Work Text:
Jake não era o tipo de pessoa que se deixava influenciar com facilidade. No entanto, aos 22 anos, atolado em trabalhos da faculdade e com a rotina exaustiva do curso em Medicina Veterinária, ele simplesmente não tinha tempo para pensar em relacionamentos, mergulhado em uma solteirice crônica. Mas algumas situações exigem medidas drásticas, e o casamento de seu primo, Jongseong, era uma delas. Foi em uma madrugada qualquer, enquanto tentava focar em algumas videoaulas no YouTube, que um anúncio surgiu na tela. Sem pensar duas vezes, Jake decidiu dar um check no site que prometia tirá-lo, de uma vez por todas, da categoria de "solteiro desesperado" da família.
Não antes, é claro, de ter uma longa conversa com seu melhor amigo e colega de curso, Park Sunghoon, pesando todos os prós e contras daquela loucura. O site oferecia um serviço completo: era possível escolher entre diferentes arquétipos de personalidade ou até customizar o "par ideal" do zero. Além disso, permitia selecionar o estilo de vestimenta, gostos particulares e deixava o cliente totalmente à vontade para criar a própria fanfic de como teriam se conhecido. Tudo isso com planos mensais adaptáveis ao critério de quem pagava.
Na cabeça de Jake, a lógica era simples: tirando o risco bobo de se apaixonar, o que ele jurava ser impossível dadas as circunstâncias contratuais, o que mais poderia dar errado?
Como em toda boa e clássica comédia romântica, tudo estava em jogo. A princípio, Jaeyun pensou que pudesse estar caindo em um belo golpe, especialmente quando o site solicitou seu endereço residencial, alegando que o "pacote" apareceria em sua porta em até sete dias úteis após a confirmação do pagamento. É claro que ele leu e releu cada termo de conscientização descrito no portal; afinal, ninguém seria louco o suficiente para passar o próprio endereço a um estranho sem suspeitar da possibilidade de um sequestro ou perseguição, certo?
Mas, no fim das contas, o risco ainda parecia aceitável. Era isso ou ter que implorar, chorar e se humilhar para que Sunghoon fingisse ser seu namorado. E Jake sabia que receberia um "não" certeiro como resposta. Além disso, seria improvável que alguém de sua família levasse o namoro a sério, já que Sunghoon era a definição de arromântico, exalava uma frieza emocional absurda e, para piorar, era um dos amigos mais próximos de seu primo Jay.
Nada, porém, preparou Jake para o que aconteceu naquela quinta-feira. Após um longo dia na universidade, já de banho tomado e concentrado em sua rotina de skincare — afinal, como um jovem solteiro e sem muitos hobbies, o que de melhor ele poderia fazer além de dormir cedo? —, a campainha tocou às 20h.
E lá estava ele: Lee Heeseung, parado em sua porta.
Quando Jake finalizou sua inscrição no site, provavelmente ignorou as letras miúdas que diziam que o "pacote" teria que dividir a moradia com ele até o fim do contrato, ou até uma eventual renovação. Por isso, quando Heeseung surgiu à porta de seu apartamento às oito da noite, segurando uma mala de viagem e uma bolsa de mão, a expressão de Jake foi de puro choque. O impacto só piorou conforme o recém-chegado explicava, com uma calma desconcertante, que sua estadia ali era obrigatória até o encerramento do serviço.
Jake não podia culpá-lo; afinal, fora seu próprio descuido não se ater àqueles pequenos detalhes contratuais. No fundo, a cláusula fazia sentido: para sustentar a fachada de um "relacionamento real", eles precisariam de intimidade e convivência. Com a rotina caótica de Jake de passar praticamente o dia todo na universidade, seria quase impossível construírem uma história convincente se fossem se ver apenas nos fins de semana.
Ainda assim, encarar Heeseung ali, invadindo seu espaço pessoal com um sorriso sereno que parecia ignorar completamente o caos que estava instaurando na mente de Jake, era algo para o qual ele definitivamente não estava preparado.
Jake decidiu não fritar o cérebro pensando no assunto àquela hora da noite; apenas mostrou a Heeseung onde ficava o quarto de visitas antes de se retirar. Deixaria os problemas para o Jake do dia seguinte resolver. O resultado disso foi uma manhã atípica. Ele acordou com o som do alarme e, logo em seguida, estranhou os barulhos vindos da cozinha, ele já havia esquecido que agora havia mais uma pessoa inserida em sua rotina. Ao chegar à cozinha, Jake deu de cara com Heeseung, que usava um avental rosa e preparava o café da manhã com uma naturalidade tão absurda que parecia conhecer cada canto daquela casa há anos. Jake teve que confessar a si mesmo que a cena era, no mínimo, adorável, mas preferiu não aprofundar o pensamento.
— Então... temos café da manhã incluso no pacote ou isso é apenas um agrado pessoal? — perguntou, encostando-se no balcão da cozinha enquanto tentava despertar de vez.
— Pensei que pudesse ganhar pontos positivos sendo o responsável pelo café — respondeu o garoto, enquanto colocava os pratos na mesa.
Jake se aproximou para olhar e viu que havia carinhas desenhadas nas panquecas, o que o fez soltar uma risada genuína, quebrando o gelo da manhã.
— Hum, talvez tenha ganhado... — Jake murmurou, rendido. — Olha, logo vou ter que sair para a faculdade, mas como hoje as aulas acabam mais cedo, podemos conversar sobre os horários e o funcionamento de tudo quando eu voltar, tudo bem? Ainda tem muita coisa que eu preciso entender.
— Eu vou ficar por aqui, então. Vai precisar que eu faça alguma coisa? Vá às compras, lave as roupas? — perguntou Heeseung, enquanto começava a lavar a louça na pia com uma domesticidade que Jake ainda estava estranhando.
— Não, pode organizar suas coisas. Tenho certeza de que o quarto de hóspedes é grande o suficiente para tudo. Quando eu voltar à tarde, a gente acerta essa questão da rotina, tá bom? Enfim... obrigado pelo café. Preciso tomar um banho rápido e sair logo, senão vou me atrasar — respondeu Jake, colocando seu prato na pia e saindo da cozinha em direção ao quarto.
Após o banho, já com as coisas organizadas, ele voltou à sala e encontrou Heeseung distraído, admirando alguns enfeites na estante.
— Então, estou saindo agora, mas fique à vontade, tá? Ah, você tem meu número? Qualquer coisa, pode me ligar! Devo chegar perto das 16h30. A chave reserva do apartamento é esta aqui, e a senha tá anotada na geladeira — disse, apontando para o balcão. — E o vizinho do apartamento da frente é meu amigo da faculdade, o Riki. Ele geralmente tá em casa no período da manhã, qualquer emergência, pode chamar ele, ok? Enfim, vou indo que já estou atrasado. Tchau!
Jake falou tudo às pressas enquanto pegava a chave do carro e saía correndo. Assim que fechou a porta atrás de si, ele escorou na madeira e soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um instante. Talvez ele não aguentasse um mês inteiro daquele jeito.
O dia no campus da SNU parecia passar em câmera lenta. Jake estava sentado no fundo da sala, mas sua mente continuava presa à imagem de Heeseung usando aquele avental rosa. Com a rotina densa de estudos e a correria nas trocas de sala, Jake mal conseguia tempo para respirar, exceto no horário do almoço. Aquele plano era algo que apenas Sunghoon tinha conhecimento. Jake não era idiota; sabia que ouviria um longo sermão dos amigos por ter colocado um desconhecido dentro de casa e ainda ter pago por isso. Por isso, evitou abrir o bico durante a refeição, mesmo estando com os nervos à flor da pele. Poderia desabafar com Sunghoon mais tarde.
Enquanto isso, tentava focar no assunto da mesa: o casamento de Jay. Não que Jake tivesse algum problema com o primo; pelo contrário, na família, Jay era quem mais o entendia. Além disso, Jake estava genuinamente animado, pois foi uma das pessoas que ajudou a unir o casal mais famoso da SNU, junto a Sunghoon e Riki. Jungwon cursava Relações Internacionais e Jay, Administração, já que herdaria a empresa do pai. Como se viam com frequência pelos corredores, Jay se interessou pelo garoto, o que fez o trio se unir em uma "missão cupido". Deu certo de um jeito meio atrapalhado, mas não importa os meios já que deu certo no final. Jake e Sunghoon se conheceram logo no início do curso e nunca mais se desgrudaram. Já Riki e Jake se conheceram no condomínio; ao descobrirem que estudavam no mesmo lugar, Jake acabou "adotando" o estrangeiro, se lembrando como tinha sido difícil se adaptar à Coreia sem a ajuda de Jay. Apesar das diferenças culturais, eram um grupo funcional, a família mais próxima que Jake tinha.
E era exatamente por isso que ele escondia o segredo sobre Heeseung. Teria que apresentá-lo ao grupo eventualmente, já que o levaria ao casamento, mas adiaria até onde fosse possível e iria omitir a parte do contrato. Sabia que Jay não aprovaria a situação, embora guardasse o segredo da família se Jake pedisse. Contudo, universitários não têm descanso, e o universo resolveu soltar seu teste logo cedo.
— Ah, Jake-hyung! — Riki começou, entre uma garfada e outra. — Quase esqueci de perguntar. Ontem à noite, quando eu voltava da academia, vi um cara estranho parado na porta do seu apê. Até achei que fosse um entregador, mas ele estava cheio de malas. É algum amigo seu?
Naquele momento, Jake agradeceu por não estar bebendo nada, pois teria engasgado. Pensou na conversa apressada que teve com Heeseung sobre pedir ajuda a Riki. Se tivesse acontecido, como Heeseung teria se explicado? "Oi, eu sou o namorado alugado do Jake"? Como Riki era péssimo em guardar segredos, Heeseung claramente ainda não tinha falado com ele. Jake precisava urgentemente de uma lista de mentiras combinadas, pois os amigos desconfiariam de um cara que surgiu do nada.
— Ah, você deve ter visto o Heeseung — respondeu com a maior naturalidade que conseguiu fingir, enquanto tomava um gole de suco para disfarçar o calor subindo pelo pescoço. — Ele era um dos meus melhores amigos quando eu morava na Austrália. Ele vai passar um tempo por aqui e pediu para dividir o apê comigo. Chegou ontem de viagem.
— Nossa, e você nem comentou nada comigo, Jake? Me sinto traído — disparou Sunghoon. Ele não ia facilitar, mas Jake tentou ser mais rápido.
— Foi mal, Hoon! É que estamos em final de semestre e você fica tão focado que eu não quis te distrair com essas besteiras — Jake sorriu, dando um chute nada discreto na perna do amigo por baixo da mesa. Antes que Sunghoon revidasse, Jay o cortou:
— Verdade, Jae. Acho que você não comentou com ninguém sobre esse amigo da Austrália. Achei que você não tinha mais contato com o pessoal de lá.
— É que o Heeseung foi um dos únicos com quem mantive contato, sempre fomos muito próximos. Qualquer dia apresento ele a vocês, vão adorar! — Jake começou a recolher suas coisas, desesperado. — Mas enfim, eu e o Hoon temos que ir. As próximas aulas são naqueles prédios distantes e vai levar um tempo, né, Hoon?
Jake praticamente arrastou Sunghoon para longe antes que o amigo pudesse abrir a boca. Acenou rapidamente para os outros e saiu do refeitório quase correndo.
Sunghoon tinha um talento especial para irritar Jake, e, naquele exato momento, era exatamente o que ele estava fazendo: encarando ele como se soubesse de todos os seus pecados. Jake resolveu que não cederia, ele iria esperar até o final da aula para contar os últimos acontecimentos. No entanto, percebendo a resistência, Sunghoon começou a chutar a cadeira de Jake, o que o irritou ainda mais. Rendido, Jake suspirou e pegou o celular para responder às dezenas de mensagens que já haviam chegado. Era aquilo ou começar a cochichar no meio da aula, e Jake achava isso um desrespeito com o professor, embora o Sr. Kang fosse um chato. Ele abriu o chat, embora ainda meio culpado por estar fazendo isso em aula.
[Chat: Sunghoonie]
Sunghoonie: Heeseung?
Sunghoonie: Você não me falou que ele já tinha chegado!
Sunghoonie: Ele não fez ou falou nada estranho né?
Sunghoonie: Sério, você tinha ter passado esse contrato para um advogado ler antes de assinar.
Sunghoonie: E você NÃO comentou que ele iria ficar na sua casa. Isso não tá tipo GRITANDO RED FLAG??
Sunghoonie: Mas mudando o assunto... o cara é bonito, pelo menos?
Sunghoonie: Imagina passar por esse caos e o cara ainda ser feio. Aí eu seria obrigado a rir da sua cara.
Sunghoonie: Jake? Me responde. Responde aí, Jake! Vou contar pro Jay se você ficar me ignorando.
Me: Sunghoon, me deixa em paz!
Me: Não dá para esperar o fim da aula? O Sr. Kang está olhando.
Me: E sim... ele é bonito, tipo MUITO.
Depois disso, Sunghoon finalmente parou de importunar, o que foi um alívio, embora a cabeça de Jake continuasse em um turbilhão. A aula acabou passando mais rápido do que o esperado e, assim que cruzaram a porta da sala, Sunghoon não perdeu tempo.
— Pronto, Jaeyun. Agora você vai responder.
— Na verdade, eu queria esquecer que fiz isso. Já estou começando a me arrepender — desabafou Jake, apertando as alças da mochila.
— Uau. Nem um dia de contrato e já querendo fazer a devolução? Ele é tão ruim assim?
— Não é isso, você sabe como eu sou. Mal estou tendo energia para conversar com meus amigos, imagina ter que dividir o apartamento com um estranho. Fora que... o cara é lindo, Hoon. Acredita que ele me fez café da manhã? Nenhum dos meus ex-ficantes fez isso por mim! E o pouco tempo que conversei com ele já me deixou nervoso. Eu não sou bom com relacionamentos, tenho medo de acabar misturando as coisas. Preciso me lembrar o tempo todo de que isso é um contrato e que ele só está seguindo o que eu pedi no site.
Sunghoon suspirou, mudando a expressão de deboche para algo mais sério.
— Sabe, desde o início eu te falei que era burrice. Eu conheço seu coração, Jaeyun, você se apega rápido demais. Mas sobre o café da manhã... eu não lembro de ter lido nada que obrigasse ele a fazer serviços domésticos. Vai ver ele só tá sendo legal mesmo. Se for o caso, tente ser amigo dele para as coisas não ficarem confusas pra você. Já falou com ele sobre isso?
— Ainda não. Quando o síndico ligou avisando que ele estava subindo, fiquei em choque. Não sabia que ele apareceria naquele horário. Nem sei se ontem já contou como nosso primeiro dia oficial. Temos o tempo contado até o casamento do Jay, mas durante a aula fiz uma lista de coisas que precisamos combinar. Principalmente essa história dele ser um amigo meu da Austrália... Só de pensar, já sinto uma dor de cabeça.
— Tenta deixar tudo esclarecido, Jake. Não quero que você se magoe. Sei que a razão principal disso foi o casamento, mas também sei que você tem se sentido sozinho nos últimos meses. Só tenta não se machucar, tá bom? Vou estar aqui para o que precisar.
Sunghoon apertou o ombro de Jake com força, em um gesto de apoio. Eles se despediram e cada um seguiu seu rumo. Agora, Jake teria que enfrentar o último e maior desafio do dia: encarar o homem que não saiu de seus pensamentos por um segundo sequer. Lee Heeseung o esperava em casa.
Quando Jake saiu às pressas, deixando Heeseung sozinho naquele apartamento, ele não pôde negar que achou a cena adorável. Ver o garoto correndo, todo nervoso, o fez pensar que Jake seria um de seus clientes mais difíceis. A maioria das pessoas com quem teve contato antes já sabia exatamente o que procurava ao se inscrever no site: pediam um namorado grudento, alguém para passar horas conversando ou até tipos mais ciumentos. Honestamente, Heeseung acreditava que aquele portal atendia aos fetiches mais peculiares, mas, para ele, era sua renda e uma excelente fonte de experiência.
Jake, no entanto, parecia perdido em comparação aos outros. Ao ler sua ficha, viu que ele precisava apenas de companhia para o casamento de um primo no final do mês. Se fosse apenas isso, um plano diário bastaria; não tinha necessidade de passar o mês inteiro na companhia de um estranho. Mas Heeseung era pago para atender aos desejos dos seus clientes, não para fazer perguntas. A expressão de choque de Jake ao vê-lo na porta no dia anterior fora denunciadora. Ele realmente não sabia como o serviço funcionava, não é? Para ser sincero, Heeseung não gostava de clientes que não especificavam o que buscavam; tornava o trabalho mais complicado, como se estivesse sempre pisando em ovos. Quando alguém ditava o parceiro ideal, ele mergulhava em estudo para se encaixar no padrão, mas a vagueza de Jake o deixava frustrado. Teria que aprender quem era o Jake e sobre seus gostos através da convivência.
Decidido a deixar esses pensamentos de lado, ele foi para seu quarto temporário organizar as malas. Apesar de ser um trabalho esquisito, Heeseung gostava do que fazia. Mesmo precisando de terapia constante para lidar com a carga mental de tantas pessoas, o salário era recompensador. Desde novo, sempre sonhava em atuar. Quando seus pais disseram que a carreira não daria futuro, ele saiu de casa e foi morar com o irmão mais velho, o único que o apoiava. Para não ser um peso morto nas costas do irmão, encontrou esse serviço. O processo da seleção da empresa tinha sido difícil, por carregarem a reputação da marca, os candidatos passavam por etapas exaustivas antes da aprovação. No primeiro ano, Heeseung só fazia trabalhos curtos para se acostumar. Agora, aprovado para contratos de longa duração, ele via nisso uma oportunidade. No início, seu irmão temeu que o trabalho afetasse seus estudos, mas Heeseung insistiu já que o pagamento era bom, ajudava na experiência cênica e, a longo prazo, o irmão não conseguiria sustentar dois homens adultos naquele pequeno apartamento sozinho. Por isso, Heeseung mudou para o ensino à distância, assistindo às aulas no período da tarde, quando a maioria dos clientes estava ocupada.
A empresa era rigorosa com a segurança: exames em dia e acompanhamento psicológico eram obrigatórios. Deixavam claro que o serviço não era prostituição; Heeseung nunca era obrigado a oferecer o corpo, embora ficasse a seu critério caso surgisse um desejo mútuo. Ele já havia aceitado em situações passadas, mas preferia evitar já que no fim do contrato era sempre mais doloroso quando os sentimentos e realidade se misturavam. Enquanto terminava de organizar suas camisas no armário, ainda pensava no garoto. Jake não sabia o que queria, não sabia como aquilo funcionava e claramente, não sabia como lidar com um estranho em sua casa. Heeseung já havia usado o nome 'Evan' com alguns clientes que buscavam fantasias perfeitas, mas para alguém tão perdido quanto Jake, usar um pseudônimo parecia demais. Então ele seria apenas Heeseung.
Para ele, era um contrato rotineiro. Heeseung não sentia nada além da satisfação profissional por ter acertado com as panquecas pela manhã. O brilho nos olhos de Jake não o havia encantado, apenas tinha confirmado sua análise: Jake Sim é vulnerável a gestos domésticos. Anotado. Ele ajeitou o último frasco de perfume sobre a cômoda e sorriu para o próprio reflexo, um movimento preciso e desprovido de vaidade real. Se tivesse que passar as próximas semanas estudando cada tique nervoso do seu "parceiro" para garantir que ninguém descobrisse a farsa, ele o faria sem hesitar. Afinal, os melhores romances são aqueles que levam tempo para serem construídos, e Heeseung tinha todo o tempo do mundo para ser exatamente o que o contrato exigia. Nada mais, nada menos.
Como não havia muito mais o que fazer, já que Jake não tinha dado ordens específicas, Heeseung decidiu explorar os outros cômodos da casa. Ainda passaria o restante do contrato ali e aquela seria a oportunidade perfeita para descobrir aspectos sobre a personalidade de Jake que não constavam na ficha da empresa. Ele caminhou pelo corredor com passos silenciosos, observando a decoração. O apartamento era funcional, mas revelava o caos típico de um universitário. Na estante da sala, livros pesados dividiam espaço com algumas fotos de família e lembranças que pareciam vir de longe. Heeseung aproximou-se de uma moldura em particular: um Jake mais jovem, sorridente, com o sol de uma praia que não parecia coreana ao fundo. Ele já havia reparado no sotaque sutil de Jake, além do nome estrangeiro na ficha de inscrição, mas o documento não especificava sua origem. Talvez devesse perguntar em um momento oportuno. Saindo da sala, seguiu para a cozinha, abrindo os armários com curiosidade. Encontrou estoques de café instantâneo e suplementos vitamínicos, mas quase nada de comida de verdade. Jake vivia no automático, nutrindo-se apenas do necessário para sobreviver às aulas integrais. Ao passar pela porta semi aberta do quarto do garoto, notou o quadro de avisos. Havia post-its coloridos com horários de provas, nomes de medicamentos e, em um canto, o convite de casamento de Jay e Jungwon. Ele analisou a caligrafia de Jake, rápida e levemente inclinada para a direita, mostrando pressa e talvez um pouco de ansiedade.
Heeseung não estava apenas bisbilhotando. Para ser o namorado perfeito, ele precisava habitar não só o apartamento, mas também preencher as lacunas da vida de Jake. Esses momentos eram essenciais para conhecer a parte mais profunda dos clientes, aquela que nunca era revelada nas fichas de inscrição frias da agência.
Satisfeito com o que coletou, voltou para a sala. Checando o horário no celular, viu que passava pouco do 12h. Como ainda teria muito tempo pela frente, decidiu preparar algo para comer antes de começar a assistir às suas próprias aulas no período da tarde.
Jake girou a chave e adentrou o apartamento. Geralmente, trazia Riki consigo, já que moravam no mesmo condomínio, mas o mais novo o dispensou dizendo que iria ver o garoto que trabalhava na cafeteria perto do campus. Já estava virando rotina para Jake ser trocado por esse desconhecido que tinha roubado o coração do seu amigo, mas ele só podia aceitar. Além disso, hoje a situação não era favorável, agradeceu mentalmente por Riki não vir agora, diminuindo o risco de ele querer invadir o apê para conhecer o novo residente. Ao entrar, viu que a sala estava vazia. Procurou por Heeseung e o encontrou na cozinha.
— Acabei de chegar! Tem muita coisa que a gente precisa conversar — disparou Jake, deixando a mochila de lado.
— Ah, se é por causa do lámen, não se preocupe. Este aqui fui eu quem trouxe e só usei a sua água, se não for problema... — Heeseung respondeu brincando.
— Não é por isso! Eu nem como esse tipo apimentado, sinto que arde tudo. Mas o problema é que acabei inventando que você era um amigo meu da Austrália para o pessoal da faculdade. Percebi que não posso chegar do nada te apresentando como namorado, sabe? Não quando eu nunca falei de você para eles antes.
— Não tem problema, você pode inventar a história que quiser — Heeseung falou, enquanto apontava para os armários. — Mas precisamos falar de algo ainda mais importante: como você vive apenas com essas comidas industrializadas? Não tem uma fruta nessa geladeira! Seus hábitos alimentares precisam mudar. Mas, já que não temos comida decente, senta aí que eu faço um lamen para você também. Deve estar com fome.
— Não precisa, eu passei no refeitório do campus antes de vir. E sobre meus hábitos... eu sou estudante, Heeseung. Só preciso estudar e dormir. Comida e lazer são descartáveis.
— Bem, espero que daqui a dez anos você ainda esteja vivo, Jake. Seria uma lástima o mundo perder alguém tão dedicado — Heeseung ironizou, com um sorriso de canto.
— É o que eu sempre digo, mas ninguém dá o devido valor até perder — Jake brincou, tentando relaxar. — Que bom que você já percebeu, vai tornar nossa rotina mais agradável.
— Fato. Mas você comentou que precisava conversar, era só isso? — indagou Heeseung enquanto comia.
— Não, vamos começar por aqui: ontem o Riki te viu na porta do apê com as malas e essa foi a melhor desculpa que pude dar. Então, vamos ter que combinar uma história de como nos conhecemos lá na Austrália. Porque você claramente é coreano, e eu acabei de notar que não pensei direito nisso... Você sabe inglês? Não deve saber, né? Meu primo Jay é americano, então seria bom evitá-lo para ele não tentar conversar com você em inglês. Mas não pretendo te apresentar a ele tão cedo. O problema é o Riki, que tem mania de aparecer aqui do nada... Vai que ele aparece amanhã? Ele é meio lerdo, mas eu não quero ser tão óbvio e... eu to falando demais, né? Você está me olhando assustado!
Heeseung riu antes de começar a falar, com uma calma invejável.
— Calma, Jake. Eu estou nesse negócio já faz um tempo, consigo enganar bem as pessoas. E sim, eu sei inglês. Talvez precise treinar o sotaque, mas não se preocupe, eu dou um jeito. Vamos dizer que éramos os únicos coreanos por lá e nos juntamos por isso. Não se preocupe, tá? O Riki vem aqui com muita frequência?
— Uau, não esperava que você falasse inglês! Ganhou pontos comigo, isso facilita muito. E sim, às vezes ele vem, gosta de usar meu Xbox para jogar, então não estranhe se ele aparecer do nada. Outro assunto, do casamento. Você deve ter achado estranho eu assinar o plano mensal em vez de pegar o diário, né? Achei que, se a gente tivesse mais convivência, ia ser mais natural. Você não precisa fazer nada estranho, tá bom? Vou só apreciar sua companhia, então pode ser você mesmo.
— Na verdade, fiquei curioso ao ver que era para um casamento, mas faz sentido o que você disse. Sobre o Riki, sou fã de jogos também, seria bom ter companhia. Mas... tem alguma coisa sobre você que eu deveria saber, que seria super estranho se eu não soubesse?
— Bom, eu tenho uma cachorra chamada Layla, mas ela ficou com meus pais na Austrália e meu nome coreano é Jaeyun, acho que é o mais importante que vou lembrar agora. Enfim, precisamos montar sua história também, né? Vou tomar um banho rápido e já volto para conversarmos.
— Certo, então vamos repassar mais uma vez só para garantir: você se mudou da Coreia para a Austrália quando era mais novo e fizemos amizade porque, como éramos coreanos e novos por lá, acabamos nos juntando. Depois eu tive que vir para cá, mas não perdemos o contato. No fim, você escolheu se transferir para a Coreia, mas não sabia se iria se adaptar e decidiu passar o mês comigo para ver se daria certo. É isso, né?
Jake falou enquanto encaixava, com precisão, uma peça do Lego que estava montando. Ele decidiu pegar o conjunto no caminho para encontrar Heeseung; o hobby sempre o relaxava e o ajudava a pensar melhor.
— A princípio, sim. Talvez mais para frente a gente precise acertar mais detalhes, mas o núcleo da história é esse — respondeu Heeseung, observando a concentração do outro. — Pretende fazer alguma coisa este fim de semana, Jake?
— Normalmente fico só estudando, ou o Riki vem para cá. Às vezes os meninos gostam de sair, mas é difícil, principalmente em final de semestre.
— Entendo. Quer me contar mais sobre seus amigos? Sobre seu primo e o casamento?
— O Jay é americano e sempre foi o orgulho da família. Ele vai herdar a empresa do pai um dia. Ele faz Administração e conheceu o Jungwon em umas matérias que tinham em comum. O Wonie faz Relações Internacionais e até participa da Associação de Estudantes da SNU. Quando o Jay disse que estava interessado nele, eu, o Sunghoon e o Riki levamos isso como uma missão. Foi meio engraçado, mas no final deu certo, embora o Jay ainda quisesse nos matar. Para mim, eles são como um casal de comédia romântica. Algumas pessoas acham que é cedo demais para eles casarem, mas é porque não veem o jeito que os dois se olham. É como se o mundo fosse só deles e nada mais importasse.
Jake fez uma pausa, os dedos parados sobre uma peça azul.
— Eu sempre quis viver algo assim, mas acho que isso não é para mim. Se minha vida fosse um filme, com certeza seria um daqueles dramas onde nada acontece no final. Já o Sunghoon... nem sei como nos aproximamos, mas nunca mais nos soltamos. Ele é muito fechado, mas sempre me apoiou em todas as loucuras. Os meninos dizem que somos almas gêmeas. Ele até sabe sobre você, me aconselhou a não fazer isso porque poderia ser um golpe e eu acabaria sequestrado para ter meus órgãos vendidos no mercado negro.
Jake arregalou os olhos, percebendo o que dissera.
— E eu não deveria ter te falado isso para não passar uma impressão errada do meu amigo, né?
Heeseung jogou a cabeça para trás enquanto ria. Jake era genuinamente engraçado, sem esforço algum.
— É bom saber dessas coisas — disse Heeseung, ainda sorrindo. — Vou me esforçar ainda mais para provar a ele que não sou um psicopata que vai esquartejar o melhor amigo dele. É bom que você tenha amigos que se preocupam, Jake. Talvez sua vida não seja um filme de romance como a do Jay, mas sempre há algo reservado para nós. Você ainda vai encontrar a metade da sua laranja.
— Talvez. E você, Heeseung-hyung? Tem amigos próximos também? Eles sabem do seu trabalho? E, desculpe se soar indelicado, mas... você tem algum relacionamento? Quer dizer, com um trabalho desses, deve ser estranho, não?
— O amigo mais próximo que tenho é o Sunoo, do meu curso. Nos aproximamos por causa dos trabalhos em dupla e a nossa dinâmica é ótima. Por causa do trabalho, não nos vemos com frequência, mas conversamos muito por mensagem. Ele sabe de tudo, às vezes comento com ele as histórias engraçadas que tenho com os clientes. Sobre relacionamentos... nesse ramo não é comum. Seria difícil manter algo assim. Quem deixaria o namorado dormir na casa de um desconhecido por um mês? Acho que nem eu teria essa coragem, mesmo conhecendo os regulamentos da agência.
Já faziam duas semanas desde que Jake e Heeseung se conheceram e, como era de se esperar, Jake estava apaixonado. Mas não é como se a culpa fosse inteiramente dele. Heeseung era encantador: além de bonito, engraçado e inteligente, era a companhia perfeita. Comiam juntos, jogavam, iam à feira todo domingo de manhã e ele até se dava bem com os seus amigos. Morando sob o mesmo teto, o sentimento parecia inevitável. Porém, desde o início, Jake tinha deixado claro que seria apenas amizade; sentimentos românticos não faziam parte do contrato. Ele sabia que Heeseung estava ali profissionalmente e que as chances de ele sentir algo real eram quase nulas. Ainda assim, Jake se deixava iludir pelo modo como o mais velho cuidava dele: os toques que demoravam tempo demais, os abraços rápidos, as noites de cinema e as conversas profundas quando Jake estava agitado demais para dormir. No fundo, ele temia que fosse tudo atuação, mas preferia acreditar que havia sinceridade ali.
Era mais uma dessas sextas-feiras. Estavam confortáveis sob os cobertores de Jake, preparando-se para assistir a alguns filmes. Desde que Heeseung chegou, ele o obrigava a fazer pausas em vez de se matar de estudar, e Jake era grato por isso. A rotina não parecia mais tão maçante. No entanto, o aperto no peito surgia ao lembrar que o contrato tinha data de validade. Jake tentava afastar esses pensamentos quando Heeseung o chamou:
— Jake, a pizza chegou! Espero que seja o suficiente, estou morrendo de fome. E eu estava pensando... não quer chamar o Riki para se juntar a nós? Você comentou que estava sentindo falta dele.
— Não quero. Estou dando um gelo nele — Jake resmungou. — Ele nem passa mais o horário do almoço com a gente porque só quer saber daquele garoto da cafeteria. Não achei que o Riki fosse do tipo que troca os amigos por um rolo. Imagine se isso evolui? Ele nem vai mais lembrar que existimos!
— Acho que você só está com ciúmes, Jake — Heeseung riu, servindo as fatias. — Você trata o Riki como um irmãozinho, deixe o garoto viver. Ele ainda vem aqui com frequência e é bom para ele fazer outras amizades. Querendo ou não, vocês estão ocupados: você e o Sunghoon com o curso, o Jay e o Jungwon com o casamento. Ele também tem outras prioridades.
— Ah, ele só vem aqui para ver você! Vocês dois ficam no "mundinho dos jogos" e me ignoram. Eu não tenho problema que ele conheça pessoas, só não quero que ele se magoe. Ele é sensível e está passando tempo demais com esse cara.
— Vem cá e para de ser ciumento — Heeseung o puxou de leve pelo ombro. — Já decidiu o que vamos ver? Ah, tem outra coisa: meu professor passou mais um trabalho, desta vez presencial e em duplas. Vou fazer com o Sunoo de novo. Queria saber se teria problema ele vir aqui. Ele mora longe e aqui é mais perto do trabalho dele. Como ele trabalha de manhã, viria à tarde.
Aquilo incomodou Jake. Sunoo. A amizade de Heeseung com aquele garoto o deixava em alerta. Heeseung falava dele o tempo todo. Jake sabia que não tinha o direito de sentir ciúmes, mas era inevitável. Imaginar os dois sozinhos no apartamento era torturante.
— Sem problema — Jake respondeu rápido demais. — Eu e o Hoon combinamos de sair amanhã, então deixo o apartamento para vocês. Provavelmente só volto no final da tarde.
— Tudo certo, então. Prometo que nada vai sair do lugar.
— Relaxa, Heeseung, você cuida melhor deste apê do que eu.
O resto da noite passou entre comentários sobre o filme e os dois se aconchegando cada vez mais. Mas antes de irem dormir, um clima pintou o ar. Durante uma cena fofa, eles começaram a rir e cochichar, imitando os personagens do filme. De repente, o clima na sala mudou. Os rostos estavam próximos demais. Jake prendeu a respiração. Ali, tão perto, ele não pôde evitar a reação do seu corpo. Em um instante, estava encarando os olhos profundos de Heeseung; no outro, seus lábios se juntaram como se Jake precisasse daquilo para sobreviver. Quando percebeu o que tinha feito, tentou se afastar, mas Heeseung colou seus rostos novamente, retribuindo o beijo. Era exatamente como Jake tinha passado os dias sonhando, um beijo que carregava emoções não ditas. Quando se separaram, o pânico atingiu Jake em cheio.
— Heeseung, desculpa! Não era para ter acontecido... foi o calor do momento. Eu sempre pedi para ser nada além de companhia e eu... eu te forcei a isso. Desculpa mesmo, não quero que isso afete nossa amizade — começou a falar atropeladamente, misturando palavras em coreano e inglês.
Heeseung o segurou pelos braços, tentando acalmá-lo. — Relaxa, Jake. Aconteceu e não tem problema, sério. Uma hora ou outra teríamos que fazer isso, não? Seria estranho se no casamento a gente sequer se tocasse — comentou ele, tentando quebrar o gelo.
— Ah... sim, tem razão. Eu... vou dormir, tá bom? Sério, desculpa, isso não significou nada, não vai se repetir. Boa noite!
Jake saiu às pressas, deixando Heeseung para organizar a sala sozinho. Ao chegar no quarto, trancou a porta e se jogou na cama, o coração pesado.
— "Não significou nada"? Sério, Jaeyun? De tantas coisas, você disse logo isso? Droga! — resmungou, rolando de um lado para o outro. Jake mal dormiu. O gosto do beijo ainda estava em seus lábios, e a dúvida o corroía: por que Heeseung tinha retribuído com tanta intensidade se era apenas um "ensaio" para o casamento?
Jake acordou antes mesmo do sol terminar de subir. O silêncio do apartamento era ensurdecedor, interrompido apenas pela lembrança vívida da pressão dos lábios de Heeseung contra os seus. Ele não suportaria encarar o mais velho na cozinha, não depois de ter dito que o beijo "não significou nada". Tomou um banho gelado para ver se a cabeça parava de latejar, vestiu a primeira roupa que viu e saiu sem tomar café, deixando apenas um bilhete curto na bancada: "Saí cedo com o Hoon. Não me espere." O problema era que Sunghoon não sabia de plano nenhum. Quando Jake começou a esmurrar a porta do amigo às sete da manhã, foi recebido por um Sunghoon de pijama e humor terrível. Ele não esperou pelo "entre", apenas passou pelo amigo assim que a fechadura destravou, sentando-se no sofá com a cabeça entre as mãos.
— Jake, se você não estiver morrendo, eu vou cometer um crime — murmurou Sunghoon, fechando a porta e arrastando os pés de volta para o quarto quando percebeu que Jake estava apenas sendo dramático e nada terrível tinha acontecido. — Dorme aí. A gente conversa quando eu acordar.
Mas Jake não dormiu. Ele ficou encarando a parede, revivendo o beijo em looping, até que Sunghoon ressurgiu, duas horas depois, com o cabelo bagunçado e uma caneca de café. O interrogatório começou ali e se estendeu por um almoço demorado em uma lanchonete afastada do campus, onde ninguém conhecido pudesse interrompê-los.
— Então você beijou o cara e, em vez de dizer "uau", você disse "foi mal, não significou nada"? — Sunghoon arqueou uma sobrancelha, mastigando uma batata frita. — Você é um desastre Sim Jaeyun.
— Eu entrei em pânico, Hoon! O que eu ia dizer? "Ei, eu sei que te pago para fingir que me ama, mas acho que eu to apaixonado de verdade"? — Jake bufou, cutucando o hambúrguer. — E o pior é que ele retribuiu. Não parecia algo forçado que ele não queria fazer, foi real.
— Ou ele só é muito bom no que faz. — Sunghoon pontuou, sendo a voz da razão de sempre. — Olha, você está projetando. Passamos as últimas horas falando sobre como ele é "perfeito". E ninguém é perfeito, Jake. Você está pagando pela melhor versão dele. Mas, se isso está te corroendo, você precisa decidir: ou você termina o contrato agora e sofre o luto, ou volta para casa e pergunta o que diabos foi aquilo ontem à noite. Porque você precisa saber se esse cuidado doméstico dele com você é real ou se ele só está atuando.
Jake soltou um suspiro pesado, passando as mãos pelo rosto. As palavras do amigo ecoavam como uma sentença. Ele se lembrou das manhãs calmas que tinha com Heeseung, das piadas bobas enquanto montavam Lego e do calor do beijo na sala. Era difícil acreditar que alguém pudesse simular tanta ternura.
— E se for atuação, Hoon? — Jake perguntou, a voz quase um sussurro. — Como eu olho para ele sabendo que paguei por cada sorriso?
— Aí você cancela o pix e segue a vida — Sunghoon respondeu, voltando ao seu tom pragmático. — Melhor uma verdade amarga agora do que uma mentira doce que vai te quebrar no dia do casamento do Jay.
Eles continuaram a caminhar pelo parque perto da faculdade até às três da tarde. Jake detalhou o sentimento de ciúme que tinha por Sunoo, a insegurança com o casamento de Jay e como Heeseung parecia estar ocupando cada parte da sua vida e não sabia como iria lidar com isso após o contrato acabar. Sunghoon, apesar de reclamar do dia perdido, não o deixou sozinho por um segundo.
— Vai para casa — disse Sunghoon por fim, dando um tapinha firme no ombro de Jake. — Para de ser covarde. Se for real, ótimo. Se não for, pelo menos você já evita o sofrimento pós contrato.
Jake subiu o elevador sentindo o estômago dar voltas. Ele tinha um discurso pronto, iria ser maduro. Ia pedir desculpas pela grosseria da manhã e perguntar sobre os limites do contrato. Mas o silêncio do apartamento foi quebrado por um barulho de algo caindo e uma risada abafada vinda da sala. Ao dobrar o corredor, a cena congelou o sangue em suas veias. Não estavam apenas estudando. Heeseung e Sunoo estavam caídos no tapete, entre cadernos espalhados e uma cadeira tombada. Heeseung estava por baixo, com as costas no chão, e Sunoo estava atravessado sobre ele, com uma das mãos agarrada ao colarinho da camiseta de Heeseung para não bater a cabeça. Na queda, a camisa de Sunoo subira, revelando a pele da cintura, e as pernas de ambos estavam emaranhadas de um jeito que parecia íntimo demais para ser um acidente. Heeseung segurava o rosto de Sunoo, os dedos roçando sua mandíbula, enquanto ambos recuperavam o fôlego da risada. Para Jake, não parecia um tombo. Parecia o clímax de algo que vinha acontecendo o dia todo.
— Realmente... — a voz de Jake saiu rouca, carregada de uma decepção que ele não conseguiu mascarar.
Os dois no chão se sobressaltaram. Heeseung tentou se levantar, mas o peso de Sunoo e o emaranhado das pernas o fizeram tropeçar novamente antes de conseguir ficar de pé, o que só piorou a imagem aos olhos de Jake.
— Jake! Você... você voltou cedo — Heeseung disse, ajeitando a camisa freneticamente, a respiração ainda ofegante.
— Cedo demais, pelo visto. Atrapalhei algo? — Jake deu um passo para trás, sentindo o peito arder. — Eu estive fora por bastante tempo, Heeseung. Passei o tempo todo tentando criar coragem para ser honesto com você.
— Jake, escuta, sei que parece estranha a situação, mas o Sunoo desequilibrou tentando carregar uns livros e… — Heeseung deu um passo à frente, mas Jake levantou a mão, cortando-o.
— Me poupe desses detalhes. Eu sei que não pedi no contrato pelas cláusulas de fidelidade, mas eu achei que, como profissional, você teria o mínimo de respeito pelo espaço onde eu vivo. Esse tipo de cena faz parte dos pacotes que você oferece para outros clientes? Ou isso é cortesia por eu ser um contratante tão fácil de enganar?
— Jake, olha para mim, não é nada disso — o tom de Heeseung mudou, ficando mais grave, mas Jake já estava na defensiva máxima.
— Não precisa de cena, Heeseung. Não vou ficar aqui assistindo você usar o meu sofá para ensaiar beijos com seus clientes.
Jake não deu tempo para resposta. Ele girou nos calcanhares e saiu, batendo a porta com força. Ele não precisou de elevador, apenas cruzou o corredor do condomínio e parou diante da porta de Riki. Seus dedos tremiam enquanto ele digitava a senha que sabia de cor. Ao entrar, deu de cara com Riki jogado no sofá.
— Hyung? O que houve? Você está chorando?
Jake não respondeu. Ele apenas desabou no sofá ao lado do amigo, escondendo o rosto nas mãos. — Só me deixa ficar aqui hoje, Riki. Por favor. Eu não quero falar, não quero pensar e também não quero ver o rosto de Lee Heeseung nunca mais.
Para Heeseung, sua primeira regra sempre foi o distanciamento. Já no teatro, eles chamavam isso de "quarta parede", aquela barreira invisível que separa o ator da plateia. No trabalho, essa parede era o que o mantinha são. Ele entrava no apartamento, vestia a persona que o cliente pagou para ter e, quando o contrato acabava, ele simplesmente tirava o figurino e ia embora. Mas Jake Sim não era uma plateia passiva. Ele era uma força da natureza que não respeitava marcações de palco.
Nas primeiras quarenta e oito horas, Heeseung fez o que sempre fazia. Ele anotou tudo que podia sobre Jake. Sabia que ele mordia o lábio inferior quando o silêncio durava mais de dez segundos, que tomava o café tão amargo que chegava a ser intragável e que mudava de assunto toda vez que a conversa esbarrava na sua vida na Austrália. Era apenas material de estudo, até que Jake deixou de ser um trabalho e começou a se tornar muito real. O primeiro curto-circuito aconteceu na feira de domingo. Parecia um cenário perfeito para um casal, o sol da manhã, o cheiro de pastel da feira e pessoas andando por todo lado, junto a seus companheiros. Heeseung já tinha feito aquilo dezenas de vezes, fingir ser o companheiro atencioso, carregar as sacolas e sorrir para os vendedores. Tudo ia bem até que o momento se tornou íntimo demais. Jake soltou uma risada genuína, por causa de uma piada interna que eles tinham criado na noite anterior, enquanto tocava o braço de Heeseung, um aperto leve e caloroso, enquanto ainda ria. Heeseung congelou por um milésimo de segundo, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Ele olhou ao redor, procurando por algo ou alguém que justificasse aquele toque repentino, mas não havia ninguém olhando. Nenhum primo, nenhum vizinho, nenhuma câmera.
Ele não previa aquilo. Naquele instante, a sensação de que conhecia Jake há muito mais tempo do que a realidade permitia o atingiu em cheio, ele viu a vulnerabilidade de um cara que não buscava apenas manter as aparências, mas que precisava de uma conexão de verdade. E o pior, Jake o estava tratando como Heeseung, não como um personagem que ele o inventou, mas o verdadeiro Heeseung. A partir dali, a luta interna de Heeseung transformou as semanas seguintes em um território minado.
Ele tentava desesperadamente reconstruir a barreira. Quando Jake se aproximava demais no sofá, Heeseung inventava uma desculpa para buscar água. Quando as conversas ficavam profundas demais, ele usava o sarcasmo profissional para erguer a barreira novamente. Mas como lutar contra alguém que te olha com aquela vulnerabilidade? Nas noites de insônia de Jake, ele deveria apenas oferecer palavras de conforto padrão. Mas ainda acabava ficando acordado até às três da manhã, conversando sobre medos reais, sobre como era difícil decepcionar a família, sobre como o silêncio às vezes pesava. Heeseung se viu contando histórias da sua própria infância, coisas que nem Sunoo conhecia. Ele estava entregando peças de si mesmo que não estavam à venda.
O beijo de sexta-feira foi o colapso final.
Enquanto riam daquele filme bobo, Heeseung sentiu o peso do olhar de Jake. Ele viu a admiração ali, Jake gostava dele. Do Heeseung que perdia no videogame, do Heeseung que reclamava do frio, do Heeseung que insistia para ele comer frutas. Quando seus lábios se tocaram, a luta de Heeseung morreu. Ele não pensou no contrato, na agência ou qualquer outra coisa. Ele pensou que, pela primeira vez em anos, ele não precisava fingir algo para ser amado. Ele puxou Jake para mais perto, querendo silenciar a voz na sua cabeça que gritava que aquilo era um erro profissional catastrófico. A reação de Jake depois, aquele pânico, o "não significou nada", foi o que Heeseung usou para tentar reconstruir sua máscara. Se não significou nada para ele, então eu posso voltar para o meu papel, foi o que ele pensou.
Por isso, quando Sunoo veio no sábado, Heeseung estava tentando desesperadamente focar. Ele queria provar para si mesmo que ainda estava no controle. Sunoo parou de organizar o material e se virou, apoiando o quadril na prateleira de metal. Ele estreitou os olhos, analisando as olheiras de Heeseung que nem o melhor corretivo do mundo conseguiria esconder naquela manhã.
— Você está péssimo, hyung — Sunoo comentou, voltando a empilhar os volumes com uma precisão irritante. — Onde está o seu cliente fofo?
— Saiu cedo. E ele não é meu cliente, quer dizer... ele é, mas... esquece. Vamos trabalhar — Heeseung murmurou, tentando focar no texto à sua frente onde as palavras pareciam flutuar diante de seus olhos.
Sunoo soltou um risinho nasalado, o tipo de som que indicava que ele não ia deixar o assunto morrer.
— "Ele é, mas...". Uau. Tanto tempo fazendo isso e é a primeira vez que vejo você sem palavras para definir um contrato. O que aconteceu? Tá se apaixonando mesmo?
Heeseung soltou o notebook sobre o balcão com um estalo seco. Ele passou as mãos pelos cabelos, frustrado, e olhou para o amigo, cansado.
— Eu não tô fingindo nada, Sunoo. Esse é o problema.
Sunoo parou o que estava fazendo. O tom de voz de Heeseung mudou, a voz cansada do Hyung que raramente ele mostrava.
— Eu sinto que estou perdendo o controle. — Heeseung continuou, a voz quase um sussurro, com os olhos desfocados do computador à frente. — Com o Jake, não tem plateia, eu simplesmente esqueço do contrato.
Heeseung se aproximou, baixando ainda mais o tom.
— Ele me olha como se eu fosse a melhor coisa que aconteceu na vida dele, Sunoo. E o pior é que eu estou começando a olhar para ele da mesma forma. Eu estou entregando partes de mim que não estão no contrato. Falei dos meus pais, das audições que eu perdi... coisas que eu nunca contei pra ninguém, coisas que nem para você eu contei.
Sunoo suspirou, cruzando os braços. A diversão em seu rosto deu lugar a uma preocupação genuína.
— Hyung, você sabe o que isso significa, não sabe?
— Eu sei — Heeseung admitiu, fechando os olhos. — Mas como eu continuo com isso agora? Como eu olho para ele e finjo que tudo o que a gente viveu nas últimas semanas foi só pelo contrato? Eu sinto que, se eu confessar que estou sentindo algo real, eu vou estragar tudo isso.
Sunoo tocou o ombro do amigo, um gesto raro de seriedade.
— O problema, Hyung, é que você está preocupado só com os sentimentos dele, mas quem está ficando sem chão é você. Se você continuar atuando enquanto o seu coração está batendo de verdade, você vai acabar quebrando os dois.
Depois disso, seguiram fazendo o trabalho, o acidente aconteceu por pura falta de atenção. Sunoo tentou equilibrar uma pilha de livros pesados nos braços, que taparam sua visão e acabou esbarrando na ponta do sofá, perdendo o equilíbrio e, por instinto, Heeseung saltou para segurá-lo. O peso dos dois fez com que caíssem no tapete, uma confusão de pernas e cadernos. Eles estavam rindo do absurdo da situação, Heeseung tentando empurrar Sunoo para conseguir respirar, quando a porta abriu.
O tombo no tapete foi um acidente ridículo, mas a dor de ver o Jake interpretando aquilo como uma traição foi o que finalmente fez Heeseung perceber que não dava mais para voltar para trás, Jake não era mais só um cliente. E Lee Heeseung estava perdidamente apaixonado por ele. O olhar de Jake foi uma facada. Heeseung viu o momento exato em que o brilho de confiança que Jake vinha construindo se apagou. Ouvir as palavras de Jake foi pior que qualquer crítica que já tinha recebido. Quando a porta bateu, o silêncio que ficou no apartamento foi mortal.
— Heeseung-hyung... — Sunoo começou, levantando-se e ajeitando a roupa, o rosto agora sério. — Ele entendeu tudo errado.
Heeseung continuou no chão por alguns segundos, olhando para o teto.
— Não foi só ele que entendeu errado, Sunoo — Heeseung murmurou, a voz falhando. — Eu deixei isso ir longe demais, precisa ser assim.
Ele se levantou devagar, sentindo cada músculo do corpo protestar. Sua mente, treinada para gerenciar crises, começou a trabalhar a mil por hora. Ele precisava consertar aquilo. Precisava respirar fundo e voltar para a fachada de funcionário exemplar da agência. Mas, enquanto ele tentava racionalizar, todo o seu corpo gritava em uma frequência ensurdecedora para ir correndo atrás de Jake. Para alcançá-lo no corredor, no elevador ou no meio da rua, e explicar que, embora tudo tenha começado com um contrato, o que ele sentia agora era real. Mas não poderia fazer isso. O pensamento o atingiu como um soco. Ele parou no meio da sala, os olhos fixos na porta que Jake acabara de bater.
— Ele precisa de espaço, Sunoo — Heeseung disse, a voz num tom que ele não reconheceu como sendo sua. — E eu preciso entender em que momento deixei isso me afetar e virar um idiota apaixonado.
Ele sentou no sofá, no mesmo lugar onde, horas antes, eles tinham rido até perder o fôlego. Agora, o sofá parecia grande demais, vazio demais.
Riki não era idiota. Seus amigos adoravam chamá-lo de "lerdo", e ele não poderia negar que, às vezes, demorava a processar as coisas, mas não era um completo sem noção. Quando Jake entrou em seu apartamento chorando e narrou a cena suspeita entre Heeseung e o colega de curso dele, o cérebro de Riki começou a ligar os pontos com uma velocidade incomum. O namoro de Jake e Heeseung era recente, mas tudo parecia estranho desde o início. E, agora, as peças começavam a se encaixar: o nome do amigo que seu ficante, Sunoo, vivia mencionando era, coincidentemente, Heeseung. E ele também trabalhava em um site que na visão de Riki era, tecnicamente, uma agência de acompanhantes. Não era difícil somar dois mais dois. O que Riki ainda não entendia era a motivação: por que Jake, que nunca reclamou da falta de pretendentes, contrataria um estranho para fingir ser seu namorado e o apresentaria a todo o grupo?
Após ver que Jake finalmente adormeceu, exausto de tanto chorar, Riki saiu para se arrumar. Ele já havia combinado de se encontrar com Sunoo após ele terminar de fazer o trabalho do curso na casa do amigo dele. Era a oportunidade perfeita onde ele tiraria a história a limpo diretamente com a fonte, já que Sunoo sempre o contava sobre as histórias de Heeseung.
Riki decidiu esperar por Sunoo no local combinado, longe do apartamento de Jake. Havia uma chance minúscula de Sunoo ainda estar lá, mas se estivesse, Jake estaria vulnerável, e as chances de Heeseung tentar forçar uma conversa eram altas. No momento, o melhor era que os dois esfriassem a cabeça. Ao chegar à cafeteria, ele mandou uma mensagem rápida para Sunoo avisando que já estava ali. Pediu algo para beber e se sentou em uma mesa de canto, com os olhos fixos na entrada. Ele sentia que estava prestes a desvendar o segredo que estava destruindo a sanidade de seu Hyung. Se Heeseung estava brincando com os sentimentos de Jake, Riki garantiria que ele pagasse o preço.
— Ei, Riki, desculpa a demora! Tive um imprevisto no trabalho e tudo atrasou — Sunoo chegou ofegante, sentando-se à mesa e soltando um suspiro pesado. — Nossa, sério... o Heeseung-hyung está completamente lascado.
Riki, que já estava com o suco na metade, estreitou os olhos, tentando manter a voz casual.
— Ah, eu queria falar sobre isso. Aquele cliente que ele está atendendo... como era o nome mesmo?
— É Jake. Conheci ele hoje, inclusive. Não é à toa que o Heeseung-hyung está caidinho por ele, o cara parece um modelo — Sunoo respondeu, sem notar a tensão no rosto de Riki.
Riki sentiu um frio na barriga. Ele soltou um riso seco e forçado.
— Eu bem que imaginei. Sabe, meu amigo também se chama Jake e ele também "namora" um Heeseung. Muita coincidência, né?
Sunoo parou o que estava fazendo, o sorriso sumindo do rosto enquanto ele conectava os pontos. Ele olhou para os lados, baixando o tom de voz.
— Olha, Riki... eu não sei por que, mas se o Jake manteve isso escondido de você, deve ter um motivo. Acho melhor você não comentar nada com ele, mas... já que você já sabe, deixa eu te explicar o que aconteceu lá no apartamento hoje.
Sunoo suspirou, passando a mão pelo cabelo.
— Eu e o Heeseung-hyung nos encontramos para fazer aquele trabalho que eu tinha comentado. Estava indo tudo bem, até conversamos sobre o Jake. Só que teve uma hora que eu me desequilibrei e caí por cima dele. Foi tão constrangedor! E, claro, foi exatamente nesse momento que o Jake chegou e entendeu tudo errado.
Sunoo continuou, visivelmente preocupado:
— O Hyung ficou totalmente perdido depois daquilo. Eu fiquei lá tentando acalmá-lo, mas ele estava estranho. O Jake nem respondia as mensagens. Você estava com ele?
Riki assentiu, a expressão séria.
— Sim. Ele entrou chorando no meu apartamento. Sunoo, mesmo que isso tudo seja mentira, os sentimentos dele são reais. Se não fossem, o Jake-hyung não teria ido dormir daquele jeito. Ele ficou horas chorando no meu sofá antes de conseguir contar o que tinha acontecido.
Sunoo abaixou a cabeça, suspirando.
— Droga, Riki... eu me sinto mal. Parece que a culpa é minha. Eu não queria ter causado essa situação, e não queria que você descobrisse sobre o trabalho do Heeseung assim. Você acha que eles vão se resolver logo?
Riki tomou um gole longo de sua bebida, pensativo.
— Espero que sim. Não gosto de ver o Jake-hyung triste, mas ele é muito teimoso. Talvez, se não se resolverem sozinhos em breve, a gente precise intervir.
— É... — Sunoo murmurou — espero que a situação não chegue a esse ponto.
O apartamento estava em silêncio quando Jake voltou para casa. O peso dos últimos acontecimentos e de tudo o que ele tinha discutido com Riki, parecia esmagá-lo. Ele não tinha nem tirado o casaco quando viu Heeseung parado na sala. O ar entre eles parecia denso. Heeseung deu um passo à frente, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça, não sabendo bem como começar a falar.
— Você demorou — Heeseung disse, o tom polido, desprovido daquela suavidade que Jake tinha visto dias antes. — Achei que tivesse decidido não voltar.
Jake soltou uma risada amarga, jogando as chaves sobre a mesa.
— E por que eu não voltaria? O serviço ainda está sendo pago, não é? A gente tem um contrato, Heeseung.
Heeseung travou o maxilar. Ele sabia exatamente onde Jake estava pisando.
— Não precisa ser assim, Jake. Sobre o que aconteceu na sexta e o que rolou ontem. Foi descuido da minha parte, eu sinto muito se te deixei desconfortável.
Jake deu um passo rápido, invadindo o espaço de Heeseung. O choque térmico entre a raiva e a dor era quase insuportável.
— Descuido? — Jake repetiu, a voz tremendo. — Você me beijou, Heeseung. Na sexta-feira, você me beijou como se a gente não fosse só dois estranhos cumprindo um contrato. E ontem, o jeito que você olhou para mim, o jeito que você está cuidando de mim, não foi zelo profissional. Eu não sou idiota.
Heeseung recuou, parecendo hesitar.
— Foi um momento de fraqueza — ele disparou, a voz fria. — Às vezes, a gente se envolve tanto com o personagem que acaba confundindo os papéis. Eu sou contratado, Jake. Meu trabalho é fazer você se sentir especial, protegido e desejado. Se você está confundindo atuação com realidade, então eu fiz o meu trabalho bem demais.
Jake sentiu como se tivesse levado um soco. Ele queria que aquilo fosse mentira, queria ver uma brecha naqueles olhos, mas Heeseung estava se esforçando muito para não deixar qualquer sentimento sair.
— Então você estava atuando o tempo todo? — Jake perguntou, a voz falhando. — Até quando a gente conversava sobre coisas que não importavam pra ninguém? Até com o beijo?
Heeseung engoliu em seco, sentindo cada palavra como uma facada em si mesmo. Ele precisava manter a mentira. Se ele cedesse, se admitisse que o toque era real, ele perderia muito de si mesmo.
— Sim — Heeseung respondeu, a voz seca. — É um serviço completo. Você pediu por companhia e eu te dei o pacote completo. Se você começou a acreditar que era real, o erro foi seu, não meu. Eu só estava cumprindo o meu papel.
Jake ficou estático, olhando para Heeseung. O silêncio que se seguiu era pesado, definitivo. Absorvendo cada palavra e lembrando dos avisos de Sunghoon sobre se envolver demais, Jake sentiu algo dentro de si congelar. Se a vida dele fosse um filme, ele finalmente entendia que não seria um romance de final feliz.
Já fazia alguns dias, Jake era teimoso e não daria o braço a torcer. Desde o dia da conversa esclarecedora que teve com Heeseung ele vinha evitando o mais velho sempre que podia e tentava tornar as conversas mais breves o possível. Heeseung tentava abordá-lo constantemente, mas Jake fugia, saía cedo de casa e voltava tarde. Heeseung ainda ficava acordado esperando por ele, mas Jake nunca lhe dava abertura. Jake havia aceitado seus sentimentos no dia do beijo, mas aquela conversa que teve com Heeseung era uma constante lembrança de toda a situação que viviam era fruto de um contrato. Resolveu encarar aquilo como uma lição e começou a se distanciar, acreditando que seria menos doloroso sofrer agora do que quando o prazo terminasse e a companhia de Heeseung não fosse mais uma opção.
A situação entre eles estava insuportável, mas Jake não comentou nada com Sunghoon, sabendo que ouviria uma bronca sem fim. Decidiu que contaria tudo apenas após o contrato ser encerrado. Jake estava exausto, e Heeseung não parecia estar muito melhor. Riki, ainda não sabia do contrato, mesmo com toda a situação que se passou, Jake não queria contar a ele a verdade; mas o garoto tinha noção que os vizinhos estavam tendo problemas desde o dia que entrou chorando no apartamento do amigo, ele estava indo com mais frequência ao apartamento de Jake, não podia negar que ficava feliz que Riki fizesse companhia a Heeseung, já que Jaeyun estava o evitando. No entanto, Riki sempre perguntava se tudo estava bem, notando que ambos pareciam desanimados.
— Vocês dois estão se matando, sabia? — Riki murmurou, lavando um copo com lentidão, sem encarar Heeseung na sala. — Não precisa me contar o que é, Jake. Mas o clima aqui está tão pesado que eu sinto que, se eu acender um fósforo, essa casa explode. Não lembro a última vez que vim aqui e vi vocês conversando. — Riki comentou, quase distraído, secando as mãos no avental.
Jake se sentia mal, mas acreditava que aquele distanciamento era o melhor para ambos.
Mais um dia e Jake estava sem rumo, evitando voltar para casa, quando Riki apareceu de repente dizendo que queria apresentá-lo ao garoto da cafeteria. Jake acabou aceitando, mas achava que não teria muita escolha nisso já que o garoto estava praticamente o arrastando. Contudo, se arrependeu no instante em que pisaram no estabelecimento e ele reconheceu o rosto que também não saia da sua cabeça nos últimos dias. Sunoo. O ambiente da cafeteria parecia girar. Jake congelou no lugar, apertando a alça da mochila com força. Ele deu um passo para trás, mas Riki segurou seu braço e o puxou para uma mesa de canto onde Sunoo já estava sentado.
— Sunoo-hyung! — Riki chamou, alto demais. — Trouxe alguém que você precisa conhecer, ou melhor, alguém que precisa se resolver!
Sunoo levantou o olhar, surpreso. Ao ver Jake, seu rosto mudou de uma expressão tranquila para uma de urgência. Jake tentou se virar, mas Riki não o soltou.
— Jake-hyung, senta. Por favor — Riki disse, seu tom mudando de brincalhão para sério. — Eu sei que você não tá entendendo agora, mas você tá sendo um idiota.
— Riki, preciso ir embora — Jake respondeu, lutando para fugir do aperto do outro.
— Não vai não — Sunoo interferiu, se levantando. — Jake, olha para mim. Aquele dia, foi só um acidente mesmo, eu estava caindo e o Heeseung me segurou. Não teve beijo, não teve traição, a gente não fez nada além do trabalho, eu juro.
Jake sentiu o rosto queimar, mas a teimosia ainda falava mais alto.
— Vocês estavam próximos demais. E ele nunca me explicou, ele deu a entender…
— Porque você não deu chance! — Riki interrompeu, batendo a mão na mesa. — O cara não dorme há dias! Ele está definhando lá em casa, Jake. Ele não come, ele fica olhando para a porta esperando você chegar. Você acha mesmo que ele está fingindo isso? Ele é apaixonado por você!
Jake sentiu o chão fugir sob seus pés. As palavras de Riki eram como flechas.
— Ele disse isso para você? — Jake sussurrou, a voz falhando.
Sunoo suspirou, sentando-se novamente.
— Ele não precisa dizer com todas as letras, Jake. A forma como ele fala de você, como ele descreve cada detalhe seu, cada mania. Eu sei das coisas que ele te disse aquele dia, mas ele se arrependeu. Achou que era o melhor jeito de continuar isso sem ninguém acabar magoado no final do contrato, mas ele se sente culpado por ter deixado você pensar que ele era alguém em quem você não podia confiar.
Riki completou, com um tom mais suave:
— Se vocês continuarem a evitar isso, vão se arrepender no final. O Heeseung-hyung está esperando por você. Vai lá, para de ser teimoso e escuta o que ele tem para dizer.
Jake olhou para as próprias mãos, sentindo a raiva e a mágoa dando lugar a uma urgência absurda. O medo de que fosse tudo uma encenação ainda existia, mas, ao ver a seriedade nos olhos de Riki e a sinceridade no pedido de desculpas de Sunoo, a barreira que ele tinha erguido começou a desmoronar. Ele se levantou lentamente.
— Se ele estiver me enganando... — Jake murmurou, mais para si mesmo do que para eles.
— Ele não está — Sunoo sorriu tristemente. — Vai lá. Vocês já perderam tempo demais.
Jake não respondeu. Apenas deu as costas e saiu correndo da cafeteria, desta vez em direção ao apartamento, com o coração batendo mais forte do que nunca.
O impacto do silêncio no apartamento foi quase físico. Jake destrancou a porta com as mãos trêmulas, a respiração ainda descompassada pela corrida frenética desde a cafeteria. O nome de Heeseung estava preso na garganta, um pedido de desculpas ensaiado que ele estava pronto para gritar, implorar, o que fosse necessário. "Heeseung!", ele chamou, a voz ecoando pelo corredor, mas apenas o vazio lhe respondeu. A esperança de encontrar o mais velho na sala, talvez sentado no sofá com um livro ou terminando algum trabalho, desmoronou em segundos. Jake percorreu cada cômodo com uma urgência desesperada. Abriu a porta do quarto de visitas e o desespero se transformou em gelo. O armário estava aberto, escancarado, e as prateleiras estavam vazias. Não havia camisas perfeitamente dobradas, não havia o perfume que ele tanto gostava, as malas tinham sumido. O quarto não era mais um lar, era apenas um cômodo frio, como se ninguém jamais tivesse vivido ali.
O desespero de Jake atingiu um nível que ele nunca tinha experimentado. Ele correu de volta para a sala, seus passos pesados soando como tiros no silêncio do apartamento. Foi quando seus olhos focaram na mesa da cozinha. Um envelope branco, com o nome de Jake escrito com uma caligrafia impecável e elegante, ao lado de um buquê de flores e um ursinho de pelúcia que Jake lembra de ter comentado que era fofo e se parecia com Heeseung, da última vez que saíram juntos.
Jake se sentou na cadeira de madeira, sentindo as pernas falharem. O papel tremia entre seus dedos quando ele começou a ler.
Jake,
Escrevo isso porque a covardia sempre foi o meu maior defeito. Durante esses dias, tentei me convencer de que eu estava fazendo o certo, que eu tinha controle total sobre as minhas emoções e que você era apenas mais um cliente. Eu estava errado. Tão terrivelmente errado. Meus sentimentos por você tomaram proporções que eu não consigo controlar ou esconder. Eles não cabem dentro de um contrato, não podem ser ensaiados e, honestamente, estão me destruindo. Eu misturei tudo, Jake. Eu só queria ser a pessoa que te faz rir, a pessoa que cuida de você e uma pessoa que você pode confiar de verdade. Eu queria poder dizer que aquele dia com o Sunoo foi o começo do problema, onde tudo desandou. Mas a verdade é que eu já estava me rendendo a você na nossa primeira ida à feira, você me tirou totalmente do personagem. Eu vi como você passou a me evitar, como o apartamento se tornou um campo de batalha. E, sendo sincero, eu não posso mais viver assim. Eu me envolvi demais, não consigo aguentar saber que você prefere a solidão ou o refúgio do Riki a passar um minuto sequer comigo. Decidi encerrar o nosso contrato. Já entrei em contato com a agência e assumi a multa rescisória integral, você não terá nenhum custo por isso. Não vou poder te acompanhar ao casamento, me desculpe por isso. Não quero causar mais nenhum problema ou desconforto para você.
Obrigado por tudo. Você me mostrou que, por baixo de todas as camadas que eu criei para me proteger, ainda existe alguém capaz de se importar de forma genuína. Você foi a única coisa real que me aconteceu em muito tempo.
Com pesar,
Heeseung.
A carta escorregou dos dedos de Jake e caiu no chão. O ar fugiu de seus pulmões. Ele não podia acreditar. Iria terminar assim? Um adeus frio, escrito em papel, enquanto o coração de Heeseung, que ele tinha acabado de descobrir que era seu, estava sendo empacotado em uma mala e levado para longe. Jake pegou o celular, os dedos procurando pelo contato de Heeseung. Ele precisava falar com ele, precisava dizer que o Sunoo explicou tudo, que ele era um idiota ciumento, que o "não significou nada" que ele disse após o beijo foi a maior mentira de sua vida. Mas as mensagens não eram entregues e as chamadas não completavam. O celular exibiu uma mensagem curta e direta: Número impossibilitado de receber chamadas.
Heeseung o tinha bloqueado.
Jake puxou os joelhos contra o peito, ali mesmo na cozinha e começou a chorar. Não eram as lágrimas de raiva de mais cedo, eram lágrimas de puro desamparo. A luz do apartamento foi se apagando conforme a noite avançava, e Jake ficou ali, na escuridão e sozinho, com o eco das palavras de Heeseung martelando sua mente. Ele tinha esperado tempo demais, tinha sido teimoso demais e agora, tinha perdido uma coisa muito importante para si. Ele estava sozinho, e o contrato que ele tanto temia perder no futuro tinha se encerrado prematuramente, levando consigo, ironicamente, a única pessoa que ele realmente queria que ficasse.
Os dias se transformaram em uma sucessão de borrões cinzentos. Jake levantava, vestia qualquer coisa e ia para a faculdade, no piloto automático, mal conseguindo se concentrar nas aulas. O peso no peito era constante, uma pressão física que o impedia de respirar direito. Se antes, quando estava evitando Heeseung estava ruim, agora era pior. Seus amigos, sentindo a mudança drástica no seu comportamento, aquele brilho de vitalidade que estava presente nas últimas semanas havia sido substituído por olheiras profundas e silêncio, tentavam puxar assunto, mas ele sempre dava um jeito de se esquivar. Como explicar a Sunghoon que ele estava certo desde o início, e que além de se magoar acabou magoando uma pessoa ainda mais importante no caminho?
O casamento de Jay e Jungwon, que antes parecia um evento distante, agora pairava sobre ele como uma sentença de morte. A ideia de comparecer sozinho, de chegar lá sem o homem que, em tão pouco tempo, aprendeu todos os pequenos detalhes sobre ele, parecia insuportável e errado. A frustração o levava, quase todas as noites, a tentar o impossível. Jake ligava para o número da agência, mas era recebido por uma voz robótica e cordial que, após confirmar que o contrato havia sido rescindido e a multa paga, negava qualquer informação sobre o paradeiro de Heeseung. "Proteção de dados", diziam. "Sigilo profissional", repetiam. Para eles, Heeseung era apenas um funcionário que encerrou um ciclo. Para Jake, ele era tudo.
Tentar ligar para o número privado de Heeseung era um exercício de humilhação. A cada tentativa, a frustração subia pela garganta. Bloqueado.
Foi em uma dessas noites, enquanto o apartamento parecia maior e mais silencioso do que nunca, que Jake cometeu o erro de entrar no quarto que era de Heeseung pela primeira vez desde a partida. O ar ainda parecia ter o cheiro dele. Jake sentou-se na borda da cama, sentindo um nó na garganta que o impedia de gritar. Ele pegou o celular e, numa tentativa desesperada de conexão, começou a rolar o histórico de mensagens de texto, relendo cada conversa.
— Eu fui um idiota — ele sussurrou para o quarto vazio. — Eu te empurrei para longe porque tive medo de que você não fosse real, e agora você é apenas uma lembrança.
Jake percebeu que a sua maior punição não era a solidão, mas a clareza. Ele entendia agora que Heeseung não tinha o deixado por falta de sentimentos, mas por um excesso deles. O mais velho tinha desistido não porque não se importava, mas porque se importava tanto que seguir o protocolo se tornou uma tortura. E Jake, em sua teimosia, havia dado o empurrão final.
Ele encostou a cabeça no travesseiro, fechando os olhos com força, e uma lágrima quente escorreu pelo rosto. Ele precisava de uma saída. Aquele silêncio não era um adeus que ele aceitaria calado. Se a agência não iria ajudar, ele teria que ser mais esperto. Ele precisava encontrar o ponto onde a vida de Heeseung e a dele, ainda pudessem se encontrar.
Jake pegou o celular novamente, mas desta vez, não para ligar para Heeseung. Iria tentar algo diferente, e a pessoa mais próxima de Heeseung que ele conhecia e poderia ajudar era Sunoo.
O contato de Sunoo, que ele tinha conseguido com Riki, estava lá, uma linha direta com a pessoa que compartilhava os segredos, os ensaios e a vida real de Heeseung. Jake sabia que, se Sunoo quisesse, poderia ser a ponte entre ele e Heeseung. Mas, ao mesmo tempo, sentia um frio na espinha: o que ele diria? Com as mãos trêmulas, Jake digitou uma mensagem direta e sem rodeios. Ele não tinha mais espaço para orgulho ou joguinhos.
"Sunoo, eu sei que você não tem obrigação nenhuma de me responder, e sei o quanto eu estraguei as coisas para o Heeseung. Mas, por favor, eu preciso de uma chance para falar com ele. Só me dá uma chance de consertar o que eu quebrei. Você pode me dizer onde ele está?"
Ele enviou a mensagem e o celular pareceu se tornar um peso de chumbo em sua mão. Cada segundo de espera era uma tortura silenciosa. Jake ficou ali, encarando a tela, esperando que o pequeno ícone de "visualizado" aparecesse. Pela primeira vez em dias, ele não estava fugindo, ele estava em busca de uma resposta, e estava disposto a enfrentar qualquer consequência para ouvir a voz de Heeseung uma última vez, ou, com sorte, para começar tudo de novo, do jeito certo. A mensagem de Sunoo chegou pouco tempo depois, curta e direta, mas carregada de uma esperança que Jake quase tinha esquecido como sentir.
"Eu vou tentar falar com ele, Jake. Não prometo nada, ele está muito magoado, mas vou ver o que posso fazer. Te aviso assim que tiver notícias."
A madrugada passou arrastada, como se o tempo soubesse da importância do que estava por vir. Jake mal pregou os olhos. O relógio na parede parecia mais alto a cada tique-taque que o aproximava da manhã seguinte, o dia anterior ao casamento de Jay e Jungwon. A manhã de sexta-feira chegou com uma claridade invasiva, forçando Jake a se levantar. Jake precisava sair. Precisava se mexer, nem que fosse para cumprir a última tarefa pendente daquele “acordo" que já não existia mais. Ele se arrumou sem vontade, se sentindo um fantasma dentro do próprio apartamento. A tarefa era simples e dolorosa, ir até a loja de aluguel de roupas formais para buscar os ternos. Eles tinham alugado o par semanas atrás, quando o plano de "namoro" ainda parecia uma estratégia infalível. Ao entrar na loja, o atendente o reconheceu imediatamente, dando aquele sorriso padrão de quem lida com eventos felizes.
— Ah, senhor Sim! Vieram buscar os ternos para o casamento de amanhã? Estão impecáveis.
Jake sentiu o peito apertar.
— Só o meu, por favor — ele murmurou, a voz falhando ligeiramente.
Enquanto esperava o funcionário trazer as peças, Jake ficou encarando o espelho da loja. Ele se viu ali, sozinho, se lembrando da última vez que foi ali, de como Heeseung ficava naquela mesma luz, experimentando o terno, ajustando a gravata com um habilidade rotineira. Heeseung, que agora era uma silhueta distante, bloqueada em seu celular e em sua vida. O funcionário voltou com as capas protetoras pretas. Jake pegou o terno com delicadeza, aquele era um lembrete físico de que o casamento aconteceria, com ou sem o seu final feliz. Ao sair da loja, o celular no seu bolso vibrou, um som seco que o fez pular. Ele quase deixou o terno cair na calçada quando viu o nome de Heeseung na tela.
Na mensagem não dizia nada mais que: Nos vemos no casamento.
O dia anterior ao casamento de Jay e Jungwon foi um borrão de ansiedade para Jake. Ele passou horas trancado em seu quarto, ensaiando cada palavra, cada tom de voz e cada pausa, como se estivesse decorando um roteiro de peça. Ele precisava ser claro, vulnerável e, acima de tudo, convincente. A música da cerimônia começou a preencher o espaço, um som melódico que deveria trazer paz, mas que para Jake apenas preenchia o vazio ao seu redor. Ele estava parado ali, uma ilha de solidão no meio do mar de convidados felizes, sentindo o peito se apertar a cada pessoa que passava. Seus pais, com aqueles sorrisos que sempre pareciam conter uma crítica oculta, não perderam a chance e despejaram sobre ele um discurso ensaiado sobre o sucesso de Jay e a urgência de Jake encontrar seu próprio par ideal. O peso daquelas palavras era palpável, como se a solteirice de Jake fosse uma falha de caráter que ele precisava corrigir com urgência. Ele já estava desistindo de procurar por Heeseung no meio da multidão quando o sentiu. Ele estava impecável, o terno alugado caía perfeitamente em seus ombros, a postura de quem nasceu para ocupar aquele espaço. No entanto, quando Jake encontrou seu olhar, havia apenas uma sombra de cansaço tão profunda em seus olhos que a dor de Jake se transformou em angústia. Aquela exaustão nele doía mais do que qualquer rejeição que já tivesse enfrentado. Eles não trocaram uma única palavra durante todo o rito.
Após a cerimônia, enquanto os convidados se dirigiam ao salão de festas para a recepção, Jake viu a brecha, Heeseung estava parado perto de uma coluna, apenas observando o movimento, como se planejasse fugir na primeira oportunidade que surgisse.
— Você não vai fugir hoje, Heeseung — Jake disse, a voz firme, embora as mãos tremessem.
Heeseung tentou recuar — Jake, eu não acho que seja uma boa ideia.
— Eu não me importo com o que você acha que é uma boa ideia — Jake o interrompeu, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Heeseung. — Eu me importo com o fato de que você me deixou, e eu estou perdidamente, idiotamente apaixonado por você. Aquilo foi real, nossa dor foi real. Isso aqui é real. Para de fingir que foi por conta do contrato, porque para mim, nunca foi. Você foi a única coisa real que aconteceu comigo em anos.
A muralha de Heeseung caiu. Ele olhou para Jake, e a fachada deu lugar a um brilho úmido e desesperado nos olhos. Ali, em meio ao barulho da festa, eles se encontraram novamente. O abraço foi imediato, o pedido de desculpas mútuo aconteceu em sussurros, e naquele momento, o serviço de acompanhante morreu para que algo muito mais cru e genuíno pudesse nascer.
Mais tarde, já um pouco mais calmos, escondidos em um canto mais tranquilo do jardim, Jake tomou a palavra novamente, com uma ideia que ele tinha em mente durante toda a noite anterior.
— Heeseung — Jake começou, a voz oscilando entre o medo e a esperança, um pequeno bico involuntário se formando em seus lábios enquanto ele admitia a própria insegurança. — A gente precisa fazer isso do jeito certo. Eu sei que é seu trabalho, mas eu não vou gostar de ter você indo dormir na casa de outros clientes. Na verdade, não vou nem gostar de você ter outros clientes. Que tal você largar seu trabalho e só viver comigo, hein?
Heeseung piscou, surpreso com o rumo da conversa, rindo enquanto inclinava o corpo para trás, uma risada que soou genuinamente leve pela primeira vez dias.
— Eu saí da agência logo depois de ter rescindido o contrato, Jaeyun — ele confessou, a voz caindo em um tom mais doce. — Não estou mais trabalhando com isso. Não depois de ter conhecido você. Minha vida ficou vazia e muito quieta desde que nos separamos, mas ainda estou procurando um rumo. Talvez aquela cafeteria com o Sunoo seja um começo.
Jake balançou a cabeça negativamente, a determinação já tomando conta de seus traços. Ele não queria apenas que Heeseung estivesse perto, ele queria que Heeseung estivesse em seu futuro, em sua rotina.
— Você pode tentar a bolsa de monitor do curso na faculdade, pede transferência para a SNU — Jake continuou, os olhos brilhando com uma esperança contagiosa. — Eles pagam muito bem, e pelo que dizem, o valor é alto o suficiente para te manter até o final do curso. Como o Jungwon é da associação estudantil, ele pode te indicar. Ainda vai passar por uma entrevista, claro, mas você tem capacidade de sobra. A indicação só vai te dar os pontos positivos que você precisa para garantir a vaga.
Heeseung ficou em silêncio, processando a proposta. Ele olhou para as mãos entrelaçadas, sentindo o calor passar de um para o outro, sentindo como se tudo estivesse se alinhando novamente.
— Você está realmente me pedindo para virar monitor? — Heeseung perguntou, com um meio sorriso divertido, enquanto seus polegares acariciavam o dorso das mãos de Jake.
— Estou te pedindo para ficar por perto de um jeito que a gente não precise de desculpas — Jake respondeu, a voz baixando para um sussurro cúmplice. — Sem contratos e sem gente estranha no meio. Só você e eu, dessa vez.
Heeseung sentiu uma onda de gratidão tão intensa que quase o fez perder o fôlego. Ele sabia que Jake estava lhe oferecendo muito mais do que uma oportunidade acadêmica, estava lhe oferecendo uma vida nova, longe de tudo o que ele tinha sido obrigado a fingir ser.
— Se isso der certo e eu passar nessa entrevista…— Heeseung começou, atraindo Jake para mais perto, até que a distância entre eles fosse quase nula — a única coisa que eu vou querer monitorar é o tempo que eu vou deixar você ficar longe de mim durante os intervalos.
Jake riu, se aconchegando ainda mais em Heeseung, — Acho que podemos fazer um acordo sobre isso.
Eles ficaram ali no jardim por um bom tempo, sem dizer nada. O barulho da festa parecia distante, quase irrelevante, enquanto o frio da noite mantinha os dois próximos, como se o calor de um fosse a única coisa que importava naquele momento. Heeseung soltou um suspiro, os ombros finalmente cedendo, a tensão se dissipando. Jake olhou para a porta do salão, onde a silhueta de alguns amigos podia ser vista através das janelas de vidro. Ele se afastou apenas um pouco, observando Heeseung, e deu um toque no braço dele para chamar sua atenção.
— A gente não pode ficar aqui escondido a noite toda — Jake disse, divertido — Meus amigos estão lá dentro. Vamos lá pra eu poder te apresentar de forma apropriada dessa vez.
Heeseung deu de ombros, um gesto de quem finalmente não precisava mais ter uma resposta pronta na ponta da língua.
— Acho que eu consigo passar por isso, de novo — ele respondeu, entrando na brincadeira.
Eles caminharam de volta para o barulho da festa, de mãos dadas, prontos para encarar o resto da noite sem precisar fingir que eram qualquer outra coisa além do que tinham acabado de descobrir que eram. No fim, uma comédia romântica não é uma comédia romântica sem um pouquinho de drama no final.
