Work Text:
Eduarda sempre teve medo de se entregar demais. Desde quando se permitiu conhecer alguém, sempre saiu machucada e com o coração partido. Sempre pensou que aquela vez seria diferente.
Já estava cansada em sempre passar pelo mesmo. Nunca teve um namoro sério, nunca chegou nessa parte. Ao passar dos anos, ela foi se acostumando em receber "migalhas" de afeto. Nunca algo verdadeiro e sincero. Os muros que precisou criar durante esses anos não foram por acaso.
Bom, isso até conhecer aquela morena dos olhos verdes, com um sorriso capaz de iluminar o universo inteiro. Quando aceitou aquele jantar, nunca pensou que iria conhecer o amor de sua vida: Lorena Ferette.
Lorena não chegou tentando derrubar os muros de Eduarda. Chegou como quem reconhece que aqueles muros escondem algo precioso e que merece cuidado.
No começo, Eduarda achou que era só mais uma noite. Conversa boa, taça de vinho, despedida educada. Mas Lorena não sabia brincar de migalhas. Perguntava coisas de verdade, lembrava de detalhes bobos que Eduarda soltava sem querer, e tratava o silêncio como parte da conversa, não como vazio. Quando Eduarda recuou, Lorena não forçou; quando avançou, Eduarda sentiu o chão tremer.
Ela aprendeu o ritmo de Eduarda sem pressa. Quando ficar em silêncio era abrigo e quando era só medo fantasiado de prudência. Não queria ser a heroína de um resgate, queria ser vizinha de muro, passar café por cima, contar piada ruim até Eduarda responder com aquela pequena risada que, com o tempo, foi crescendo.
Num domingo esperado, com chuva fina batendo na janela, Eduarda pegou-se falando de rolos antigos. Nomes, dados, promessas que murcharam. Lorena escolheu sem aquela ar de soluções e, quando Eduarda calou, disse o que aprendeu a dizer:
- Eu não vim consertar sua história, Duda. Vim entrar nela. Se você quiser, a gente escreve o próximo capítulo devagar.
Eduarda mordeu o lábio, desconfiada, porque confiar ainda parecia um salto no escuro. Mas Lorena não pediu salto, ela ofereceu a mão na altura do agora.
Foi assim que aquela armadura começou a quebrar. Em vez de escalar o muro, elas abriram uma portinha. Tinha dia de trancar por dentro, tinha dia de deixar aberto só um palmo. E o que Lorena encontrou do outro lado a deixou encantada. A forma cuidadosa de amar de Eduarda, a lealdade que nasceu, apesar dos receios e inseguranças. Eduarda percebeu que não precisava demolir nada pra ser amada, bastava permitir que vissem o jardim que ela mesma regava às escondidas. E Lorena via.
Viu tanto que, num fim de tarde em que Eduarda travou de medo outra vez, só repetiu a frase que já virou casa:
- Tô aqui, meu bem. Sem pressa, sem cobrança. Você não precisa virar outra pra caber em mim. Nós vamos no seu ritmo. Eu te vejo.
Nessa hora, pela primeira vez em anos, Eduarda imaginou futuro sem ensaio de abandono. Não como promessa gravada em pedra, mas como escolha renovada em voz baixa.
Com o tempo, Eduarda aprendeu a reconhecer as portas internas que abria sem perceber. Deixar Lorena escolher o filme ruim, pedir colo depois de um dia banal, dizer “isso me assustou” em vez de sumir. Lorena não tratava essas aberturas como vitória, tratava como confiança, coisa que se manuseia com jeito, não como troféu. E quando Eduarda errava o passo, recuava ou falava demais, Lorena só repetia, em outras palavras, a mesma frase:
- Eu te vejo, meu amor. Estou aqui. Não precisa ter medo de se deixar sentir.
O tempo fez o que faz. Empilhou manhãs iguais e insubstituíveis. Café coado sem pressa, roupa de academia esquecida no banco de trás, trilha do filme ruim cantarolada fora do tom. Eduarda seguia abrindo portinhas sem cartaz de apresentação — pedir colo, assumir medo, escolher Lorena mesmo quando o corpo antigo sussurrava pra correr. E Lorena seguia doando presença como quem oferece água: sem enredo, sem moral, só sede e copo.
Num fim de tarde qualquer, Eduarda pegou-se rindo alto na varanda ao lado de Lorena. Cabelo armado, frase solta pela metade, e pensou — quase sem pensar — que aquilo era futuro. Não o projeto com data marcada, mas o dia a dia.
- Obrigada por ter ficado, Lô. Obrigada por não ter ido embora nos momentos difíceis. Você é o meu sol, Lorena. Minha bússola, meu lar, meu coração. Só teu afeto me segura. Eu te amo demais, morena.
Lorena encostou a testa na de Eduarda e suspirou aquele meio sorriso.
- Você também é meu lar, Duda. Meu lembrete de que dá pra ficar, que o amor não é prova de fogo — é café na mesa, roupa largada, portinha aberta mesmo no dia atravessado. A voz saiu baixa, sem plateia, como tudo delas.
A varanda segurou o instante. O cabelo armado, frase solta, riso ainda no ar. E o futuro sendo só isso — repetido e insubstituível — feito planta que cresce porque alguém lembra de olhar todo dia.
Promessa renovada em voz baixa, portinha aberta, duas mulheres aprendendo que amor não pede demolição; pede mesa posta, paciência e o jeitinho de tratar confiança como quem trata planta: olhando, regando, deixando fazer raiz.
É tão particular o meu encontro quando é com você
O meu sorriso quando tem o teu pra acompanhar
As minhas histórias quando você para pra escutar
A minha vida quando tenho alguém pra chamar
De vida
- Singular. (Anavitoria)
