Work Text:
Hoje estou sozinha na escuridão, é meu dia de fechar a loja. Merrilee e meus pais já foram dormir, agora posso ficar em paz. Trabalhar na loja o dia todo é exautivo, mas pelo menos posso ganhar uma gorjeta que uso para comprar miçanga e cordas para fazer meus acessórios - colares, brincos, pulseiras, anéis; essa é minha vida, o que me deixa feliz. O que me deixa diferente da minha irmã.
Toda vez que tenho que trancar a loja finjo que vou dormir e saio escondida para um campo perto da casa do Bando, espero que Lenore Dove nunca tenha me visto, porque seria estranho. Nós não conversamos muito, Lenore Dove e eu, conversamos ocasionalmente na escola ou nós esbarramos por aí, talvez ela tenha medo de mim - não medo de mim, mas do que posso fazer - penso enquanto desvios das casas escuras e dos pacificadores do turno da noite. Faz um ano que descobri seu maior ato de revolta, ela escreveu: SEM CAPITAL SEM ARVORE FORCA; com letras grandes e tinta laranja vibrante em um beco esquecido da cidade. Esse é seu segredo, um segredo que provavelmente nunca vou precisar contar e que nunca contaria por vontade própria, acho que concordo com a mensagem dela, ela esta pintando seu próprio pôster. Eu meio que admiro Lenore Dove.
Quando chego no topo da montanha respiro fundo, o ar aqui deve ser mais puro. Forro um lenço e coloco minhas coisas no chão; umas quatro caixas com pedras, fitas, cordas, pingentes e tudo que dá pra transformar em moda. Esse é meu momento de paz. Onde posso estar sozinha, sem precisar pensar em como minha mãe quer que eu me vista, em como todos acham que sou igual a minha irmã, em como os pacificadores continuam nos matando. Onde posso dizer o que quiser, mesmo falando sozinha; onde posso prender o cabelo como quiser. Onde não sou uma cópia de Merrilee, e ela não é uma cópia minha.
Espero que as estrela com que converso me entendam, não odeio Merrilee, na verdade a amo, amo muito. O problema não é ela - claro que não, Merrilee Donner é incrível - digo rindo, mesmo não achando engraçado. É real, ela é minha melhor amiga e é incrível.
As pessoas acham que somos iguais, exatamente iguais, idênticas. Gêmeas. Sim, somos parecidas e não, não somos iguais, não somos nem gêmeas idênticas. Todos acham que temos a mesma aparência e conseguem nos diferenciar apenas pela roupa, que minha mãe insiste em mudar apenas as cores, porém não somos: Merrilee tem uma pinta no lado esquerdo do rosto, além das sardas que ela tem mais nas bochechas enquanto eu tenho na testa. Sempre pensam que temos a mesma personalidade, até nossa mãe acha, mas não, claro que não. Merrilee é mais animada, entende melhor as matérias da escola, é quieta e prefere seu chá sem açúcar. Eu vou mediana na escola, o que esta ótimo pra mim, e falo pra caramba - Ah, obviamente o chá fica melhor com açúcar - Até Asterid nos vê da mesma forma.
Acho que as estrelas entendem, afinal todas se parecem mesmo não sendo iguais. Cada estrela está em um lugar diferente, brilhando de um jeito diferente, há um tempo diferente. Não sabemos quando vamos morrer, então enquanto estou aqui não vou ser igual a ninguém. Vou ser diferente. Diferente. Única.
...
Vejo o amanhecer, hoje é o dia da colheita. Volto para casa antes que alguém me veja, deito na cama ao lado de Merrilee que parece estar dormindo, mas rapidamente se vira e sussura rispidamente:
- Onde você estava?
Me assusto e não consigo pensar em uma resposta. Então ela continua, falando tão rapido e baixo que mal consigo acompanhar:
- Não consegui dormir! Fiquei acordada a noite toda! Como vou dormir sabendo que amanhã eu posso estar na Capital?!
Ela esconde o rosto e percebo que está chorando:
- Eu... E se eu for sorteada?? E se você for?! Quando isso vai acabar??!?
Eu a abraço, tentando acalma-la, mesmo também chorando apenas digo:
- Vai ficar tudo bem.
Não vai ficar, eu sei que não vai. Quatro crianças vão pra Capital, pros Jogos Vorazes. Não tem como ficar bem.
-NUNCA!! ISSO NUNCA VAI ACABAR!!! Sempre vamos ser animais na visão deles!!!
Ela grita e se tranca no banheiro. Só me resta descansar por 10 minutos e acordar como se tivesse dormido a noite toda.
Consigo dormir por alguns minutos, não pelo silêncio do quarto mas pelo cansaço, levanto da cama arrumo meu cabelo e vou tomar café da manhã. Minha mãe, meu pai e Merrilee já estão na mesa, minha mãe sempre é falante e mandona, mas agora está quieta, ela só diz:
- Os vestidos de vocês estão no armário.
E sai, meu pai sai com ela. Enquanto eu e Merrilee nos olhamos sabendo o que nos espera: dois vestidos quase iguais, o meu roxo e o dela rosa. Minha irmã já se vestiu enquanto eu cantarolava uma música para afastar todos os pensamentos sobre a colheita:
Você, a caminho dos céus,
O doce doravante,
E estou com um pé na porta.
Mas antes que eu possa voar,
Tenho pontas soltas a amarrar,
Bem aqui
No nosso hodierno.
Não sei que música é essa. Eu já ouvi Burdock e Lenore Dove canta-lá, gosto como ela soa. Visto o vestido e coloco todos os acessórios possíveis, não todos, mas os que combinam com o lavanda do vestido. Olho pra Merrilee e percebo como estamos parecidas.
Vou me encaminhar
Quando a música acabar,
Quando tiver fechado a banda,
E acabado a ciranda,
Quando estiver sem dívida,
Sem arrependimento na vida,
Bem aqui,
No nosso hodierno,
Quando mais nada
For eterno.
Olho para o espelho e penso nas minhas chances, cinco, cinco vezes o meu nome esta na colheita. Nunca precisei comprar uma téssera, nem Merrilee, não nos falta muito dinheiro já que todos da família podem trabalham na loja. Começo a mexer nos meus acessórios, é o que eu faço quando fico nervosa. O tempo passa rápido, eu continuo a cantarolar a música, em um segundo estou em casa e no outro na fila das garotas de 16 anos. Aceno para Asterid, eu e Merrilee paramos ao lado dela, sem falar nada, ela começa uma conversa falando sobre alguma coisa que não tenho tempo pra prestar atenção no dia da colheita.
Assim, de repente, a colheita começa: tocam o hino e uma moça mal-vestida da Capital, acho que seu nome é Drusilla, começa falar. Não presto atenção, não consigo, só vejo quando ela pega um papel e lê o nome:
-Louella McCoy!
Dou um suspiro de alívio e depois me arrependo, eu conheço Louella. Louella McCoy é uma garotinha adorável que vai de vez enquando na loja para comprar doces ou algo para sua mãe, seu irmão é um completo idiota que tenta flertar comigo sempre que me vê, acho que a mãe dela é costureira.
Drusilla fala o segundo nome:
-Quem vai se juntar a Louella é...
Prendo a respiração.
-Maysilee Donner!
E assim continuo, sem respirar. Talvez seja assim que o mundo acaba: rápido e silenciosamente.
Quando a pureza de um pássaro alcançar,
Quando tiver aprendido a amar,
Bem aqui,
No nosso hodierno,
Quando mais nada
For eterno.
Meu rosto congela, no meu cérebro se passam milhões de coisas ao mesmo tempo. Maysilee Donner. Será que ouvi mesmo meu nome? Olho ao redor Merrilee e Asterid estão chorando, todos estão olhando pra mim. Dou um passo para frente e minha irmã me abraça, eu a abraço de volta, ela diz:
-Vai ficar tudo bem.
Não vai, nós duas sabemos que não. Isso nunca vai acabar. Sempre vai existir colheita. Ando em frente de cabeça erguida, não quero que a capital se divirta com a minha dor. Subo no palco e fico em pé ao lado de Louella, enquanto Drusilla apresenta o sorteio dos garotos.
O mundo para e tudo parece em câmera lenta, não quero olhar para minha família, não ver nada, apenas fecho os olhos e respiro - o ar daqui não é como o da colina - troco minhas pulseiras de braço duas vezes, sinto que vou desmaiar. Drusilla anuncia o terceiro tributo do distrito 12:
- E o primeiro cavalheiro que vai acompanhar essas damas é...
Respiro fundo.
-Wyatt Callow!
Não o conheço bem, Wyatt Callow. Ele deve ter dezoito anos já que deixou a escola ano passado, seu pai trabalha com apostas ilegais, o que faz com que seja mal falado... Enquanto relembro as poucas coisas que sei sobre Wyatt, Drusilla me afasta de meus pensamentos gritando no microfone:
- E o garoto número dois é...
Me preparo para o choque que me atinge sempre que a aguda voz de Drusilla sentencia alguém a morte.
-Woodbine Chance!
Woodbine, um garoto que de acordo com as fofocas está envolvido com os rebeldes; claro, os Chance sempre estão; dá um passo a frente e em um movimento rápido corre em direção a um beco como se pudesse escapar. Não dá pra escapar da Capital com vida, não dá pra fugir. Talvez morrer seja a única saída para a crueldade da Capital, comprovando meu pensamentos ouço um tiro que explode a cabeça de Woodbine Chance.
Por um segundo penso em fazer o mesmo, fugir para a morte, mas meu corpo não se meche. Um lampejo passa pela minha mente, talvez eu tenha chance de ganhar. Não deve ser tão difícil, ganhar os Jogos Vorazes e voltar pra casa - Percebo o quão irreal é meu pensamento - Imagino os Jogos Vorazes como algo distante, ainda não me dei conta do quão perto está.
Tento manter a calma, mexo nos meus anéis, observo caos na praça: Os pacificadores tentando tirar o corpo de Woodbine da frente das câmeras, a Sra. Chance tentando abraçar o corpo do filho enquanto Lenore Dove a ajuda, Drusilla gritando no microfone para todos voltarem aos lugares e fingirem que os pacificadores não acabaram de matar um garoto. Não dá, não dá pra fingir, não dá pra esquecer. Fecho os olhos de novo só ouvindo o microfone, a multidão e o som do desespero martelando no meu cérebro.Tiro pro alto, todos os na chão, continuo em pé porque acho que ainda estão filmando. Só abro os olhos quando as pessoas param de gritar e tem armas apontadas para todo mundo, vejo que um pacificador levanta o rifle pra bater em Lenore Dove e então rapidamente Haymitch se coloca em sua frente, o pacificador atinge ele com arma.
Fico enjoada, quero vomitar.
- Bom acho que encontramos nosso substituto. - Fala Drusilla com desdém.
Demoro para entender o que ela falou. Colocariam alguém não sorteado na colheita? Penso o quão injusto é e depois lembro que nada disso é justo, nenhum de nós deveria estar aqui.
Drusilla tenta deixar tudo como estava antes do assassinato de Woodbine, não funciona, claro. Todos estão mais assustados do que nunca, mas é a colheita então todos na Capital devem acreditar. Ela re-lê a apresentação e finge sortear os nomes:
- E o primeiro cavalheiro que vai acompanhar essas damas é... Wyatt Callow!
Todos estão sem expressão, inclusive eu, primeiro porque estamos com medo porque das armas que os pacificadores apontam para nós e segundo porque ninguém sabe como reagir a isso. Drusilla coloca a mão no globo e pega um pedaço de papel, mal olha e diz, com o sorriso falso que sempre esta estampado na sua cara:
- E nosso segundo garoto será... Haymitch Abernathy!
Haymitch está imóvel, ainda não se juntou a mim, Louella e Wyatt no velho palco de madeira da praça. Nunca conversamos de verdade, mas sei quem ele é, Haymitch Abernathy tem dezesseis anos, um irmãozinho chamado Sid, é o namorado de Lenore Dove e acho que seu pai morreu nas minas por isso ele ficou alguns dias fora da escola. Na verdade não o conheço, essas são as únicas coisas que sei sobre Haymitch, acho que ele me odeia porque sempre fecha a cara quando eu o atendo na loja, Lenore Dove deve ter falado de mim. Drusilla finaliza a gravação, sorrindo com um batom roxo escuro horrível nos lábios:
- Senhoras e senhores, vamos dar as boas-vindas aos tributos do Distrito 12 da Quinquagésima Edição dos Jogos Vorazes! E que a sorte esteja SEMPRE com vocês!
Observo os outros tributos Louella, Wyatt e Haymitch, não sei o que pensar deles. Acho que deveria estar triste ou chorando, mas acho que essa parte ainda não chegou, a única coisa que sinto é raiva. Raiva da Capital, raiva dos Jogos Vorazes e raiva daquela roupa ridícula da Drusilla!
E assim sem cerimônia o nosso destino é ditado pela Capital, somos tributos, peças no jogo deles. Apenas animais no show de aberrações da Capital.
