja fúria iniciara a guerra, o guerreiro que nunca encontrara igual no campo de batalha, era agora um animal enjaulado, reduzido a uma sombra trémula de raiva e luto. O gigante que fora estava encolhido sobre si mesmo, os seus ombros possantes curvados como se sustentassem o peso do mundo. Os seus olhos, outrora azuis como o mar de verão num dia de sol, cheios de vida e de uma alegria contagiante, estavam agora vermelhos e fundos, injectados de sangue e cercados por olheiras escuras como nódoas negras que lhe cobriam metade do rosto. A barba negra, outrora tão cheia e orgulhosa, estava desgrenhada, emaranhada e suja de vinho seco e, quem sabe, de lágrimas. Não escondia a palidez mortal da sua pele, uma palidez de quem não via a luz do sol há dias, de quem se afogava em álcool e desespero. Ele bebia de um corno de prata — amolgado, sem adornos, quase irreconhecível — cheio de vinho forte como se fosse água, mas a bebida parecia não lhe trazer calor ou esquecimento, apenas alimentar a fornalha da sua fúria muda e impotente. Cada gole era um combustível para o ódio que ardia dentro dele. Ao seu lado, o seu primo, Lorde Estermont, observava-o com uma ansiedade palpável, os olhos fixos no rei como se temesse que ele explodisse a qualquer momento. O seu próprio rosto era uma máscara de dor pela perda do pai, Lorde Eldon, a rocha sobre a qual Robert se apoiara toda a vida, mas a sua preocupação principal agora era o seu rei volátil, temendo o que a sua dor o poderia levar a fazer — a si próprio, aos outros, a todos.
Do outro lado da vasta extensão de madeira polida, o poder vitorioso sentava-se confortavelmente no silêncio, deixando a grandiosidade do salão e a miséria dos seus inimigos falar por eles.
Harren Hoare V, Rei das Ilhas e dos Rios, não se parecia em nada com os reis navegadores que outrora governaram as Ilhas de Ferro. Não havia nele o sal e o aço dos homens do mar, a magreza dos que passam a vida a combater as ondas, a dureza dos que dormem em conveses de navios. Harren era um homem das terras verdes, e o seu corpo refletia isso. Era corpulento, com uma barriga protuberante que lhe empurrava o cinto de couro para baixo, ombros largos mas cobertos por uma camada de gordura que falava de banquetes e não de batalhas navais. As suas mãos, outrora calejadas pelo cabo do machado e pelo remo, estavam agora mais macias, mais acostumadas a segurar taças de vinho do que armas. Os cabelos e a barba, negros como alcatrão, estavam cortados rentes, não ao estilo prático dos marinheiros, mas à moda dos cavaleiros do continente, um corte limpo e cuidado que exigia a atenção de um barbeiro. Vestia uma armadura de placas completa, não o couro fervido e o ferro bruto dos homens de ferro, mas aço polido com detalhes em ouro, uma armadura feita para ser usada a cavalo, não no convés de um navio. Ao seu lado, apoiado na cadeira, descansava um elmo com uma crista em forma de corvo, e uma espada longa de cavaleiro, não o machado de guerra tradicional do seu povo. Os seus olhos, pequenos e escuros como seixos de praia, percorriam os derrotados, um de cada vez, com um misto de desdém e satisfação calculada. Mas havia algo mais naqueles olhos, algo que Ned, mesmo na sua exaustão, conseguiu perceber: um lampejo de insegurança, talvez, ou de ressentimento. Harren quebrara muitas tradições para chegar onde estava. Abandonara o Costume Antigo, proibira o saque, casara com uma mulher do continente, adoptara os deuses e os costumes dos sulistas. E ali estava ele, sentado no maior castelo do mundo, a distribuir terras verdes a lordes verdes. Mas o preço dessa transformação, Ned imaginou, era uma solidão profunda, um afastamento do seu próprio povo que talvez nunca pudesse ser reparado.
Mas a verdadeira força naquela sala, a mente por trás da vitória, a engrenagem que movia todo aquele mecanismo de poder, estava sentada à sua direita. Tywin Lannister, Rei do Rochedo, era a personificação do poder, da riqueza e da ordem impiedosa. Impecável num gibão de veludo carmesim bordado a fios de ouro que formavam leões subtis no tecido, a sua armadura dourada, polida até ao brilho de um espelho, reluzia mesmo na penumbra do salão, refletindo as chamas das tochas como um sol a morrer. O cabelo loiro, com os primeiros fios de prata a aparecerem nas têmporas, estava cortado curto e impecavelmente penteado, e a barba, igualmente loira, estava cuidadosamente aparada, acentuando um rosto de linhas duras e impiedosas que parecia esculpido no próprio mármore do castelo. Mas eram os seus olhos que verdadeiramente comandavam a sala. Verdes, salpicados de lascas de ouro como se o próprio ouro do Rochedo estivesse fundido neles, eram frios como esmeraldas, e não piscavam. Analisavam cada movimento, cada respiração, cada contração de um músculo no rosto dos vencidos, acumulando informação, avaliando fraquezas, arquivando cada detalhe para uso futuro. Sor Kevan Lannister, seu irmão mais novo, estava atrás dele, uma sombra leal e não menos perigosa. Mais largo de ombros do que Tywin, com um rosto mais amável, mas com a mesma frieza calculista nos olhos, Kevan era o executor silencioso, o homem que fazia o trabalho sujo sem questionar, tão leal quanto uma espada bem forjada.
Foi Tywin quem quebrou o silêncio pesado. A sua voz não era alta, mas a acústica do salão fora concebida para a transportar, e ela cortou o ar como vidro partido — clara, seca, precisa, sem o mais pequeno traço de triunfo ostensivo. Apenas a fria eficiência de um carniceiro a contar os cortes numa carcaça.
— Dizem que o sangue é o melhor fertilizante — começou ele, as mãos de dedos longos e perfeitos pousadas sobre a mesa, os anéis de ouro e rubis a brilharem à luz das velas. O seu olhar passou por cima de todos eles, como se se dirigisse à própria História, como se as suas palavras fossem ser gravadas em pedra para a posteridade. — Se assim for, o sangue derramado nas margens do Olho de Deus foi suficiente para irrigar as Terras Fluviais por uma geração. A loucura terminou. Os senhores aqui presentes iniciaram uma guerra por orgulho, por ressentimento e por uma noção mal calculada de honra. Agora, ouvirão os termos da paz ditados pela razão e pela realidade. Estes termos são simples, e não estão abertos a debate. São a consequência natural e inevitável das vossas ações.
Jon Arryn tentou erguer a cabeça, o seu corpo a tremer com o esforço, e um gemido de dor escapou-lhe dos lábios — um som fraco, patético, que ecoou no silêncio como o guincho de um rato. Bronze Yohn moveu-se instintivamente um passo à frente, a mão a crispar-se no punho da sua espada, um rosnado baixo a formar-se na sua garganta, o som primal de um urso acordado da hibernação.
Um olhar. Foi tudo o que foi preciso. Um olhar gelado de Tywin Lannister, que durou menos de um segundo, mas que continha o peso de exércitos inteiros, a memória de rebeliões esmagadas, e a promessa de aniquilação total. Yohn Royce parou como se tivesse chocado contra uma parede invisível, o seu rosto a endurecer ainda mais, os músculos do maxilar a saltarem sob a pele enquanto ele cerrava os dentes com força suficiente para partir pedra.
Tywin ignorou a interrupção como se nunca tivesse acontecido, como se Yohn Royce fosse um insecto que por um momento ameaçara voar e depois desistira. O seu olhar fixou-se num ponto vago da mesa, como se lesse um pergaminho invisível.
— Hoster Tully, Senhor de Correrrio — continuou ele, o seu tom tão inalterado como se estivesse a ditar uma carta a um meistre sobre o preço do gado. — Por ter quebrado o seu juramento de vassalagem, por ter conspirado contra o seu legítimo soberano, o Rei Harren Hoare, e por ter arrastado este reino para uma guerra sangrenta e desnecessária, é declarado traidor da sua coroa. A traição é uma erva daninha. Se não for arrancada pela raiz, infesta todo o campo. Será condenado a não sair das cercanias de suas terras, sob pena de morte imediata se o fizer. Os seus movimentos serão restritos, os seus vassalos vigiados. A Casa Tully, de agora em diante, será uma casa menor entre as casas do Tridente.
Robert soltou um grunhido baixo e gutural, os seus dedos apertando o corno de prata até o metal gemer e amolgar-se sob a sua força sobre-humana, deformando-se como se fosse feito de cera. Ned manteve o rosto impassível, uma máscara de gelo nortenho que aprendera com o seu pai nos longos invernos de Winterfell. Mas por dentro, sentiu um frio cortante no estômago, um vazio que se abria como um poço sem fundo. Hoster. Um homem orgulhoso e teimoso, sim, mas também um homem bom, um homem que lutara pelo que acreditava ser certo. O pai da mulher que o seu irmão deveria ter desposado. Outro fantasma para assombrar as suas noites já superpovoadas de mortos.
— O seu filho e herdeiro, Edmure Tully — Tywin prosseguiu, a sua voz um bisturi a dissecar a Casa Tully membro a membro, os olhos verdes a brilharem com uma luz fria e clínica. — É jovem. A juventude é frequentemente uma desculpa para a estupidez, mas a coroa não a pode aceitar como desculpa para a traição. Ele não partilhará da culpa capital do pai, mas aprenderá o seu preço. Será levado para Rochedo Casterly. Como meu protegido.
A palavra pairou no ar, pesada e pejada de ameaça, como uma nuvem negra antes da tempestade.
— Sob a minha tutela — continuou Tywin, e cada palavra era um prego no caixão da esperança de Edmure — aprenderá o significado de palavras que o seu pai aparentemente se esqueceu de lhe ensinar: dever, honra e, acima de tudo, lealdade. Será bem tratado, educado e, um dia, talvez, se provar ser digno de confiança, regressará a Correrrio.
A palavra "protegido" soou como "refém" para todos os ouvidos na sala, uma corrente dourada e invisível em volta do pescoço do último herdeiro Tully, uma garantia de bom comportamento que pesaria mais do que qualquer exército.
Harren Hoare inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos pesados na mesa, o que fez a madeira maciça ranger e gemer sob o seu peso. A sua armadura de placas rilhou com o movimento, um som de metal a protestar, e ele pigarreou ruidosamente antes de falar. A sua voz era rouca como o ranger de uma porta de porão enferrujada, a voz de um homem mais habituado a gritar ordens no meio de uma tempestade do que a negociar termos em salões silenciosos. Mas havia nela uma autoridade nova, uma confiança que vinha da vitória e da posse daquelas terras que agora distribuía.
— As terras e rendas da Casa Tully — disse ele, um sorriso cruel a torcer-lhe os lábios por baixo da barba curta — ficam reduzidas ao castelo de Correrrio e às terras imediatamente circundantes, para que possam olhar das suas muralhas todos os dias e lembrar-se da sua insignificância. Os feudos de Vaufreixo, Atalaialeste, e todas as terras a norte do Ramo Vermelho do Tridente, voltam para a coroa das Ilhas e dos Rios. Serão administrados diretamente por mim a partir deste castelo.
Ele cuspiu para o lado, uma mancha escura a sujar o mármore polido do chão, um gesto tão primitivo e fora de lugar naquela sala de poder que fez Kevan Lannister franzir o cenho quase imperceptivelmente. Olhou então para Tywin, e nos seus olhos escuros brilhou algo que só podia ser avareza — a ganância de um homem que, tendo abandonado o mar, aprendera a valorizar a terra.
— As terras a sul do Ramo Vermelho, incluindo Corredor de Pedra e as ricas planícies que pertenciam aos Darry e aos Mooton — continuou Harren, e agora a sua voz ganhara um tom de satisfação —, casas que lutaram lealmente ao nosso lado durante esta rebelião, serão recompensadas pela sua lealdade. Metade das terras dos Tully será dividida entre Lorde Darry e Lorde Mooton, como justa compensação pelos seus serviços e pelo sangue dos seus homens derramado em nosso nome.
Ned viu Jon Arryn endireitar-se ligeiramente na cadeira, o corpo dorido a protestar, mas os olhos — o que restava deles — a brilharem com uma nova compreensão. Os Darry e os Mooton. Lutaram pelos vencedores. E seriam recompensados.
— Os Blackwood — prosseguiu Harren, e agora a sua voz endureceu —, essa maldita casa de corvos, que sempre desafiou a minha autoridade e lutou pelos Tully, perderá metade das suas terras ocidentais para os Bracken. Talvez assim aprendam a escolher o lado certo nas guerras futuras. Os Malister de Lagoa da Donzela, por terem seguido o seu suserano Tully na rebelião, perderão uma parcela significativa das suas terras para os Darry. E os Vance — tanto os de Atranta como os de Vancedoro —, por terem pegado em armas contra o seu legítimo rei, perderão um quarto das suas terras, que serão anexadas diretamente pela coroa e distribuídas entre os nossos leais vassalos das Terras Fluviais.
Ele fez uma pausa, deixando o peso das palavras assentar sobre os derrotados. Os Blackwood, os Malister, os Vance — todos eles pagariam caro pela sua lealdade aos Tully.
— As terras a sul do Ramo Vermelho, incluindo Corredor de Pedra e as ricas planícies que pertenciam aos Darry e aos Mooton — continuou Harren, e agora a sua voz ganhara um tom de satisfação —, casas que lutaram lealmente ao nosso lado durante esta rebelião, serão recompensadas pela sua lealdade. Metade das terras dos Tully será dividida entre Lorde Darry e Lorde Mooton, como justa compensação pelos seus serviços e pelo sangue dos seus homens derramado em nosso nome.
Tywin inclinou a cabeça, um movimento minúsculo, quase imperceptível, mas que todos na sala viram e entenderam. Era o reconhecimento de um acordo feito, um sorriso partilhado entre predadores, um saque colossal que desmembrava as Terras Fluviais, recompensando o credor e o carniceiro em partes iguais. Os Tully, a casa mais orgulhosa do Tridente, cujo sangue corria nas veias de reis e rainhas, estavam reduzidos a senhores insignificantes, cercados por inimigos por todos os lados, despojados do seu poder, da sua influência, da sua dignidade.
— Quanto aos Reinos que se envolveram nesta... desventura — Tywin voltou o seu olhar verde para os três reis derrotados, fixando-se primeiro em Jon, cujo corpo mal se sustinha na cadeira, depois em Ned, cujo rosto de pedra nada revelava, e finalmente em Robert, cujos olhos vermelhos ardiam com um ódio impotente. O seu olhar era o de um arqueiro a escolher o seu alvo, frio, calculista, implacável. — O Rei Harren Hoare, na sua magnanimidade, e eu, em nome da estabilidade de Westeros, concordamos que mais derramamento de sangue seria... ineficiente. Portanto, permitiremos que regressem aos seus domínios ancestrais. O Vale para o Rei Jon Arryn. O Norte para o Rei Eddard Stark. As Terras da Tempestade para o Rei Robert Durrandon. Não haverá mais exigências de ouro, reféns adicionais, ou cessões territoriais das vossas terras. Já sangraram o suficiente. E reinos enfraquecidos são reinos instáveis, propensos a mais desespero e a ações irracionais. Preferimos ter vizinhos fracos, mas estáveis.
A "magnanimidade" tinha gosto de fel e cinzas na boca de Ned. Eles podiam ir embora, sim, mas como cães chicoteados, autorizados a rastejar de volta para as suas tocas para lamber as feridas e chorar os seus mortos. Derrotados, humilhados, arrastando consigo a memória indelével do desastre e o peso insuportável dos que haviam caído.
— Haverá paz — declarou Harren Hoare, e desta vez não foi uma sugestão, foi uma ordem. Ele bateu com um punho cerrado na mesa, fazendo os cálices de prata vazios pularem e tilintarem como sinos funerários. — Uma paz de dez anos entre os nossos reinos. Um juramento solene, assinado e selado perante os deuses e os homens. Qualquer violação deste tratado por qualquer um de vós, qualquer conspiração, qualquer palavra de rebelião sussurrada nos vossos salões, qualquer movimento de tropas para além das vossas fronteiras, será considerada uma declaração de guerra contra ambos os Reinos das Ilhas e dos Rios e o Rochedo. E será respondida com fogo e sangue.
Robert, que estivera a tremer em silêncio durante todo o discurso de Tywin, a sua fúria a crescer como uma maré negra dentro do peito, finalmente explodiu. A sua dor e fúria, contidas por tanto tempo, irromperam como uma barragem a rebentar, levando tudo à sua frente.
Arremessou o corno amolgado contra uma das tapeçarias que retratava a glória dos Hoare. O metal pesado rasgou o fio de ouro e a seda fina, embateu na pedra por trás com um ruído agudo que ecoou no silêncio opressivo como um grito de guerra solitário.
— FOGO E SANGUE?! — ele rugiu, levantando-se de um salto com uma energia que ninguém esperava da sua figura derrotada. A sua cadeira pesada caiu para trás com um estrondo que fez todos na sala sobressaltarem-se — todos exceto Tywin Lannister, que permaneceu imóvel como uma estátua de ouro. — Vocês falam de paz depois de massacrarem o meu povo?! Depois de transformarem os campos do Tridente num cemitério?! Vocês mataram Eldon Estermont! O homem que me colocou numa sela pela primeira vez, que me ensinou a segurar um martelo de guerra, que... que era mais pai para mim do que o meu próprio!
A sua voz quebrou, engasgada numa mistura de raiva e luto cru e infantil, um som tão doloroso que Ned sentiu os olhos arderem. Robert apontou um dedo trémulo e sujo, as unhas rotas, a mão a tremer, diretamente para Tywin.
— Você! Seu monstro de olhos verdes! O seu ouro comprou esta vitória, Lannister! Comprou-a com o sangue dos melhores homens que já caminharam sobre esta terra! Homens que valiam mais do que todo o ouro do Rochedo! Homens como Eldon, como o meu pai, como...
A voz morreu-lhe na garganta, estrangulada pelas lágrimas que ele se recusava a derramar.
Tywin Lannister não se moveu. Nem pestanejou. O seu olhar verde permaneceu fixo no de Robert, frio, desprovido de qualquer emoção, como um cientista a observar um espécime interessante, um inseto a debater-se num frasco de vidro. Ele esperou que a respiração ofegante de Robert diminuísse ligeiramente, que os seus ombros parassem de tremer, que a sua fúria se esgotasse contra a muralha da sua indiferença.
— O ouro compra muitas coisas, Durrandon — respondeu friamente, a sua voz a baixar, forçando todos a inclinarem-se para a frente para ouvir, uma tática antiga para dominar a atenção, para controlar o ritmo da conversa. — Compra soldados mais bem equipados, armas mais fortes, lealdade mais segura. Compra navios, mantimentos, cavalos. Mas acima de tudo, o ouro, quando usado corretamente, compra eficiência. Compra a vitória com o menor custo para o meu próprio povo. Algo que o seu falecido mentor, Lorde Eldon, parece ter negligenciado ao conduzir os seus homens para um matadouro tático no Tridente. O seu erro não foi a falta de coragem, mas a falta de cálculo.
Os seus olhos moveram-se de Robert para Jon Arryn, cujo corpo mal se sustinha, e depois para Ned, que enfrentou o seu olhar sem desviar.
— Vocês sonharam com glória, envolveram-se em mantos de honra e desafiaram a ordem estabelecida. Agora, acordam para a realidade fria e dura. A honra não para uma lâmina. O orgulho não alimenta um exército. E a fúria não vence guerras. Apenas a estratégia, os recursos e a vontade implacável o fazem. Esta foi a vossa lição. Espero que a tenham aprendido.
Ele fez um gesto a um escriba que aguardava nas sombras, um homem magro e pálido com uma expressão neutra.
— Agora, assinem o tratado. Levem os vossos mortos. Voltem para casa. E rezem aos vossos deuses para que o inverno que se aproxima consuma apenas as vossas colheitas, e não os vossos reinos já enfraquecidos.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer grito, mais opressor do que qualquer ameaça. Era o silêncio da rendição, da aceitação da derrota, da morte lenta da esperança.
Jon Arryn fez um esforço sobre-humano, o seu corpo a tremer visivelmente, cada movimento uma agonia. Com uma mão manchada de sangue seco sob as unhas, uma mão que outrora empunhara uma espada com a mesma facilidade com que segurava uma pena, ele pegou na pena que um escriba de Tywin lhe estendia. O som da ponta de pena de ganso a arranhar o pergaminho foi o único ruído na sala, um som frágil e patético na imensidão do salão, como o guincho de um rato num celeiro vazio. Assinou com um traço fraco e vacilante, quase ilegível: Jon Arryn, Rei da Montanha e do Vale. Bronze Yohn Royce fechou os olhos por um instante, o seu queixo a tremer por um momento antes de se controlar com um esforço visível.
Robert cuspiu no chão de mármore polido, um último gesto de desafio fútil, uma mancha de saliva e desprezo que apenas sujou a sua própria dignidade. Mas sob o olhar firme e suplicante de Lorde Estermont, que colocou uma mão trémula no seu braço e apertou com força, ele pegou na pena. A sua mão, habituada ao peso de um martelo de guerra capaz de esmagar um crânio, segurou a pena com uma força bruta que quase a partiu ao meio. Ele rabiscou o seu nome, a tinta a salpicar, uma assinatura que era mais uma ferida aberta no papel do que uma assinatura: Robert Durrandon, Rei da Tempestade. O traço era grosso, furioso, um borrão de tinta negra como o seu humor, como a sua alma naquele momento.
Finalmente, todos os olhos se voltaram para Ned. O silêncio era total, absoluto, como se o próprio ar tivesse parado de se mover. Ele olhou para o pergaminho estendido à sua frente, para a caligrafia precisa e arrogante de Hoare e Lannister, para o traço trémulo e vacilante de Jon, para a mancha de fúria e desespero de Robert. Olhou para o rosto impassível de Tywin, para os olhos pequenos e satisfeitos de Hoare, para a dor no rosto de Jon, para a fúria impotente nos de Robert. Sentiu o peso do manto de pele de lobo sobre os seus ombros, agora não um símbolo de orgulho e herança, mas o fardo esmagador de um reino ferido, de um nome manchado pela derrota, de um povo que esperava por ele.
O frio de Winterfell parecia chamá-lo através da distância, o frio dos deuses antigos que observavam em silêncio a loucura dos homens lá do alto, das suas árvores-coração e dos seus bosques sagrados.
Ele pegou na pena. A tinta era negra como o sangue coagulado no peito do seu pai e nas costas do seu irmão. Negra como a noite que se aproximava.
Com uma mão firme, sem o mais leve tremor, com letras claras e bem desenhadas que contrastavam com a pressa dos outros, ele assinou: Eddard Stark, Rei do Norte.
— A guerra acabou — anunciou Tywin Lannister, erguendo-se da sua cadeira com a graça de um leão a levantar-se após uma refeição. A sua sombra, projetada pela luz das tochas atrás de si, pareceu engolir a mesa inteira e os homens sentados à sua volta, um leão gigantesco a devorar o mundo. — Que esta paz seja tão duradoura quanto as pedras de Harrenhal.
O tom da última frase não era de desejo, nem de esperança. Era de desafio. Era uma promessa, um aviso, uma ameaça velada: qualquer fenda neste tratado seria explorada, qualquer fraqueza, punida. As pedras de Harrenhal eram eternas; a paz que ele impunha também o seria.
Ned também se levantou, o seu corpo dorido de feridas mal curadas e exaustão profunda, mas a sua coluna manteve-se ereta, desafiando a derrota com a única coisa que lhe restava: a dignidade silenciosa dos Stark. Não olhou para os vencedores. Não lhes deu essa satisfação. Olhou para Jon, que parecia prestes a desmoronar a qualquer momento, a sua respiração um sibilo fraco e irregular, e para Robert, que encarava o chão como se quisesse abri-lo com a força do seu olhar e desaparecer nas suas profundezas.
A grandiosidade do salão zombava da sua miséria, as paredes de espelhos refletindo a sua derrota em infinitas repetições. O cheiro de poder era sufocante, uma fragrância doce e podre que se agarrava às narinas e não as largava.
Ned virou-se, sem esperar por uma resposta, sem dizer uma palavra, e saiu do salão. Foi seguido em silêncio pelos senhores nortenhos sobreviventes — Grande Jon Umber, Jeor Mormont, Rickard Karstark, Wyman Manderly —, homens cujos rostos eram máscaras de pedra, mas cujos olhos brilhavam com uma fúria contida que prometia dias sombrios no futuro.
Os seus passos, e apenas os seus, ecoaram no mármore polido daquele castelo que era agora o monumento da sua derrota, um som solitário e desafiador a perder-se na imensidão vazia. Um som que dizia: Ainda estamos aqui. Ainda estamos de pé.
