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Sete Minutos

Summary:

Cindy, 23 anos, estudante de Moda, tem um conceito para a coleção final: decomposição e renascimento. O que acontece quando as coisas se tocam, se misturam, se transformam. Ela não esperava que o conceito se aplicasse à própria vida — até uma festa, uma garrafa girando, e sete minutos no armário com Caio, 24 anos, publicitário que faz curso de primeiros socorros de seis meses "só por precaução".
Entre encontros que não são encontros ("é pesquisa"), cafés que não são cafés ("é estratégia"), e uma chuva que finalmente molha demais para mentiras, Cindy descobre que renascer é escolher ficar — mesmo com medo, mesmo vulnerável, mesmo amando alguém que insiste em chamá-la de "deusa" e esperar pacientemente que ela acredite.

Work Text:

O apartamento de Cindy e Alê cheirava a tinta acrílica, incenso barato e a inevitável desesperação de estudantes de último período. Estava localizado em um prédio antigo perto da universidade, com paredes finas demais, encanamento barulhento e uma janela que não fechava direito — mas era delas, e isso bastava.

Cindy estava sentada no chão da sala, cercada por tecidos, esboços e três xícaras de café frio. O projeto final de Moda estava espalhado ao redor como crime em cena: um conceito de coleção inspirado em "decomposição e renascimento", que soava mais poético do que realmente era. Ela usava uma camiseta velha de banda cortada, calça de moletom e os cabelos curtos — loiros por fora, rosas por dentro — presos em um coque desgrenhado. Sem maquiagem, sem brincos, sem a armadura que usaria mais tarde.

— Você vai sair daí hoje? — Alê perguntou, surgindo do quarto.

Alê tinha 25 anos, cursava Design de Interiores, e se movia pelo mundo com a economia de palavras de quem preferia que as coisas falassem por si. Hoje usava uma camiseta oversized, calça cargo e o cabelo loiro preso em um coque bagunçado. Não usava maquiagem, nunca usava, e os olhos cinzentos avaliaram a bagunça de Cindy com a paciência de quem já viu aquilo antes.

— Tenho que terminar isso. — Cindy respondeu, sem olhar. — Entrega é segunda.

— É sexta.

— Segunda.

— Cindy. — Alê se sentou no sofá,  ou no que servia de sofá, um monstrengo de veludo verde comprado em brechó. — Você não sai há três dias. Você cheira a solvente.

— Eu cheiro a criatividade.

— Você cheira a banho atrasado.

Cindy finalmente ergueu os olhos. Os azuis, sem a maquiagem de sangue falso que usaria em palcos futuros, pareciam mais jovens. Mais vulneráveis.

— Eu não tenho tempo, Alê. Se eu não entregar isso...

— Você vai entregar. Você sempre entrega. — Alê estendeu o celular. — Mas primeiro, você vai sair. Franco mandou mensagem. Festa na casa do Eloy hoje.

— Eloy?

— Baterista da banda do Franco. Doutorado em Música, 26 anos, apartamento enorme porque a família dele tem dinheiro. — Alê recitou como se lesse ficha. — Franco disse que vai ter gente de Moda lá. Stylist de alguma marca independente.

Cindy hesitou. O lápis de cor parou no papel.

— Que marca?

— Não sei. Algo sobre "sustentável" e "upcycling". — Alê guardou o celular. — Você pode fazer networking. Ou pode continuar aqui, cheirando mal, falando sozinha.

— Eu não falo sozinha.

— Você acabou de discutir com a sua tesoura.

Cindy olhou para a mão. A tesoura estava lá, inocente, refletindo a luz fraca da janela.

— Ela estava sendo teimosa.

— Cindy. — Alê se levantou, foi até ela, ajoelhou-se no nível dos olhos. A voz baixou, tornou-se mais suave. — Eu sei que o projeto é importante. Mas você não é só isso. Vai lá. Uma hora. Duas. Bebe algo, conhece alguém, volta. Eu cuido do incêndio se acontecer.

Cindy estudou o rosto da colega de quarto. Conhecia Alê há dois anos, desde que dividiram o apartamento, e ainda não sabia exatamente o que a fazia funcionar. Sabia que Alê era não-binário, que preferia pronomes neutros, que trabalhava como bartender em festas para pagar as contas. Sabia que Alê tinha um gato chamado Rebelde que morava na casa dos pais porque o prédio não permitia animais. Sabia que, quando Alê dizia "vai lá" com esse tom, era porque realmente achava que deveria ir.

— Duas horas. — Cindy concordou, finalmente. — Se for chato, eu volto.

— Se for chato, você fica e fica chata junto. — Alê sorriu, raro e pequeno. — Vai se arrumar, deusa. Você tem potencial.

— Não me chama assim.

— É verdade.

— Ainda assim.

 

O apartamento de Eloy era, de fato, enorme. Cobertura em bairro nobre, vista para a cidade, móveis que pareciam caros e desconfortáveis. Cindy chegou com Alê às 22h17, já se arrependendo — o lugar estava lotado, a música alta demais, o cheiro de cerveja quente e perfume barato impregnando o ar.

— Eu vou embora. — ela disse, imediatamente.

— Não vai. — Alê segurou seu braço. — Franco tá ali. Vou falar com ele. Você fica aqui, respira, bebe algo.

— Alê...

— Duas horas. — Alê já se afastava, desaparecendo na multidão. — Você prometeu.

Cindy ficou sozinha no meio da sala. A armadura já estava em lugar — jaqueta de couro preta que ela comprara em brechó, saia curta de vinil, meias-arrastão, coturnos de plataforma. A maquiagem de sangue falso nos olhos, os brincos de argola prateada, o piercing na língua roçando os dentes enquanto ela procurava uma saída digna.

— Você parece perdida.

A voz veio da esquerda. Cindy se virou, pronta para o ataque — mas parou.

O homem era alto. Robusto. Cabelos pretos com uma mecha vermelha, olhos castanhos com maquiagem preta esfumada embaixo, sobrancelha chaveada, piercings no nariz e na boca, barba por fazer. Usava uma camiseta de banda apertada demais, calça jeans rasgada, botas de combate. Ele segurava duas cervejas, oferecendo uma.

— Não estou perdida. — Cindy disse, automática. — Estou avaliando.

— Avaliando o quê?

— Se vale a pena ficar.

Ele sorriu. Era um sorriso aberto, desarmante, que transformava o rosto de "possível ameaça" em "cachorro grande e entusiasmado".

— E vale?

— Ainda não decidi.

— Então toma isso enquanto decide. — ele estendeu a cerveja. — Caio, por sinal. Eu sou o Caio.

Cindy aceitou a bebida. Não porque queria, mas porque recusar parecia dar a ele alguma vitória.

— Cindy.

— Cindy. — ele provou o nome, como se fosse gosto. — Deusa menor, né? A que não é tão famosa mas é mais interessante.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Você está me chamando de não famosa?

— Estou te chamando de interessante. — ele bebeu da própria cerveja. — Tem diferença.

— E você é de quê?

— Publicidade. Último período. — ele fez uma careta. — Vendi minha alma para fazer campanha de cerveja artesanal.

— Trágico.

— Muito. — ele se inclinou, conspiratório. — Mas paga as contas. E me dá acesso a festas assim, onde conheço deusas menores de cabelo rosa.

Cindy quase sorriu. Conteve. Não era para dar satisfação, não era para ser fácil.

— Eu não sou deusa .— ela disse. — Sou estudante de Moda. Faço coleção sobre decomposição.

— Decomposição?

— Corpos. Tecidos. Ideias. — ela gesticulou com a cerveja. — Tudo se decompõe. A questão é o que você constrói em cima.

Caio a estudou. Realmente estudou, os olhos castanhos fixos nos dela de forma que a fez querer se esconder e se mostrar ao mesmo tempo.

— Isso é... — ele parou, procurou a palavra. — Isso é maneiro. É pesado, mas maneiro. Você é assim, né? Pesa as coisas.

— Eu sou assim como?

— Intensa. — ele disse, sem julgamento. — Tipo, você não tá aqui por acidente. Você tá aqui porque decidiu. E se decidir ir embora, vai. Sem olhar pra trás.

Cindy sentiu o calor subir ao rosto. Não era o álcool — ainda não bebera o suficiente. Era... reconhecimento. O tipo que ela não esperava, não desse estranho de cabelo vermelho e sorriso perigoso.

— E você? — ela desafiou. — Você é o quê? Além de publicitário que paga as contas?

— Eu sou... — ele pensou. — Eu sou o cara que faz o curso de primeiros socorros de seis meses porque minha mãe acha que vou me machucar em festa.

Cindy riu. Não conseguiu evitar — o som saiu áspero, surpreso, genuíno.

— Seis meses?

— Seis meses. — ele confirmou, orgulhoso. — Aprendi a fazer Heimlich, compressão no peito, como lidar com hemorragia...

— Você está tentando me impressionar com primeiros socorros?

— Estou tentando te impressionar com dedicação. — ele corrigiu. — Seis meses, Cindy. Isso é comprometimento.

Ela riu de novo. E dessa vez, não se conteve.

Horas depois da festa onde todos estavam minimamente embriagados, uma proposta surgiu vinda de Franco: Jogar jogos nostálgicos do Ensino Médio.
A garrafa de vodka girou no centro do círculo. Cindy não sabia como fora parar ali — no chão da varanda, entre pessoas que não conhecia, com Caio sentado exatamente do outro lado. Alê estava ao lado dela, finalmente reaparecido, com Franco ao lado — o garoto de 19 anos, cursando Engenharia de Som, que parecia responsável por metade das pessoas ali estarem presentes.

— Regras. — Franco anunciou, animado. — Verdade ou desafio. Recusar é punição. Punição é beber o copo do Eloy.

Eloy, o dono da casa, ergueu um copo de algo que parecia perigoso. Tinha 26 anos, cabelos castanhos longos, olhos verdes cansados de quem já vira festas demais. Cursava Doutorado em Música e, segundo Franco, "tocava bateria em banda de bar aos fins de semana".

— Meu copo é sagrado. — Eloy disse, sem emoção. — Bebam por sua conta e risco.

A garrafa girou. Parou em uma garota de Publicidade que Cindy não conhecia. Verdade. Pergunta embaraçosa. Resposta constrangedora. Riso geral.

Girou de novo. Parou em Franco. Desafio. Ele teve que fazer 10 polichinelos bêbado. Caiu no terceiro.

Girou. Parou em Alê. Verdade. "Você já beijou alguém nesta festa?" Alê olhou para Franco, depois para longe, e disse "não" de forma que ninguém acreditou.

Girou.

Parou em Cindy.

— Verdade. — ela disse, automática. Não faria desafio. Não conhecia essas pessoas o suficiente.

— Verdade! — Franco celebrou. — Alguém pergunta!

— Eu pergunto. — Caio disse, antes que pudessem intervir.

O silêncio foi constrangedor. Ou seria, se Cindy não estivesse ocupada encarando-o.

— Pergunta. — ela ordenou.

— Você... — ele hesitou, e pela primeira vez pareceu nervoso. — Você já ficou com alguém que conheceu em festa e depois se arrependeu?

Ela estudou o rosto dele. A pergunta tinha camadas — não era só curiosidade, era... teste. Ele estava testando as águas, vendo se ela era do tipo que se arrependia, do tipo que fugia, do tipo que ficava.

— Sim. — ela admitiu. — Várias vezes.

— E agora? — ele perguntou, baixinho. — Você vai se arrepender de ficar?

A garrafa girou antes que ela pudesse responder. Parou em Caio.

— Desafio. — ele disse, imediato, os olhos ainda nos dela.

— Desafio! — Franco quase gritou. — Alguém propõe!

— Eu proponho. — Alê disse, a voz quieta cortando o barulho.

Todos olharam para Alê. Franco parecia surpreso. Eloy, interessado. Cindy, confusa.

— Sete minutos no paraíso. — Alê disse. — Caio e Cindy. Armário do Eloy. Agora.

O silêncio foi absoluto. Depois, os cochichos começaram.

— Alê... — Cindy começou.

— Você não sai há três dias. — Alê disse, simples. — Você precisa de... inspiração. Para a coleção. Sobre decomposição.

— Isso não faz sentido, meo...

— Faz. — Alê finalmente sorriu, pequeno e torto. — Decomposição é sobre o que acontece quando as coisas se tocam. Se misturam. Se transformam. — o olhar cinzento encontrou o dela. — Vai lá, deusa. Sete minutos.

Caio já estava de pé. Estendeu a mão para Cindy — grande, calosa, com tatuagens que ela não conseguia identificar.

— Eu não mordo. — ele disse. — A menos que peçam.

— Eu não peço. — ela respondeu, automática.

— Então eu não mordo.

Ela pegou a mão dele. Deixou que a puxasse para cima, através da multidão, em direção ao corredor. Sentia os olhares nas costas, os cochichos, a expectativa. Odiava ser centro de atenção assim, fora de controle. Mas a mão dele era quente, e ele caminhava como se soubesse exatamente onde ia, e havia algo no peito dela que não reconhecia.

O armário do Eloy era, na verdade, um closet de roupas de inverno. Pequeno, escuro, cheirando a sachê de lavanda e mofo. Caio entrou primeiro, puxou-a para dentro, fechou a porta.

A escuridão foi total por um segundo. Depois, a luz fraca de um celular — ele acendera a lanterna, colocara o aparelho no chão, criando uma iluminação que os fazia parecer fantasmas.

— Sete minutos. — ele disse, a voz mais grave no espaço fechado. — A gente pode ficar em silêncio. Ou pode conversar. Ou...

— Ou? — ela provocou, embora a garganta estivesse seca.

— Ou pode me beijar e eu finjo que fui eu que forcei. Para você não perder a pose de durona.

Cindy riu — o som saiu estrangulado, surpreso.

— Você é ridículo.

— Eu sei.

— Você não me conhece.

— Eu sei. — ele se aproximou, devagar, dando espaço para ela recuar. Ela não recuou. — Mas quero conhecer. E sete minutos é pouco tempo, Cindy. Então... — ele parou, a boca perto da orelha dela. — Me ajuda aqui. Diz o que você quer.

Ela queria. Queria tanto que doía — queria o beijo, queria a proximidade, queria a coragem de ser vulnerável sem parecer fraca. Queria que ele a beijasse sem que ela precisasse pedir, para que pudesse dizer que não foi escolha dela, que foi acidente, que não significava nada.

Mas Caio esperava. E esperava. E ela percebeu, com algo entre raiva e admiração, que ele não ia ceder. Que ele a deixaria escolher.

— Eu não peço — ela sussurrou, mais para si mesma do que para ele.

— Então não peça — ele respondeu, igualmente baixo. — Só fica. Só fica aqui comigo. Sete minutos. Depois você decide se quer fugir ou ficar.

Ela ficou.

O tempo passou estranho no escuro — às vezes rápido, às vezes eterno. Eles não se tocaram, não inicialmente. Apenas respiraram o mesmo ar, sentiram o calor um do outro, existiram na mesma espaço.

— Por que Publicidade? — ela perguntou, finalmente.

— Porque sou bom de falar. — ele disse. — E ruim de ouvir. Publicidade é falar sem ouvir resposta.

— Você está ouvindo agora.

— Estou tentando. — ele hesitou. — Você é difícil de ouvir, Cindy. Você diz uma coisa e quer outra. É... é como tradução. Preciso prestar atenção.

— E você está prestando?

— Toda.

Ela se virou, no escuro, encontrando o rosto dele a centímetros do seu. A barba por fazer, o piercing no lábio inferior, o cheiro de cerveja e algo que era só ele.

— Eu não sei beijar devagar — ela admitiu.

— Eu sei — ele respondeu. — Eu posso ensinar.

— Você é presunçoso.

— Eu sou prático. — a mão dele finalmente a tocou, leve, na cintura. — Seis meses de curso, lembra? Aprendi a ler sinais de emergência.

— Isso não é emergência.

— Não? — os dedos dele apertaram, quase imperceptivelmente. — Seu coração está acelerado. Você está ofegante. E você ainda não fugiu. — ele pausou. — Para mim, isso é emergência. O tipo bom.

Cindy fechou os olhos. Contou até três. E então, antes que pudesse pensar demais, fechou a distância.

O beijo foi colisão. Não devagar, não como ele prometera — ela não sabia fazer devagar, e ele pareceu entender, adaptar-se, encontrar o ritmo dela. Boca aberta, língua encontrando língua, o piercing dele frio contra o dela quente. As mãos dele foram para o rosto dela, segurando, guiando, enquanto as dela agarravam a camiseta dele, puxando-o mais perto.

Era muito. Era sufocante, no espaço pequeno, no calor, na escuridão. Era exatamente o que ela precisava.

Quando se separaram, ambos ofegantes, ele disse:

— Faltam três minutos.

— Eu sei.

— O que você quer fazer com eles?

Ela queria mais. Queria tudo. Queria fugir e queria ficar, ao mesmo tempo, na mesma proporção impossível.

— Eu quero... — ela começou, e parou. Engoliu. — Eu quero que você me beije de novo. E que depois, quando sairmos, você finja que não aconteceu nada. Para eu não ter que explicar.

Caio ficou imóvel. A mão direita ainda no rosto dela, o polegar roçando a pinta perto do nariz.

— Eu não finjo — ele disse, finalmente. — Não sou bom nisso. Mas eu posso... — ele pensou. — Eu posso ser paciente. Posso esperar você estar pronta para admitir que aconteceu.

— Eu não admito nada.

— Então eu espero.

Ele a beijou de novo. Mais suave, desta vez, explorando, aprendendo o mapa da boca dela. Os três minutos restantes passaram em segundos, em horas, em algo fora do tempo.

Quando a porta se abriu — Franco batendo, gritando "acabou o tempo, seus pornôs!" —, eles saíram separados. Não se tocaram, não se olharam. Cindy foi direto para Alê, pegou a jaqueta, disse "vou embora" sem explicar.

— Cindy... — Alê começou.

— Eu volto para casa. Sozinha. Preciso... preciso trabalhar.

Ela não olhou para trás. Não viu Caio no corredor, não viu o olhar dele seguindo-a, não viu o sorriso pequeno e esperançoso que ele guardou para si.

Mas sentiu. Sentiu o beijo nos lábios, a marca da barba dele na pele, a promessa de "eu espero" pendendo no ar como nota musical não tocada.

 

Cindy não dormiu. Trabalhou na coleção até as 6h da manhã, quando o sol começou a entrar pela janela que não fechava direito. Alê encontrou-a assim — sentada no chão, cercada de tecidos, os olhos vermelhos, a boca inchada de tanto morder para não pensar.

— Você tá bem? — Alê perguntou, sentando-se ao lado.

— Estou.

— Mentira.

Cindy riu, sem humor.

— Óbvia?

— Muito. — Alê hesitou. — Ele te procurou. Caio. Mandou mensagem no grupo da festa, perguntando se você chegou bem em casa.

— Vocês têm grupo?

— Franco adicionou todo mundo. — Alê mostrou o celular. — Ele disse: "A Cindy saiu correndo. Queria saber se chegou bem. Não precisa responder se ela não quiser."

Cindy olhou para a tela. A mensagem. O nome dele. A preocupação que não parecia falsa.

— Eu não quero que responda — ela disse.

— Eu sei.

— Mas...

— Mas? — Alê ergueu uma sobrancelha.

— Mas... — Cindy engoliu. — Mas diz que eu cheguei. Que estou bem. Que... que obrigada pelo beijo.

Alê digitou. Enviou. O som da mensagem partindo pareceu definitivo.

— E agora? — Alê perguntou.

— Agora eu termino essa coleção. — Cindy pegou o lápis. — E depois... depois eu vejo.

— Você vai vê-lo de novo?

— Provavelmente. — ela desenhou uma linha, apagou, desenhou de novo. — Franco é amigo dele. A gente vai se cruzar.

— E quando se cruzar?

Cindy finalmente olhou para Alê. Para a colega de quarto que a conhecia melhor do que ela gostava, que a empurrara para o armário, que a observava agora sem julgamento.

— Quando se cruzar, eu vou fingir que nada aconteceu. E ele vai deixar. E depois, quando eu não aguentar mais, eu vou até ele e vou dizer que mudei de ideia. Que quero que aconteça de novo. Que... — ela parou, surpresa com a própria honestidade. — Que eu não sei fazer isso, Alê. Não sei gostar de alguém sem me sentir vulnerável.

Alê sorriu. Pequeno, raro, genuíno.

— Ninguém sabe, Cind. A gente só finge até ficar bom.

— Você finge?

— Todo dia. — Alê se levantou, foi em direção à cozinha. — Café. Você precisa. E depois, a gente conversa sobre como você vai "casualmente" encontrar o Caio na próxima festa.

— Eu não disse que queria encontrá-lo.

— Disse sim. — a voz de Alê veio da cozinha, acompanhada do som da cafeteira. — Só não usou essas palavras.

Cindy olhou para o desenho. A coleção sobre decomposição e renascimento. O que acontece quando as coisas se tocam, se misturam, se transformam.

Pensou em sete minutos no escuro. Em "eu espero". Em mãos quentes e boca que sabia esperar.

E, pela primeira vez, permitiu-se sorrir.

- Alguns dias depois. -

Cindy não foi à festa seguinte. Foi à outra, três semanas depois, que Franco mencionou "sem querer" ser na casa de Alguém, não do Eloy, completamente diferente, não tinha nada a ver.

Ela acreditou em si mesma por exatos quinze minutos.

— Você tá nervosa — Alê observou, no Uber.

— Eu não fico nervosa.

— Você tá usando a saia que você disse que odeia.

— Eu mudei de ideia.

— E o batom vermelho. Que você guarda pra ocasiões especiais.

— Todas as ocasiões são especiais.

Alê não respondeu. Apenas sorriu, pequeno e torto, e olhou pela janela.

A festa era, de fato, em outro lugar — um apartamento menor, mais sujo, cheirando a maconha e cerveja quente desde a entrada. Mas Caio estava lá, encostado na parede da cozinha, e Cindy sentiu o estômago revirar quando os olhos dele encontraram os dela.

Ele não veio até ela. Ficou onde estava, sorrindo, esperando.

Esperando, ela pensou. Sempre esperando.

— Eu vou buscar bebida — ela disse a Alê.

— Claro.

— Não é pra ele. É porque eu tenho sede.

— Claro.

— Alê...

— Vai, deusa. Antes que ele morra de velho esperando.

Cindy foi. Caminhou até a cozinha com a postura que usava em desfiles imaginários — ombros para trás, queixo erguido, olhos matando. Caio a observava, a mecha vermelha do cabelo caindo sobre a testa, a cerveja quase cheia na mão.

— Oi — ela disse, parando perto demais.

— Oi.

— Você está diferente.

— Cortei o cabelo — ele tocou a nuca, desajeitado. — Você não notou na última festa.

— Eu não fiquei o suficiente para notar.

— Eu sei. — ele sorriu, e havia algo triste no canto. — Você fugiu.

— Eu não fujo. Eu... me retiro estrategicamente.

— É o que você diz.

— É o que eu faço.

Caio riu, o som grave cortando o barulho da festa. Ele se inclinou, conspiratório:

— Quer saber uma coisa? Eu aprendi no curso de primeiros socorros de seis meses que fugas estratégicas podem ser sinais de... — ele parou, viu o olhar dela, e ergueu as mãos em rendição. — Tô calmo. Prometo.

— Você é insuportável.

— E você é linda quando insulta pessoas.

Cindy queria responder, queria algum comentário afiado, alguma defesa. Mas então alguém passou batendo nela, derrubando parte da bebida no chão, e Caio automaticamente a puxou para si, protegendo-a com o corpo.

— Desculpa, mano! — o desconhecido gritou, já longe.

Cindy ficou imóvel. O peito dele era firme, quente, subindo e descendo com a respiração. As mãos dele estavam na cintura dela, grandes, seguras.

— Você me chamou de mano. — ela disse, sem pensar.

— Foi ele, não eu.

— Você riu.

— Foi engraçado. — ele não se afastou. — Você ficou vermelha.

— Eu não fico vermelha.

— Está agora.

Ela se afastou, abrupta, sentindo o calor no rosto. Caio a deixou ir, as mãos caindo aos lados, mas o sorriso permaneceu.

— Sete minutos. — ele disse.

— O quê?

— Foi o que a gente teve. No armário. — ele bebeu da cerveja, os olhos nunca deixando os dela. — Eu quero mais. Não no escuro. Não por desafio. Só... mais.

Cindy engoliu. Olhou para a festa, para Alê no canto, para Franco tentando tocar violão bêbado. Olhou para as próprias mãos, com os anéis pretos, com as unhas pintadas de preto descascando.

— Café. — ela disse, finalmente.

— Café?

— Amanhã. Dez horas. Na padaria da esquina da faculdade. — ela já se afastava, já reconstruindo as muralhas. — Não é encontro. É... pesquisa. Para minha coleção.

— Pesquisa?

— Moda. Pessoas. Como elas se vestem para café da manhã.

Caio riu, alto, genuíno.

— Eu visto pijama. É importante para sua pesquisa?

— Não vista pijama.

— Então é encontro.

— É pesquisa!

Ela desapareceu na multidão, o coração acelerado, a boca seca. Caio ficou onde estava, sorrindo para a cerveja quente, contando as horas.

Ele não vestiu pijama. Vestiu calça jeans, camiseta preta simples, a jaqueta de couro que ele disse "não era de verdade, era sintética, muito mais ética". Cindy notou. Notou tudo — a barba aparada com cuidado, a mecha vermelha mais viva que antes, o perfume barato que cheirava a algo que poderia ser ele.

Ela usou o vestido que Alê escolhera. Preto, curto, com fendas que não pedira. Sentiu-se exposta, odiou-se por se importar, odiou-o por fazer com que se importasse.

— Pesquisa? — ele perguntou, sentando-se na frente dela.

— Pesquisa.

— E o que você descobriu até agora?

— Que você chega cedo. — ela apontou para o relógio. 9h47. — Eu disse dez.

— Eu sou ansioso. — ele sorriu para a garçonete, pediu café preto. — E eu queria escolher a melhor mesa. Para a pesquisa.

— A melhor mesa é a mais escondida?

— É a que tem visão da porta. Para te ver chegar.

Cindy sentiu o calor subir novamente. Maldito. Maldito ele, e maldito ela por não conseguir controlar.

— Isso é assédio — ela disse, sem convicção.

— Isso é interesse. — ele corrigiu, sério de repente. — Tem diferença. Eu não te segui. Eu não te forcei. Eu só... fiquei feliz de ver você. E quis que você soubesse.

Ela não soube responder. O café chegou, salvando-a. Beberam em silêncio que não era constrangedor, apenas... cheio. Cheio de coisas não ditas, de possibilidades, de medos que ambos carregavam.

— Eu não sei fazer isso — Cindy admitiu, finalmente, olhando para a xícara.

— Fazer o quê?

— Isso. Sentar. Conversar. Ser... — ela gesticulou, frustrada. — Normal.

Caio pensou. Pôs a xícara de lado, inclinou-se para frente.

— Então não seja. — ele disse, simples. — Seja anormal. Seja intensa, dramática, a pessoa que discute com tesoura e foge de festas. Só... só fica. Um pouco mais. Cada vez.

— Por quê?

— Porque quando você fica — ele sorriu, triste e esperançoso —, você é a coisa mais interessante que já vi.

Cindy olhou para as mãos dele na mesa. Grandes, calosas, com tatuagens que ela ainda não conhecia. Quis tocá-las. Não tocou.

— Próxima semana — ela disse, levantando. — Mesmo horário. Mesma mesa. É... continuação da pesquisa.

— Claro. — ele não se moveu, não tentou segurá-la. — Pesquisa.

Ela foi até a porta. Parou. Olhou por cima do ombro.

— Caio?

— Sim?

— Você cheira bem. Para pesquisa.

E saiu, rápida demais para ver o sorriso dele iluminar o café inteiro.

O terceiro encontro — não-encontro, pesquisa — foi na biblioteca da faculdade. Cindy precisava de referências para a coleção, disse. Caio apareceu com três livros de arte que "encontrara sem querer, estavam na minha prateleira, não uso mesmo".

Eles sentaram no andar de cima, entre estantes vazias de sábado à tarde. O silêncio era pesado, sagrado, quebrado apenas pelo som de páginas virando.

— Você tem uma cicatriz. — Caio observou, baixinho, apontando para o braço dela.

Cindy automaticamente puxou a manga. O gesto foi rápido, defensivo, velho.

— Acidente de infância. — ela mentiu.

— Eu tenho também. — ele rolou a manga da camiseta, revelando uma marca branca no antebraço. — Skate. Caí tentando impressionar uma garota.

— Funcionou?

— Ela riu. Eu fui para o hospital. — ele sorriu. — Mas a enfermeira disse que eu fui corajoso. Então valeu a pena.

Cindy quase sorriu. Quase.

— Por que você faz isso? — ela perguntou.

— O quê?

— Isso. Conta coisas. Se expõe. — ela se virou para ele, séria. — Eu poderia usar isso contra você.

— Você não vai.

— Como sabe?

Caio fechou o livro. Olhou para ela, realmente olhou, com aquela intensidade que a fazia querer se esconder e se mostrar ao mesmo tempo.

— Porque você também conta coisas. — ele disse, suave. — Ontem, você me disse que odeia sextas-feiras porque seu pai sempre sumia nesse dia. Não pedi. Você só disse. E eu guardei. E não usei contra você.

Cindy sentiu o ar faltar. Ela tinha dito. Bêbada, talvez, ou cansada, ou simplesmente... confortável demais. E ele guardara. E não usara.

— Eu não confio em pessoas — ela sussurrou.

— Eu sei. — ele estendeu a mão, devagar, dando tempo para ela recuar. Ela não recuou. Os dedos tocaram os dela, leve, quase nada. — Mas você está tentando. E isso é mais que a maioria.

Eles ficaram assim, mãos quase entrelaçadas, até o sol começar a se pôr e a biblioteca anunciar fechamento.

O quarto encontro foi culpa de Franco.

— Sorveteria nova. — ele anunciou no grupo. — Aberto 24h. Quem vem?

Cindy não respondeu. Caio respondeu "talvez". Alê disse "vou se a Cindy for". Franco disse "então a Cindy tem que ir, obrigado Alê, você é o melhor".

Ela foi. Com raiva, de jaqueta de couro e cara fechada, mas foi.

Franco trouxe Eloy, o baterista de 26 anos que parecia sempre cansado. Alê trouxe Rebelde, o gato, escondido na bolsa — "não deixo sozinho, ele tem ansiedade". E Caio trouxe um sorriso que dizia "eu sei que você veio por causa de mim e estou tentando não parecer presunçoso".

— Eu vim porque queria sorvete — Cindy disse, antes que perguntassem.

— Claro — Caio concordou, sério. — Pesquisa. Para coleção. "Sorvete: uma análise têxtil das cores de sabor".

— Você é insuportável.

— E você está usando meu batom favorito. O vermelho. — ele corrigiu, baixinho, só para ela ouvir. — Coincidência?

Cindy sentiu o calor. Odiava. Amava. Não sabia mais a diferença.

Eles sentaram em uma mesa redonda, cinco pessoas e um gato. Franco falava sobre Engenharia de Som, sobre bandas, sobre como Eloy era "o melhor baterista que já viu, mano, sério, você precisa ouvir". Eloy assentia, quieto, os olhos verdes observando Alê alimentar Rebelde com colher de sorvete. Alê não falava, apenas existia, confortável no silêncio.

E Caio — Caio fazia o que fazia melhor. Encher o espaço vazio com palavras até que Cindy não precisasse se sentir obrigada a falar.

— ...e aí o instrutor disse, "você não pode fazer RCP em alguém que está respirando", e eu disse, "mas e se ele está respirando errado?" — Caio gesticulava, animado. — Seis meses de curso, Cindy. Seis meses e eu ainda não sei se existe respiração errada.

— Existe. — Eloy disse, raro. — Minha ex respirava pela boca. Era horrível. Parecia Darth Vader.

Riso geral. Até Cindy riu, contra a vontade, o som escapando antes que pudesse segurar.

Caio a olhou. Parou de falar. Apenas olhou, como se ela fosse a coisa mais preciosa que já vira.

— O quê? — ela se defendeu.

— Nada. — ele sorriu, voltando para o sorvete. — Só... você deveria rir mais. Para sua pesquisa.

— Para minha pesquisa?

— Riso é importante para saúde. E saúde é importante para moda. Alguma coisa sobre... pele? Glow?

— Você é ridículo.

— E você está sorrindo de novo.

Ela estava. E não parou.

 

O quinto encontro não foi planejado.

Cindy saía da aula de Moda, tarde, chuva torrencial. Não tinha guarda-chuva — claro que não tinha, porque ela era assim, porque o mundo deveria se adaptar a ela e não o contrário. Ficou na porta do prédio, amaldiçoando, considerando correr.

— Cindy!

Ela se virou. Caio correndo pela calçada, jaqueta sintética sobre a cabeça, já encharcado.

— O que você está fazendo aqui? — ela exigiu.

— Publicidade. Prédio ao lado. — ele parou, ofegante, sorrindo apesar da água escorrendo pelo rosto. — Vi você da janela. Pensei, "ela não tem guarda-chuva". Vim confirmar.

— Confirmou. Pode ir embora.

— Não posso. — ele tirou a jaqueta, a estendeu sobre as cabeças deles — pequena demais, inútil, perfeita. — Seis meses de curso, Cindy. Aprendi que deixar pessoas na chuva causa pneumonia. E pneumonia é feia. Para sua pesquisa.

— Não existe pesquisa!

— Eu sei. — ele estava perto demais, cheirando a chuva e café e algo que era só ele. — Eu sei, Cindy. Mas se eu disser que é encontro, você foge. E eu não quero que fuja. Então... — ele sorriu, triste, esperançoso. — Então eu finjo que acredito na pesquisa. Até você estar pronta.

A chuva caía. A jaqueta deles não cobria nada. E Cindy, pela primeira vez, não quis fugir.

— É encontro — ela disse, baixinho.

— O quê?

— Eu disse... — ela engoliu, forçou as palavras. — Eu disse que é encontro. Que você pode chamar de encontro. Que eu... que eu quero que seja encontro.

Caio ficou imóvel. A jaqueta escorregou, esquecida. A chuva os molhava, e nenhum dos dois se importou.

— De novo. — ele pediu, a voz rouca. — Diz de novo. Para eu ter certeza que não imaginei.

— É encontro, seu idiota. — ela repetiu, e havia lágrimas misturadas com a chuva, e ela não sabia de onde vinham. — É encontro, e eu gosto de você, e eu tenho medo, e eu não sei fazer isso, mas eu quero tentar. Eu quero...

Ele a beijou. Na chuva, na porta da faculdade, com gente passando e olhando e provavelmente filmando. Beijou-a como se ela fosse ar, água, a única coisa que importava.

Quando se separaram, ambos ofegantes, ele disse:

— Eu não vou mencionar o curso de seis meses por uma semana inteira.

— Você não consegue.

— Eu consigo. — ele prometeu, sério. — Para você. Eu faço qualquer coisa para você.

Cindy riu, molhada, desgrenhada, sem maquiagem de sangue ou armadura de atitude. Apenas ela. Apenas verdade.

— Sete minutos. — ela disse.

— O quê?

— No armário. Foi onde começou. — ela tocou o rosto dele, a barba molhada, o piercing frio. — Agora eu quero mais. Horas. Dias. O quanto você der.

Caio fechou os olhos. Inclinou a testa contra a dela.

— Eu dou tudo — ele sussurrou. — Sempre foi tudo. Desde o primeiro olhar.

— Você é ridículo.

— Seu ridículo.

Ela sorriu, finalmente, sem medo.

— Meu ridículo.

A chuva continuou. Eles não se moveram. E pela primeira vez, Cindy não sentiu vontade de fugir.