Work Text:
naquele horário, o sol se inclinava o suficiente para alongar as figuras na praça, as sombras das árvores mais próximas atravessando o concreto da pista gasta. o calor do dia ainda subia do chão, mas o ar começava a esfriar devagar com o fim da tarde cada vez mais próximo, e o local parecia mais silencioso do que de costume.
alexandre estava ali havia algumas horas, como era de praxe. o boné amarelo chamava a atenção de qualquer um que estivesse longe, e a costumeira bandana balaclava repousava sobre a parte inferior de seu rosto, lhe dando um ar misterioso familiar. naquele silêncio, apenas o som contínuo de rodas vibrando misturado aos sons ambientes da cidade eram perceptíveis, seu skate também amarelo riscando o concreto em linhas simples e fluidas, se movimentando sem querer impressionar ninguém em particular.
próximo da pista, guilherme permanecia sentado num banco de cimento, a filmadora apoiada em um dos joelhos. o tom vermelho do cabelo parecia mais aceso sob a luz morna do fim da tarde, seus fios balançando num movimento sutil que acompanhava a brisa. ele acompanhava cada deslocamento do melhor amigo com a câmera, o visor pequeno iluminando o rosto dele com um brilho azulado. reparava no jeito que o cabelo ondulado balançava enquanto ele dava impulso, no jeito que ele parecia ficar mais leve em cima do shape, e dizia para si mesmo que era apenas ele tentando analisar o melhor ângulo para a filmagem.
aquilo já havia virado rotina entre os dois.
“vai pra aquele canto, a luz fica melhor.” xande revirou os olhos, mas obedeceu.
posicionando o skate no concreto, ele testou o peso com o pé de trás e ajustou a joelheira de forma que não incomodasse. a camisa amarela já chamava atenção por si só, e a prancha da mesma cor quase brilhava sob o sol baixo, completando a cena cinematográfica. guilherme se abaixou um pouco para pegar um ângulo mais dramático, e como sempre, a filmadora começou subindo devagar, acompanhando a figura de baixo para cima — tênis gastos, pernas marcadas por cicatrizes antigas, bermuda escura, cintura, o cabelo que parecia uma cascata de flocos de linho naquele horário.
alexandre respirou fundo antes de dar o primeiro push, depois outro, ganhando velocidade. inclinou o corpo e dobrou os joelhos, preparando o movimento, e a manobra saiu precisa — nada muito maravilhoso, mas com fluidez suficiente pra ficar bonito. seu corpo magro girou, o shape acompanhou, e ele pousou com uma estabilidade que irritava quem assistia. o amigo soltou um “caralho” baixinho, empolgado como sempre, mas manteve a câmera firme e focada no garoto.
este, que ouviu a reação que ele teve.
o canto da orelha ficou num tom rosado que mais parecia vermelho em sua pele clara, e depois a ponta do nariz também ficou decorada com a cor bonita. sabia que não era pelo esforço físico, pois já havia feito coisas mais difíceis. ele puxou o boné um pouco mais para frente em instinto, passando a mão pelo cabelo, tentando parecer casual demais para alguém que acabou de executar algo que claramente queria que fosse visto.
“ficou bom?”
“lindo. como sempre.” xande engasgou levemente com a implicação da frase e santos piscou, percebendo tarde demais, mas não tentou corrigir a frase, mantendo um sorriso divertido no rosto. o rapaz de cabelos ondulados deu de ombros, como se não tivesse ouvido direito, mas agora seus olhos evitavam a lente um pouco mais. “você faz parecer tão fácil.”
“não é.” xande respondeu, limpando a garganta.
“eu sei, mas parece.” a luz do sol batia direto em seus olhos naquele ângulo, fazendo a íris castanha ficar num tom de caramelo bonito. ele apertava levemente os olhos para enxergar melhor o amigo em sua frente, e alexandre se moveu para bloquear o brilho incômodo, sem dizer nada.
não muito longe dali, um garoto jovem e de cabelos ruivos saiu da parte côncava da pista com velocidade, parando com o skate raspando de leve na borda, sendo acompanhado por uma figura de cabelos longos e loiros que parava logo ao seu lado. com um sorriso enorme enfeitando o rosto repleto de sardas, ele se aproximou dos dois rapazes ainda em cima do skate, sua companhia o seguindo em silêncio.
“cara, essa sequência ficou muito absurda! se tu filmasse isso em câmera lenta…” ele falou, parecendo que ainda recuperava o fôlego, realizando um gesto amplo e dramático com as mãos. “ia ficar muito foda!!”
alexandre pegou o skate pelo nose, girando o shape distraidamente enquanto respondia ao elogio com uma risada curta, habitual. “você sempre diz isso de qualquer manobra que eu faço, franco. e, de qualquer jeito, eu dependo do meu cinegrafista.” respondeu, inclinando a cabeça na direção de guilherme, que fingia ajustar alguma coisa na câmera por não saber bem como se incluir na conversa.
franco soprou uma risada e estava prestes a responder quando sua companhia de cabelos claros chamou sua atenção com um gesto sutil, lhe encarando com os olhos azuis profundos e as sobrancelhas levemente franzidas. o jovem ruivo choramingou de forma dramática e se virou para os outros dois com claro desânimo, começando a caminhar para fora da pista com o skate debaixo do braço.
“ah, eu e alê precisamos ir agora, está ficando tarde e ainda precisamos ensaiar com a banda.” explicava com alê ao seu lado acenando com a cabeça num movimento suave, como uma despedida silenciosa. “você bem que poderia levar seu amigo pra ver a gente tocando algum dia, né?” ele parou perto do skatista, apertando seu ombro num gesto amigável, seguido de um sorriso sincero direcionado a guilherme, que agora o observava com atenção. “vamos ter uma apresentação amanhã aqui na praça, se for do interesse de vocês.”
alexandre inclinou levemente a cabeça, seus olhos claros refletindo a luz do sol por um instante, enquanto parecia considerar a ideia. “acho que o pessoal ia gostar. vou ver se temos algum outro compromisso, se não, aparecemos por lá.”
“massa! valeu, xande!” e assim ele começou a se afastar para alcançar alê que estava mais à frente, o som das rodas dos skates tomando conta do lugar. “espero te ver lá, guizo!” gritou quando estava um pouco mais distante, ambas as figuras desaparecendo uma em seguida da outra assim que viraram a esquina.
a praça de repente pareceu maior, o único som sendo do ruído distante de carros passando. alexandre ficou parado alguns segundos, olhando a pista vazia como se avaliasse mais uma sequência que poderia testar, quando subitamente caminhou até o banco onde guilherme estava, posicionando-se de pé em sua frente.
“filmou tudo?” perguntou, afastando a balaclava do rosto para respirar melhor e deixando que repousasse em volta do pescoço. guilherme encarou por um segundo a mais que o necessário.
“quase tudo…” ele ergueu uma sobrancelha para o de cabelos vermelhos, apoiando o skate no chão. “você ficou enrolando demais no início.”
“eu tava testando.”
“testar e errar são duas coisas bem diferentes.”
um sorriso pequeno apareceu no canto da boca de alexandre, bem discreto, quase que involuntário. ele empurrou o skate para posicioná-lo na frente dos pés do moreno, alinhando com a parte mais lisa da pista. o sol que estava se pondo bateu no cabelo ondulado quando ele se inclinou, alguns fios refletindo num tom quase dourado, chamativo. “duvido você fazer melhor.”
guilherme piscou em confusão, olhando da prancha amarela para ele.
“mas eu não sei andar de skate…”
“eu te ensino.” o vento passou leve pela praça, movendo as folhas das árvores junto com os fios de cabelo vermelhos e amarelos. o mundo parecia suspenso naquele intervalo entre tarde e noite, e o olhar de alexandre sobre o amigo parecia guardar todo o calor acumulado do dia. “vem, sobe.”
o rapaz de pele bronzeada segurou a câmera com um pouco mais de força, como se precisasse de um momento a mais para processar a situação. depois, apoiou o equipamento sobre o banco e ficou de pé, com uma cara não muito confiante.
“eu não sei nem subir nessa coisa.”
“relaxa, meu parceiro, tô aqui pra isso.” alexandre se ajoelhou próximo ao skate e batucou com os dedos perto dos parafusos do truck dianteiro, o encarando com uma expressão mais séria agora, como um professor experiente faria. “com qual pé você pisaria num degrau primeiro?”
guilherme pensou rápido. “esquerdo.”
“então é regular. ou seja, pé esquerdo na frente. aqui.” ele batucou novamente os dedos no local. “não muito pra ponta, nem muito pra trás. vê se tu tem uma base boa.”
o cinegrafista posicionou o pé com um cuidado exagerado, como se a prancha do skate pudesse fugir. e, bem, realmente podia, e ele não estava muito afim de espatifar a cara no chão, então tentou se acostumar com o movimento, a apreensão deixando seus membros rígidos e tensos.
“relaxa o joelho, gui.” alexandre murmurou com a voz suave, tocando de leve a parte de trás da perna dele para indicar a flexão. a madeira tremeu um pouco com o novo peso, e o garoto estremeceu. “não precisa ter medo de cair e se ralar todo, isso faz parte.”
o moreno respirou fundo, assimilando a informação. “tá certo. e agora?”
“agora, você vai aprender a remar. coloca o teu peso no pé em cima da prancha e usa o outro pra empurrar e dar impulso no chão.” ele se levantou e colidiu de leve o ombro com o do amigo, num pedido silencioso para que lhe desse espaço na prancha. guilherme se afastou e observou o rapaz demonstrando a ação, deslizando o pé de trás num movimento contínuo e fazendo o skate avançar suavemente. “não precisa chutar o chão, só encosta e estende. entendeu?”
ele acenou com a cabeça para indicar que havia entendido e se colocou sobre a prancha mais uma vez, tentando imitar o que tinha visto, mas seu primeiro push foi tímido demais e o skate mal saiu do lugar.
“não precisa ser carinhoso com o chão” alexandre comentou, divertido. “ele não vai reclamar.” guilherme bufou, e as bochechas coraram um pouco com a provocação. sentindo as primeiras gotas de suor na testa, decidiu subir as mangas compridas da blusa que vestia antes de tentar de novo, dessa vez empurrando com mais precisão, e o skate avançou um pouco mais.
um metro. dois metros. e o seu corpo travou.
guilherme se desequilibrou numa curva sem querer e o shape oscilou para a direita. ele soltou um som estrangulado que não era exatamente um grito, mas também não era algo muito digno de se ouvir, e felizmente seus dentes não foram de encontro ao chão e não precisaria pagar por um tratamento dentário. conseguiu se estabilizar a tempo no solo e o skate escapou alguns metros mais à frente, a respiração acelerada pelo susto da possível queda.
alexandre tentou segurar o riso, mas para o infortúnio de guilherme, ele não conseguiu. riu bem alto, feito uma criança sapeca, dobrando o próprio corpo no processo e o parceiro inexperiente revirou os olhos para a cena, tentando conter o próprio sorriso.
“você que fez isso. usou a mente pra me fazer cair.”
“claro, claro. telecinese. meu novo ritual secreto.” guilherme fez uma careta, mas não disse nada, as bochechas quentes pelo constrangimento. alexandre suspirou, recuperando o fôlego depois da risada. “tá, agora você precisa aprender a ficar em cima da prancha e não amarelar no primeiro sinal de perigo.”
o loiro correu para buscar o skate, o empurrando com o pé para o moreno que encostou o tênis na borda da prancha, impedindo que avançasse mais, como uma bola de futebol. “e qual seria a definição de perigo aqui, exatamente…?” santos perguntou, subindo na prancha mesmo assim.
ele não o respondeu. só ficou na frente dele, de costas, andando devagar.
“me dá a mão.”
guilherme hesitou por um segundo, mas por fim obedeceu. alexandre segurou suas mãos com firmeza, as palmas com uma textura macia e quente, dedos fechando com segurança acolhedora. ele começou a avançar aos poucos, guiando seus movimentos, enquanto o rapaz voltava a testar pequenos pushes inseguros, agora retornando o pé na prancha com um pouco mais de confiança ao saber que tinha algum tipo de apoio.
o skate rolava devagar, as rodas vibrando contra o concreto liso. ele acelerou um pouco mais que o esperado numa descida, e guilherme soltou um som esganiçado e apavorado.
“xande, eu vou morrer.”
“não vai.” alexandre respondeu, quase sorrindo com o desespero do amigo. “eu tô te segurando. confia.”
e ele falava sério. suas mãos não soltaram quando o shape balançou demais, nem puxaram bruscamente em momento algum. só estabilizaram, e era como se alexandre soubesse exatamente até onde deixar ir, o suficiente para que ele aprendesse sozinho e com a segurança de que não se machucaria. as mãos morenas tremiam e empurravam as semelhantes para baixo toda vez que sentia o equilíbrio se perdendo, mas alexandre sempre estava ali acompanhando, dando o suporte necessário, apertando seus dedos num gesto encorajador quando sentia que o amigo precisava.
e quando finalmente pararam, guilherme ainda segurava as mãos mais pálidas com força, sem perceber. o de cabelos ondulados inclinou a cabeça com um sorriso divertido nos lábios, procurando os olhos escuros do amigo com os seus mais claros. “você já pode me soltar, sabia?”
ele soltou rápido, fingindo que não tinha sido nada demais, mas as bochechas num tom de rosa suave o denunciavam. apoiou um dos pés no chão e fingiu olhar para os tênis vermelhos como uma maneira de se estabilizar em cima da prancha, e alexandre soltou uma risada soprada.
um silêncio confortável se instaurou. o céu, antes laranja, mudava para um rosa quase violeta, e algumas poucas estrelas começaram a se fazer notáveis. com o primeiro sinal da noite, um ou outro poste da praça estala e acende com um zumbido discreto, iluminando a pista num brilho artificial e esbranquiçado.
o skatista voltou a olhar para ele.
“acha que consegue sozinho agora?” ele questionou retirando o boné do topo de sua cabeça, juntando o grande volume de seus cabelos nas mãos e o prendendo em um rabo de cavalo desarrumado, com um elástico preto que sempre usava no pulso. guilherme pareceu perder o fio de seus pensamentos naqueles poucos segundos, mas logo se forçou a se recompor para não tornar muito óbvio, engolindo seco.
ele não tinha culpa se seu melhor amigo era o rapaz mais bonito que já tinha conhecido. e, honestamente, quem o julgaria? alexandre não fazia ideia do efeito que causava nas pessoas, e isso as vezes tornava as coisas piores. guilherme sempre percebia a maneira que as pessoas olhavam para ele, como tropeçavam em suas próprias palavras quando deixava o rosto à mostra, e como sempre tentavam impressioná-lo de algum jeito para conquistarem sua atenção. nunca funcionava.
“gui? por que tá me olhando assim?”
droga. talvez não tivesse sido tão discreto.
“nada, relaxa.” tentou desconversar, mas não pôde deixar de perceber a balaclava sendo levantada mais uma vez para cobrir o rosto do amigo, que parecia ter se recolhido em seu próprio mundo de inseguranças outra vez. ele respirou fundo, praguejando para si mesmo mentalmente, e decidiu dar uma mais chance, ajeitando o skate no chão.
o sol já havia descido bastante, mas o ar ainda parecia espesso, abafado. a blusa de manga comprida que guilherme usava por baixo da camiseta da banda grudava em suas costas e começava a ficar desconfortável o suficiente para ele cogitar tirá-la. deu uma olhada para o amigo mais uma vez antes de segurar a barra da camiseta de fora, levantando um pouco só para puxar a manga da blusa de baixo, sem precisar se expor muito.
ele desistiu. tava dando muito trabalho.
então, ele fez o óbvio. tirou a camiseta de banda primeiro, com o símbolo da ovelha invertida e o nome “AHLEVO” escrito por cima. a segunda peça subiu num movimento fluido, revelando por um instante a pele morena marcada por um brilho fino de suor sob a luz do poste. ele puxou o tecido com as mãos, os ombros tensionando e o corpo inclinado para frente. o cabelo vermelho com a raiz escura caiu desajeitado e ainda mais bagunçado sobre a testa quando passou a segunda blusa pela cabeça, e o skatista paralisou diante da cena.
ele desvia o olhar. bem rápido. e guilherme, distraído demais tentando desembaraçar a roupa e colocá-la virada para o lado certo, não percebe. agora, ele vestia apenas a camiseta da banda, e o ar tocava sua pele ainda quente, que brilhava num tom bonito de caramelo. passou a mão pelo pescoço onde tinha uma tatuagem em formato de espirais, depois pelo cabelo que grudava com o suor, ajeitando tudo num movimento automático.
“melhorou uns cinquenta por cento.” comentou distraidamente, soprando o ar aliviado pela boca. alexandre ainda olhava para o chão atentamente, ou pelo menos fingia, parecendo concentrado demais nas rodinhas do skate. como se estivesse bem interessado em analisar nos mínimos detalhes a física da borracha em contato com o concreto. mas guilherme finalmente levantou o olhar castanho e, ao perceber a reação estranha do amigo, inclinou a cabeça e estreitou os olhos. “o quê?”
“nada.” respondeu em menos de um segundo, cruzando ambos os braços sobre o peitoral numa posição defensiva, como se fossem escudos, mas agora ele o olhava. “e não me enrola. vai tentar sozinho ou não?”
santos deu um sorriso meio torto, balançando a cabeça. agora que o ar circulava melhor, seu corpo respondia com menos rigidez, então não enrolaria mais. olhou em volta para lançar a blusa de mangas compridas próxima ao banco em que estava no início da tarde, e se virou para ajustar o skate mais uma vez.
seu pé esquerdo ficou posicionado próximo aos parafusos da frente, entendendo que assim ganharia mais estabilidade, e o pé de trás se manteve no chão, como lhe fora ensinado. o shape balançava um pouco, instável, e o som das rodinhas ecoava mais alto porque havia menos gente na praça. alexandre estava a alguns passos de distância agora, com as maçãs do rosto levemente rosadas — provavelmente pelo calor, guilherme pensa — e as mãos guardadas nos bolsos da bermuda.
ele deu a primeira remada, e o movimento já fluía com mais naturalidade. o skate deslizou pelo concreto e a vibração subiu pelas solas do tênis, atravessando os tornozelos e os joelhos. seu corpo tentou acompanhar, mas ainda não confiava totalmente na própria linha central — era como se estivesse sobre uma corda bamba, invisível, e era capaz de sentir cada micro-oscilação do shape.
ainda assim, santos continuou.
deu a segunda remada. ganhou mais velocidade. o vento da noite veio tocando seu rosto como uma carícia delicada. a camiseta colava um pouco nas costas por causa do suor que já estava ali antes. ele manteve os braços abertos para controlar seu equilíbrio, ainda que rígidos demais pela inexperiência. lembrou de flexionar os joelhos e olhar para a frente, não para o chão, e levantou o queixo, percebendo o mundo se estabilizando com o movimento.
o pé que empurrava o chão conseguiu se estabilizar de volta para a parte de trás da prancha, e nesse momento, guilherme sente algo novo: um pequeno encaixe entre corpo e skate, um alinhamento, como se o concreto e ele fossem apenas um, e estivessem em acordo e sintonia. as rodinhas vibram na pista áspera, um ruído seco e constante. e por dois segundos, tudo parecia certo. sentia-se livre, como se suspenso no ar, e santos pôde ter um gostinho do porquê que alexandre gostava tanto daquilo. era energizante. o sorriso que tomava seu rosto demonstrava isso.
mas seu peso pendeu um pouco demais para a esquerda.
o skate respondeu antes que ele pudesse corrigir o erro. o shape inclinou, as rodinhas arrastaram e guincharam com o ângulo errado, e o moreno tentou compensar jogando o tronco e o peso do corpo para o lado oposto — um erro clássico, mas ele já sabia que cair e se ralar fazia parte da experiência de aprendizado.
o mundo começou a tombar devagar, e rápido ao mesmo tempo. sentiu o vazio breve no estômago e instintivamente tentou colocar o pé na pista para recuperar o equilíbrio, mas ele pisa torto e o tornozelo dobra. o skate escapa para a frente, livre, e o joelho direito encontra o chão primeiro, raspando no concreto com um som áspero, junto com o restante da perna. mas antes do impacto completo com o chão, uma força firme envolveu a lateral de seu tronco. uma mão quente segurando sua cintura, os dedos pressionando através do tecido da camiseta, e a outra mão deslizando e segurando o antebraço, impedindo que ele caísse com o corpo inteiro.
“ei, ei.” uma voz baixa e firme ressoou, reconfortante.
guilherme ficou suspenso por um segundo, o corpo inclinado, seu coração batendo tão forte que conseguia ouvir em seus ouvidos. ele percebeu o calor da mão de alexandre em sua cintura, e de repente ele se viu muito consciente da proximidade do peito dele atrás de suas costas, do cheiro leve de shampoo misturado com o perfume fresco e característico. sentia as próprias costelas se expandindo contra a mão que o segurava, mas o amigo permanecia ali, o som do skate rolando sozinho ao fundo sendo o único que podia ouvir naqueles poucos segundos de silêncio, seco e direto.
“eu tô vivo.” ele anunciou, encarando o céu já escuro, como se precisasse confirmar isso com as estrelas que testemunharam seu capote. seu joelho ardia e a panturrilha latejava numa linha quente que começava a pulsar, e ele ficou alguns segundos parado, ainda processando o que havia acabado de acontecer. alexandre soprou uma risada divertida pelo comentário do amigo e o soltou devagar quando ele começou a se mexer um pouco, mas não se afastou totalmente.
“não olha ainda.” ele avisou com a voz baixa, paciente, agachando logo ao lado dele, mas santos já estava examinando o joelho. a pele caramelo ganhou uma mancha vermelha viva, o arranhão começando a se formar num traço irregular, com pequenas partículas de poeira grudadas ali e um fio fino de sangue. a panturrilha também pegou de raspão, uma área maior e menos profunda, mas que ainda ardia o suficiente pra ser incômodo.
“é…” engoliu seco. “arde.”
“lógico que arde, idiota.” guilherme soltou uma risada curta, mas o som veio meio tremido, quase choroso. o mais novo aproximou a mão com cuidado, segurando o tornozelo dele num toque firme e atento para examinar melhor estrago. os olhos turquesa ficaram mais profundos, o silêncio que os rondava naquela quietude que ele usa quando está levando algo mais a sério, e curiosamente, isso deixava o cinegrafista um pouco mais nervoso que o normal. “não foi feio, só superficial. é assim mesmo.” ele concluiu, e santos ergue o olhar para o rosto dele. “da próxima vez você cai melhor.”
ele responde com uma risada baixa. “existe isso?”
“existe. eu sou especialista.” ele passa o polegar ao redor do arranhão, sem tocar diretamente na parte mais sensível, avaliando e delimitando o território da dor. guilherme sentiu um leve arrepio e decidiu apoiar as mãos atrás do corpo sobre o concreto, ficando sentado numa posição mais confortável. “fica quieto.”
“mas tá doendo.”
ele não respondeu. puxou a mochila que sempre carregava nas costas quando vinha para a pista, e claro que ele tinha um kit básico ali dentro emprestado de sua colega de equipe: bandagem, soro fisiológico, gaze. havia caído vezes suficientes para saber que andar de skate era 60% equilíbrio e 40% ralados na perna.
“vai arder mais.” ele avisou, mas a voz saiu mais suave que o normal. dobrou um pedaço de tecido sobre uma das mãos e molhou com uma garrafinha de água, começando a limpar o grosso do sangue e da poeira no ferimento com movimentos gentis, inesperadamente delicados agora. o moreno puxava o ar entre os dentes quando sentia arder, e alexandre desceu a balaclava mais uma vez para assoprar o machucado de leve, numa maneira de aliviar a dor.
o poste acima deles estava aceso e estalava com uma luz amarelada sobre os dois. o brilho morno pegava nos fios ondulados que pareciam feitos de ouro, e a expressão do garoto estava contorcida como quem realizasse um procedimento cirúrgico muito complexo, seu lábio inferior preso entre os dentes enquanto se mantinha concentrado. guilherme sentiu o joelho latejar de novo, junto de outra coisa em seu peito que não poderia colocar em palavras.
“ainda bem que eu não filmei nada disso.” observou erguendo o olhar para a câmera que repousava sobre o banco de cimento ao longe, enquanto alexandre inclinava um frasco pequeno e deixava o soro escorrer devagar sobre o joelho ralado. ele prendeu um pouco o ar com o arrepio involuntário do líquido gelado contra a pele quente.
“eu ia filmar, mas você caiu antes.” xande retrucou, quase distraído, mas a mão que segurava sua perna apertou de leve, como um ancoradouro. o soro escorria levando as pequenas sujeiras e ele voltou a limpar com uma gaze, sem pressa, parecendo não se importar de estar ajoelhado no chão, tocando em sua pele como se não fosse nada demais.
na panturrilha, ele precisou se aproximar um pouco mais. a mão calejada deslizou um pouco acima do tornozelo para estabilizar a perna, repousando o polegar ali por uns segundos a mais que o necessário… só pra ter certeza de que o amigo não puxaria a perna de repente. ele diminuiu a pressão que fazia ao perceber as expressões de dor que guilherme tentava disfarçar, mas nenhum dos dois falou algo sobre isso.
o silêncio era confortável, mas estava carregado com algo a mais. o moreno observava o rosto à sua frente de cima, reparando no jeito como os cílios do skatista eram longos e faziam sombra nas olheiras leves. como ele juntava as sobrancelhas e franzia a testa quando ficava concentrado em alguma coisa, e em como seus lábios formavam um bico cheinho sem que percebesse. guilherme sorri pequeno com esse detalhe, mas logo disfarça com uma tosse seca, começando a mordiscar um dos piercings que tinha próximo à boca num hábito automático.
depois de abrir um curativo adesivo, alexandre alisou o band-aid sobre o joelho arranhado, os dedos deslizando com cuidado para evitar bolhas. na panturrilha, ele usou gaze e fita para cobrir uma área maior, os dedos passando rente à pele, pressionando e ajustando. e isso é engraçado — xande é conhecido por ser impulsivo, quase imprudente quando se trata de se jogar na frente do perigo. mas ali, ele parecia o oposto. meticuloso, paciente, quase gentil demais para alguém com tantas cicatrizes nas próprias pernas.
guilherme observa isso em silêncio. uma mecha do cabelo dourado cai um pouco para a frente do rosto quando ele se inclina mais, e o garoto sopra para afastar, um tanto irritado. uma das mãos morenas faz um movimento mínimo com a vontade de ajeitar a mecha de volta para trás, mas ele se impede e não o faz. quando terminou, o loiro passou o polegar mais uma vez ao redor do curativo, conferindo se está bem preso — ou aproveitando para sentir uma última vez a sensação da pele macia sob seu toque.
“pronto. sobreviveu.” concluiu com um sorriso de canto, erguendo o olhar cansado para o melhor amigo. por um instante, os dois ficam conscientes de que estão próximos demais, o corpo de alexandre inclinado entre as pernas morenas, e seus olhos se encontram. castanho e turquesa, uma combinação estranha, quase como chocolate e menta, mas que parecia fazer algum sentido.
o skatista soltou a perna devagar, mas não se afastou de imediato, usando a mão recém-desocupada para levar a mecha de cabelo para trás da orelha, cessando o incômodo dos fios no rosto — e disfarçando um pouco o calor da proximidade que ambos não sabiam nomear, mas podiam sentir. “da próxima vez, não fica olhando muito pro chão. ele fica bolado e acaba te derrubando.”
guilherme sorriu e se manteve em silêncio. a outra mão pálida ainda repousava leve na panturrilha dele, e ele a retirou devagar quando percebeu, tossindo sem precisar realmente. “vem, vamos tentar mais um pouco.”
alexandre se levantou com a mochila nas costas, estendendo as mãos para ajudar o outro, que o imitou com um pouco de dificuldade. ele se afastou alguns poucos passos, caminhando em direção ao banco de concreto e suspirando profundamente quando se sentou, cansado de todo o esforço do dia. recolheu a blusa de manga comprida que o amigo havia jogado mais cedo e a colocou dentro da bolsa, junto de seus equipamentos e fones de ouvido, reparando subitamente na filmadora logo ao seu lado com o canto do olho.
desde que se conheceram, aquela lente sempre esteve ali, acompanhando suas manobras, suas risadas, seus segredos. ele estava acostumado a ser observado, e apesar da câmera de guilherme não o incomodar quando era direcionada a si, o fantasma de milhares de olhares pesados e julgadores sempre o acompanhavam.
esse fundo de tensão não nasceu ali, e sim muito tempo antes. no jeito como ele aprendeu que desempenho vinha antes de descanso, que falhar era quase ofensivo, que os silêncios lhe diziam que ele “poderia ter sido melhor”. estava acostumado a existir sob olhares críticos, mas isso uma hora cansa. era exaustivo precisar calcular bem as palavras que usaria, a forma que reagiria, a maneira que decidia respirar. tudo para agradar e oferecer um espetáculo perfeito, sem qualquer tipo de erro. uma grande besteira, em sua opinião.
queria poder sentir, pelo menos uma vez, que não estava sendo rigorosamente avaliado a cada passo que dava, ou a cada atitude errada que tomava.
sua linha de pensamento é interrompida com o som rasgado das rodinhas arranhando o chão, e as orbes turquesas se direcionam para a filmadora mais uma vez, a segurando em ambas as mãos. ele inclina o corpo um pouco para trás, ergue a câmera com certa naturalidade, e de repente algo nele afrouxa. sua respiração encontra um ritmo mais calmo, e os ombros tensos descem alguns centímetros. não há expectativas sobre ele naquele instante, e pelo visor pequeno, o mundo fica menor, bem mais fácil de organizar.
a luz dos postes viram moldura para guilherme, que se torna o foco.
ele parecia mais atento agora, mais confiante. a queda talvez tenha lhe ensinado alguma coisa, afinal. a prancha respondia com um movimento suave, seu corpo parecia relaxar mais, os ombros caindo e os braços ficando mais estáveis, não parecendo mais anteninhas desesperadas para captar equilíbrio.
alexandre observou em silêncio, sua atenção presa no rapaz sobre o skate.
ele conhece cada detalhe da própria postura quando anda. sabe como os joelhos precisam ficar flexionados, como o peso deve ser distribuído mais na frente, e agora ele vê guizo tentando replicar tudo isso, como um aprendiz. estava concentrado, a língua pressionando discretamente o canto da bochecha, um hábito que alexandre aprendeu a perceber que aparece quando está focado demais. o cabelo vermelho, que já estava bagunçado pelo vento, refletia a luz do poste em tons mais escuros, quase vinho, e contrastava com a pele em tom de avelã quente.
alexandre ajustou o enquadramento outra vez, e pelo visor, ele percebia coisas que talvez não notasse sem a lente. como santos morde o próprio lábio inferior quando consegue manter a linha reta por mais tempo, ou o modo como ele respira mais fundo antes de arriscar um push mais firme. ele está indo bem, melhor do que xande esperava, e isso provoca um sorriso pequeno por trás da lente.
“olha pra frente.” ele orientou com a voz mais baixa, quase sussurrando apenas para si e a câmera, mas guilherme levantou o queixo automaticamente, como se tivesse ouvido mesmo sem ouvir. o skate desliza alguns metros com fluidez inesperada, o som das rodas no concreto contínuo e suave, e as sombras alongadas acompanham seus movimentos como duplicatas fantasmagóricas.
alexandre sente algo estranho. uma mistura de satisfação com vulnerabilidade. percebeu que estava registrando não apenas a evolução de santos no skate, mas também o jeito que ele fica bonito quando está concentrado, o modo que seu corpo começa a ganhar confiança, como o sorriso bonito surge aos poucos, quase incrédulo, quando percebe que está realmente conseguindo.
guizo olha para ele. seu coração erra uma batida. e mesmo à distância, ele sentiu o impacto daquele olhar, sabendo que buscava por sua aprovação. seu peito se encheu de algo que não sabia reconhecer e ele fez um gesto breve com a cabeça, um aceno silencioso que fez o moreno sorrir de verdade — mais aberto, orgulhoso, meio ofegante.
percebendo que a lente está tremendo um pouco, ele ajusta a pegada, pigarreando, e os olhos não se desgrudam do visor. porque ali, naquele quadradinho iluminado, ele tem uma versão de guilherme que é só dele. e talvez, também naquele instante, ele tenha compreendido pela primeira vez o porquê dele gostar tanto de registrar momentos cotidianos como esse.
então, algo simples acontece. guizo tenta virar levemente para contornar uma marca no chão, e o movimento sai torto, mas ele não cai. oscila, mas consegue corrigir a tempo, e ele solta uma risada alta, espontânea, que ecoa na pista quase vazia. o mais novo sentiu o canto da própria boca puxar num sorriso e ele abaixou a câmera por um instante, preferindo assistir à cena sem filtro.
desacelerando meio desajeitado, guilherme quase tropeçou quando pisou no chão para frear. olhou para as próprias mãos como se tivesse acabado de descobrir um novo poder e riu mais uma vez, passando a mão no cabelo vermelho suado. alexandre observava primeiro com aquele meio sorriso contido, mas que depois se tornava algo mais suave, cheio de ternura.
pegando o skate, guilherme o levantou levemente com as mãos enquanto corria em sua direção, como se estivesse lhe apresentando um troféu. “eu tô oficialmente aceitável?” ele pergunta, mas já estava dando risada antes da resposta. alexandre cruza os braços, tentando manter a pose, mas acena divertido com a cabeça.
“acho que dá pro gasto.”
guilherme apontou para ele, acusatório, mas sorrindo.
“você tá orgulhoso!”
“não exagera.”
ele caminhou até alexandre sem pensar demais, e o abraçou.
não um abraço lateral casual, mas algo mais direto. seus braços passavam pelos ombros ligeiramente menores de alexandre, seu corpo ainda quente do esforço encostando de frente. um impacto leve que o faz dar meio passo para trás, e por um segundo, ele fica rígido por instinto. depois relaxa. as mãos sobem devagar, uma ainda segurando a filmadora e a outra repousando nas costas de guilherme, e ele precisa se inclinar minimamente pela sutil diferença de altura.
“obrigado, xande. sério.” sua voz sai abafada pelo tecido amarelo da camisa, e ele ri alegre contra seu ombro. alexandre engole em seco, pouco acostumado a agradecimentos tão diretos e sem ironia.
“você que andou, besta.” ele responde baixo, mas não se afasta. se mantém ali, o abraço durando um tempo a mais do que seria considerado normal. o suficiente para ser notado, mas também para não ser comentado. e quando santos finalmente se solta, ele está sorrindo daquele jeito bonito, sem vergonha de demonstrar.
“da próxima vez, eu que te ensino alguma coisa.”
alexandre arqueia uma sobrancelha. “duvido.” e santos ri de novo.
eles recolheram as coisas em silêncio, e o ar havia ficado mais fresco agora. deveriam estar perto da hora de se alimentar, e precisavam ir para a pizzaria se encontrar com os colegas de equipe para falar sobre o show que haveria na praça no dia seguinte. com esse pensamento, alexandre posicionou o skate no chão e o manteve parado com um dos pés, acenando com a cabeça para o melhor amigo.
“sobe.” guilherme olhou para ele.
“num só?”
“pra gente chegar mais rápido.”
hesitando num primeiro momento, ele subiu atrás, primeiro um pé, e depois o outro, segurando leve na lateral da camisa fina do skatista para se equilibrar. o contato é cuidadoso no início, e quando o skate começa a deslizar, guilherme percebe que o pé da frente do parceiro é o direito, e não o esquerdo, como o seu.
alexandre dá a primeira remada, pressionando com mais firmeza no chão, o corpo inclinado levemente para frente com a postura bem solta e natural. ele guia a prancha com precisão segura, ainda que estivesse levemente flexionada com o novo ajuste de peso, desviando das irregularidades do concreto quase que sem esforço. atrás dele, o rapaz ajusta os pés sobre o skate, uma de suas mãos deslizando da barra da camisa para a cintura mais fina do amigo de cabelos ondulados. ele sente, mas não comenta, lembrando a si mesmo que era mais fácil manter o equilíbrio assim.
a segunda impulsão é mais longa, e o vento leve da noite bate no rosto deles como um suspiro. o cabelo ondulado que não se manteve preso movia sob o boné amarelo, e o vermelho dançava logo atrás, com o queixo se apoiando brevemente sobre as costas magras.
sem plateia, alexandre sorri grande.
aquelas noites poderiam ser eternas.
